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terça-feira, 19 de maio de 2026

RECONHECER, RESPEITAR E RESPONSABILIZAR-SE - Prof. Renato Dias Martino

 

Cinco conceitos presentes no desenvolvimento emocional afetivo. Desenvolvimento, maturação, ou ainda a possibilidade de reparação do funcionamento emocional-afetivo. Lembrar que eu falo funcionamento emocional-afetivo? Porque, quando a gente fala emocional a gente está falando daquela experiência de algo que está dentro e vai para fora. “Moção” quer dizer movimento e “E” quer dizer para fora. E afetivo é aquilo que implica a relação com o outro. AFACERE. “A” em direção a e “FACERE” é fazer. Fazer alguma coisa em direção a. Então, temos aí, uma emoção que encontra um afeto. Quando a gente está falando de desenvolvimento, maturação emocional-afetiva, ou ainda, reparação emocional-afetiva quando a gente está falando desse tipo de experiência, nessa ordem de experiência, eu preciso impreterivelmente do outro. Não existe a possibilidade de desenvolvimento, de maturação, ou de reparação no funcionamento emocional-afetivo, que não tenha a implicação do outro. Ou seja, o estabelecimento do vínculo. Então, todas as vezes que a gente estiver falando de formulações psicanalíticas, nós temos implicado aquilo que lá em 1963, Bion sugeriu como primeiro elemento de psicanálise. Lá em ELEMENTOS DE PSICANÁLISE. Qual é o primeiro elemento de psicanálise para o Bion? É a relação entre continente e contido. É muito simples isso: algo passa a ser contido e algo que passa a conter. Então, precisa haver isso que aqui nós chamamos de acolhimento. Algo que está propício a acolher e algo que está disposto a ser acolhido. Quando a gente tem esse encontro, passa a ser possível a expansão, a maturação desenvolvimento, ou ainda, a reparação, a restauração, a entrada do outro é preponderante no funcionamento emocional-afetivo. Tanto para as experiências bem-sucedidas, quanto mal sucedidas é o outro que traz a possibilidade do desenvolvimento. É o outro que traz a possibilidade da reparação, mas também é o outro que vem para estragar tudo. Quando eu não cuido morre, quando eu cuido mal cuidado, volta-se contra mim, agora, quando eu cuido bem, cuidado com o amor, com dedicação, com sinceridade, aí vira minha esperança. Então, nós temos aqui uma analogia muito interessante, que é da semente e do solo fértil. Então, todos os elementos que nós vamos ver aqui; um por um, carecem de um olhar dentro dessa analogia da germinação. Da possibilidade de uma semente germinar. Então, nós não vamos estar falando aqui, em nenhum momento, do “deveria ser assim”, tem que ser assim, mas nós vamos olhar para isso, reconhecer isso, como se reconhece uma planta que vai germinando. Ninguém está olhando você precisa fazer isso, tem que fazer assim. Você não tem que, você olha para semente, você não fala para ela: “agora você tem que fazer isso”. Se ela encontrar um solo fértil, vai acontecer, se ela não encontrar, não vai acontecer e o desenvolvimento emocional é assim também. Não tem que ser, vai ser, se houver todo o ambiente saudável e próspero, profícuo o bastante para que isso possa acontecer. Então, alguns elementos que vão se suceder, dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, sendo que não existe a possibilidade de sobreposição de um elemento ao outro. Existe um processo que respeita um fluxo e ao mesmo tempo não existe retrocesso. Pode haver sim, uma obstrução. Eu diria até que, na maioria das vezes há uma obstrução, mas retrocesso não. Não existe retrocesso dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, por isso que eu sou categórico em dizer que a palavra “regressão”, “regredir”, é completamente inadequada dentro das formulações psicanalíticas. Não existe regressão. Existe fixação, por conta de uma obstrução, mas não regressão. “P 3R T” O primeiro é o “P” – PERCEPÇÃO. Perceber algo no funcionamento emocional afetivo. Este é o ponto de partida o sujeito percebe algo e este algo que ele percebe é impreterivelmente um desconforto. Todo o crescimento, toda experiência, todo e qualquer movimento do aparelho emocional-afetivo, parte de um desconforto. Não existe qualquer experiência emocional-afetiva que não tenha partido do meu desconforto. O Freud chamava isso de libido, pulsão. A libido, quando se movimenta, ela tem a tendência de pulsão e isso é sentido pelo corpo como um desconforto. Antes do Freud, o Schopenhauer já chamava isso aí de vontade, vontade de viver. A vontade de viver é um desconforto. Antes do Schopenhauer, Kant já chamava isso aí de “coisa em si”. A “coisa em si” é desconfortável, incognoscível, eu não posso conhecer isso, eu só sinto como um desconforto. Esse desconforto pode ser sentido como uma insegurança, como um medo, tristeza... Esses desconfortos vão se desdobrar em raiva, hostilidade, inveja e um monte de coisa que a gente vai chamar de indesejável. Por isso, a percepção tem um perigo de obstrução, porque o sujeito sente isso e ele quer acabar com isso. Você sente uma coisa ruim, você quer acabar com aquilo, ali você quer controlar aquilo, você quer cessar aquilo e este é o grande problema. Porque aí, você aborta o processo. Aí você obstruir processo. Muitas vezes, o sujeito percebe alguma coisa, percebe um desconforto no funcionamento-emocional dele e ele corre direto para o psiquiatra, para que ele possa ser medicado, para ele parar de sentir aquilo. Mas é aquilo ali que vai fazer com que ele se desenvolva emocionalmente. O sujeito perde alguma coisa e ao invés dele passar pelo processo do luto, ele sente entretecimento por conta da perda e ele já vai se medica e acabou. Agora, não é só o medicamento. O medicamento, talvez seja a mais complicada de todas, a mais difícil, porque, quem te dá esse medicamento é um doutor. E aí, não tem como discutir com o doutor, né? E obstrui esse processo, abortar o processo, logo de início de percepção. Um outro, de outras formas, você pode com uso de algo drogas, abusos de compras, compulsão de compras, compulsão alimentar, tem um monte de jeitos do sujeito desviar obstruir o processo de desenvolvimento emocional dele no comecinho que é a percepção da dor. Principalmente se ele estiver sozinho, principalmente se ele não puder contar com o primeiro elemento de psicanálise, que é continente<>contido. Principalmente se ele não puder ser acolhido pelo outro, principalmente se essa sementinha não encontrar um solo fértil para germinar. Aí vai abortar... Mas não abortando e conseguindo tolerar o desconforto da percepção, ele passa para a próxima fase do processo, que é o RECONHECIMENTO, que é o primeiro “R” dos 3 erres. “P 3R T” Quando o sujeito admite realmente que ele sente aquilo e que aquilo ali está nele. Eu reconheço isso, eu não só sinto isso, eu não só percebo isso, mas eu reconheço que isso está ali, eu reconheço isso e reconheço que isso está em mim. Porque eu posso pensar que está no outro, eu posso projetar isso no outro. Não, mas eu admito a existência disso e admito que isso está em mim. Aí, também pode ser obstruir, se ele estiver no reconhecimento, ele não pode retroceder. Mas reconheceu não tem como voltar, não tem como deixar de perceber, porque ele já reconheceu. Agora, ele pode obstruir aí, ao invés de reconhecer ele passa a tentar saber sobre isso. Não reconhecer, mas conhecer isso, entender o que é isso, compreender o que é isso, que não está na ordem do cognoscível. Não, você não pode saber o que é isso, se você der um nome para isso, ali naquele momento você aborta o processo. Você precisa tolerar a dúvida, reconhecer isso tolerando a dúvida. Reconhecer não é conhecer, é admitir a existência. Procura o diagnóstico por exemplo, E aí, ele vai no psiquiatra, o psiquiatra vai dar um nome para aquilo. Porque ele tentou cessar aquilo, ele tentou parar aquilo, ele tentou controlar aquilo, que na realidade é o fluxo do desenvolvimento emocional dele. Dolorido, desconfortável. Muitas vezes, é nesse momento que o paciente interrompe a psicoterapia, porque ele reconhece que aquele desconforto está nele, não está no outro e que é da competência dele tratar aquilo. Reconhecendo isso e essa palavra “reconhecer”, ela é sugestiva, né? É polissêmica, né? Ela tem vários sentidos, um deles é “conhecer novamente”. Cada encontro que eu tenho com isso é como se eu não conhecesse. Então. eu conheço novamente cada vez que eu sinto isso. Eu sinto de uma forma diferente e é por isso que o Bion nos orienta: sem memória. O analista precisa não estar se baseando, se apoiando nos conteúdos armazenados na memória sobre o paciente, sobre qualquer coisa, porque cada vez que o paciente chega, é uma pessoa nova que tá ali. Ele tem a chance de ser uma pessoa nova e isso passa a ser um modelo para o sujeito tratar a si mesmo, cada vez que ele entra em contato consigo mesmo ele precisa entrar em contato com alguém novo. O vínculo é um vínculo novo. Então, reconhecer. Mas essa palavra ela é muito mais do que conhecer novamente, ela também é ser grato. Ser grato por ter percebido um desconforto. Consegue? Porque, muitas vezes a gente sente um desconforto a gente quer evitar. Aquilo é ruim. Mas como é que eu posso ser grato por algo que é confortável. Pois é! Porque isso daí é a chave da minha libertação, que se eu for capaz de tolerar isso, isso daí vai crescer, vai me tornar uma pessoa melhor. Reconhecer também é ser grato. Bom, se foi possível reconhecimento e não fiquei obstruído no meio do caminho, passamos para a próxima etapa: aprender a RESPEITAR. Eu PERCEBI, admitia a existência, RECONHECI e agora, eu passo a RESPEITAR isso que eu reconheci. Agora, eu posso ficar na etapa anterior, não posso? Reconhecer alguma coisa não garante que eu seja capaz de respeitar isso que eu reconheci. Foi o que a gente falou: o paciente pode obstruir o processo aí. Ele reconheceu, mas não deu conta de respeitar aquilo. Se ele conseguir encontrar a possibilidade de estabelecer a relação continente<>contido, como nos orientou o Bion, passa a ser possível expandir para aprender a respeitar isto que foi reconhecido. Vamos usar o exemplo do medo. Percebi um medo, reconheci esse medo e agora eu passo a respeitar este medo. Ao reconhecer este elemento, ele já não é mais um intruso na minha mente, ele foi reconhecido, ele já não é mais um elemento estranho. Eu já percebo aquilo ali como um integrante do meu processo psíquico, meu processo emocional-afetivo. Não é estranho, mas é meu e se é meu eu preciso aprender a respeitar esta limitação. Se foi possível chegar até aí, é porque a gente teve ali um vínculo bem sucedido. Tivemos aí, uma experiência de acolhimento. Porque, só a experiência de acolhimento pode levar o sujeito a chegar a respeitar isso que ele admitiu a existência e que ele percebeu. Um medo, vamos voltar no medo. Quando ele percebe o medo, reconhece esse medo e passa a respeitar este medo, este medo que um dia foi uma obstrução das experiências dele, das atitudes dele, que estavam sempre povoadas de medo, sempre inundadas de medo, se chegar até o respeito, este medo passa a ser um integrante da prudência. Já não é o medo paralisador, é um medo que traz para ele prudência, autopreservação. Mas ele precisa ter aprendido a tolerar a ponto de respeitar. Aí, já não é obstrutor, protege e faz com que ele consiga viver as experiências dele de uma maneira muito mais saudável. Nem paralisado e nem é inconsequente. Se eu conseguir aprender a respeitar, eu passo para a próxima fase, que é aprender a me RESPONSABILIZAR por isso. Responder por isso. Isso é meu, faz parte de mim e eu me responsabilizo por isso. E não só me responsabilizo por isso, mas eu me responsabilizo por todas as consequências disso na minha vida. Todo esse processo é impossível, é inaplicável sem o vínculo afetivo com o outro, sem que outro possa me ajudar a fazer isso não dá para fazer isso sozinho. Não se faz isso sozinho, é impossível. Por mais que você tenha comprado vinte, trinta livros de autoajuda, que dizem para você que dá para fazer sozinho, não, dá! Quando eu passo a me responsabilizar, abre-se a possibilidade de TRANSFORMAÇÃO. Agora, todo esse processo é vivido com uma incerteza enorme. Cada etapa não tem certeza nenhuma. Não existe certeza nesse processo e a transformação é uma grande insegurança. Porque quando a gente fala que de transformação, essa palavra parece ser muito bonita, mas a transformação quer dizer que você está saindo de uma forma e transformando para outra e você não sabe qual é esta outra. Quando você vê ali a lagarta virando borboleta é muito lindo, né? Você já sabe que a lagarta vai virar borboleta. Mas quando é você que é a lagarta, você não tem qualquer noção de que borboleta que você vai virar. Você pode ser uma lagarta da beronha, né? Sei lá! Ué! Do Besouro Rola Bosta, né? Desculpa brincadeira, mas não é isso? Você não sabe o que que você vai se tornar. E se você vai ser capaz de ser responsabilizar por isso você vai se tornar.

 






Prof. Renato Dias Martino

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domingo, 29 de setembro de 2024

DESAPEGO E VONTADE - Prof. Renato Dias Martino


DESAPEGO


Toda a configuração da prática do desapego, e quando eu falo prática do desapego aqui, nós estamos falando diretamente do intuito da própria psicanálise, porque a psicanálise propõe essa ideia de se desapegar. São inúmeras formas de se dizer isso, uma delas por exemplo está proposta lá em 1917 no LUTO E MELANCOLIA, que é ser capaz de viver o processo do luto e aqui nós estamos chamando de desapego. Então, a proposta do desapego coincide com a proposta psicanalítica. Esta proposta tem um desafio que é a vontade. A vontade que, na medida em que não é satisfeita no seu tempo, na medida que não é cumprida, suprida no seu tempo adequado, vai se desdobrar em desejo. Um sujeito que está saudável, que está funcionando de maneira saudável é aquele que é capaz de se desapegar, é aquele que é capaz de renunciar dos seus desejos e capaz de adiar suas vontades. Isso se configura num fluxo do desenvolvimento emocional e afetivo.


VONTADE


Quando a gente fala de vontade, a gente está falando daquilo que ao mesmo tempo que é a manifestação da vida, também é aquilo que pode obstruir o próprio fluxo da vida. Muitas vezes, a manifestação da vontade atenta contra a própria vida do sujeito. Ele, muitas vezes, está com tanta vontade que ele, por si só, pode se colocar em uma cilada. Um Bom exemplo disso é quando a molecadinha, lá no sítio, arma uma arapuca para pegar passarinho. A arapuca está cheia de milho para que o passarinho possa se alimentar e é justamente a vontade de viver que leva o passarinho buscar o milho. E esta vontade de viver faz com que ele caia na arapuca. Então, a vontade de viver é também aquilo que leva sujeito, muitas vezes, para a própria morte.


DESEJO


Essa ideia do desejo, ela é extremamente polêmica, principalmente dentro de outras escolas aí, por exemplo, dentro da escola lacaniana. Vou ser bem sincero, tenho um conhecimento extremamente limitado das propostas do Lacan, mas me parece que ele trata, os lacanianos tratam da ideia de desejo diferente da forma como nós tratamos aqui. Nós tratamos aqui o desejo como algo que não é necessário, mas que ainda assim, o sujeito quer. Então, quanto mais o sujeito for capaz de se desapegar, renunciar desse desejo, mais ele vai estar de acordo com a realidade, que está configurada naquilo que é necessário.

NECESSÁRIO


A vontade é genuinamente do sujeito. O sujeito tem vontade de alguma coisa e isso diz respeito à sua necessidade básica. O desejo diz respeito à interferência, ou a contaminação do que o outro quer. Então, vontade é básica, a vontade se manifesta através do corpo, por conta de necessidades básicas. E aí, o Schopenhauer nos orienta muito bem, lá no MUNDO COMO VONTADE DE REPRESENTAÇÃO. O desejo já é algo que se elegeu um objeto substitutivo para tentar suprir algo que não foi adequadamente suprido no nível da vontade.


REPRIMIDO


Existe um instinto e o instinto está ali, assim como o Freud nos orientou, está ali na barreira entre o somático e o psíquico, entre o somático e o psíquico, entre a carne e a mente. De início é uma manifestação orgânica que nós vamos chamar de instinto. Então, o instinto está ali naquela barreira, o instinto se manifesta pelo corpo, mas já não é mais do corpo. O corpo é o soma, o corpo são manifestações orgânicas. O instinto já transcende o orgânico. Primeiro o instinto. O instinto está ali, na barreira do somático e do psíquico. Este instinto vai se manifestar através da pulsão. A pulsão é algo que acontece por conta da demanda instintiva, ou instintual, melhor dizendo. Esta pulsão vai gerar o que a gente vai chamar de impulso. Então, o impulso é a ação da pulsão. Este impulso vai ser a ação em direção a um possível objeto que possa vir suprir a demanda do instinto. Quando essa satisfação não acontece o impulso retorna. E aí, a gente vai chamar de reprimido. Por quê? Porque não houve a satisfação, não houve o suprimento da demanda do instinto. Retorna este impulso. E aí, a gente vai chamar de impulso reprimido. Este impulso reprimido agora não vai mais se satisfazer com o objeto original, ele vai eleger um outro objeto para satisfazê-lo. Este outro objeto é um objeto de desejo, não mais um objeto de vontade, que seria a demanda do instinto.


NASCE UM DESEJO


Para que se desenvolva o desejo é necessário ter havido a repressão. Reprimiu-se a vontade e agora a vontade já não se satisfaz mais com o objeto original, mas agora, precisa de algo a mais, para ser supostamente satisfeito. Porque não vai ser satisfeito. Desejo nunca se satisfaz, o que se satisfaz é a vontade. O sujeito que deseja, ele quer sempre mais. A vontade se satisfaz até que haja novamente a sua demanda.


AMBIENTE 


Quando o Winnicott propõe a mãe ambiente, ele está propondo a mãe, não como outro, mas como o ambiente. Ela vai dar conta da demanda das necessidades. Ela vai dar conta da demanda da vontade e se ela der conta disso, tanto menor vai ser a geração de desejos. Quando ela não é capaz de suprir essas necessidades, quando ela não está sendo suficientemente boa, ele começa a desenvolver desejos, porque a vontade não foi satisfeita. Então ele começa a vincular aquela vontade à relação com o outro que já não é mais ambiente, mas é realmente um outro. Então ele precisa fazer alguma coisa para que esse outro venha suprir isso. E aí, já não é mais vontade é desejo.


PULSÃO DE VIDA 


Quando Freud propõe pulsão de vida, ele está ali, se baseando na ideia de vontade do Schopenhauer, falando sobre a manifestação do instinto, daquilo que é mais primitivo no ser humano. Então, não tem a ver com desejo. Quando isso não é satisfeito, começa a se desenvolver o desejo que já não é mais básico, mas que já tem uma contaminação de algo a mais do que a satisfação da necessidade básica.


VORACIDADE


A voracidade é uma expressão do desejo. Quando a criança começa desenvolver voracidade é porque ela não foi satisfeita, ou não foi suprida no tempo adequado, aí ela começa a ter vontade para além da conta. E aí, se torna desejo. O Winnicott vai falar assim, que a criança alucina o seio e a mãe encaixa o seio real na alucinação do bebê. Quando essa alucinação que o bebê tem do seio não é suprida no seu tempo, esta alucinação cresce. A vontade não foi satisfeita e começa a crescer, então aquela vontade que gerou uma alucinação x, agora é x elevada a tanto. Aquele seio que vai se encaixar nessa alucinação já não vai mais suprir, porque essa alucinação já virou um desejo.


SUJEITO DESEJANTE


Então a gente vai partir da ideia do objeto. O que é um objeto? Ser um objeto é ser alguma coisa que alguém deseja. Objeto é algo que é desejado. O bebê precisa ser um objeto desejado. Ele precisa ser alguma coisa que o outro deseja. Um objeto precisa ser desejado para que ele possa se mover. Um vaso é um objeto. Se alguém não desejar esse vaso, ele vai ficar esquecido lá. Então, eu preciso desejar o vaso para que o vaso saia do lugar. Eu desejo o vaso, eu pego o vaso e levo pra minha casa. Quando o sujeito vai se desenvolvendo emocionalmente, ele deixa o lugar de objeto desejado para sujeito desejante ele passa a desejar. A maioria das escolas psicanalíticas acabam a história aí. O sujeito é um sujeito desejante, está ótimo! Não! Não está ótimo. Agora ele precisa se qualificar para ser capaz de renunciar do seu desejo. Aí sim, ele está aberto. Aí sim, ele desobstrui o caminho do acordo com a realidade. Porque a realidade existe independente do seu desejo e se você continuar sendo um sujeito desejante, você não vai conseguir entrar num acordo com a realidade, que existe independente do seu desejo.


RENÚNCIA


No senso comum a gente vincula a ideia de liberdade à possibilidade de satisfazer os desejos, mas na realidade, a verdadeira liberdade é ser capaz de renunciar dos desejos, de não satisfazer os desejos. Ser capaz de tolerar que o seu desejo não vai ser satisfeito. Para quê? Para que você possa investir a sua libido na necessidade básica, na vontade, naquilo que realmente vai te trazer enriquecimento para o fluxo da sua vida. Então, a liberdade não está em satisfazer desejos, mas está em ser capaz de investir naquilo que é necessário.


ESCOLHA


Se a gente estiver falando de vontade, não tem escolha, o caminho é um só. Você pode até adiar, mas não tem como escolher você não tem como escolher se alimentar ou não, mas você pode adiar a alimentação. O desejo tem escolha. Você pode escolher ou não. Eu posso escolher por exemplo até não suprir a minha vontade e tentar realizar o meu desejo. Vou ter um prejuízo com isso, mas o livre arbítrio está ali. Para que eu possa, talvez reconhecer que, quando eu estou satisfazendo o meu desejo, eu tenho prejuízo da minha necessidade básica. E aí, eu aprendo com a experiência e percebo que o caminho é um só não são dois.


QUERER


A semântica da palavra vontade, ela diz respeito a querer. Querer está ligado tanto à vontade, quanto ao desejo. Quem deseja quer alguma coisa e quem tem vontade também quer alguma coisa. Querer é a base, mas esse querer é de desejar ou de ter vontade. Se for de ter vontade é necessidade básica, se for de desejar é alguma coisa que não é necessário.


TOLERAR


A vontade, ou o desejo geram ansiedade. Ansiedade é ânsia, busca. Quando eu sou frustrado nisso que eu fui buscar, eu sinto angústia. Angústia diz respeito à frustração. Quando eu estou falando de adiamento da vontade, ou de renúncia do desejo, nós estamos falando de ser capaz de tolerar a frustração, de ser capaz de tolerar a angústia gerada por não conseguir aquilo que se buscava. Eu preciso me tornar capaz de renunciar, ou adiar. Renunciar se for desejo e adiar se for vontade. Se eu conseguir isso, eu vou conter essa ansiedade e aí, eu inclusive, posso até direcionar para alguma outra coisa mais adequada, ou suprir essa vontade num momento mais adequado.


TROFÉU 


O sujeito, quando está com sobrepeso, quando ele está mais gordo do que o saudável, isso quer dizer que está havendo uma obstrução na vontade de viver. Quando você está pleno na sua vontade de viver, o seu corpo está adequado ao fluxo da sua vida. Então, emagrecer dentro da vontade de viver é se adequar ao peso que vai te trazer a possibilidade do fluxo da sua vida. Agora, muitas vezes, o sujeito tem uma configuração mais fofinha, o sujeito tem uma configuração natural mais gordinha, por conta de inúmeros fatores hereditários, inúmero... isso não é, de maneira alguma, nocivo. Mas, o que acontece? Existe um padrão social de beleza e quando esse padrão fala mais alto, o sujeito começa a questionar a sua configuração corpórea para se adequar a este modelo. Aí já não tem a ver com vontade, aí tem a ver com desejo, aí tem a ver com o desejo de se adequar àquilo que é o desejo do outro. Então, eu preciso ser de uma forma ou de outra, para ser desejado pelo outro. Quando estou falando de uma adequação da saúde, nós estamos falando da vontade. E aí, você pode realmente adiar o emagrecimento, mas você não pode renunciar, porque senão você morre. Você vai engordando até morrer, até uma obesidade mórbida. Agora, quando você é fofinha, sempre foi desde menininha, a tua mãe é fofinha, todo mundo da tua família tem, mais ou menos esse estereótipo e você por algum motivo, por alguma experiência malsucedida, não conseguiu reconhecer a si mesmo e se contentar com o seu corpo e começa a estabelecer um ideal de corpo que a sociedade pregou, então, você está desejando ser de outra forma, então isso não é simplesmente adiar o emagrecimento, mas é renunciar a esse emagrecimento. Porque, por mais que você seja fofinha, você está saudável e muitas vezes, qualquer tipo de dieta, ou de exercício excessivo, vai fazer muito mais mal do que continuar sendo fofinha e linda como você é. Uma cilada! Porque, um sujeito que procura uma mulher com o corpo no padrão pré-estabelecido da sociedade, ele não está disposto a se aproximar de uma mulher para amá-la, mas ele quer um troféu para mostrar, para exibir a mulher. Quer se tornar bela para ser desejada pelo outro e o homem quer uma mulher bela para ser desejado pelo outro por ter essa mulher bela. Uma sociedade podre! Uma sociedade nociva, que só pega os desavisados, que só pega os estruturados, que só afeta o sujeito que não está sendo capaz de reconhecer a si mesmo, que não está de bem consigo mesmo.


TEORIA


Nós estamos aqui tentando refletir. Ninguém aqui está tentando colocar uma verdade acabada, ou saturada. Até porque, isso aqui é uma formulação nova, nós estamos formulando agora. Ah! Mas onde é que eu encontro isso, na literatura? Eu não sei! Sinto muito! Vou ficar devendo para vocês. Se não estiver fazendo sentido através da nossa reflexão, passa o vídeo, não precisa assistir. Não tem problema. Agora, se estiver fazendo o sentido, ótimo, vamos pensar juntos. É muito mais interessante que a gente possa, através das nossas experiências, refletir sobre o que a gente está chamando de instinto, sobre o que a gente tá chamando de pulsão, do que a gente tá chamando de desejo, ou de vontade, do que revisar literaturas. É muito importante que a gente possa reconhecer esse desencadeamento que vai do corpo até a alma. Não por uma especulação teórica, ou literária, mas por conta de algo que você reconhece no seu próprio funcionamento. Isso é muito mais importante do que qualquer leitura teórica, seja desde Kant, Schopenhauer, Platão, até Bion. ou qualquer outro contemporâneo.