Mostrando postagens com marcador símbolo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador símbolo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de março de 2026

TOLERÂNCIA E TRANSCENDÊNCIA FÍSICA - Do Corpo que Tenho ao Corpo que Estou - Prof. Renato Dias Martino

 



Então, nós vamos falar aí da relação da tolerância e da configuração do corpo físico, da parte do sujeito que está configurada na materialidade das coisas, naquilo que é possível constatar com os órgãos dos sentidos, aquilo que eu posso ver, aquilo que eu posso cheirar, aquilo que eu posso ouvir, aquilo que eu posso tocar, aquilo que eu posso ouvir. a relação da tolerância com esta instância material da existência.


CAPACIDADE SIMBÓLICA


A simbolização, a capacidade simbólica do sujeito é o que determina a saúde mental desse sujeito. E aí entra um grande equívoco na linguagem popular. Normalmente se atribui ao ego uma característica extremamente narcisista, extremamente nociva. O sujeito que tem um ego proeminente é um sujeito nocivo, quando na realidade é o contrário. O ego é a instância fundamental para que o sujeito seja capaz de renunciar das coisas. Um sujeito que não tem um ego estruturado é um sujeito que não é capaz de renunciar, não é capaz de se dedicar ao outro. O sujeito só pode ser capaz de se dedicar ao outro se ele tiver um ego bem nutrido e bem estruturado.


ESTOU SENDO


No entanto, se o ego estiver desnutrido, eu não estou sendo. Eu estou sendo guiado pelo deveria ser, porque o meu ego está desnutrido. E aí já não é mais o ego que está me guiando, é o meu superego, que é o deveria ser. Para que eu possa estar sendo, eu preciso estar com o meu ego bem estruturado e bem nutrido. E o ego só pode estar bem nutrido através da capacidade de simbolização. E a capacidade de simbolização só pode ser desenvolvida através de vínculos saudáveis com o outro.


DESEMPENHO DO ESTAR SENDO


Quando eu estou desnutrido no meu ego, eu não consigo confiar naquilo que eu estou sendo. Logo, não desempenho aquilo que estou sendo, porque o que está me guiando é o que eu deveria ser. A minha atitude hoje não é passiva da minha confiança. Então tudo que eu faço, eu questiono, eu critico, eu olho para aquilo como algo que eu não deveria ter feito e eu deveria ter feito de outro jeito. Eu deveria fazer de outra forma, eu deveria ser outra coisa, porque aquilo que eu estou sendo não é aprovado por mim mesmo. Logo, eu não estou sendo. Eu deveria ser. Tudo que eu estou sendo é invalidado em nome de algo que eu deveria ter sido.


ESTAR SENDO E AMOR-PRÓPRIO


O estar sendo não pode estar subordinado aquilo que eu gosto. Não pode estar subordinado àquilo que me agrada, porque aquilo que eu estou sendo dificilmente me agrada. Ainda assim, o amor-próprio é confiar em si mesmo, respeitar a si mesmo, amar a si mesmo, independente de não estar sendo aquilo que eu gostaria de ser, porque eu estou sendo aquilo que eu dou conta de ser. E o estar sendo tem muito mais a ver com dar conta, com ser capaz de do que agradar a si mesmo.


COM-FUSÃO


Quando existe a dificuldade de simbolização, acontece a confusão com o outro. O sujeito se funde ao outro. O sujeito não é capaz de reconhecer o limite entre ele e o outro. ele passa a ser uma extensão do outro ou ele passa a obrigar que o outro seja uma extensão dele. E esse tipo de relação é justamente a relação que vai ter o desdobramento da melancolia quando houver a perda de uma das partes.


SIMBOLIZAÇÃO DO VÍNCULO


A simbolização é algo que acontece a partir da tolerância. O sujeito que desenvolve a tolerância, ele é mais capaz de simbolizar e quanto mais ele simbolizar, mais tolerante ele se torna. É muito interessante isso. A simbolização é a internalização de uma experiência, a internalização de um vínculo. Quando a gente fala de simbolização, nós estamos falando acima de tudo da simbolização da experiência, do vínculo e do objeto juntos. Quando o bebê simboliza a mãe, ele não simboliza só a mãe, ele simboliza as experiências que ele teve com essa mãe no vínculo. Ele simboliza a história dele com essa mãe, não é simplesmente a mãe.


O SEIO


Quando em psicanálise a gente fala de seio, a gente não está falando daquele órgão que está na mulher. Nós estamos falando de uma experiência enorme, complexa. Seio não é simplesmente um órgão do corpo físico, mas é uma experiência. A simbolização do seio não é simplesmente simbolizar uma parte do corpo da mãe, mas é simbolizar toda uma experiência que ocorreu desde o nascimento. Uma experiência de nutrição, uma experiência de acolhimento, uma experiência de relação com a mãe num vínculo saudável. Então, seio não é simplesmente uma parte do corpo da mãe, mas é uma experiência complexa que vai ser simbolizada pelo bebê.


SIMBOLIZAÇÃO E MODELO


Todas as outras simbolizações que a gente vai tendo no desdobramento da nossa vida, inclusive na vida adulta, são evoluções, expansões da simbolização que a gente teve em relação à nossa mãe, ao vínculo com a mãe. são características que vão se desdobrando em outras relações que vão seguir este mesmo modelo de simbolização. Esta simbolização não vai acontecer naquilo que contemporaneamente aprendemos a chamar de tempo de qualidade. Não. A simbolização vai acontecer quando tudo estiver propício para isso. Este momento propício não vai escolher o tempo de qualidade para acontecer. Então, a mãe precisa estar com esta criança tempo integral para que ela possa viver e aproveitar dos momentos para a simbolização.


SIMBOLIZAÇÃO E O MOVIMENTO ESPIRALADO


Quando a gente fala da espiral, nós estamos falando que a vida é configurada por ciclos que a cada volta vão se alargando e se estendendo num eixo. Cada volta para que seja bem-sucedida, ela carece impreterivelmente de uma simbolização. Cada volta da espiral equivale a uma simbolização.


SÍMBOLO E ELEMENTO ALFA


Qual é a diferença do símbolo e do elemento alfa? Que que é o elemento alfa? É a transformação de um elemento bruto que brota do bebê e é projetado na mãe. A mãe, através da função alfa, transforma este elemento bruto, que seria o elemento beta, em elemento alfa, e devolve para o bebê. A partir dessa possibilidade de receber esse elemento alfa, abre-se a possibilidade da simbolização. Então, o elemento alfa precede a simbolização. Sem a função alfa não abre-se a possibilidade da simbolização. A simbolização é um complexo de elementos alfa. São vários elementos alfa que vão se juntando. Aliás, o elemento alfa tem esta característica que o elemento beta não tem, de se agregar um ao outro, de se ligar a um ao outro. E a partir daí vai se criando a possibilidade da simbolização. A simbolização é mais complexa do que a função alfa.


ELABORAÇÃO E SIMBOLIZAÇÃO


A elaboração é um elemento da reparação. Quando eu elaboro, eu estou reparando. Elaborar não é reparar, mas elaborar é um elemento da reparação. Quando eu estou elaborando alguma coisa, eu estou trabalhando esta coisa para que esta coisa possa ser reparada. Elaborar um vínculo é prepará-lo para que ele possa ser reparado no dano que possa ter acontecido, na falha que possa ter acontecido. E esta falha aconteceu justamente na simbolização. Então, a elaboração prepara para a reparação da simbolização. Então, muitas vezes o paciente chega com um problema que vai ser elaborado para reparar uma simbolização que não foi feita adequadamente.


SIMBOLIZAÇÃO E LUTO


A simbolização está diretamente ligada ao processo do luto. Cada elemento do mundo que você perde, cada objeto amado que você perde no mundo, você precisa ter simbolizado isso para viver o luto. Então, a vida toda é baseada numa constante simbolização, porque a vida é perder. Amadurecer é aprender a perder. E se amadurecer é aprender a perder, a simbolização é o que fundamenta a maturidade. Logo, a possibilidade de viver os processos do luto. 


SIMBOLIZAÇÃO E TOLERÂNCIA


Nós temos uma parte do eu que é material e pode ser confirmada com os órgãos dos sentidos e uma parte do eu que não pode ser confirmada pelos órgãos dos sentidos. Se eu não for capaz de simbolizar esta parte que não pode ser confirmada com os órgãos dos sentidos, simplesmente não existe, porque a simbolização depende da capacidade de se relacionar com aquilo que não pode ser confirmado pelos órgãos dos sentidos, que é justamente a questão do sujeito que tem a predominância psicótica da mente. Ele não acredita que ele exista. Ele é uma alucinação. E se ele for uma alucinação, todo o resto do mundo também o é.


PARA ALÉM DO CORPO FÍSICO

duas formas de se reconhecer a existência do sujeito. O sujeito que é um corpo e que tem algo para além desse corpo. E o sujeito que é este algo que está para além do corpo e este algo está no corpo. Não vou definir agora o que que é este porque é algo muito maior, é alguma coisa que transcende a possibilidade do conhecimento, já que não está dentro da perspectiva sensorial. Não estando dentro da perspectiva sensorial, não pode ser conhecido. Então, todas as vezes que você ouve um sujeito dizer assim: "O psicanalista é um conhecedor da alma humana". Não, este é um grande equívoco, porque a alma não pode ser conhecida


DO QUE FOI SIMBOLIZADO


O símbolo não é algo adquirido. O sujeito não simboliza e passa a ter esta simbolização como algo que foi adquirido e é dele. Não. Este símbolo precisa ser constantemente nutrido. nutrido de reencontros, muitas vezes reencontros internos. Muitas vezes o sujeito se reencontra internamente com aquilo que foi simbolizado, mas na realidade o sujeito simboliza o vínculo com o objeto. E aqui falamos objeto tendo como objeto o outro. Ele simboliza o vínculo que ele tem com o outro, não é o outro. Isso é um salto.


O APARATO FISIOLÓGICO


Nós não podemos excluir as falhas que possam acontecer no corpo físico, no aparato fisiológico do sujeito, mas na realidade a maior parte do que a gente chama de déficit de atenção tem a ver com uma impossibilidade de simbolização da mãe, da capacidade de estabelecer um vínculo e simbolizar este vínculo com a mãe. este vínculo que vai servir de modelo para todas as outras simbolizações que vão acontecer e que vão trazer para esse sujeito uma integração necessária para que ele possa ter um bom funcionamento num primeiro momento emocional e que se desdobrará no funcionamento cognitivo, logo na possibilidade de atenção das tarefas que ele possa vir a fazer


DIFICULDADE DE SIMBOLIZAÇÃO


Todas as vezes que eu perceber uma compunção na confirmação sensorial do mundo material, que aí acaba sendo até um pleonasmo, o mundo material só pode ser confirmado com os órgãos dos sentidos, eu estou frente a uma possível dificuldade de simbolização. Quando há simbolização, quando há a capacidade simbólica, a confirmação compulsiva do mundo material diminui. O corpo físico quando precisa ser confirmado o tempo todo, quando eu preciso estar ali o tempo inteiro, ã, novamente olhando e revisitando e confirmando, eu estou ali possivelmente frente a uma dificuldade de simbolizar o vínculo do eu para com o meu eu físico material.


ATRAÇÃO


O sujeito quando se reduz ao corpo físico, ele acaba atraindo pessoas materialistas. Ele acredita que o corpo físico é algo que tem uma importância muito grande e ele vai se aproximar e atrair pessoas que valorizam o corpo físico em detrimento de reconhecer que nós somos muito mais do que simplesmente um corpo físico. E é interessante que esse mesmo sujeito que valoriza o corpo físico exacerbadamente, que atrairá pessoas que também o fazem, depois vão se queixar de serem usadas como um objeto, assim como se faz com um corpo físico.


LEI DA ATRAÇÃO


Como é que seria essa coisa da lei da atração dentro da psicanálise, dentro da visão da psicanálise? Nós tendemos a reconhecer no mundo somente aquilo que foi internalizado. Então, nós procuramos no mundo confirmações daquilo que nós já temos. E aí a gente vai chamar isso de saturação. O nosso aparelho sensorial está saturado e tende a buscar repetições daquilo que já está internalizado. E aí o que acontece é que aquilo que a gente chama de realidade, na verdade são representações do que a gente pôde ter desta realidade. Logo, vamos atrair ou vamos nos aproximar daquilo que está no mundo interno. Não vamos conseguir nos atrair ou nos aproximar de algo que ainda não temos internalizado.


ALGORITMO


Nós temos hoje uma coisa chamado algoritmo nas redes sociais que exemplifica muito essa coisa da lei da atração. Quanto mais você se interessa por alguma coisa, mais aquela coisa vai aparecer na sua linha do tempo das redes sociais. E isso é um modelo de lei da atração. Foi você que buscou aquilo a princípio e aquilo começa a vir com abundância. E aí o sujeito começa a olhar aquilo com tanta frequência que ele começa a se irritar. E aí ele diz assim: "Eu vou abandonar as redes sociais". Mas meu amigo, foi você que buscou isso?


REPETIR


O sujeito se queixa de ver novamente a mesma coisa, ver aquilo de novo e eu vi aquilo de novo. Não aguento mais ver aquilo de novo. Mas na verdade o que você não aguenta é ver o novo. Você não dá conta de se abrir para ver que existe muito mais coisas do que aquilo que você está vendo. ou melhor, existem outros vértices daquilo que você está vendo para que você possa reconhecer. Mas o sujeito está fechado. Ele continua olhando para as coisas de um único vértice. Ele não consegue expandir o mínimo possível da consciência em relação às coisas. E aí parece sempre repetitivo mesmo.


PENSAMENTOS


O B propõe que nós somos pensamentos em busca de pensador. Então, nós não somos pensadores. O que está falando aqui são pensamentos que o pensador está pensando. Então, nós não somos o aparelho de televisão. Nós somos um sinal que o aparelho de televisão está transmitindo. Porque senão a gente começa a acreditar que a televisão é que está produzindo os programas. Não, não é a televisão que está produzindo os programas. Se você desligar a televisão, os programas vão continuar acontecendo. Assim, da mesma forma, somos nós.


SIMBOLIZAÇÃO E RENÚNCIA


A simbolização requer desapego, requer renúncia. Ser capaz de simbolizar é um sinal de que você foi capaz de renunciar, de se desapegar. Símbolo é juntar. E você só vai conseguir juntar se for capaz de renunciar. Renunciar do quê? do real material, do real concreto, da materialidade das coisas, da coisificação do mundo. Agora, a diabolização, que é o contrário da simbolização, é a separação, é a divisão. E a divisão pressupõe apego à materialidade, pressupõe a satisfação imediata, pressupõe o afastamento dos desconfortos e das frustrações.


LEMBRANÇA E RECORDAÇÃO


Lembrança é uma coisa, recordação é outra. O sujeito que é apegado às lembranças é porque ele não conseguiu simbolizar. Mas o sujeito que simbolizou, ele vai frequentemente ser inundado de recordações. A recordação é uma lembrança afetiva, saudável. É recordar. Re novo cor que é coração e dar que é doar. doar novamente ao coração. A recordação vem como um resgate, uma forma de revisitar o passado de maneira afetiva e saudável. E nisso eu posso ali reparar alguma falha no vínculo que eu estou recordando. Eu posso resgatar um modelo para que eu possa me utilizar no tempo presente, que é diferente da lembrança. A lembrança é sempre alguma coisa que eu preciso ir lá e puxar, ir lá e buscar. A recordação não se busca, ela vem.


LEMBRANÇAS E O PRESENTE


O sujeito que fica resgatando lembranças, fica buscando lembranças, é porque ele não está dando conta de viver o presente. O passado vem como uma tentativa de apaziguar a ansiedade e as angústias que estão ocorrendo em relação ao que ele está vivendo no presente. Quando o presente começa a ser um ambiente de tempo e espaço saudável, as lembranças vão sendo abandonadas, porque o presente está suprindo tudo aquilo que meu aparato emocional carece. 


RESGATE DA MEMÓRIA


A lembrança é quando o sujeito, por exemplo, está num relacionamento tóxico, preso num relacionamento tóxico, que não acredita que é capaz de se libertar daquilo e ela fica buscando lembranças do relacionamento anterior que ela teve ou sonhando com o próximo relacionamento que ela possa ter. lembrança e expectativa, memória e desejo, porque o presente não está sendo saudável. Mas a recordação é diferente. A recordação é quando num tempo presente você se pega recordando de um momento, de uma experiência agradável que você teve com uma pessoa amada que já não está mais no tempo presente. Essa experiência com essa pessoa pode te sugerir modelos afetivos para que você possa usar hoje.


OBESIDADE


A questão da obesidade é complexa porque inúmeros fatores podem desencadear um processo de ganho de peso exacerbado. Não podemos atribuir somente a uma disfunção ou alguma falha no funcionamento emocional à obesidade. É claro que algumas falhas no processo de simbolização ou em qualquer outro processo que possa acontecer dentro do âmbito emocional pode vir a desdobrar-se num processo de obesidade. Mas nem todo o processo de obesidade tem a ver com o funcionamento emocional. É muito importante que a gente possa ter essa clareza.


COMPULSÃO ALIMENTAR


numa possibilidade de ganho de peso, fora do natural, fora do saudável, que esteja ligada ao processo emocional, a gente poderia levantar algumas hipóteses. A dificuldade de simbolização do seio pode vir a desencadear um processo de obesidade na medida em que a criança não consiga se alimentar de maneira adequada e acabe atribuindo ao seio algo que não é o seio real. É como se ela estivesse o tempo todo buscando um seio que nunca consegue encontrar. Muito provavelmente cada angústia, cada ansiedade vai ser associada à alimentação. E nesse caso pode vir a se desenvolver um quadro de obesidade. aquilo que normalmente seria uma nutrição afetiva, não consegue sair da nutrição material ou concreta do leite, do alimento do corpo para o alimento da alma, por assim dizer, e fica preso à materialidade das coisas. Então fica uma busca perene de algo que está no corpo, mas na realidade o que está empobrecido ou o que está desnutrido é o aparelho psíquico. É uma desnutrição afetiva.


PRAZER ALIMENTAR


Eu me lembro aqui de uma paciente, há muito tempo atrás, que tinha uma expressão que era jocosa, mas na realidade acontecia de verdade. Ela dizia assim: "Aí eu fiquei nervosa e eu comi só de nervoso". Então cada vez que ela se irritava, cada vez que ela perdia a paciência, ela recorria à satisfação gastronômica, por assim dizer, né? comia exacerbadamente como uma tentativa de apaziguar a sua tensão nervosa. Então, muito provavelmente o que acontecia aí é uma dificuldade de simbolizar o seio da mãe que viria para apaziguar não só com o leite, mas com o afeto da mãe também. E quando essa relação é bem-sucedida, nutre as partes e a simbolização pode acontecer.


RECOMPENSA


Se você comer, você vai ganhar uma recompensa. Essa é uma inadequação na criação dos filhos que pode trazer desdobramentos terríveis, extremamente nocivos, não só com alimentação, mas com qualquer coisa que seja da necessidade de ser feito. Qualquer experiência, qualquer tarefa que seja da necessidade de ser realizada, não deve se oferecer recompensa. Aquela tarefa deve se completar nela mesma. O se alimentar se completa em si mesmo. Oferecer uma recompensa para criança tomar banho é um grande absurdo, porque o banho deve se completar em si mesmo ou estudar ou qualquer outra coisa.


MECANISMO DE DEFESA


Quando o sujeito passa a apresentar algum comportamento inadequado, que que eu estou chamando de inadequado, que foge a naturalidade, que foge a esfera do saudável. Este comportamento é uma manifestação de uma defesa. Ele está se defendendo de algum sentimento que ele não está conseguindo tolerar. Então ele cria uma forma comportamental de agir inadequadamente para se defender esta ordem de sentimentos. Sempre que a gente for olhar para algum comportamento do paciente, a gente precisa respeitar aquilo, porque por trás daquilo tem alguma coisa que precisa ser cuidada. Quando a gente tenta cuidar do comportamento, a gente acaba fechando os olhos para o funcionamento que está inadequado e gerando comportamento.




domingo, 2 de fevereiro de 2025

IMAGINAÇÃO, VINCULO E REVOLTA - Prof. Renato Dias Martino


ANALISABILIDADE

Analisabilidade. O que a gente chama de analisabilidade? Tecnicamente, a gente poderia dizer assim a capacidade do paciente de estabelecer uma transferência positiva, uma cooperação com o analista para o progresso do processo psicoterapêutico. Mas, para isso ele precisa ter tido o mínimo de experiências bem-sucedidas na vida dele. ele porque se ele não teve experiências bem-sucedidas minimamente, ele não tem elementos para projetar no analista como esperança de evolução, de crescimento. Então, ele precisa ter isso. E aí é que entra a ideia de que a psicanálise está aí para todo mundo, mas nem todo mundo está aí para a psicanálise. A gente precisa quebrar essa ideia de que a psicanálise cabe em qualquer situação. Não! Ela não cabe em qualquer situação. Ela cabe na situação onde houver a capacidade do paciente de cooperar com o processo. E para isso ele precisa ter vivido algumas experiências que antecederam aquela experiência da análise.

CONJUNÇÃO CONSTANTE

Muitas vezes, o analista, principalmente o sujeito que está iniciando a sua carreira, pode cair numa cilada no sentido de que, muitas vezes o paciente pode não aderir ao processo. Muitas vezes, o paciente não consegue não tem a capacidade para cooperar com o processo, ou seja, não tem analisabilidade e o aspirante analista, ou aquele que está iniciando a sua carreira, pode começar a questionar a sua capacidade enquanto analista. Mas quando a gente fala de psicanálise, nós estamos falando de vínculo, nós estamos falando das duas partes. Precisa haver uma cooperação mútua. Precisa haver aquilo que o Bion chamou de conjunção constante continente contido para que alguma coisa possa acontecer.

ACOLHIMENTO

O acolhimento é vínculo. Você só pode acolher alguém que esteja disponível a ser acolhido, porque se ele não estiver disponível, isso que você está tendo com ele não é acolhimento. E se ele não estiver disponível a ser acolhido, ele não tem analisabilidade, ele não pode ser submetido à psicoterapia dentro da perspectiva da psicanálise.

PROMESSAS 

É uma capacidade do sujeito. Um sujeito que tem analisabilidade não vai aderir a processos rasos, ou tentativas de promessas milagrosas de cura, ou qualquer coisa nesse sentido. Porque, na verdade, ele está de acordo com a realidade o suficiente para perceber que isso tudo é uma mentira.

VULNERÁVEL

É muito interessante a gente pensar que, aquele sujeito que passa a ser influenciado, ou por instituições religiosas, ou por promessas políticas de benefícios ilusórios, são justamente aquelas pessoas que não tiveram um lar bem estruturado. Esses são vulneráveis a essa influência que venha de religiosos políticos e de instituições que venham trazer ali, promessas fantasiosas.

TRÍADE SIMBÓLICA 

Cria-se aí então, uma tríade simbólica e esta tríade que eu vou dizer agora nada tem a ver com a proposta da tríade do Lacan, da Tríade lacaniana da qual eu não tenho conhecimento qualquer. Mas nós estamos falando aqui de uma tríade onde existe um real concreto, um real imaginário e um real simbólico. Então, o real concreto é aquele que engloba apenas e tão somente o corpo físico, o fisiológico. A necessidade física. Então, o bebê tem a necessidade fisiológica do corpo da mãe. O corpo do bebê precisa do corpo da mãe. È uma realidade concreta é uma fome real e concreta que precisa de um seio real e concreto. Esta realidade concreta, esta dimensão concreta vai se desdobrar numa realidade imaginária. O bebê precisa do seio real concreto da mãe, ele encontra esse seio, cria um referencial, uma referência desse seio e na próxima vez que ele precisar desse seio, que ele sentir fome, por exemplo, ele vai imaginar esse seio. Então, eu tive a realidade concreta, passo a ter então uma realidade imaginária. Imaginar o seio que um dia eu experimentei de maneira concreta, física, material. Se essa experiência que eu tive com o seio material, físico, concreto, foi bem-sucedida, a realidade imaginária, o real Imaginário vai abrir espaço para o real simbólico. Ou seja, eu vou conseguir internalizar o seio que eu experimentei de forma concreta, que eu imaginei e agora ele está internalizado, ou seja eu simbolize o seio.

SEIO

Nós usamos a palavra seio, mas a palavra seio é um ícone de qualquer objeto em que se desenvolve uma experiência afetiva. Ser capaz de pensar o objeto que se ama dispensa a confirmação sensorial deste objeto.

REMÉDIO OU VENENO

A substância vai ser um remédio ou um veneno dependendo da dosagem. No filme A VIDA É BELA, o pai mente para o filho o tempo inteiro. Ali mentira foi fundamental para que o filho pudesse tolerar a situação.

DESILUSÃO

Normalmente, a gente tem a ideia de que a função do analista, a função da psicanálise é de desfazer ilusões, de destruir ilusões, quando na verdade, é o contrário. A função da psicanálise a função do psicanalista é aquela de, junto com o paciente, ir, a conta gotas, se desiludindo. Mostrar para o paciente que ele não precisa desfazer das suas ilusões porque alguém está dizendo para ele que aquilo é ilusão. A função da psicanálise é estar junto do paciente até que ele consiga entrar num acordo com a realidade, ser capaz de se desiludir e não destruir Ilusões.

REVOLTA

Quando você tenta desiludir alguém, ele pode se revoltar. E o que que é revoltar? É dar uma volta em falso. É re-voltar. Então, o revoltado é aquele que fica correndo assim como um cachorro atrás do próprio rabo Este é o revoltado porque não tolerou a desilusão como é que trabalha a espiral a espiral trabalha através de voltas que vão se alargando num eixo horizontal Cada Volta o sujeito alarga um tanto e caminha outro tanto no eixo horizontal O que é que vai propiciar a possibilidade de alargamento da volta e expansão no eixo horizontal é justamente o vínculo afetivo se não há vínculo afetivo o sujeito fica na revolta E aí ele dá uma volta em falso quando ele consegue este vínculo afetivo quando ele é acolhido ele consegue expandir uma volta a mais na espiral progressiva

ALUCINAÇÃO CIENTÍFICA 

O sujeito está envolvido e fixado nas imaginações, nas fantasias, porque na verdade não teve uma relação bem-sucedida com a realidade, não conseguiu estabelecer um acordo com a realidade. Então, ele passa a afirmar as suas fantasias como realidade e passa a criar um sistema dedutivo teórico racional para justificar aquela sua ideologia. E é mais maluco ainda quando isso atinge as prateleiras acadêmicas, quando isso vira ciência, quando o sujeito começa a afirmar dentro de estudos científicos que aquela configuração alucinada que ele afirma tem embasamento teórico, porque ele se juntou com mais meia dúzia, sessenta, seiscentos outros iludidos e alucinados que afirmam a mesma coisa, dentro do ambiente acadêmico. Isso se chama “alucinação científica”.

SABER PENSAR

Por isso é importante a gente desenvolver a capacidade de pensar de pesar e não engolir conhecimentos goela baixo que foi dito pelo outro porque o outro é doutor. Que é o que o meio acadêmico faz, estabelece um certo e errado e te obstrui de avaliar o que é falso e verdadeiro. É justamente o que a psicanálise se propõe a se opor. A função da psicanálise é pensar, pesar e não conhecer, saber. Então, quando o sujeito é convidado para dar uma palestra de psicanálise, ele não vai ali para levar conhecimento, ele não vai ali para promover o saber, ele vai ali para pensar junto.

REPENSAR 

O abismo que existe entre saber e pensar. Cada vez que eu penso novamente, cada vez que eu penso melhor alguma coisa, eu coloco em xeque, eu coloco em jogo tudo aquilo que eu imaginava saber. Porque eu estou repensando. Será que é assim mesmo? E é o que a gente faz aqui isso aqui. Não é um espaço do saber, não é um espaço do conhecimento, é um espaço do pensamento.

PENSAMENTO FRIO

Nós vemos aí agora cursos de psicanálise aprovados pelo MEC. Impossível, gente! A não ser que seja essa psicanálise lacaniana, aí talvez, pode ser que seja, porque é acadêmica, porque é intelectualizada, porque vira uma equação, porque vira uma conta matemática, que você soma “lé” com “cré” e dá “ré”. Pensamentos frios calculados.

DO IMAGINAR AO PENSAR

a gente não pode esquecer que a imaginação a ilusão é um protop pensamento sem a ilusão não pode haver pensamento é a partir da ilusão que o sujeito pode vir a pensar primeiro ele se ilude depois ele pensa o sujeito que foi cerceado em sua ilusão o sujeito que foi tolhido que foi privado das suas imaginações é um sujeito que não aprendeu a pensar

ILUSÃO CRISTALIZADA 

Se a gente pudesse pensar no que definiria uma ilusão saudável ou uma ilusão tóxica, uma ilusão que não fosse saudável, o aspecto fundamental para essa definição é a cristalização, a impossibilidade de transformação. Quando, a ilusão está disponível a ser transformada ela é saudável. Quando ela está cristalizada engessada ela é nociva.

RACIONALIDADE

Vai pela razão! Seja racional! Muitas vezes, isso traz uma conotação de que se o sujeito for pela razão, ou for racional, ele vai conseguir uma decisão acertada e é justamente isso. Ele vai conseguir uma decisão acertada. Mas isso não quer dizer que ele esteja de acordo com a realidade, porque muitas vezes a ilusão pode fazer com que o sujeito crie um sistema dedutivo teórico racional que vai justificar aquela ilusão. Não é porque ele tem razões que ele não esteja iludido. Muitas vezes, o sujeito que está com a razão pode estar muito mais iludido do que o outro que talvez não esteja com a razão. A racionalidade não garante o acordo com a realidade.

DECISÃO OU ATITUDE 

Tomar uma decisão é uma coisa, tomar uma atitude é outra. Decisão quer dizer cindir do todo. A decisão, quando ela é tomada, ela é tomada excluindo o todo. De-cisão = separação! Atitude é uma ação. Decidir é uma coisa, avaliar e tomar uma atitude é outra. Quando você está de acordo com a realidade, você não precisa decidir nada, é só você avaliar a realidade e tomar uma atitude conforme esta avaliação. Decidir, ou tomar atitude. Tomar atitude a partir da avaliação é para quem está de acordo com a realidade, decisão é para aquele que está parcialmente desejando alguma coisa.

ADULTO ILUDIDO

O adulto que está iludido e insistindo nas suas ilusões, muitas vezes criando racionalidades racionalizando para justificar as suas ilusões é um sujeito que não pode viver essas ilusões no tempo adequado. Ou seja, na sua infância. Por que que ele não pôde? Porque ele não foi resguardado pelo pai, pela mãe, pela família, que pudesse trazer para ele, um espaço lúdico para que ele vivesse essa ilusão. Então ele carrega essa ilusão para a vida adulta e inadequadamente ele tenta implantar esta ilusão nos lugares mais sensíveis.

A BOLHA

A gente vê bastante hoje no discurso popular a ideia da bolha e a bolha, ela é um modelo muito interessante, porque ela protege o sujeito, mas, ao mesmo tempo, ela aprisiona o sujeito. Ele está aprisionado dentro da bolha que supostamente o protege. Mas a bolha o protege ilusoriamente, porque a película da bolha é extremamente vulnerável. Qualquer coisa fura. O sujeito, quando está dentro da bolha, ele não tem consciência de que ele está dentro da bolha, ele acredita que o universo é a bolha. O universo de Ilusões que ele vive é a bolha. E ele ignora aquilo que existe para além da bolha. Agora, a função do psicanalista não é estourar a bolha, é acolher o sujeito que percebeu que existe uma vida fora da bolha. O psicanalista precisa ser capaz de transitar dentro e fora da bolha.

ASFIXIA 

Quanto mais a bolha protege, mais perigosa ela se torna. Porque fica intransponível, a película. Quanto mais ela te proteger, menos ela permite a troca interna e externa e um sujeito que está dentro de uma bolha com uma película espessa, ele corre o risco de ser asfixiado.



terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

EGO E DESAPEGO - Prof. Renato Dias Martino



O ego, ele é constituído por símbolos e os símbolos são formados através de experiências de desapego. Quando o sujeito é capaz de se desapegar de alguma coisa do mundo material, ele conseguiu uma “expansãozinha” no seu ego. Cada elemento que ele é capaz de dispensar a confirmação sensorial no mundo material, ele ganhou uma nutrição no seu ego. Quando o bebê é capaz de simbolizar a mãe, isso quer dizer que ele pode tolerar a ausência desta mãe material, física, concreta, porque ele consegue ter esta mãe dentro dele, conseguiu internalizar a imagem dessa mãe, logo, o ego dele foi nutrido. Logo, o ego dele começa a ser bem estruturado.

O EGO E O OUTRO

O sujeito que tem um ego bem estruturado, o sujeito que tem um ego nutrido, ele tem a característica da união, da junção, do acolhimento. Primeiro, de si mesmo e depois do outro. O ego é a parte da personalidade que organiza o funcionamento emocional e afetivo. Então, quanto mais bem nutrido o ego do sujeito estiver, mais capaz de se doar ao outro e ele será. Porque ele é capaz de doar-se a si mesmo, de confiar em si mesmo, de acreditar em si mesmo, de amar a si mesmo, de respeitar a si mesmo. Este é o ego. É a capacidade de estar de bem consigo mesmo. É a autoestima e esta autoestima quando bem nutrida se desdobra na estima do outro

EGO INFLADO 

Muitas vezes, quando a gente vê um sujeito manifestando uma característica que não inclui o outro, uma característica que a gente vai chamar de narcisista, isso não quer dizer que o sujeito tem um ego muito grande, quer dizer que o sujeito tem um ego inflado. Ego inflado não é um ego nutrido, ego inflado é um ego oco, que não tem nada dentro. Ego nutrido é um ego consistente. Quando, o sujeito tem um ego consistente, ele é um sujeito que é capaz de se compadecer com o outro. Então, muitas vezes, esse sujeito, o que ele tem muito grande é um superego, é um ideal de eu, é algo que exige que ele seja algo que ele não está sendo. O ego é aquilo que ele está sendo, o superego é aquilo que ele deveria ser e muitas vezes para conseguir aquilo que ele deveria ser, ele passa por cima do outro. Ele tem uma ideia de si mesmo, não por aquilo que ele está sendo, mas por aquilo que ele deveria ser e ele começa a tentar reafirmar isso que ele deveria ser, como se ele estivesse sendo, para o outro, de uma maneira impositora, muitas vezes sendo arrogante, prepotente.

ESTAR SENDO E DEVERIA SER

A gente tem o hábito de condenar o superego, condenar o ideal de eu. Ah, mas o meu superego é muito rígido, ele exige demais de mim. “Ah, mas meu ideal de eu é muito exigente, ele é muito severo!” Na realidade, o que está acontecendo é que você não está sendo capaz de acreditar em você mesmo. Você não está sendo capaz de acreditar naquilo que você está sendo. Então, o que vai te guiar é aquilo que você deveria ser, logo o ideal de eu, superego. Então, o vilão da história não é o superego. Ele está ali, para tentar administrar alguma coisa que você, enquanto estando sendo, não está dando conta de administrar. Todas as vezes que você não estiver acreditando em você mesmo, quem vai tomar conta do da sua vida é o “deveria ser”, é a exigência é a cobrança.

EGO E SOLIDÃO

Quando o sujeito é capaz de ficar sozinho, ele tolera a solidão, ele se qualifica para conviver com o outro de forma saudável. Quando o sujeito não tolera a solidão, não tolera ficar sozinho, ele está fadado a se tornar uma pessoa solitária, mesmo na presença dos outros. Então, o que qualifica o sujeito a conviver com as pessoas, a estar junto com as pessoas é a capacidade de estar sozinho consigo mesmo. O sujeito, muitas vezes, não tolera a sua própria companhia, ele não é uma boa companhia para si mesmo. Desesperadamente, precisa de alguém do lado dele e muitas vezes, esse alguém está do lado dele, não está do lado dele, na realidade. Está ali, fisicamente, mas emocionalmente e afetivamente, não está.

FUNÇÃO DE AMAR

É do Ego a função de amar. Só aprende a amar o outro aquele que ama a si mesmo e o amor que se tem para consigo mesmo coincide com um ego bem estruturado e bem nutrido. Sem um ego bem estruturado e bem nutrido o sujeito não é capaz de amar o outro. A definição mais próxima do que é ego, é a parte da personalidade que aprendeu com o amor do outro como é amar a si mesmo. O outro me amou, eu aprendi a me amar. A partir desse amor próprio, eu posso estender para o outro, eu posso me doar ao outro.

AMOR E EGOÍSMO

Lá em SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, de 1914, o Freud coloca: “Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer.”. Por que que ele fala isso? Porque, muitas vezes, você está implicado ali, envolvido num vínculo tóxico e você precisa de um egoísmo forte para te proteger desse vínculo tóxico. O Freud continua: “mas num último recurso devemos começar a amar a fim de não adoecermos.” Ou seja, depois de conseguir se distanciar desse vínculo, nós precisamos voltar a o exercício do amar, de se dedicar ao outro. E aí, ele continua: “estamos destinados a cair doentes se em consequência da frustração, formos incapazes de amar.” Categoricamente, o Freud coloca que, aquele sujeito que não está sendo capaz de amar, está fadado a cair doente emocionalmente e afetivamente.

VÍNCULO SAUDÁVEL 

Um vínculo saudável, um vínculo bem nutrido, um vínculo bem estruturado, impreterivelmente, precisa contar com dois elementos. Com amor e com sinceridade. Este amor é a doação e esta sinceridade é o limite para esta doação. Então, esses dois elementos juntos constituem a possibilidade de se estabelecer um vínculo saudável. A capacidade de renunciar a si mesmo pelo outro, mas dentro da sinceridade que vai trazer o limite do que isso é possível. Aí se estabelece um vínculo saudável.

EGOÍSTA FERIDO

Muitas vezes, o sujeito que manifesta características egoístas, na realidade, é um sujeito que está com o ego machucado, fragilizado, ou ainda, que este ego é um ego imaturo, que não conseguiu amadurecer. Quando o sujeito está manifestando características egoístas é porque o ego dele está precisando de cuidado. Mas quando se trata de um adulto, isso começa a se confundir, porque muitas vezes, ele não é capaz de pedir ajuda para isso. E aí, ele se manifesta de uma maneira arrogante, prepotente para se defender da sensação de ser alguém menor que o outro.

CORAGEM E AJUDA

Talvez a atitude mais corajosa que possa existir dentro do âmbito emocional e afetivo seja pedir ajuda ao outro. Muitas vezes, ele não tem coragem disso. “Cor + agem”. COR coração e AGEM ação. Ele não consegue agir pelo coração. Porque a razão dele diz assim: “Você não pode ficar pedindo ajuda. Você não pode dar o braço a torcer que você não consegue fazer as coisas sozinho.” E aí, ele se torna um sujeito arrogante e não age pelo coração.





quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

PROCESSO DO LUTO - Prof. Renato Dias Martino



Processo do luto, dentro da psicanálise, não é simplesmente aquela experiência que se dá após a perda de alguém querido, mas dentro da psicanálise, o processo do luto é aquilo que vai se dar após o reconhecimento de uma frustração, o reconhecimento de uma falta, o reconhecimento de uma falha, seja no mundo externo, ou seja no mundo interno. Seja em relação ao outro, ou seja, em relação a si mesmo. Então, muitas vezes, o sujeito vai fazer alguma coisa e ele não consegue fazer essa coisa, ele falha em fazer esta coisa, quando ele reconhece que ele falhou, ele vai viver um processo do luto. Eu costumo dizer que o processo do luto, para ser elaborado, ele vai ter três “erres”. O “Reconhecimento”, a possibilidade de aprender a “Respeitar” esse processo do luto e posteriormente a “Responsabilização” por aquilo que decorreu desse processo do luto.

LUTO E MELANCOLIA

O Freud, lá em 1917, publica o LUTO E MELANCOLIA. Ele vai dizer que, quando o sujeito não viveu uma experiência bem sucedida com aquilo que posteriormente foi perdido, ao invés dele passar pelo processo do luto, ele cai num estado de melancolia, ou seja, ele não consegue acreditar que ele possa continuar vivendo depois da perda daquilo.

MELANCÓLICO DESENERGIZADO

O melancólico é um sujeito desenergizado, por assim dizer. A maior parte da sua energia era investida num objeto e quando esse objeto é perdido, essa energia se perde também.

INTERVENÇÃO COM O MELANCÓLICO

O sujeito que está num estado de melancolia vai precisar viver uma experiência interna que possa desobstruir o seu caminho. Não existe intervenção psicanalítica que possa fazer isso por ele. O que a gente pode fazer, no máximo, é propiciar um ambiente saudável que esteja livre de críticas, que esteja livre de seduções, bajulações, que esteja livre de julgamentos, de condenações, para que ele possa se sentir bem o suficiente. Não acredito numa intervenção externa que possa trazer a possibilidade desse desencadeamento.

TOLERÂNCIA À FRUSTRAÇÃO, DESAPEGO E LUTO

Nós temos três conceitos importantíssimos dentro da psicanálise, das formulações emocionais e afetivas. Tolerância à frustração, desapego e luto. Um conceito está interligado ao outro. Para que haja a elaboração do processo de luto, precisa haver desapego, para que haja o desapego, precisa haver tolerância a frustração. É necessário que haja a possibilidade do desenvolvimento da tolerância à frustração, da possibilidade de adiar satisfações e renunciar de desejos, para que possa haver a experiência do desapegar-se, naquilo que o Mestre Eckhart vai chamar de desprendimento, e com isso, possa haver a elaboração do processo de luto.

DOIS CAMINHOS 

Quando o sujeito teve uma experiência bem-sucedida, viveu um vínculo saudável com um objeto que tenha sido perdido, ele consegue viver o processo do luto em relação a isso que foi perdido. Quando a relação com esse objeto que foi perdido foi conflituosa, foi tóxica, de alguma forma, não pode ser bem elaborada, quando existe a perda do objeto, o sujeito cai num estado de melancolia, ou seja, ele não perde só o objeto no mundo externo, mas ele perde algo dentro dele que se confundia com o objeto externo, naquilo que a gente vai chamar de equação simbólica. O que está dentro e o que está fora, são a mesma coisa.

PROCESSO OU ESTADO 

O luto é um processo, é uma transformação. O sujeito que está vivendo o luto, ele está dentro de um processo, ele sofre um processo. A melancolia é um estado, não existe transformação. A melancolia não é um processo. O sujeito, quando cai em melancolia, ele não é capaz de sofrer. Ele não tolera sofrer, por mais que ele esteja sentindo a dor.

DO ANALISTA 

O analista, quando ele está num processo de luto, seria muito importante que ele pudesse se resguardar. Seria muito importante que ele pudesse respeitar este processo do luto e se resguardar, até que ele possa elaborar uma boa cota deste processo e a partir daí voltar a atender. o analista que esteja em melancolia num estado de melancolia então não tem nem o que dizer porque é muito pouco provado ou eu diria impossível que ele possa exercer a sua função.

AUTOSSABOTAGEM

Uma breve pesquisa na obra do Freud, você vai perceber que ele é bem humilde em relação aos processos internos. Então, ele vai dizer assim: “Quando o processo é interno, nós temos muito pouco conhecimento de como isso acontece.” Nós precisamos ter aquilo que o Bion chamou de “ato de fé” para que a gente possa tolerar o tempo necessário para que isso aconteça. E aí a gente vai, esperançosamente, propiciando esse ambiente saudável para o paciente. No entanto, todo esse processo vai acontecendo no tempo do paciente, não no tempo que a gente tem, enquanto expectativa. E esse é o grande problema. Na maioria das vezes, um paciente que esteja de um estado melancólico, ou que a cota melancólica dele esteja sendo proeminente no seu funcionamento emocional e afetivo, ele dificilmente busca ajuda psicoterapêutica. Dificilmente ele vai até o psicoterapeuta. Porque a melancolia traz para ele uma desesperança enorme. Ele não acredita que qualquer coisa do mundo externo possa ajudá-lo a continuar viver que não seja o objeto que foi perdido. Paciente melancólico entende-se, paciente que tenha a cota melancólica proeminente no seu funcionamento. Melancólico todos somos em certa cota. Quando o paciente melancólico, ou paciente que esteja com sua cota melancólica proeminente, procura psicoterapia, o trabalho é muito difícil, porque que ele vai se autossabotar constantemente, porque a melancolia tem a característica peculiar do sentimento de culpa. A perda do objeto deixou um sentimento de culpa no sujeito. E aí, o que acontece? Ele vai viver esse sentimento de culpa, ele vai se julgar por esse sentimento de culpa e ele vai se condenar por esse sentimento de culpa. E muitas vezes, vai se autossabotar mesmo sem perceber que esteja fazendo isso. Mas a sua própria desmotivação para as suas práticas e as suas realizações vão propiciar uma atmosfera de autossabotagem e as coisas dele parece que não andam. Ele dá um passo pra frente e dois para trás por assim dizer.

TOLERÂNCIA

Não pode existir um funcionamento saudável, dentro do âmbito emocional e afetivo, sem poder contar com tolerância às frustrações. A tolerância à frustração é a base de todo o funcionamento saudável da mente. É a base de todo funcionamento afetivo, ou seja, das formas saudáveis de se relacionar com o outro e consigo mesmo. É a partir da tolerância à frustração que se estrutura um bom funcionamento da mente.

LUTO E A DEMANDA DO OUTRO

Todas as vezes que se perde alguma coisa que era muito importante para o sujeito, todas as vezes que se desliga de alguma coisa do mundo externo, que tinha uma importância muito grande para o sujeito, existe um retraimento do interesse do mundo externo. O sujeito se retrai do mundo externo. O mundo externo fica sem graça, passa a não ser interessante, no período do que a gente chama de luto. E é muito importante que isso seja respeitado. Que o sujeito seja respeitado no seu processo da elaboração do luto. Que ele possa realmente se retrair do mundo externo e que não seja cobrado dele que ele volte ao mundo externo, por conta da demanda do outro.

DEPRESSÃO PATOLÓGICA 

A palavra depressão é polissêmica, dentro das formulações emocionais e afetivas. Ela vai desde a catalogação psiquiátrica do psicodiagnóstico depressão, até a expansão, dentro da possibilidade de um movimento introspectivo. Todas as vezes que o sujeito, por exemplo, vive uma perda, ou uma frustração, ele vai entrar num processo depressivo. A tristeza é depressiva. Isso que a gente chama de patologia da depressão, tem duas origens possíveis. A primeira é quando existe realmente, a instalação de um quadro de melancolia. Quando o sujeito não pode viver uma experiência saudável com o objeto que foi perdido, e na perda desse objeto, ele vai se retrair e vai perder a motivação de viver. Agora, existe uma outra possibilidade de um quadro patológico de depressão, que é o luto mal elaborado. O sujeito perdeu um objeto que, ele pode até ter tido um bom relacionamento, mas por conta do ambiente nocivo que ele viva, ele não conseguiu viver o processo do luto. Ele foi impedido de viver e elaborar o processo do luto. Nessas duas possibilidades, ele pode cair numa depressão patológica.

LUTO E RESPEITO

Nós vivemos numa contemporaneidade que não respeita o período do luto, que não respeita a elaboração do processo do luto. Nós vivemos num tempo onde o luto é encarado como doença. O sujeito, quando vive uma perda e se retrai, por conta dessa perda, é sugerido a ele, que ele tome medicamentos para que ele não viva o luto, que ele não viva a depressão incluída no luto. Desde os parentes, da família, até os amigos e se estendendo à vida profissional. Todo mundo tem uma ânsia enorme para que esse sujeito saia logo desse estado de luto e isso é muito perigoso, porque muitas vezes, ele acaba interrompendo o processo necessário do luto para atender o desejo do outro. “Não fica triste, não! Não fica assim, não! Toma um medicamento antidepressivo. Vamos tomar ‘uma’, para esquecer a tristeza!” Na realidade, ele precisa viver aquele processo. Aquele processo é necessário para que ele possa elaborar aquele luto e retomar a sua vida agora de forma saudável.