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terça-feira, 19 de maio de 2026

RECONHECER, RESPEITAR E RESPONSABILIZAR-SE - Prof. Renato Dias Martino

 

Cinco conceitos presentes no desenvolvimento emocional afetivo. Desenvolvimento, maturação, ou ainda a possibilidade de reparação do funcionamento emocional-afetivo. Lembrar que eu falo funcionamento emocional-afetivo? Porque, quando a gente fala emocional a gente está falando daquela experiência de algo que está dentro e vai para fora. “Moção” quer dizer movimento e “E” quer dizer para fora. E afetivo é aquilo que implica a relação com o outro. AFACERE. “A” em direção a e “FACERE” é fazer. Fazer alguma coisa em direção a. Então, temos aí, uma emoção que encontra um afeto. Quando a gente está falando de desenvolvimento, maturação emocional-afetiva, ou ainda, reparação emocional-afetiva quando a gente está falando desse tipo de experiência, nessa ordem de experiência, eu preciso impreterivelmente do outro. Não existe a possibilidade de desenvolvimento, de maturação, ou de reparação no funcionamento emocional-afetivo, que não tenha a implicação do outro. Ou seja, o estabelecimento do vínculo. Então, todas as vezes que a gente estiver falando de formulações psicanalíticas, nós temos implicado aquilo que lá em 1963, Bion sugeriu como primeiro elemento de psicanálise. Lá em ELEMENTOS DE PSICANÁLISE. Qual é o primeiro elemento de psicanálise para o Bion? É a relação entre continente e contido. É muito simples isso: algo passa a ser contido e algo que passa a conter. Então, precisa haver isso que aqui nós chamamos de acolhimento. Algo que está propício a acolher e algo que está disposto a ser acolhido. Quando a gente tem esse encontro, passa a ser possível a expansão, a maturação desenvolvimento, ou ainda, a reparação, a restauração, a entrada do outro é preponderante no funcionamento emocional-afetivo. Tanto para as experiências bem-sucedidas, quanto mal sucedidas é o outro que traz a possibilidade do desenvolvimento. É o outro que traz a possibilidade da reparação, mas também é o outro que vem para estragar tudo. Quando eu não cuido morre, quando eu cuido mal cuidado, volta-se contra mim, agora, quando eu cuido bem, cuidado com o amor, com dedicação, com sinceridade, aí vira minha esperança. Então, nós temos aqui uma analogia muito interessante, que é da semente e do solo fértil. Então, todos os elementos que nós vamos ver aqui; um por um, carecem de um olhar dentro dessa analogia da germinação. Da possibilidade de uma semente germinar. Então, nós não vamos estar falando aqui, em nenhum momento, do “deveria ser assim”, tem que ser assim, mas nós vamos olhar para isso, reconhecer isso, como se reconhece uma planta que vai germinando. Ninguém está olhando você precisa fazer isso, tem que fazer assim. Você não tem que, você olha para semente, você não fala para ela: “agora você tem que fazer isso”. Se ela encontrar um solo fértil, vai acontecer, se ela não encontrar, não vai acontecer e o desenvolvimento emocional é assim também. Não tem que ser, vai ser, se houver todo o ambiente saudável e próspero, profícuo o bastante para que isso possa acontecer. Então, alguns elementos que vão se suceder, dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, sendo que não existe a possibilidade de sobreposição de um elemento ao outro. Existe um processo que respeita um fluxo e ao mesmo tempo não existe retrocesso. Pode haver sim, uma obstrução. Eu diria até que, na maioria das vezes há uma obstrução, mas retrocesso não. Não existe retrocesso dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, por isso que eu sou categórico em dizer que a palavra “regressão”, “regredir”, é completamente inadequada dentro das formulações psicanalíticas. Não existe regressão. Existe fixação, por conta de uma obstrução, mas não regressão. “P 3R T” O primeiro é o “P” – PERCEPÇÃO. Perceber algo no funcionamento emocional afetivo. Este é o ponto de partida o sujeito percebe algo e este algo que ele percebe é impreterivelmente um desconforto. Todo o crescimento, toda experiência, todo e qualquer movimento do aparelho emocional-afetivo, parte de um desconforto. Não existe qualquer experiência emocional-afetiva que não tenha partido do meu desconforto. O Freud chamava isso de libido, pulsão. A libido, quando se movimenta, ela tem a tendência de pulsão e isso é sentido pelo corpo como um desconforto. Antes do Freud, o Schopenhauer já chamava isso aí de vontade, vontade de viver. A vontade de viver é um desconforto. Antes do Schopenhauer, Kant já chamava isso aí de “coisa em si”. A “coisa em si” é desconfortável, incognoscível, eu não posso conhecer isso, eu só sinto como um desconforto. Esse desconforto pode ser sentido como uma insegurança, como um medo, tristeza... Esses desconfortos vão se desdobrar em raiva, hostilidade, inveja e um monte de coisa que a gente vai chamar de indesejável. Por isso, a percepção tem um perigo de obstrução, porque o sujeito sente isso e ele quer acabar com isso. Você sente uma coisa ruim, você quer acabar com aquilo, ali você quer controlar aquilo, você quer cessar aquilo e este é o grande problema. Porque aí, você aborta o processo. Aí você obstruir processo. Muitas vezes, o sujeito percebe alguma coisa, percebe um desconforto no funcionamento-emocional dele e ele corre direto para o psiquiatra, para que ele possa ser medicado, para ele parar de sentir aquilo. Mas é aquilo ali que vai fazer com que ele se desenvolva emocionalmente. O sujeito perde alguma coisa e ao invés dele passar pelo processo do luto, ele sente entretecimento por conta da perda e ele já vai se medica e acabou. Agora, não é só o medicamento. O medicamento, talvez seja a mais complicada de todas, a mais difícil, porque, quem te dá esse medicamento é um doutor. E aí, não tem como discutir com o doutor, né? E obstrui esse processo, abortar o processo, logo de início de percepção. Um outro, de outras formas, você pode com uso de algo drogas, abusos de compras, compulsão de compras, compulsão alimentar, tem um monte de jeitos do sujeito desviar obstruir o processo de desenvolvimento emocional dele no comecinho que é a percepção da dor. Principalmente se ele estiver sozinho, principalmente se ele não puder contar com o primeiro elemento de psicanálise, que é continente<>contido. Principalmente se ele não puder ser acolhido pelo outro, principalmente se essa sementinha não encontrar um solo fértil para germinar. Aí vai abortar... Mas não abortando e conseguindo tolerar o desconforto da percepção, ele passa para a próxima fase do processo, que é o RECONHECIMENTO, que é o primeiro “R” dos 3 erres. “P 3R T” Quando o sujeito admite realmente que ele sente aquilo e que aquilo ali está nele. Eu reconheço isso, eu não só sinto isso, eu não só percebo isso, mas eu reconheço que isso está ali, eu reconheço isso e reconheço que isso está em mim. Porque eu posso pensar que está no outro, eu posso projetar isso no outro. Não, mas eu admito a existência disso e admito que isso está em mim. Aí, também pode ser obstruir, se ele estiver no reconhecimento, ele não pode retroceder. Mas reconheceu não tem como voltar, não tem como deixar de perceber, porque ele já reconheceu. Agora, ele pode obstruir aí, ao invés de reconhecer ele passa a tentar saber sobre isso. Não reconhecer, mas conhecer isso, entender o que é isso, compreender o que é isso, que não está na ordem do cognoscível. Não, você não pode saber o que é isso, se você der um nome para isso, ali naquele momento você aborta o processo. Você precisa tolerar a dúvida, reconhecer isso tolerando a dúvida. Reconhecer não é conhecer, é admitir a existência. Procura o diagnóstico por exemplo, E aí, ele vai no psiquiatra, o psiquiatra vai dar um nome para aquilo. Porque ele tentou cessar aquilo, ele tentou parar aquilo, ele tentou controlar aquilo, que na realidade é o fluxo do desenvolvimento emocional dele. Dolorido, desconfortável. Muitas vezes, é nesse momento que o paciente interrompe a psicoterapia, porque ele reconhece que aquele desconforto está nele, não está no outro e que é da competência dele tratar aquilo. Reconhecendo isso e essa palavra “reconhecer”, ela é sugestiva, né? É polissêmica, né? Ela tem vários sentidos, um deles é “conhecer novamente”. Cada encontro que eu tenho com isso é como se eu não conhecesse. Então. eu conheço novamente cada vez que eu sinto isso. Eu sinto de uma forma diferente e é por isso que o Bion nos orienta: sem memória. O analista precisa não estar se baseando, se apoiando nos conteúdos armazenados na memória sobre o paciente, sobre qualquer coisa, porque cada vez que o paciente chega, é uma pessoa nova que tá ali. Ele tem a chance de ser uma pessoa nova e isso passa a ser um modelo para o sujeito tratar a si mesmo, cada vez que ele entra em contato consigo mesmo ele precisa entrar em contato com alguém novo. O vínculo é um vínculo novo. Então, reconhecer. Mas essa palavra ela é muito mais do que conhecer novamente, ela também é ser grato. Ser grato por ter percebido um desconforto. Consegue? Porque, muitas vezes a gente sente um desconforto a gente quer evitar. Aquilo é ruim. Mas como é que eu posso ser grato por algo que é confortável. Pois é! Porque isso daí é a chave da minha libertação, que se eu for capaz de tolerar isso, isso daí vai crescer, vai me tornar uma pessoa melhor. Reconhecer também é ser grato. Bom, se foi possível reconhecimento e não fiquei obstruído no meio do caminho, passamos para a próxima etapa: aprender a RESPEITAR. Eu PERCEBI, admitia a existência, RECONHECI e agora, eu passo a RESPEITAR isso que eu reconheci. Agora, eu posso ficar na etapa anterior, não posso? Reconhecer alguma coisa não garante que eu seja capaz de respeitar isso que eu reconheci. Foi o que a gente falou: o paciente pode obstruir o processo aí. Ele reconheceu, mas não deu conta de respeitar aquilo. Se ele conseguir encontrar a possibilidade de estabelecer a relação continente<>contido, como nos orientou o Bion, passa a ser possível expandir para aprender a respeitar isto que foi reconhecido. Vamos usar o exemplo do medo. Percebi um medo, reconheci esse medo e agora eu passo a respeitar este medo. Ao reconhecer este elemento, ele já não é mais um intruso na minha mente, ele foi reconhecido, ele já não é mais um elemento estranho. Eu já percebo aquilo ali como um integrante do meu processo psíquico, meu processo emocional-afetivo. Não é estranho, mas é meu e se é meu eu preciso aprender a respeitar esta limitação. Se foi possível chegar até aí, é porque a gente teve ali um vínculo bem sucedido. Tivemos aí, uma experiência de acolhimento. Porque, só a experiência de acolhimento pode levar o sujeito a chegar a respeitar isso que ele admitiu a existência e que ele percebeu. Um medo, vamos voltar no medo. Quando ele percebe o medo, reconhece esse medo e passa a respeitar este medo, este medo que um dia foi uma obstrução das experiências dele, das atitudes dele, que estavam sempre povoadas de medo, sempre inundadas de medo, se chegar até o respeito, este medo passa a ser um integrante da prudência. Já não é o medo paralisador, é um medo que traz para ele prudência, autopreservação. Mas ele precisa ter aprendido a tolerar a ponto de respeitar. Aí, já não é obstrutor, protege e faz com que ele consiga viver as experiências dele de uma maneira muito mais saudável. Nem paralisado e nem é inconsequente. Se eu conseguir aprender a respeitar, eu passo para a próxima fase, que é aprender a me RESPONSABILIZAR por isso. Responder por isso. Isso é meu, faz parte de mim e eu me responsabilizo por isso. E não só me responsabilizo por isso, mas eu me responsabilizo por todas as consequências disso na minha vida. Todo esse processo é impossível, é inaplicável sem o vínculo afetivo com o outro, sem que outro possa me ajudar a fazer isso não dá para fazer isso sozinho. Não se faz isso sozinho, é impossível. Por mais que você tenha comprado vinte, trinta livros de autoajuda, que dizem para você que dá para fazer sozinho, não, dá! Quando eu passo a me responsabilizar, abre-se a possibilidade de TRANSFORMAÇÃO. Agora, todo esse processo é vivido com uma incerteza enorme. Cada etapa não tem certeza nenhuma. Não existe certeza nesse processo e a transformação é uma grande insegurança. Porque quando a gente fala que de transformação, essa palavra parece ser muito bonita, mas a transformação quer dizer que você está saindo de uma forma e transformando para outra e você não sabe qual é esta outra. Quando você vê ali a lagarta virando borboleta é muito lindo, né? Você já sabe que a lagarta vai virar borboleta. Mas quando é você que é a lagarta, você não tem qualquer noção de que borboleta que você vai virar. Você pode ser uma lagarta da beronha, né? Sei lá! Ué! Do Besouro Rola Bosta, né? Desculpa brincadeira, mas não é isso? Você não sabe o que que você vai se tornar. E se você vai ser capaz de ser responsabilizar por isso você vai se tornar.

 






Prof. Renato Dias Martino

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domingo, 15 de dezembro de 2024

O FLUXO DA REALIDADE E A ILUSÃO OBSTRUTORA - Prof. Renato Dias Martino


REGRESSÃO

A mente funciona o tempo todo em transformação e quando ela é impedida de se transformar ela adoece. O processo emocional-afetivo, que está dentro da perspectiva mental é um processo de transformação constante e essa transformação é sempre progressiva, é sempre desenvolvendo-se, é sempre na direção da maturação. Não há transformação emocional e afetiva inversa, regressiva. Por mais que a gente tenha essa palavra “regressão”, amiúde sendo cogitada nas formulações psicanalíticas, é uma grande ilusão. Ninguém regride. A regressão, na verdade, é uma manifestação de um ponto fixado que nunca se desenvolveu, logo, se nunca se desenvolveu, não pode regredir.

ILUSÕES 

A vida emocional, a vida afetiva se desenvolve onde o sujeito não tem um fluxo contínuo do seu acordo com a realidade. Ele se perde nas ilusões impreterivelmente. Não existe vacina para o sujeito não se perder nas ilusões. Ele vai se perder nas ilusões, mas dentro de um desenvolvimento saudável de transformação, ele vai retomar este acordo com a realidade no fluxo do desenvolvimento do seu aparelho emocional e consequentemente, desdobrando-se nas relações afetivas.

O CAMINHO

O que que nós estamos chamando de ilusão? De maneira bem clara, a maneira como desejamos que a realidade seja independente daquilo que realmente está sendo. Isso é ilusão. Quando a gente está aqui cogitando sobre este conceito que é preenchido por uma experiência, dentro da cultura oriental cultura védica, até o budismo deve utilizar deste conceito também, nós temos o Véu de Maya como sendo a ilusão. O sujeito, quando está iludido, ele está envolvido, ou cego pelo Véu de Maya. No cristianismo nós temos uma outra expressão e dentro da filosofia também, que é o Livre Arbítrio. Quando o sujeito está exercendo o seu livre arbítrio ele está iludido. O que é que vai conduzir o sujeito no acordo com a realidade, dentro das formulações orientais? O Dharma. É o caminho de iluminação. E o que é que vai conduzir dentro do cristianismo o sujeito dentro do acordo com a realidade? “Seja feita a vossa vontade”, não a minha.

REALIDADE

Quando nós tratamos aqui de realidade, nós estamos falando daquilo que é fato independente do que a gente gostaria que fosse. Isto é realidade, dentro do que a gente está falando aqui. Esta é uma definição clara do que é realidade. Dentro da religiosidade, das formulações religiosas, também nós temos isso. A Deidade, Deus é isso que a gente chama de realidade dentro dessa nossa filosofia, ou desta formulação psicanalítica. “Ah! Mas eu sou ateu! Eu não acredito em Deus!” No que que o ateu não acredita? Em Deus. Ele não acredita, isso não quer dizer que não exista. “Isso aí que você está chamando de realidade para mim não importa!” Não importa, mas ainda assim, continua existindo. E é muito importante a gente pensar que esta realidade não é tangível cognoscivelmente. Ou seja, não há possibilidade de se conhecer a realidade. O conhecimento não abrange a realidade. Você pode reconhecer a realidade, ou seja, admitir que ela existe, mas não pode conhecê-la.

ACORDO

Se eu não posso conhecer a realidade, se eu não posso abranger a realidade pelo aparato intelectual, ou pelo cognoscivel, por que via eu posso entrar em acordo com a realidade? Através do “estar sendo”. Por que não através do ser? Porque o ser é estático. Porque o ser é cristalizado. Quem é, é alguma coisa pré-estabelecida e dentro da realidade não há nada pré-estabelecido. A realidade é fluxo. Para que você possa estar num acordo com a realidade, isso só vai se dar através do estar sendo. por isso não pode ser conhecida. Porque o conhecimento pressupõe passado. Quem conhece, conhece alguma coisa que registrou no passado. Aquilo que está acontecendo no aqui e agora, no “estar sendo”, não pode ser conhecido.



domingo, 1 de dezembro de 2024

NEUROSE, PSICOSE E INCLUSÃO - Prof. Renato Dias Martino



COTAS

Talvez a maior contribuição do Freud para a psicoterapêutica, ou pelo menos dentro da configuração teórica, que vai se desdobrar na prática é que todos nós, em alguma medida somos neuróticos. Por mais que a gente possa estar ali, numa manifestação saudável, ainda assim, nós temos cotas consideráveis de um funcionamento neurótico. E o Bion vai para além. Ele vai dizer assim: “Todos nós somos psicóticos em alguma medida”. Temos partes psicóticas da mente. Então, seria mais adequado a gente falar: “O sujeito que tem a sua parte psicótica proeminente, dominante”. O sujeito que tem sua parte neurótica dominante, ou o sujeito que tem sua parte saudável dominante, ou preponderante. Então, em primeiro momento, seria importante que a gente pudesse ter essa noção de cotas, noção de proporção.

REALIDADE 

Quando a gente está falando de uma configuração neurótica, a gente está falando de uma de um funcionamento onde o sujeito reprime uma parte fantasiosa, reprime uma parte que não está em consonância com a realidade, que não está em concordância com a realidade, para que ele possa viver um relacionamento com a realidade, com as outras pessoas. Então, ele reprime uma parte para conviver com as pessoas. Então, a maior parte dele está convivendo com as pessoas e para que ele possa conviver com as pessoas de uma maneira harmônica ele precisa reprimir uma parte que é absurda, por assim dizer, que é baseada em ilusões, em alucinações, fantasias. O Psicótico é o contrário. O Psicótico tem uma pequena parte que se relaciona com o mundo externo, porque a maior parte dele está cindida do mundo externo e da realidade. Está baseada em ilusões e alucinações. Então, o sujeito que tem a predominância, ou a preponderância do funcionamento psicótico da mente dele, tem a maior parte deste funcionamento cindido da realidade, desconectado da realidade. Ele guarda, na melhor das hipóteses, uma pequena parte que ainda faz com que ele consiga, minimamente se comunicar com o mundo externo.

NEURÓTICO E PSICÓTICO

A maior parte do neurótico está conectada com o mundo externo, com as pessoas, mas existe uma parte que está ali, reprimida e essa parte é estruturada com ilusões, com alucinações. O funcionamento psicótico, ele não tem a ver com o aparato neurológico. O sujeito pode ter um aparato neurológico, pode ter um aparelho neurológico intacto. Ele faz exames neurológicos, não aparece nada, mas ainda assim, ele funciona psiquicamente de forma psicótica.

VÍNCULO 

Quando a gente vai refinando os psicodiagnósticos, a gente vai, automaticamente, concomitantemente, afastando os vínculos. Quanto mais eu vou criando nomes e refinados para diagnosticar o sujeito, mais eu vou me afastando afetivamente deste sujeito. Quanto maior a minha capacidade de acolher o sujeito, quanto maior for a minha capacidade de criar um vínculo saudável com o sujeito, menor é a necessidade de ficar investigando para saber o que é que ele tem. Pouco importa o que ele tem. Se é autismo, se é unha encravada, ou se é caspa. Pouco importa! A minha função é criar um vínculo saudável com esta pessoa que me procurou e até onde é possível isso. Até onde eu estou preparado para isso e até onde esta pessoa está disponível a isso.

A CAMA DE PROCUSTO

A cama de Procusto é um conto grego. Uma pousada de um sujeito chamado Procusto. Então, o sujeito chegava na pensão do Procusto, o Procusto colocava ele numa cama e se a cama fosse menor que o sujeito, ele cortava o pé do sujeito, que sobrava do sujeito ele cortava e se a cama fosse maior que o sujeito, ele esticava o sujeito até o sujeito ficar do tamanho da cama. Então, hoje, dentro do âmbito emocional-afetivo, nós vivemos este Mito de Procusto. A maioria das psicoterapeuticas se dedica a encaixar o sujeito num estereótipo designado pela sociedade. Para que ele possa ter um bom convívio na sociedade ele precisa se adequar a isso que é expectativa social. Então, nós vamos ali, através de terapêuticas de doutrinação, readequação comportamental, isso associado à administração medicamentosa, até que ele consiga atingir uma formatação social aceitável.

INCLUSÃO

Hoje, a gente fala muito de inclusão. O que eles chamam de inclusão hoje? A inclusão hoje precisa anteriormente passar por uma exclusão. Então, primeiro você precisa ser diagnosticado. Apartado do dito sujeito normal. Depois de rotulado, hoje é o termo laudado, aí você é reinserido na escola, no trabalho, ou na sociedade, com este laudo, com este rótulo e a partir daí você pode ser incluído. Mas primeiro você precisou ser submetido por uma diferenciação. Na realidade você não foi incluído, você vai passar para o resto da vida carregando um rótulo, um laudo que foi colocado em você e que, muitas vezes você vai encontrar um benefício em ter aquilo e vai ser muito difícil você conseguir superar aquilo ali.

DOR PSÍQUICA 

O medicamento psiquiátrico obstrui a possibilidade do acordo com a realidade. “Ah! Mas esse o sujeito está muito agitado, ou ele está muito deprimido!” Pois é, ele vai precisar viver experiências para aprender a conviver com aquilo. Aprender a lidar com aquilo que está acometendo a mente dele, ou o aparelho emocional dele. Enquanto administrando substâncias químicas psiquiátricas, isso vai ficar obstruído e eu vou deixar claro isso. Agora, eu não posso dizer para ele para de tomar isso. Eu não tenho essa função. Se para ele, ainda está fazendo sentido, ótimo. E vamos cuidar deste paciente até quando fizer sentido para ele vir. É claro que o sujeito, quando ele está num processo psicoterapêutico e por algum motivo ele é acometido ali, de uma ansiedade aguda, de uma angústia aguda, muitas vezes ele pode procurar um psiquiatra. O psiquiatra vai prescrever para ele medicamentos e quando ele passa a tomar esse medicamento, ele, muito provavelmente, vai começar a se desinteressar pela psicoterapia. Por quê? Porque a psicoterapia funciona através da dor psíquica. Não existe psicoterapia se não houver dor psíquica. E se o sujeito está se medicando e a dor psíquica dele está rebaixando, a psicoterapia passa a não ser tão interessante assim.

OS 3 Rs

Eu sou até meio repetitivo nisso. Dei até um curso sobre isso, mas isso é fundamental, que são os três Rs, que é ser capaz junto com o paciente, reconhecer a sua limitação. Admitir a sua limitação e reconhecer não é conhecer é admitir que existe, independente de saber o que é. O segundo passo é o segundo R, que é aprender a respeitar esta limitação que se admitiu que existe. Respeitar independente de saber o que é. E o terceiro e mais difícil dos três Rs, a responsabilização por isso que se reconheceu, admitiu-se que existe, aprendeu a respeitar e agora precisamos nos responsabilizar por isso. Esta responsabilização inclui uma nova configuração emocional e afetiva, ambiental. Eu não posso mais me manter em ambientes emocionais, em psicosfera que também não sejam capazes de respeitar a minha limitação.