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domingo, 29 de setembro de 2024

DESAPEGO E VONTADE - Prof. Renato Dias Martino


DESAPEGO


Toda a configuração da prática do desapego, e quando eu falo prática do desapego aqui, nós estamos falando diretamente do intuito da própria psicanálise, porque a psicanálise propõe essa ideia de se desapegar. São inúmeras formas de se dizer isso, uma delas por exemplo está proposta lá em 1917 no LUTO E MELANCOLIA, que é ser capaz de viver o processo do luto e aqui nós estamos chamando de desapego. Então, a proposta do desapego coincide com a proposta psicanalítica. Esta proposta tem um desafio que é a vontade. A vontade que, na medida em que não é satisfeita no seu tempo, na medida que não é cumprida, suprida no seu tempo adequado, vai se desdobrar em desejo. Um sujeito que está saudável, que está funcionando de maneira saudável é aquele que é capaz de se desapegar, é aquele que é capaz de renunciar dos seus desejos e capaz de adiar suas vontades. Isso se configura num fluxo do desenvolvimento emocional e afetivo.


VONTADE


Quando a gente fala de vontade, a gente está falando daquilo que ao mesmo tempo que é a manifestação da vida, também é aquilo que pode obstruir o próprio fluxo da vida. Muitas vezes, a manifestação da vontade atenta contra a própria vida do sujeito. Ele, muitas vezes, está com tanta vontade que ele, por si só, pode se colocar em uma cilada. Um Bom exemplo disso é quando a molecadinha, lá no sítio, arma uma arapuca para pegar passarinho. A arapuca está cheia de milho para que o passarinho possa se alimentar e é justamente a vontade de viver que leva o passarinho buscar o milho. E esta vontade de viver faz com que ele caia na arapuca. Então, a vontade de viver é também aquilo que leva sujeito, muitas vezes, para a própria morte.


DESEJO


Essa ideia do desejo, ela é extremamente polêmica, principalmente dentro de outras escolas aí, por exemplo, dentro da escola lacaniana. Vou ser bem sincero, tenho um conhecimento extremamente limitado das propostas do Lacan, mas me parece que ele trata, os lacanianos tratam da ideia de desejo diferente da forma como nós tratamos aqui. Nós tratamos aqui o desejo como algo que não é necessário, mas que ainda assim, o sujeito quer. Então, quanto mais o sujeito for capaz de se desapegar, renunciar desse desejo, mais ele vai estar de acordo com a realidade, que está configurada naquilo que é necessário.

NECESSÁRIO


A vontade é genuinamente do sujeito. O sujeito tem vontade de alguma coisa e isso diz respeito à sua necessidade básica. O desejo diz respeito à interferência, ou a contaminação do que o outro quer. Então, vontade é básica, a vontade se manifesta através do corpo, por conta de necessidades básicas. E aí, o Schopenhauer nos orienta muito bem, lá no MUNDO COMO VONTADE DE REPRESENTAÇÃO. O desejo já é algo que se elegeu um objeto substitutivo para tentar suprir algo que não foi adequadamente suprido no nível da vontade.


REPRIMIDO


Existe um instinto e o instinto está ali, assim como o Freud nos orientou, está ali na barreira entre o somático e o psíquico, entre o somático e o psíquico, entre a carne e a mente. De início é uma manifestação orgânica que nós vamos chamar de instinto. Então, o instinto está ali naquela barreira, o instinto se manifesta pelo corpo, mas já não é mais do corpo. O corpo é o soma, o corpo são manifestações orgânicas. O instinto já transcende o orgânico. Primeiro o instinto. O instinto está ali, na barreira do somático e do psíquico. Este instinto vai se manifestar através da pulsão. A pulsão é algo que acontece por conta da demanda instintiva, ou instintual, melhor dizendo. Esta pulsão vai gerar o que a gente vai chamar de impulso. Então, o impulso é a ação da pulsão. Este impulso vai ser a ação em direção a um possível objeto que possa vir suprir a demanda do instinto. Quando essa satisfação não acontece o impulso retorna. E aí, a gente vai chamar de reprimido. Por quê? Porque não houve a satisfação, não houve o suprimento da demanda do instinto. Retorna este impulso. E aí, a gente vai chamar de impulso reprimido. Este impulso reprimido agora não vai mais se satisfazer com o objeto original, ele vai eleger um outro objeto para satisfazê-lo. Este outro objeto é um objeto de desejo, não mais um objeto de vontade, que seria a demanda do instinto.


NASCE UM DESEJO


Para que se desenvolva o desejo é necessário ter havido a repressão. Reprimiu-se a vontade e agora a vontade já não se satisfaz mais com o objeto original, mas agora, precisa de algo a mais, para ser supostamente satisfeito. Porque não vai ser satisfeito. Desejo nunca se satisfaz, o que se satisfaz é a vontade. O sujeito que deseja, ele quer sempre mais. A vontade se satisfaz até que haja novamente a sua demanda.


AMBIENTE 


Quando o Winnicott propõe a mãe ambiente, ele está propondo a mãe, não como outro, mas como o ambiente. Ela vai dar conta da demanda das necessidades. Ela vai dar conta da demanda da vontade e se ela der conta disso, tanto menor vai ser a geração de desejos. Quando ela não é capaz de suprir essas necessidades, quando ela não está sendo suficientemente boa, ele começa a desenvolver desejos, porque a vontade não foi satisfeita. Então ele começa a vincular aquela vontade à relação com o outro que já não é mais ambiente, mas é realmente um outro. Então ele precisa fazer alguma coisa para que esse outro venha suprir isso. E aí, já não é mais vontade é desejo.


PULSÃO DE VIDA 


Quando Freud propõe pulsão de vida, ele está ali, se baseando na ideia de vontade do Schopenhauer, falando sobre a manifestação do instinto, daquilo que é mais primitivo no ser humano. Então, não tem a ver com desejo. Quando isso não é satisfeito, começa a se desenvolver o desejo que já não é mais básico, mas que já tem uma contaminação de algo a mais do que a satisfação da necessidade básica.


VORACIDADE


A voracidade é uma expressão do desejo. Quando a criança começa desenvolver voracidade é porque ela não foi satisfeita, ou não foi suprida no tempo adequado, aí ela começa a ter vontade para além da conta. E aí, se torna desejo. O Winnicott vai falar assim, que a criança alucina o seio e a mãe encaixa o seio real na alucinação do bebê. Quando essa alucinação que o bebê tem do seio não é suprida no seu tempo, esta alucinação cresce. A vontade não foi satisfeita e começa a crescer, então aquela vontade que gerou uma alucinação x, agora é x elevada a tanto. Aquele seio que vai se encaixar nessa alucinação já não vai mais suprir, porque essa alucinação já virou um desejo.


SUJEITO DESEJANTE


Então a gente vai partir da ideia do objeto. O que é um objeto? Ser um objeto é ser alguma coisa que alguém deseja. Objeto é algo que é desejado. O bebê precisa ser um objeto desejado. Ele precisa ser alguma coisa que o outro deseja. Um objeto precisa ser desejado para que ele possa se mover. Um vaso é um objeto. Se alguém não desejar esse vaso, ele vai ficar esquecido lá. Então, eu preciso desejar o vaso para que o vaso saia do lugar. Eu desejo o vaso, eu pego o vaso e levo pra minha casa. Quando o sujeito vai se desenvolvendo emocionalmente, ele deixa o lugar de objeto desejado para sujeito desejante ele passa a desejar. A maioria das escolas psicanalíticas acabam a história aí. O sujeito é um sujeito desejante, está ótimo! Não! Não está ótimo. Agora ele precisa se qualificar para ser capaz de renunciar do seu desejo. Aí sim, ele está aberto. Aí sim, ele desobstrui o caminho do acordo com a realidade. Porque a realidade existe independente do seu desejo e se você continuar sendo um sujeito desejante, você não vai conseguir entrar num acordo com a realidade, que existe independente do seu desejo.


RENÚNCIA


No senso comum a gente vincula a ideia de liberdade à possibilidade de satisfazer os desejos, mas na realidade, a verdadeira liberdade é ser capaz de renunciar dos desejos, de não satisfazer os desejos. Ser capaz de tolerar que o seu desejo não vai ser satisfeito. Para quê? Para que você possa investir a sua libido na necessidade básica, na vontade, naquilo que realmente vai te trazer enriquecimento para o fluxo da sua vida. Então, a liberdade não está em satisfazer desejos, mas está em ser capaz de investir naquilo que é necessário.


ESCOLHA


Se a gente estiver falando de vontade, não tem escolha, o caminho é um só. Você pode até adiar, mas não tem como escolher você não tem como escolher se alimentar ou não, mas você pode adiar a alimentação. O desejo tem escolha. Você pode escolher ou não. Eu posso escolher por exemplo até não suprir a minha vontade e tentar realizar o meu desejo. Vou ter um prejuízo com isso, mas o livre arbítrio está ali. Para que eu possa, talvez reconhecer que, quando eu estou satisfazendo o meu desejo, eu tenho prejuízo da minha necessidade básica. E aí, eu aprendo com a experiência e percebo que o caminho é um só não são dois.


QUERER


A semântica da palavra vontade, ela diz respeito a querer. Querer está ligado tanto à vontade, quanto ao desejo. Quem deseja quer alguma coisa e quem tem vontade também quer alguma coisa. Querer é a base, mas esse querer é de desejar ou de ter vontade. Se for de ter vontade é necessidade básica, se for de desejar é alguma coisa que não é necessário.


TOLERAR


A vontade, ou o desejo geram ansiedade. Ansiedade é ânsia, busca. Quando eu sou frustrado nisso que eu fui buscar, eu sinto angústia. Angústia diz respeito à frustração. Quando eu estou falando de adiamento da vontade, ou de renúncia do desejo, nós estamos falando de ser capaz de tolerar a frustração, de ser capaz de tolerar a angústia gerada por não conseguir aquilo que se buscava. Eu preciso me tornar capaz de renunciar, ou adiar. Renunciar se for desejo e adiar se for vontade. Se eu conseguir isso, eu vou conter essa ansiedade e aí, eu inclusive, posso até direcionar para alguma outra coisa mais adequada, ou suprir essa vontade num momento mais adequado.


TROFÉU 


O sujeito, quando está com sobrepeso, quando ele está mais gordo do que o saudável, isso quer dizer que está havendo uma obstrução na vontade de viver. Quando você está pleno na sua vontade de viver, o seu corpo está adequado ao fluxo da sua vida. Então, emagrecer dentro da vontade de viver é se adequar ao peso que vai te trazer a possibilidade do fluxo da sua vida. Agora, muitas vezes, o sujeito tem uma configuração mais fofinha, o sujeito tem uma configuração natural mais gordinha, por conta de inúmeros fatores hereditários, inúmero... isso não é, de maneira alguma, nocivo. Mas, o que acontece? Existe um padrão social de beleza e quando esse padrão fala mais alto, o sujeito começa a questionar a sua configuração corpórea para se adequar a este modelo. Aí já não tem a ver com vontade, aí tem a ver com desejo, aí tem a ver com o desejo de se adequar àquilo que é o desejo do outro. Então, eu preciso ser de uma forma ou de outra, para ser desejado pelo outro. Quando estou falando de uma adequação da saúde, nós estamos falando da vontade. E aí, você pode realmente adiar o emagrecimento, mas você não pode renunciar, porque senão você morre. Você vai engordando até morrer, até uma obesidade mórbida. Agora, quando você é fofinha, sempre foi desde menininha, a tua mãe é fofinha, todo mundo da tua família tem, mais ou menos esse estereótipo e você por algum motivo, por alguma experiência malsucedida, não conseguiu reconhecer a si mesmo e se contentar com o seu corpo e começa a estabelecer um ideal de corpo que a sociedade pregou, então, você está desejando ser de outra forma, então isso não é simplesmente adiar o emagrecimento, mas é renunciar a esse emagrecimento. Porque, por mais que você seja fofinha, você está saudável e muitas vezes, qualquer tipo de dieta, ou de exercício excessivo, vai fazer muito mais mal do que continuar sendo fofinha e linda como você é. Uma cilada! Porque, um sujeito que procura uma mulher com o corpo no padrão pré-estabelecido da sociedade, ele não está disposto a se aproximar de uma mulher para amá-la, mas ele quer um troféu para mostrar, para exibir a mulher. Quer se tornar bela para ser desejada pelo outro e o homem quer uma mulher bela para ser desejado pelo outro por ter essa mulher bela. Uma sociedade podre! Uma sociedade nociva, que só pega os desavisados, que só pega os estruturados, que só afeta o sujeito que não está sendo capaz de reconhecer a si mesmo, que não está de bem consigo mesmo.


TEORIA


Nós estamos aqui tentando refletir. Ninguém aqui está tentando colocar uma verdade acabada, ou saturada. Até porque, isso aqui é uma formulação nova, nós estamos formulando agora. Ah! Mas onde é que eu encontro isso, na literatura? Eu não sei! Sinto muito! Vou ficar devendo para vocês. Se não estiver fazendo sentido através da nossa reflexão, passa o vídeo, não precisa assistir. Não tem problema. Agora, se estiver fazendo o sentido, ótimo, vamos pensar juntos. É muito mais interessante que a gente possa, através das nossas experiências, refletir sobre o que a gente está chamando de instinto, sobre o que a gente tá chamando de pulsão, do que a gente tá chamando de desejo, ou de vontade, do que revisar literaturas. É muito importante que a gente possa reconhecer esse desencadeamento que vai do corpo até a alma. Não por uma especulação teórica, ou literária, mas por conta de algo que você reconhece no seu próprio funcionamento. Isso é muito mais importante do que qualquer leitura teórica, seja desde Kant, Schopenhauer, Platão, até Bion. ou qualquer outro contemporâneo.





domingo, 4 de junho de 2023

SOBRE PERCEBER, RECONHECER, RESPEITAR, RESPONSABILIZAR-SE PARA TRANSFORMAR

Cinco conceitos presentes no desenvolvimento emocional afetivo. Desenvolvimento, maturação, ou ainda a possibilidade de reparação do funcionamento emocional-afetivo. Lembrar que eu falo funcionamento emocional-afetivo? Porque, quando a gente fala emocional a gente está falando daquela experiência de algo que está dentro e vai para fora. “Moção” quer dizer movimento e “E” quer dizer para fora. E afetivo é aquilo que implica a relação com o outro. AFACERE. “A” em direção a e “FACERE” é fazer. Fazer alguma coisa em direção a. Então, temos aí, uma emoção que encontra um afeto. Quando a gente está falando de desenvolvimento, maturação emocional-afetiva, ou ainda, reparação emocional-afetiva quando a gente está falando desse tipo de experiência, nessa ordem de experiência, eu preciso impreterivelmente do outro. Não existe a possibilidade de desenvolvimento, de maturação, ou de reparação no funcionamento emocional-afetivo, que não tenha a implicação do outro. Ou seja, o estabelecimento do vínculo. Então, todas as vezes que a gente estiver falando de formulações psicanalíticas, nós temos implicado aquilo que lá em 1963, Bion sugeriu como primeiro elemento de psicanálise. Lá em ELEMENTOS DE PSICANÁLISE. Qual é o primeiro elemento de psicanálise para o Bion? É a relação entre continente e contido. É muito simples isso: algo passa a ser contido e algo que passa a conter. Então, precisa haver isso que aqui nós chamamos de acolhimento. Algo que está propício a acolher e algo que está disposto a ser acolhido. Quando a gente tem esse encontro, passa a ser possível a expansão, a maturação desenvolvimento, ou ainda, a reparação, a restauração, a entrada do outro é preponderante no funcionamento emocional-afetivo. Tanto para as experiências bem-sucedidas, quanto mal sucedidas é o outro que traz a possibilidade do desenvolvimento. É o outro que traz a possibilidade da reparação, mas também é o outro que vem para estragar tudo. Quando eu não cuido morre, quando eu cuido mal cuidado, volta-se contra mim, agora, quando eu cuido bem, cuidado com o amor, com dedicação, com sinceridade, aí vira minha esperança. Então, nós temos aqui uma analogia muito interessante, que é da semente e do solo fértil. Então, todos os elementos que nós vamos ver aqui; um por um, carecem de um olhar dentro dessa analogia da germinação. Da possibilidade de uma semente germinar. Então, nós não vamos estar falando aqui, em nenhum momento, do “deveria ser assim”, tem que ser assim, mas nós vamos olhar para isso, reconhecer isso, como se reconhece uma planta que vai germinando. Ninguém está olhando você precisa fazer isso, tem que fazer assim. Você não tem que, você olha para semente, você não fala para ela: “agora você tem que fazer isso”. Se ela encontrar um solo fértil, vai acontecer, se ela não encontrar, não vai acontecer e o desenvolvimento emocional é assim também. Não tem que ser, vai ser, se houver todo o ambiente saudável e próspero, profícuo o bastante para que isso possa acontecer. Então, alguns elementos que vão se suceder, dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, sendo que não existe a possibilidade de sobreposição de um elemento ao outro. Existe um processo que respeita um fluxo e ao mesmo tempo não existe retrocesso. Pode haver sim, uma obstrução. Eu diria até que, na maioria das vezes há uma obstrução, mas retrocesso não. Não existe retrocesso dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, por isso que eu sou categórico em dizer que a palavra “regressão”, “regredir”, é completamente inadequada dentro das formulações psicanalíticas. Não existe regressão. Existe fixação, por conta de uma obstrução, mas não regressão. “P 3R T” O primeiro é o “P” – PERCEPÇÃO. Perceber algo no funcionamento emocional afetivo. Este é o ponto de partida o sujeito percebe algo e este algo que ele percebe é impreterivelmente um desconforto. Todo o crescimento, toda experiência, todo e qualquer movimento do aparelho emocional-afetivo, parte de um desconforto. Não existe qualquer experiência emocional-afetiva que não tenha partido do meu desconforto. O Freud chamava isso de libido, pulsão. A libido, quando se movimenta, ela tem a tendência de pulsão e isso é sentido pelo corpo como um desconforto. Antes do Freud, o Schopenhauer já chamava isso aí de vontade, vontade de viver. A vontade de viver é um desconforto. Antes do Schopenhauer, Kant já chamava isso aí de “coisa em si”. A “coisa em si” é desconfortável, incognoscível, eu não posso conhecer isso, eu só sinto como um desconforto. Esse desconforto pode ser sentido como uma insegurança, como um medo, tristeza... Esses desconfortos vão se desdobrar em raiva, hostilidade, inveja e um monte de coisa que a gente vai chamar de indesejável. Por isso, a percepção tem um perigo de obstrução, porque o sujeito sente isso e ele quer acabar com isso. Você sente uma coisa ruim, você quer acabar com aquilo, ali você quer controlar aquilo, você quer cessar aquilo e este é o grande problema. Porque aí, você aborta o processo. Aí você obstruir processo. Muitas vezes, o sujeito percebe alguma coisa, percebe um desconforto no funcionamento-emocional dele e ele corre direto para o psiquiatra, para que ele possa ser medicado, para ele parar de sentir aquilo. Mas é aquilo ali que vai fazer com que ele se desenvolva emocionalmente. O sujeito perde alguma coisa e ao invés dele passar pelo processo do luto, ele sente entretecimento por conta da perda e ele já vai se medica e acabou. Agora, não é só o medicamento. O medicamento, talvez seja a mais complicada de todas, a mais difícil, porque, quem te dá esse medicamento é um doutor. E aí, não tem como discutir com o doutor, né? E obstrui esse processo, abortar o processo, logo de início de percepção. Um outro, de outras formas, você pode com uso de algo drogas, abusos de compras, compulsão de compras, compulsão alimentar, tem um monte de jeitos do sujeito desviar obstruir o processo de desenvolvimento emocional dele no comecinho que é a percepção da dor. Principalmente se ele estiver sozinho, principalmente se ele não puder contar com o primeiro elemento de psicanálise, que é continente<>contido. Principalmente se ele não puder ser acolhido pelo outro, principalmente se essa sementinha não encontrar um solo fértil para germinar. Aí vai abortar... Mas não abortando e conseguindo tolerar o desconforto da percepção, ele passa para a próxima fase do processo, que é o RECONHECIMENTO, que é o primeiro “R” dos 3 erres. “P 3R T” Quando o sujeito admite realmente que ele sente aquilo e que aquilo ali está nele. Eu reconheço isso, eu não só sinto isso, eu não só percebo isso, mas eu reconheço que isso está ali, eu reconheço isso e reconheço que isso está em mim. Porque eu posso pensar que está no outro, eu posso projetar isso no outro. Não, mas eu admito a existência disso e admito que isso está em mim. Aí, também pode ser obstruir, se ele estiver no reconhecimento, ele não pode retroceder. Mas reconheceu não tem como voltar, não tem como deixar de perceber, porque ele já reconheceu. Agora, ele pode obstruir aí, ao invés de reconhecer ele passa a tentar saber sobre isso. Não reconhecer, mas conhecer isso, entender o que é isso, compreender o que é isso, que não está na ordem do cognoscível. Não, você não pode saber o que é isso, se você der um nome para isso, ali naquele momento você aborta o processo. Você precisa tolerar a dúvida, reconhecer isso tolerando a dúvida. Reconhecer não é conhecer, é admitir a existência. Procura o diagnóstico por exemplo, E aí, ele vai no psiquiatra, o psiquiatra vai dar um nome para aquilo. Porque ele tentou cessar aquilo, ele tentou parar aquilo, ele tentou controlar aquilo, que na realidade é o fluxo do desenvolvimento emocional dele. Dolorido, desconfortável. Muitas vezes, é nesse momento que o paciente interrompe a psicoterapia, porque ele reconhece que aquele desconforto está nele, não está no outro e que é da competência dele tratar aquilo. Reconhecendo isso e essa palavra “reconhecer”, ela é sugestiva, né? É polissêmica, né? Ela tem vários sentidos, um deles é “conhecer novamente”. Cada encontro que eu tenho com isso é como se eu não conhecesse. Então. eu conheço novamente cada vez que eu sinto isso. Eu sinto de uma forma diferente e é por isso que o Bion nos orienta: sem memória. O analista precisa não estar se baseando, se apoiando nos conteúdos armazenados na memória sobre o paciente, sobre qualquer coisa, porque cada vez que o paciente chega, é uma pessoa nova que tá ali. Ele tem a chance de ser uma pessoa nova e isso passa a ser um modelo para o sujeito tratar a si mesmo, cada vez que ele entra em contato consigo mesmo ele precisa entrar em contato com alguém novo. O vínculo é um vínculo novo. Então, reconhecer. Mas essa palavra ela é muito mais do que conhecer novamente, ela também é ser grato. Ser grato por ter percebido um desconforto. Consegue? Porque, muitas vezes a gente sente um desconforto a gente quer evitar. Aquilo é ruim. Mas como é que eu posso ser grato por algo que é confortável. Pois é! Porque isso daí é a chave da minha libertação, que se eu for capaz de tolerar isso, isso daí vai crescer, vai me tornar uma pessoa melhor. Reconhecer também é ser grato. Bom, se foi possível reconhecimento e não fiquei obstruído no meio do caminho, passamos para a próxima etapa: aprender a RESPEITAR. Eu PERCEBI, admitia a existência, RECONHECI e agora, eu passo a RESPEITAR isso que eu reconheci. Agora, eu posso ficar na etapa anterior, não posso? Reconhecer alguma coisa não garante que eu seja capaz de respeitar isso que eu reconheci. Foi o que a gente falou: o paciente pode obstruir o processo aí. Ele reconheceu, mas não deu conta de respeitar aquilo. Se ele conseguir encontrar a possibilidade de estabelecer a relação continente<>contido, como nos orientou o Bion, passa a ser possível expandir para aprender a respeitar isto que foi reconhecido. Vamos usar o exemplo do medo. Percebi um medo, reconheci esse medo e agora eu passo a respeitar este medo. Ao reconhecer este elemento, ele já não é mais um intruso na minha mente, ele foi reconhecido, ele já não é mais um elemento estranho. Eu já percebo aquilo ali como um integrante do meu processo psíquico, meu processo emocional-afetivo. Não é estranho, mas é meu e se é meu eu preciso aprender a respeitar esta limitação. Se foi possível chegar até aí, é porque a gente teve ali um vínculo bem sucedido. Tivemos aí, uma experiência de acolhimento. Porque, só a experiência de acolhimento pode levar o sujeito a chegar a respeitar isso que ele admitiu a existência e que ele percebeu. Um medo, vamos voltar no medo. Quando ele percebe o medo, reconhece esse medo e passa a respeitar este medo, este medo que um dia foi uma obstrução das experiências dele, das atitudes dele, que estavam sempre povoadas de medo, sempre inundadas de medo, se chegar até o respeito, este medo passa a ser um integrante da prudência. Já não é o medo paralisador, é um medo que traz para ele prudência, autopreservação. Mas ele precisa ter aprendido a tolerar a ponto de respeitar. Aí, já não é obstrutor, protege e faz com que ele consiga viver as experiências dele de uma maneira muito mais saudável. Nem paralisado e nem é inconsequente. Se eu conseguir aprender a respeitar, eu passo para a próxima fase, que é aprender a me RESPONSABILIZAR por isso. Responder por isso. Isso é meu, faz parte de mim e eu me responsabilizo por isso. E não só me responsabilizo por isso, mas eu me responsabilizo por todas as consequências disso na minha vida. Todo esse processo é impossível, é inaplicável sem o vínculo afetivo com o outro, sem que outro possa me ajudar a fazer isso não dá para fazer isso sozinho. Não se faz isso sozinho, é impossível. Por mais que você tenha comprado vinte, trinta livros de autoajuda, que dizem para você que dá para fazer sozinho, não, dá! Quando eu passo a me responsabilizar, abre-se a possibilidade de TRANSFORMAÇÃO. Agora, todo esse processo é vivido com uma incerteza enorme. Cada etapa não tem certeza nenhuma. Não existe certeza nesse processo e a transformação é uma grande insegurança. Porque quando a gente fala que de transformação, essa palavra parece ser muito bonita, mas a transformação quer dizer que você está saindo de uma forma e transformando para outra e você não sabe qual é esta outra. Quando você vê ali a lagarta virando borboleta é muito lindo, né? Você já sabe que a lagarta vai virar borboleta. Mas quando é você que é a lagarta, você não tem qualquer noção de que borboleta que você vai virar. Você pode ser uma lagarta da beronha, né? Sei lá! Ué! Do Besouro Rola Bosta, né? Desculpa brincadeira, mas não é isso? Você não sabe o que que você vai se tornar. E se você vai ser capaz de ser responsabilizar por isso você vai se tornar.


Prof. Renato Dias Martino



sexta-feira, 1 de julho de 2022

UMA REFLEXÃO SOBRE A TEORIA DAS FUNÇÕES de Wilfred R. Bion


A teoria que seja proposta dentro do âmbito psicanalítico não pode se configurar de forma saturada, ou seja, não pode se prestar a trazer precisão ou exatidão. Assim como numa análise de alguma especialidade da medicina, o exame deve ser o mais exato possível. Diferente disso, a tarefa das teorias psicanalíticas é a de fornecer recursos para a nomeação de experiências que ocorrem no plano não sensorial. Portanto, carecem de modelos, para nos abordarmos o que se cogita. O modelo não é uma reprodução do que se busca, mas é uma ponte para nos aproximarmos disso. Deste modo, deve ser utilizado como analogia, num "como se fosse", guardando semelhanças e também diferenças e não de forma idêntica ao que se está propondo.
Na teoria das funções, proposta por Wilfred Bion (1897 – 1979) em APRENDENDO DA EXPERIÊNCIA, de 1962, ele traz o que mais tarde iria reconhecer como primeiro elemento de psicanálise na relação entre continente e contido. Para Bion, em 1963, na obra ELEMENTOS DE PSICANÁLISE, algumas características são condições para que um conceito (experiência) seja enquadrado como elemento de psicanálise. Deve estar a serviço da representação na formulação originalmente usada e ainda deve permitir relacioná-lo com outros elementos. Portanto, elemento é algo que pode ser combinado com outros para gerar significado. Com isso, passa a ser possível configurar um sistema interdependente para ser aplicada na experiência com a realidade. 
O primeiro elemento de psicanálise, diz respeito a relação possível entre algo que possa dispor-se como continente e outro algo que se disponha a ser contido. “Ele é uma representação de um elemento que poderia ser denominado como uma relação dinâmica entre continente e contido.”. (Bion, 1963) Essa proposta é uma expansão do pensamento de Melanie Klein (1882 — 1960), na concepção do que ela chamou de identificação projetiva (1946), um mecanismo defensivo frente às angústias esquizoparanoides. No entanto, para Bion, identificação projetiva é a forma mais primitiva de comunicação. Em APRENDENDO DA EXPERIÊNCIA, Bion propõe “função” como sendo experiência mental de certos fatores que funcionam combinados e “fator” como experiência mental que funcionando em conjunto com outros fatores, configuram uma função. Assim como na matemática, aqui também, função representa a relação entre dois conjuntos de elementos, ou ainda, a transformação de um modelo para outro.
Para Bion, a função-alfa acolhe impressões sensoriais e emoções perceptíveis, no que Bion denominou elementos-beta e as transforma em elementos-alfa, então passíveis de se integrar e corresponder aos requisitos de pensamentos oníricos, logo, podendo ser sonhados. Enquanto os elementos-betas não tem a qualidade do que poderíamos chamar de integrabilidade, os elementos-alfa são a menor manifestação do que pode ser combinado com outros, para assim, ganhar significado. Portanto, a experiência emocional só pode se configura como pensamentos oníricos, depois de elaboradas pela função-alfa. 
Immanuel Kant (1724 — 1804)
Conceituando impressões sensoriais de elementos-beta, Bion resgata a ideia do que Immanuel Kant (1724 — 1804) nomeia de noumena e que não se experimentam como fenômenos. São coisas-em-si, no que posteriormente Arthur Schopenhauer (1788 — 1860) chamaria de vontade de viver, ou simplesmente Vontade, ou ainda muito próximo do que Sigmund Freud (1856 - 1939) chamou de pulsão. Sendo assim, elementos-beta não se prestam aos pensamentos oníricos, não podendo ser sonhados ou pensados, mas podem ser usados na identificação projetiva e produzem atuações (ações impensadas). 

“Elementos-beta: Este termo representa a mais antiga matriz da qual é possível supor que os pensamentos brotam. Eles compartilham qualidades com o objeto inanimado e com o objeto psíquico, sem que haja qualquer forma de distinção entre os dois. Pensamentos são coisas, coisas são pensamentos e elas têm personalidade.” (Bion, 1963)
Elementos-beta, são em última instancia, o que há de mais primitivo no funcionamento mental. No princípio da vida, quando o bebê sente uma necessidade, como fome, frio, dores, ou qualquer que seja o desconforto, isso ocorre sem a menor capacidade de pensar o que lhe acomete, configurando-se, portanto, num medo de aniquilamento.
Sobre isso, Donald Woods Winnicott (1896 - 1971), cogita, em 1963, sobre o medo do colapso (breakdown), terror que se configura num pavor do vazio profundo. No entanto, o bebê tem uma expectativa inata do acolhimento da mãe e isso o faz buscá-la. O amor da mãe se expressa pelo fator rêverie (do francês “devaneio”). Para Bion, rêverie é estado mental aberto a receber tudo que venha do objeto amado, sendo assim, acolhe as identificações projetivas do bebê. “Em suma, rêverie é fator de função-alfa da mãe.” (Bion, 1962) Se a projeção não é aceita pela mãe, o bebê sente que o seu medo da morte é real e reintrojetará não um medo mais tolerável, mas um “terror sem nome”, a ausência de representação.
Em sua obra TRANSFORMAÇÕES, Bion levanta a questão dos elementos de transformação e as invariâncias. Bion propõe a analogia de um pintor que contempla uma certa paisagem para pintá-la. De um lado da experiência está a paisagem e do outro, a tinta na tela. A pintura representa a paisagem. Entre a contemplação da paisagem e a tela pintada existem elementos permaneceram inalterados ao ponto de ser possível reconhecer que aquela tela representa a paisagem em questão. Ainda assim, como o artista vê a paisagem e passa para tela, promove transformações. “Aos elementos responsáveis pelo aspecto inalterado da transformação, chamo invariantes.” (Bion, 1965). Dessa forma, a mãe continente, recebe a imagem do bebê desesperado e através de sua função-alfa, devolve a ele, a imagem de uma mãe acolhendo esse bebê. E ainda, o pai continente, recebe a imagem de uma mãe acolhendo um bebê desesperado e devolve a ela a imagem de um pai protege e provendo uma mãe que acolhe seu bebê. A função-alfa, que a princípio é uma capacidade da mãe, a cada experiência bem sucedida, vai sendo aprendida pelo bebê, que aos poucos se capacita para fazer a transformação de elementos-beta em elementos-alfa, por si próprio. 
Desse modo, os elementos-beta procuram um continente que seja capaz de acolhê-los. A função-alfa, acolhendo impressões sensoriais e experiências emocionais (elementos-beta) as transformam em elementos-alfa, que combinados podem formarem pensamentos oníricos. Conforme a integração de elementos-alfa e à medida em que proliferam, irão formar o que Bion chamou de barreira-de-contato. “Esta, em processo contínuo de formação, indica contato e separação entre elementos conscientes e inconscientes e inicia a diferenciação entre ambos.” (Bion, 1962). A barreira-de-contato funciona como uma membrana e sua estruturação capacita a permeabilidade de transição e a circulação dos elementos mentais entre mundo interno e mundo externo, fantasias e realidade, inconsciente e consciente, sonhando e acordado...
Por outro lado, quando falha o estabelecimento da função-alfa há uma tendência a se formar o que Bion chamou de tela beta, que diferente da barreira de contato, a tela de elementos-beta é obstrutora para a vinculação saudável entre elementos internos e externos. Enquanto a barreira de contato é composta por elementos-alfa a tela-beta é composta por elementos-beta. “Vale lembrar que esses últimos parecem carecer de uma capacidade de ligação entre si.” (Bion, 1962) Facilita a evacuação de desconfortos gerados pelas frustrações não toleradas. Um aglomerado de elementos obstrutores do reconhecimento e ligação com a realidade. “Na parte psicótica, os elementos-beta que seriam evacuados aglomeram-se dando origem à tela beta.”  (Bion, 1963) A tela-beta propicia a geração do que Bion chamou de objetos bizarros, um elemento-beta que já tem marcas do ego e também do superego. Um nódulo de elementos-beta que dificultam a fluência do pensar saudável. 


BION, W. R. O APRENDER COM A EXPERIÊNCIA. 1962 - Rio de Janeiro: Imago, 1991.
__________. ELEMENTOS DE PSICANÁLISE. 1963 (J. Salomão, trad.; E. H. Sandler e P. C. Sandler, revs.). Rio de Janeiro: Imago, 1991.
__________. (1965). TRANSFORMAÇÕES: mudança do aprendizado ao crescimento. Rio de Janeiro: Imago.
KLEIN, M. NOTAS SOBRE ALGUNS MECANISMOS ESQUIZOIDES. 1946 - In: KLEIN, Melanie. Tradução de A. Cardoso. Rio de Janeiro, RJ: Imago.
Winnicott, D. W. (1994). O MEDO DO COLAPSO. In D. W. Winnicott, Explorações psicanalíticas (J. O. de A. Abreu, Trad., pp. 70-76). Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1963).








quarta-feira, 1 de junho de 2022

DO QUE É POSSÍVEL ESCOLHER - Prof. Renato Dias Martino

Quando a gente fala da realidade material, nós estamos falando aqui daquilo que pode ser visto, que pode ser tocado. Realidade sensorial, aquela realidade da qual nós podemos tocar, podemos acessar pelos órgãos dos sentidos. Então, esta é a realidade material, esta é a vida material, essa é a materialidade das coisas.

Esta essa dimensão da realidade, dentro da formulação religiosa, a gente tem lá nos Vedas, por exemplo, na cultura védica, a ideia de Maya. O véu de Maya. Uma das traduções ali do sânscrito Maya, quer dizer, aquilo que pode ser medido. Então aquilo que pode ser medido, para a formulação religiosa é ilusão. Ela é simplesmente uma fragmentação do que a gente pode chamar de real. Então, essa é a disposição das escolhas do humano. O ser humano quando escolhe, escolhe a partir da realidade material porque é o que se pode obter, é o que se pode ter. É o que você tem a ilusão de obter. É uma decisão. Você está fragmentando. Quando você decide alguma coisa, você fragmenta, você tira aquilo do todo e isso é esquizoparanóide. Aí vamos buscar a psicanálise ali.
Dentro da perspectiva kleiniana da contribuição da Melanie Klein (1882 — 1960),
 o bebê divide a mãe em duas da mãe boa e a mãe ruim. E aí ele escolhe a mãe boa pra ele. Então, no nosso cotidiano, a gente precisa escolher o que é bom e o que é ruim. Porque a gente não consegue concatenar, a gente não consegue atingir, abranger, melhor dizendo, a realidade como um todo que vai muito pra além desta configuração material. Quando você está de acordo com a realidade, o caminho é um só. Qual realidade? Primeiro de todas e soberana, a realidade de si mesmo, a sua própria realidade. Quando você tá de acordo consigo mesmo, quando você está em acordo com sua limitação, com o seu limite, você começa a se conectar com o todo. Porque aí você consegue reconhecer o limite do outro também. Schopenhauer (1788 — 1860) usa a palavra “negação” da vontade. Na tradução que a gente tem ali da obra do Schopenhauer “negação” da vontade. Mas a gente usa num outro formato.
Negação pra gente aqui é ignorar. Não é negar a vontade, não é ignorar a vontade, mas simplesmente adiar a vontade. Ser capaz de adiar a vontade e renunciar dos desejos.
  Quando eu sou capaz de renunciar dos desejos e adiar a vontade, eu entro num acordo com a realidade. Qual é o remédio pra isso? O ato de fé, a esperança! E o livre arbítrio é um dom divino. Ele dá isso daí. Ele permite que você possa se apegar à realidade material. O livre arbítrio é isso, e se a escolha e se a escolha só está dentro da perspectiva da materialidade então... Por que está dentro da materialidade das coisas? Porque dentro do âmbito emocional afetivo, por exemplo, não tem escolha. Você não escolhe sentir nada. Você não decide gostar de alguém ou deixar de gostar de alguém. Você não decide amadurecer ou não. Você não decide odiar. Essas coisas não estão dentro da perspectiva da escolha ou da decisão. Aquilo existe, a gente precisa tomar consciência disso e se responsabilizar quanto a isso.  Reconhecer isso e passar a se responsabilizar por isso, cada um por si. A mudança é interna, a mudança é de cada um. A transformação é através da desobstrução do reconhecimento da realidade. Da possibilidade de renunciar, aprender a tolerar a frustração a ponto de conseguir renunciar a satisfação sensorial que a materialidade das coisas nos traz.
O cara perguntou pra Jesus Cristo: que eu preciso para ir com você, pra te seguir? Ele fala: meu amigo, larga tudo, mas não traz nem outra muda de roupa. Vem com a roupa do corpo. Por que que ele falou isso aí? Porque seguir Jesus Cristo a entrar num acordo com a realidade. É justamente essa possibilidade de se sustentar com uma imagem internalizada, não é? E com isso dispensar o real concreto. Quando eu tenho um símbolo, aquele símbolo significa um monte de outras coisas. Me lembrou aqui a raposa, lá com o principezinho. Então, olha que bacana, né? O simbólico faz com que você olhe para a realidade material para além da realidade material. A raposa não gostava de trigo, mas a partir do momento da simbolização do principezinho, os campos de trigo passaram a ter importância pra ela. Importância do quê?
De ir lá colher o trigo pra fazer farinha e comer? Não, a importância da contemplação que fazia com que ela recordasse os cabelos dourados do principezinho. Então, não é só a materialidade, é para além disso.

Se a gente está falando de religião, nós estamos falando de religar. Religar. Então, se a gente tá falando de se religar qualquer dogma que vier para fragmentar, para separar, para segregar, está sendo um desserviço dentro disso. Então, religião dentro do meu entendimento é tudo aqui que promove a ligação e a religação, que acontece porque o sujeito se desliga de si mesmo quando ele entra em contato com essa sociedade mundana que faz com que ele separe, segregue... Assim como eu comecei minha fala lá atrás: Dentro da vida cotidiana, você precisa separar, você precisa segregar... Aqui é o lugar de fulano, ali é o lugar de cicrano. A sociedade é classista. Principalmente nos dias de hoje. O grupo LGBT, não seio o que mais..., os negros, os índios, os brancos. Então, existe uma tendência de segregar, de fragmentar. E se a religião tiver a serviço disso, ela está advogando contra a sua o seu próprio fundamento. Então, quando a gente fala de formulações religiosas aqui, nós estamos nos utilizando da religião seja ela qual for. Então, de vez em quando fala da cultura védica, do budismo, do cristianismo.  Mas está aberto aí, se o sujeito tem conhecimento do candomblé, o que vier, vai vir para enriquecer e expandir e integrar. É pra isso que serve, se não for nesse serviço pra nós também não interessa.

E talvez seja desta religião que o Freud (1856 - 1939) estivesse falando ali. Talvez seja desse Deus que o homem criou e não o Deus que criou o homem. Isso é próprio do humano, não tem como sair disso. Nós estamos presos nisso. A tua casa é tua casa. Você precisa tê-la como tua casa, por mais que não seja tua. Porque, como é que você vai fazer? Você vai deixar o portão aberto, a porta aberta a noite a hora que você for dormir? É ilusão? É, mas é teu! Nós estamos presos nisso. Não tem como fugir disso. Ah! Mas a posição esquizoparanóide é uma posição é ruim, não, ela não é ruim, ela faz parte do desenvolvimento. A segregação é parte do crescimento. Mas ela te afasta da realidade. Assim, e se você for perceber em toda configuração existe uma segregação dentro da perspectiva do princípio e uma integração na perspectiva da expansão do crescimento, do ir para além. A própria Bíblia, por exemplo, o antigo, o velho testamento é fragmentário, é esquizoparanóide. É segregador. E aí Jesus Cristo veio, no novo testamento para agregar. O próprio Bion, traz a ideia do ato de fé como o principal norteador do psicanalista que abre mão da sua memória, do seu desejo e da ânsia de compreensão. Qual é a importância disso na prática clínica. Qual é a importância dessa coisa da renúncia, ou da não escolha. Ou do reconhecimento de que nós não escolhemos porcaria alguma. Já que Freud nos mostrou aí que o ego não é dono da sua própria casa. Lá em 1917, em UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE, ele é muito claro quanto a isso. Não é o ego que escolhe. O ego pode no máximo se responsabilizar pela escolha.  Mas escolher é uma faculdade do id e também do superego. Nós estamos no meio dessas duas instâncias aí. Então, como é a intervenção do analista em relação ao seu paciente, a partir dessa nossa reflexão? O uso da ideia de escolha dentro da sessão psicanalítica precisa ser sempre questionado. Porque, quando o paciente tem a convicção a definição de que ele escolheu alguma coisa, ele entrega isso ao seu “deveria ser”, ele entrega isso ao seu superego. Então, se você escolheu isso e se isso e por acaso teve um insucesso, então você é o culpado por isso. Não! Não foi você que escolheu! Você foi em direção daquilo que você dava conta naquele momento. Então você não pode ser condenado por isso. Porque, a grande questão da nossa clínica é justamente isso: não é o fato que o paciente traz. Mas é a exigência, a cobrança, a condenação, que o paciente cria a partir daquele fato que ele traz. É esse o grande dano! Quando você desobstrui esse caminho, o paciente começa a se responsabilizar por aquilo. Não! Eu fiz isso porque é aquilo que eu dei conta de fazer naquele momento. Então, não tem escolha. Então, não foi você que decidiu, meu amigo! E isso pra gente também. Você decidiu, você escolheu o que dizer pro seu paciente? Não, meu amigo. Não tem isso. Se você tiver dentro do teu tripé. Muito bem, meu amigo. Porque, aí você está mais responsável disso tudo. Então, se a gente ainda tiver a crença de que a gente pode escolher, de que a gente pode decidir, então acabou... Então a nossa psicanálise é superegóica. É daquilo que você deveria ser, então a gente tem um critério de “certo ou errado” que a gente vai ter que correr atrás, quando na verdade não é isso. Quando na verdade o que depende é o nosso nível de estar iludido ou estar de acordo com a realidade. E quanto a isso, não tem escolha. Isso depende do dia, depende da forma, depende da configuração do teu background do teu tripé. Do quanto você está podendo contar com a tua análise pessoal, com uma supervisão bem sucedida, com encontros riquíssimos, como esse dessa noite. Então, não tem escolha. Não tem decisão! Vou mais longe. Ah! A decisão só pode acontecer dentro do âmbito material. Mas, será? Vamos ir um pouquinho além? Será que você escolheu a roupa que você está usando agora? Será que você realmente escolheu essa roupa que você está usando hoje? Ou foi uma série de questões, uma série de configurações, de contingências, que te levaram a pegar esta roupa pra colocar hoje? E aí, a gente enche o papo, dizendo assim: eu escolhi! Você escolheu? O que você escolheu?







sábado, 18 de agosto de 2018

QUANTO AO RECONHECIMENTO DA REALIDADE

A forma como o ser humano se articula com aquilo que poderíamos chamar de realidade é tema fundamental da psicanálise, assim como o é em toda área do pensamento mais nobre, do âmbito místico - religioso ao científico - filosófico. São infindáveis as propostas de se situar frente à realidade, que se utilizam de inúmeros expedientes nessa tarefa, no entanto, estabelecer como realidade aquilo que se consegue somente através do conhecimento dirigido as características objetivas, limita a experiência a superficialidade das coisas. A partir de estudos como os de Immanuel Kant (1724 – 1804), em sua A Crítica da Razão Pura (primeira edição em 1781), todo e qualquer reconhecimento da realidade só terá sentido levando em conta o modo como o sujeito formou o aparato de instrumentos para esse reconhecimento, e não apenas as características disso que está externo a ele.
“Para nós é completamente desconhecida qual possa ser a natureza das coisas em si, independentes de toda receptividade da nossa sensibilidade. Não conhecemos delas senão a maneira que temos de percebê-las; maneira que nos é peculiar; mas que tão pouco deve ser necessariamente a de todo ser, ainda que seja a de todos os homens.” (Kant, 1781).
Por conseguinte, quando cogitamos sobre o nível de percepção e reconhecimento da realidade, tratamos de uma capacidade e essa capacidade está subordinada ao nível de maturação emocional. Dessa maneira, não existe escolha quanto a reconhecer ou não os elementos da realidade. Ou se está maduro o bastante para isso, ou essa capacidade ainda não se encontra desenvolvida o suficiente.
Portanto, exigir que alguém reconheça a realidade configura-se num absurdo, assim como não faz sentido criticar aquele que está iludido. 
Condenar incapacidades é incoerência. A saber, esse nível de maturidade não coincide com a idade cronológica.
Sendo que muitas vezes o sujeito passa grande parte, ou mesmo a vida toda sem ser capaz de desenvolver muita habilidade no reconhecimento da realidade. A imaturidade emocional normalmente persiste quando o sujeito consegue certa permanência no que chamaríamos de zona de conforto, onde apesar de limitadamente nociva, traz comodidade e uma suposta segurança.
Isso acontece quase sempre resguardado por outro que deve ter algum beneficio em garantir a constância dessa situação.
Numa configuração emocional onde a capacidade de reconhecimento da realidade ainda não se encontra desenvolvida num nível mínimo necessário, o que rege a forma como o sujeito percebe, se relaciona e se articula com o mundo está baseada nas ilusões e tão somente nelas.
Tentativas de desfazer ou destruir ilusões são sempre muito perigosas, já que muitas vezes o sujeito pode estar, pelo menos naquele momento da vida, se mantendo firme em sua caminhada por conta de suas ilusões, e destruí-las acarretaria num comprometimento na motivação para se viver.
Quando a vida estiver sendo apoiada nos pilares da ilusão é prudente que sejam substituídos gradativamente, caso contrário tudo pode desmoronar.
Ora, se o reconhecimento da realidade não depende da escolha, mas sim da capacidade do sujeito, muito menos dependerá da escolha do outro.
A tentativa de se intervir no intuito de expandir a capacidade do outro quanto ao reconhecimento da realidade não passa de mais uma ilusão.
Ninguém muda ninguém. A transformação parte de dentro. Isso se dará conforme experiências que combinem desconforto e acolhimento. Quando as ilusões em que o sujeito esteja mantendo sua vida começarem a ruir, gerando assim insegurança, aí então o acolhimento do outro passa a ser fundamental no processo de transformação.
O conceito de reconhecimento tratado aqui não quer dizer entendimento, ou compreensão. Não acredito que seja possível conhecer a verdade, não creio que seja possível compreender a realidade. Penso que na melhor das hipóteses seja possível estar de acordo com ela e então passa a ser provável se responsabilizar por isso e assim passar a ser real.
Quando proponho reconhecer estou tratando da experiência de “perceber que existe” e assim passar a respeitar, o que nada tem a ver com “ter conhecimento sobre”. O respeito não pode depender do entendimento. O entendimento está subordinado à vontade, onde a dificuldade em tolerar desconfortos obstrui a capacidade de entender. 
Arthur Schopenhauer (1788-1860) nos alertou sobre a onipotência da vontade (1819) que é soberana, faminta e insaciável, sendo que “a atuação cega da Vontade e a ação iluminada pelo conhecimento invadem uma o domínio da outra”. (SCHOPENHAUER, 1819). Se por ventura o entendimento choca-se com a vontade, a compreensão cede e a vontade prevalece. Sendo assim, a relação que é possível se estabelecer com a realidade não se encontra no domínio do saber, pois o suposto saber estará sempre contaminado do desejo na idealização da realidade, distante do que realmente é.
Logo, o “saber sobre” é sempre ilusão, pelo menos em alguma medida. O sujeito, normalmente compreende somente aquilo que lhe é conveniente.
“Não se trata de saber a respeito da realidade, nem da capacitação humana para sabê-lo. A convicção de se saber ou vir a saber, a respeito da realidade é falaz por não ser ela algo de que se possa saber.” (Bion, 1965).
Quando Wilfred Ruprecht Bion (1897 — 1979) faz essa afirmação ele expande o acordo que se possa ter com a própria realidade numa comunhão realmente possível com a verdade, onde “A realidade só pode ser "sida": requer-se um verbo "ser" transitivo, para usá-lo na relação com o termo "realidade".” (Bion, 1965).

Aquilo que de maneira suposta se sabe é referente ao que está armazenado nos compartimentos da memória e se o “saber sobre”, que em forma de dados foi armazenado, já sofrera uma contaminação pelo desejo, o resgate desse suposto saber sofrerá outro comprometimento já que a memória é seletiva conforme o desconforto que possa provocar. 

Portanto, muito mais importante do que buscar saber é se preparar para tolerar a ignorância; justamente o que pode nos fazer eternos aprendizes.

W. R. Bion, TRANSFORMAÇÕES: mudança do aprendizado ao crescimento. (Transformations: change from learning to growth, 1965), Rio de Janeiro, Imago, 1991.

KANT, I. Crítica da razão pura - Os pensadores - Vol. I. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

SCHOPENHAUER, Arthur. O MUNDO COMO VONTADE E COMO REPRESENTAÇÃO. Tradução Heraldo Barbuy. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1819/2012.


Prof. Renato Dias Martino  
Psicoterapeuta e Escritor
Alameda Franca n° 80,
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São José Do Rio Preto – SP
Fone: 17-991910375
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