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domingo, 5 de julho de 2020

VERBORRÉIA: Da Comunicação à Evacuação


O animal humano desenvolveu um sistema muito bem elaborado de comunicação verbal. A fala é desenvolvida como recurso de comunicação e deve servir de auxilio na tentativa de informar sobre algum fato. O bebê humano desenvolve a habilidade de falar para conseguir aquilo que precisa ou deseja com maior facilidade. Nessa perspectiva a palavra configura-se num símbolo, assim como nos orienta Hanna Segal (1918 – 2011), quando propõe que:

“A formação de símbolos governa a capacidade de comunicação, já que toda a comunicação se faz mediante símbolos”. (Segal, 1982) Portanto, é necessário que o sujeito tenha desenvolvido a capacidade de simbolizar para que possa usar sua fala como instrumento de comunicar fatos. A comunicação verbal parece ser a principal forma de comunicação humana. Porém, por mais que tenha sido bem desenvolvida, ainda assim, guarda inúmeras limitações, geradoras de grandes equívocos. 


Identificação projetiva é como Melanie Klein (1882 -1960) chamou o mecanismo de evacuar desconfortos insuportáveis, com a função de defesa do funcionamento do aparelho mental (Klein, 1946). Klein chama a atenção para essa forma primitiva de comunicação inconsciente do bebê, como um mecanismo natural na tenra infância. Por conta do ego do bebê ainda não se encontrar integrado o suficiente para tolerar desconfortos, ele evacua suas frustrações pela ação motora.

Na primeira infância a mãe que é capaz de ser continente deve ter a atitude de acolhida do conteúdo caótico projetado nela pelo bebê. Dessa forma vai devolvendo esse conteúdo, que então, transformado, passa a ser passível de conexão mental. Essa atitude de maternagem vai promovendo a integração da mente. Função alfa é como Wilfred Bion (1897 - 1979) denominou essa ação materna de receber, transformar e então devolver os conteúdos projetados nela pelo bebê (Bion, 1962). 

Mas, esse mesmo mecanismo de projeção, quando não conseguiu viver experiências bem sucedidas o suficiente, pode se instalar como um recurso psicótico num sujeito adulto. Bion propõe um modelo análogo ao sistema digestivo, onde aquilo que seja experimentado, captado pelo aparelho sensorial, deve ser digerido para ser integrado ao psiquismo ou então, caso não seja possível, deve ser evacuado, expelido sem que possa ser absorvido e integrado no aparelho mental.
“São objetos que podem ser evacuados ou usados em uma forma de pensar que depende da manipulação do que é sentido como as coisas em si mesmas, como para substituir tal manipulação por palavras e ideias.” (Bion, 1962) 
No início da vida, o bebê não é capaz de digerir, por assim dizer, os elementos captados pelo aparelho sensorial e é a mãe quem deve faz-lo por ele. Nessa perspectiva a capacidade simbólica ainda não está presente, já que o comunicado é equalizado ao desconforto. O sujeito sente desconfortos e tenta expelir o que está sentindo por meio da ação motora e a fala pode ser uma ação dessa espécie.
Com isso provoca no outro aquilo que ele sente. Através de uma evacuação desse tipo, um paciente que não esteja sendo capaz de comunicar sua ansiedade ao analista, por exemplo, pode provocar ansiedade no analista. Num mecanismo psicótico evacua-se elementos dolorosos independente da configuração da realidade. 
Contudo, existe outra forma de utilização da fala. A mesma fala que se usa para comunicação, mesmo que de forma rudimentar e primitiva, amiúde pode se manifestar não como tentativa de transmissão de informações, mas como meio de evacuação de desconfortos emocionais que não estejam disponíveis a transformação. A fala ainda deve ser usada pelo ser humano com outro intuito, que não aquele de comunicação de fatos.
A verbalização também pode ser utilizada no intuito de atacar e ferir o outro. Essa forma de utilização da fala é feita muito provavelmente como defesa. Por conta do sentimento de insegurança, o sujeito evacua hostilidades verbais. Numa forma de defesa, assim como a evacuação de desconfortos internos, também em relação ao mundo externo, quando o sentimento de insegurança é gerado na relação com o outro. Um sujeito pode proferir palavras para aplacar sensações de vulnerabilidade frente à outra pessoa. 
De tal modo, Sigmund Freud (1856 – 1939) nos orienta sobre as duas tendências distintas de pulsões: “as pulsões sexuais, compreendidos no mais amplo sentido – Eros, se preferem esse nome - e pulsões agressivas, cuja finalidade é a destruição” (Freud, 1933[32]). Enquanto a pulsão de vida, retratada por Eros tem a função de unir, por outro lado tratamos aqui da ação da pulsão de morte, que projetada no mundo externo, opera no formato de pulsão de destruição, reação que reduz e alivia o desconforto da tensão interna acumulada.
Por conta da intolerância à frustração essa experiência “torna-se objeto mau indistinguível de uma coisa-em-si, e que se presta apenas à evacuação.” (Bion, 1967)
Trata-se de uma tendência natural, com o intuito de diminuir certa cota de tenção interna. Quando ocorre um aumento desse conflito, deve ser gerada uma descarga motora, visando sua diminuição. “Suponhamos que um homem seja insultado, esmurrado, ou qualquer coisa desse gênero. Esse trauma psíquico está ligado a um aumento da soma de excitação de seu sistema nervoso. Surge então instintivamente uma inclinação a diminuir de imediato a excitação aumentada.” (Freud, 1893)
Quando o sujeito revida, sente-se melhor, como se tivesse se livrado do mal que tenha recebido do outro. A palavra pode servir muito bem a esse propósito. No modelo freudiano, por não poder ter sido elaborado, o conteúdo é expelido por meio do que em psicanálise usualmente chamamos de acting out (ação não pensada), pois é incomodo. O que não pode ser pensado tende a ser expelido.
Nesse caso a fala não tem o intuito de comunicação, mas de atingir e destruir o objeto que impõe ameaça. Mesmo que o discurso possa parecer coeso e bem elaborado, muitas vezes usando de vocabulário rebuscado. Na realidade, se nos propusermos a perceber mais atentamente é possível reconhecer que o ser humano tem se utilizado muito mais da palavra no intuito de se livrar de desconfortos do que de participar fatos. Grande parte do que é dito não tem o intuito de comunicar, mas sim de evacuar. Isso deve acontecer sem a menor chance de que o conteúdo evacuado esteja disponível à transformação através da intervenção do outro, mas com o único e exclusivo intuito de se livrar do desconforto gerado. Seja esse desconforto provocado tanto por agentes internos, quanto pelo outro, no mundo externo. 
Muitas vezes a fala ainda pode estar a serviço de confundir o outro, muito menos do que para esclarecer fatos. Bion, já havia nos alertado para isso. “Às vezes, a função do discurso é comunicar a experiência emocional para outrem; às vezes, a função é comunicar a experiência emocional de modo errôneo.” (Bion, 1970). A fala pode servir para comunicar aquilo que é verdadeiro, apesar de que a verdade independe de ser dita. No entanto, existe uma relação de dependência entre a mentira e o mentiroso.  A mentira depende exclusivamente de alguém que a repita, para que se mantenha. A verdade existe independente de alguma pessoa para difundi-la. "É frequentemente esquecido que o dom da fala, tão fundamentalmente empregado, foi elaborado tanto com o propósito de ocultar o pensamento através da dissimulação e da mentira, como com o propósito de elucidar ou comunicar o pensamento.". (Bion, 1970).
A mesma palavra que serve para desvelar a verdade, pode também servir à mentira, assim como na tentativa de manter a verdade oculta.
Quando a palavra é proferida ausente de sinceridade e desnutrida de amor o seu efeito deve ser danoso, causando inúmeros estragos. Um “não” dito sem amor pode surtir efeito oposto. Quando um pai diz “não” com brutalidade, tende a gerar no filho um ímpeto de disputa, acendendo o desejo de retaliação. Assim, fica claro que a fala muitas vezes está distante do que realmente acontece. A palavra é um mero instrumento de comunicação. Se fossemos mais capazes de nos respeitar, não precisaríamos falar tanto. A palavra deve estar irrigada de sinceridade e amor, para que seja uma extensão da realidade. Um “não” dito por amor não carece de justificativas.
Na prática clínica psicanalítica a fala tem um papel importante, onde na história da elaboração da psicanálise ela própria foi apelidada pela paciente de Freud, Anna O de “cura pela fala”. “Ela descrevia de modo apropriado esse método, falando a sério, como uma ‘talking cure’ (cura de conversação), ao mesmo tempo em que se referia a ele, em tom de brincadeira, como “chimney-sweeping” (limpeza da chaminé).” (Freud, 1910 [1909]) Para Freud, a palavra era o instrumento fundamental no exercício clínico, onde tanto aquilo que se ouvia quanto aquilo que se falava formavam a base do processo de associação livre de ideias e suas interpretações. “A cura pela fala constituía um processo onde, através de interpretações verbais, visava-se promover mudanças na forma como o paciente pensava, desfazendo assim mal entendidos quanto às relações afetivas.” (Martino, 1915). No entanto, o que realmente parece surtir real efeito terapêutico parece ser o ato de acolher o paciente de maneira que não seja ameaçado por julgamentos ou interesses escusos, mesmo que não esteja dentro do âmbito verbal. 
Só desabafar não é o suficiente. O conteúdo precisa ser acolhido para haver transformação. Essa transformação não se dá necessariamente por meio das palavras, mas se realiza numa configuração ambiental, onde o estar sendo em relação ao outro é que realmente se configura no agente transformador. A criação de certa psicosfera benigna que propicia a vivencia de experiências emocionais reparadoras.
Para tanto é necessário que o psicanalista esteja integrado em sua personalidade, sendo capaz de se responsabilizar por suas questões emocionais. Na ocasião da desintegração do psicanalista ele também tenderá a evacuar suas frustrações no paciente, que muito provavelmente, padecerá com isso, por conta de seu estado de vulnerabilidade. Sem conseguir perceber o que realmente ocorre o paciente pode ser saturado dos conteúdos impensados do analista, que só por ocupar sua posição, não está livre de que isso ocorra. Um psicanalista desintegrado, que esteja incapaz de manter condições mínimas necessárias de concórdia interna e que não esteja em paz consigo mesmo, tenderá também evacuar suas frustrações em seus pacientes. Num tom bem humorado poderíamos pensar que quando a palavra é usada para evacuação é possível diagnosticar uma verborréia. Portanto, na ocasião em que as interpretações de um psicanalista desintegrado têm o intuito de evacuar seus desconfortos emocionais no paciente, que se mostra um alvo fácil, é possível então diagnosticar um quadro de interpretorréia. Quando o psicanalista sofre de interpretorréia deixa o paciente enfezado.


BION, W. R. O APRENDER COM A EXPERIÊNCIA. 1962 - Rio de Janeiro: Imago, 1991.
__________. ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, tradução de Paulo Cesar Sandler. - 2. ed. 1970 - Rio de Janeiro: Imago, 2006.
__________. Conferências brasileiras 1 – São Paulo, 1973. Rio de Janeiro: Imago,1975.
__________. ESTUDOS PSICANALÍTICOS REVISADOS (SecondThoughts). (TraduçãoWellington M de Melo Dantas) Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1967).
Freud, S. (1893) SOBRE O MECANISMO PSÍQUICO DOS FENÔMENOS HISTÉRICOS: UMA CONFERÊNCIA In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2002.
________. (1910) CINCO LICÕES DE PSICANÁLISE. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2002.
________. (1911) FORMULAÇÕES SOBRE OS DOIS PRINCÍPIOS DE FUNCIONAMENTO PSÍQUICO. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
________. NOVAS CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS EM PSICANÁLISE (1933 [1932]). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2002.
KLEIN, M. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. 1946 - In: KLEIN, Melanie. Tradução de A. Cardoso. Rio de Janeiro, RJ: Imago.
MARTINO, Renato Dias. O LIVRO DO DESAPEGO – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
SEGAL, H., “Notas a respeito da formação de símbolos” in A obra de Hanna Segal, Imago, Rio de Janeiro, 1982.





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terça-feira, 13 de março de 2018

RECONHECENDO LIMITES

O conceito de limite serve para descrever certa linha no tempo ou no espaço que separam duas ou mais extensões. O limite ainda diz respeito à proporção de capacidades. Determinando o alcance onde começa e onde deve terminar essa magnitude. Significa o ponto que revela até onde se pode ir, sem que se passe de certa fronteira. É o que impede uma coisa, mas ao mesmo tempo, admite outra. Sem o limite, uma coisa impediria a existência da outra. Portanto, é o que faz duas coisas conviverem lado a lado sem se anularem. 
Wilfred Bion (1897 –1979), introduz a teoria das funções no desenvolvimento mental, onde elementos beta, que são impressões sensoriais manifestadas como caóticas, incompreensíveis e desordenadas. Quando um bebê sente fome, por exemplo, ele ainda não possui linguagem para decodificá-la, então sente isso como um terror sem nome, uma sensação de iminência de morte. Os elementos beta, são conteúdos que procuram um continente que seja capaz de acolhê-los para que assim, possam sofrer certa transformação em elementos alfa, que ganham atributos do organizado e afetivamente integrável aos outros elementos da mente. Bion chama essa experiência de função alfa. Isso deve configurar-se a partir de características de maternágem. Um modelo que nasce na ação de cuidados mínimos necessários com o bebê. A relação de acolhimento só pode ser realizada por conta dos limites que demarcam o continente que acolherá os conteúdos que serão então contidos. 
A partir da função alfa que permitem a transformação de impressões sensoriais da experiência emocional em elementos-alfa, que à medida que proliferam, formando o que Bion em sua obra O APRENDER COM A EXPERIÊNCIA, publicada em 1962, chamou de barreira-de-contato.No capítulo oitavo dessa obra, Bion propõe que “Esta, em processo contínuo de formação, indica contato e separação entre elementos conscientes e inconscientes e inicia a diferenciação entre ambos.” (Bion, 1962).
É um limite que vai se configurando por conta da aglutinação, conglomeração e mútua relação dos elementos alfa.A estruturação da barreira-de-contato vai capacitando o sujeito a lidar com a transição e a circulação dos elementos mentais.
Portanto, na vida emocional o limite é questão fundamental no que se refere à capacidade. Fundamentalmente, aprender a reconhecer e então respeitar seus próprios limites é o que prepara o sujeito a não exigir do outro além do limite dele.O bebe vive com a mãe, na primeira infância, uma relação fusional, tanto da forma física, no âmbito umbilical, quanto posteriormente, de maneira emocional. O mundo e ele coincidem. Sem saber disso, ele vive uma dependência absoluta ao ponto de sucumbir sem os cuidados desta que ocupa o cargo de maternagem. 
Donald Woods Winnicott
(1896 - 1971)
Donald Woods Winnicott (1896 - 1971), psicanalista e pediatra inglês, numa reunião científica da British Psychoanalytical Association, realizada em 1941, propõe que, “Isso que chamam de bebê, não existe”. Winnicott apóia que o bebê não existe se não através dos cuidados da função materna. Viver de forma adequada essa relação de fusão é necessário e na realidade de importância fundamental na formação da personalidade do sujeito. Entre outros infindáveis motivos importantes o fato de ser essa experiência o registro fundamental para o futuro desenvolvimento da religação com o todo. 
No entanto, essa relação fusionada entre bebê e aquela que cumpre a função materna, deve sofrer uma transformação conforme a maturação do vínculo acontece, e nisso a presença paterna é de caráter essencial.
A função paterna é elemento de organização emocional e servirá de forma fundamental na experiência de percepção e reconhecimento do limite existente entre mãe e bebê. Sendo assim, a ausência desta função pode implicar em inúmeros prejuízos na formação emocional e estruturação da personalidade, como a saturação do papel da mãe. Essa saturação propicia a diminuição até o ponto de anular a personalidade da criança. Na vida adulta isso abre um precedente para converter-se em subserviência, ou por outro lado, em arrogância, como tentame de compensação do sentimento de inferioridade.
Sigmund Freud (1856 – 1939) introduz a ideia de superego como sendo uma parte do aparelho estrutural da mente. Um representante interno da interdição do acesso livre entre o bebê e sua mãe, feito pela apresentação da função paterna. “Freud atribui ao superego o título de herdeiro do complexo de Édipo. Sob essa perspectiva, a força que reprimiu os sentimentos incestuosos nos processos edípicos hoje atuam na estrutura do eu como superego.”. (Martino, 2012). Enquanto o id reinava no funcionamento do bebê o limite era desconhecido, no entanto, com a entrada da função paterna se instala um ideal de eu a ser alcançado. “O ideal do ego é, portanto, o herdeiro do complexo de Édipo e assim constitui também a expressão dos mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes libidinais do id.” (Freud, em A DISSOLUÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO, 1924).
Assim, a função principal do superego é a limitação das satisfações.
Bem, na situação da presença afetiva e participativa da função paterna, o processo de percepção e reconhecimento do limite deve se desenvolver de maneira natural. Quando for possível estabelecer vínculo saudável, isso deve ocorrer de forma paulatina, num processo gradativo. Essa percepção deve seguir um fluxo progressivo, conforme a maturação emocional se desenvolve. Dessa maneira, deve se suceder sem tantos traumas ou revezes, já que se trata de um processo naturalmente delicado e conflituoso, que sempre convida à disputa de forças. Uma criança saudável deve naturalmente testar seus limites colocando a prova seu vigor frente ao mundo.
Por mais que, pelo menos de maneira coloquial, a palavra limite esteja muitas vezes acompanhada da palavra imposição, ou ainda esteja associada à menção de que se deva “colocar” limites, quando essas duas ordens de conceitos encontram-se juntas, isso revela que algo não pode ocorrer de maneira saudável. Se existe a necessidade de imposição é sinal de que algo falhou e precisa então ser repensado. Na dimensão emocional, o limite existe independente de ser colocado, o limite está lá e independe de imposição. O que se pôde fazer, na realidade, é se tornar capaz de reconhecê-lo. Quanto ao limite não se discute só se pode respeitar. De outra forma, a realidade é abandonada se instalando uma produção alucinatória.
A estruturação superegóica é sempre uma experiência delicada e quando os limites não podem ser reconhecidos de maneira amena uma serie de consequências se erguem no caminho do desenvolvimento. “Quando o superego se estabelece, quantidades consideráveis do instinto agressivo fixam-se no interior do ego e lá operam autodestrutivamente. Este é um dos perigos para a saúde com que os seres humanos se defrontam em seu caminho para o desenvolvimento cultural.”.(Freud, em ESBOÇO DE PSICANÁLISE (1940).
Se por um lado o limite separa, por outro lado une, já que os elementos dentro da realidade são configurados num todo, a partir dos vínculos. Assim como o entardecer separa o dia da noite, também é o que junta um período no outro. O processo de tomada de consciência, no acordo que se pode travar com a realidade, ocorre impreterivelmente, através dos vínculos. O vínculo é o que permite se estar junto, mesmo na ausência do objeto vinculado.  O vínculo saudável proporciona estar uno a si mesmo e, por conseguinte uno ao mundo e isso ocorre através da capacidade simbólica. 
Dentro da perspectiva material o reconhecimento dos limites é preponderante. Na cultura oriental temos o conceito de Maya, uma expressão que vem da raiz sânscrita “Mâ”, que significa “medir”, ou ainda “aquilo que se pode medir”. Esse termo também significa “ilusão”, ou “mundo de aparências”. A ilusão do mundo físico na materialidade das coisas. Nessa perspectiva o limite é fundamental. Quanto mais imatura a relação, mais necessário passa a ser o reconhecimento consciente dos limites. No entanto, a maturidade dos vínculos traz consigo a possibilidade de se desenvolver uma etapa evoluída o suficiente para promover a um reconhecimento da proximidade que desfaz o limite e une os elementos numa só realidade. Através do reconhecimento do limite é possível a percepção de que não se é o todo e nem o centro do todo, mas que cada um de nós é uma parte do todo.

BION, W.R. (1962). O APRENDER COM A EXPERIÊNCIA. Rio de Janeiro: Imago, 1992.
__________. (1963). ELEMENTOS EM PSICANÁLISE. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
FREUD, Sigmund. EDIÇÃO BRASILEIRA DAS OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
MARTINO, R.D. PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE - 1. ed. -- São José do Rio Preto,SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
WINNICOTT, D. W. (1955). TEXTOS SELECIONADOS. DA PEDIATRIA À PSICANÁLISE. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.




Prof. Renato Dias Martino 
Psicoterapeuta e Escritor
Alameda Franca n° 80, 
Jardim Rosena, São José Do Rio Preto – SP  
Fone: 17 991910375 -