Dentro
do âmbito emocional, o outro não existe. Tudo aquilo que se possa viver num
relacionamento com o outro é uma extensão daquilo que foi possível viver
consigo mesmo.
Nem mais, nem menos. A forma como o sujeito se relaciona consigo
mesmo transborda e se expande no vínculo que ele estabelece com o outro. Quando
alguém está de mal consigo mesmo, estará de mal com todos à sua volta. Aquele
que não aprendeu a respeitar a si mesmo, na melhor das hipóteses pode vir a ser
educado, mas não conseguirá respeitar o outro. O respeito que se consiga tem
com o outro é sempre uma extensão do respeito consigo mesmo.
O
sujeito não se importará com o que o outro julga sobre ele, até que isso
coincida com o que ele próprio já vinha se julgando. Só levará em consideração
aquilo que confirma a sua autoimagem. Isso não tem a ver com a sua realidade,
mas sim com o que ele imagina que seja. Quando o sujeito confia em si mesmo,
ele se torna capaz de se autoreconhecer e, se o outro falar o contrário, não se
importará e descartará o que o outro diz sobre ele. Contudo, se não estiver
confiando em si próprio, por mais que o outro reconheça suas virtudes, ele não
conseguirá considerar esse reconhecimento e permanecerá preso ao seu
autojulgamento.
A
possível concórdia que se possa ter com o outro depende do ambiente interno de
concórdia, da concórdia consigo mesmo. Se não se está em concórdia consigo
mesmo, não se concordará com ninguém. Logo, para o arrogante, discordar é um
prazer. “A discórdia, assim, não está relacionada com quem supostamente está
com a razão ou quem não a tem, mas com o objetivo de livrar-se da tensão gerada
pela discórdia interna. Portanto, é possível afirmar que o arrogante tem prazer
em discordar.” (Martino, 2018) Alivia-se o conflito interno quando se projeta a
discordância no discurso do outro. Ou ainda, por não concordar consigo mesmo e,
consequentemente, não se sentir confiável, o sujeito aceita passivamente o que
o outro propõe, sem sequer refletir.
Quando
Jesus Cristo propõe “ama o próximo como a ti mesmo”, parece-me que trata
justamente disso. Não há como amar o outro além ou aquém do que se consegue
amar a si próprio. O funcionamento afetivo saudável (amar o outro) é
desdobramento de um funcionamento emocional saudável, no qual o amor-próprio é
o fundamento. Esse é o alicerce da verdadeira ética e o que a diferencia de uma
mera regra moral. “A moral leva o sujeito a tratar o outro com educação, para
que o outro também o trate assim; já a ética é o ato de respeitar o outro,
assim como se respeita a si próprio.” (Martino, 2025) Portanto, o outro não
existe senão como extensão daquilo que conseguimos alcançar na relação que
mantemos conosco.
Toda a
dedicação que se possa ter com o outro parte do cuidado que dedicamos a nós
mesmos. No entanto, não há como aprender a cuidar de si mesmo senão pelo
cuidado que tiveram conosco. É impossível alegrar alguém que esteja descontente
consigo mesmo. Aquele que está descontente consigo mesmo não se alegrará com
nada que venha do outro. Por outro lado, quando a paz interior se torna
possível, tudo ao redor passa a ser a extensão disso.
No
princípio, o “eu” não existe; ele passa a existir através do cuidado dedicado
do outro, que exerce esse cuidado como uma extensão da dedicação para consigo
mesmo. Donald Woods Winnicott (1896-1971) propôs a ideia de que, no início da
vida do bebê, a mãe suficientemente boa não é outra pessoa, mas sim o próprio
ambiente. Winnicott afirma que "não existe essa coisa chamada bebê",
ou seja, um lactente nunca existe sozinho. O bebê é parte integrante de um
ambiente de cuidados sob responsabilidade da mãe, que, para tanto, precisa
estar resguardada pela proteção e provisão do pai. No início da vida, o bebê
não se diferencia do meio ambiente (a mãe). O colo, o cuidado e o ambiente
proporcionado pela mãe são, para o bebê, extensões de si mesmo. Conforme o
desenvolvimento se realiza de maneira bem-sucedida, o bebê passa a existir.
Esse
modelo de extensão nunca deixa de reger nossa vida emocional, mesmo na vida
adulta. Após a internalização do ambiente externo, passamos a dispor de um
ambiente interno que orientará nossa vida emocional. Nesse ponto do
desenvolvimento, o outro deixa de existir e o ambiente interno é o que guia
nosso funcionamento. Passamos a nos relacionar com o outro nos moldes e na
medida do relacionamento com nós mesmos. Na medida em que as configurações
desse ambiente interno e o funcionamento emocional entrem em colapso, existe
chance de reparação. Contando com um ambiente externo que propicie acolhimento
— no mesmo modelo proposto por Winnicott — as reparações tornam-se possíveis. O
processo psicoterapêutico pode ser, por excelência, o recurso para que isso
ocorra.
Martino,
R. D. Acolhida em Psicoterapia, 2018.
Martino,
R. D. Esboço de Expansão: Escolhas, Vontade e Desejo, 2025.
WINNICOTT,
D. W. O Brincar e a Realidade. 1971.
WINNICOTT,
D. W. Os processos de Maturação e o Ambiente Facilitador. 1965.
Antes de iniciarmos efetivamente a proposta reflexiva contida neste texto, penso ser importante esclarecer que não se trata de uma incitação ao sentimento de culpa ou algo parecido, mas de uma oportunidade de alerta para o reconhecimento e a responsabilização do que esteja ao alcance da atenção daquele que lê.
A proposta é pensarmos sobre algo que atualmente tem sido normalizado como se não houvesse consequências, enquanto, na minha avaliação, grande parte dos males que assolam a sociedade contemporânea decorre justamente disso.
Grande parte dos humanos tem filhos que são, na prática, criados por terceiros. Geram-nos e os entregam aos cuidados de alguém afetivamente estranho. Talvez seja o único animal na natureza que o faça. Ainda assim, para que haja um desenvolvimento saudável — ao menos no âmbito emocional —, a criança necessita de cuidados maternos atentos, resguardados pela função paterna, no mínimo até os 3 anos de idade. Após esse período, aumentam significativamente suas chances de enfrentar os desafios inerentes à vida social, que se fundamenta em dissimulação e falsidade.
Essa demanda de cuidado não é apenas de ordem física ou fisiológica, mas, antes de tudo, de ordem afetiva. Não se trata de algo que uma profissional possa oferecer, por mais qualificada que seja, mas da presença afetiva da genitora, bem resguardada pelo companheiro que esteja desempenhando bem a função paterna, capaz de acompanhar cada passo do desenvolvimento da criança. Um outro afetivamente estranho não pode ser capaz de vir a ocupar esse lugar.
No entanto, o que se observa na realidade contemporânea é que a criança passa mais tempo acordada com educadores, cuidadores remunerados ou instituições do que com os próprios pais: creches que recebem bebês desde os primeiros meses de vida, escolas em tempo integral, babás rotativas e, mais recentemente, telas ocupando o lugar de “cuidadoras”.
Há, nesse contexto, implicações psíquicas importantes. Em Sobre o narcisismo: uma introdução (1914), Freud descreve o chamado “narcisismo primário”, momento em que a criança necessita se sentir como a coisa mais importante no mundo para a mãe. É dessa experiência — quando bem-sucedida — que se desdobram a autoconfiança, o sentimento de valor próprio e elementos estruturantes da personalidade. Quando os pais projetam na criança seu próprio narcisismo — por meio de enunciados como “você é o mais lindo”, “o mais perfeito”, “o centro do meu mundo” —, não estão simplesmente exagerando: estão, na verdade, oferecendo as bases da autoestima. A criança aprende a amar-se a si mesma, pois foi amada, e, com isso, se qualificará para amar o próximo. Está aí a semente da capacidade futura de investir libido em objetos externos (pessoas, projetos, ideais) sem prejuízo do investimento em si mesma. Se constitui uma auto-importância saudável: não megalomaníaca, mas suficientemente sólida para sustentar o sujeito diante das inevitáveis frustrações da vida.
Freud também aborda as fases do desenvolvimento libidinal em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). As experiências próprias dessas etapas só podem ser devidamente elaboradas sob os cuidados de quem ama a criança. E aqui revela-se um ponto crucial: não existe “tempo de qualidade”. O desenvolvimento emocional não se organiza segundo recortes artificiais no tempo, mas demanda continuidade. As intercorrências psíquicas não respeitam agendas preestabelecidas. O sofrimento, a angústia de separação, a excitação, a frustração, a necessidade de ser visto — tudo isso emerge de forma imprevisível. O tempo do amadurecimento emocional não coincide com tempo do relógio produtivo.
Mais tarde, Winnicott introduz o conceito de “dependência absoluta”, especialmente em O brincar e a realidade (1971) e em Os processos de maturação e o ambiente facilitador (1965). Nos primeiros meses de vida, o bebê é totalmente dependente da mãe-ambiente para sua sobrevivência física e integração psíquica. Sendo assim, deixá-lo aos cuidados de terceiros afetivamente estranhos passa a ser uma experiência perigosa e de danos emocionais imensuráveis. Trata-se de uma experiência potencialmente disruptiva, cujos efeitos podem se prolongar por toda a vida, manifestando-se como fixações e imaturidades no funcionamento emocional do adulto, desdobrando-se em severas incapacidades afetivas.
Cabe aqui um reconhecimento: há um conflito real entre as necessidades psíquicas do desenvolvimento e as exigências da estrutura econômica contemporânea, que impõe o retorno precoce dos pais ao trabalho. Por outro lado, é muito comum mães que terceirizam os cuidados de seus filhos pequenos por não terem paciência, não tolerarem o desconforto que se inclui no cuidado com crianças ou por qualquer outro motivo que não seja a necessidade de trabalhar fora. Ainda assim, na natureza, quando não há condições mínimas para a preservação e o desenvolvimento da prole, a reprodução tende a não ocorrer. É como se, na natureza, os animais dissessem: “Se não posso oferecer o necessário para que essa vida prospere com integridade, melhor não trazê-la”.
Tratamos aqui de uma perspectiva estrutural. Parece-me que o funcionamento social e econômico atual se orienta na direção oposta às necessidades do desenvolvimento psíquico saudável. Isso gera um círculo vicioso, no qual vão sendo gerados exemplares de péssima qualidade, que configurarão uma sociedade cada dia mais doente. Vivemos em uma cultura de gratificação imediata e uma criança é, por natureza, imprevisível e trabalhosa. Para muitos, o filho passou a ser um "projeto de autorrealização" que, quando começa a dar trabalho, é prontamente terceirizado aos cuidados de outro, para que a vida pessoal do adulto não sofra interrupções. Com isso o alicerce da personalidade é estruturado com falhas severas e o desdobramento é uma sociedade composta por adultos tecnicamente funcionais, contudo emocionalmente desintegrados. Sujeitos habilidosos tecnicamente, inteligentes, capazes de operar máquinas, softwares, planilhas, redes sociais, mercados, conquistar títulos de mestrado e doutorado, mas emocionalmente desintegrados.
Atualmente, os jovens são instruídos a buscar o ensino superior sob uma idealização de títulos acadêmicos, contudo não são preparados para serem mães e pais. No entanto, a probabilidade de seguirem a carreira e exercerem as profissões de seus cursos é significativamente menor do que a de gerarem filhos. Antigamente, as meninas cresciam observando mães cuidando de crianças. Hoje, muitas chegam à maternidade sem nunca terem segurado um bebê. O desconforto da rotina infantil torna-se insuportável porque não houve preparo emocional ou cultural para o sacrifício que a criação exige.
Portanto, parece que estamos constituindo uma legião de indivíduos que operam no modo de falso eu. Um exército tentando preencher fixações infantis, desejando futilidades, consumindo banalidades, funcionando emocionalmente de maneira patológica, o que os leva a se comportar não por atitude própria, mas de forma reativa, já que a base narcísica nunca foi devidamente elaborada. Os pais confiam seus filhos aos cuidados de um outro, afetivamente estranho fazendo com que os próprios filhos se tornem estranhos, sem a menor afinidade com eles. Cria-se, assim, um abismo de conflitos onde deveria haver o aconchego do lar. A implicação disso é a imaturidade generalizada, com adultos instáveis nas relações afetivas. Humanos incapazes de amar.
Referências:
FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. 1914.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. 1971.
WINNICOTT, D. W. Os processos de maturação e o ambiente facilitador. 1965.