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terça-feira, 19 de maio de 2026

RECONHECER, RESPEITAR E RESPONSABILIZAR-SE - Prof. Renato Dias Martino

 

Cinco conceitos presentes no desenvolvimento emocional afetivo. Desenvolvimento, maturação, ou ainda a possibilidade de reparação do funcionamento emocional-afetivo. Lembrar que eu falo funcionamento emocional-afetivo? Porque, quando a gente fala emocional a gente está falando daquela experiência de algo que está dentro e vai para fora. “Moção” quer dizer movimento e “E” quer dizer para fora. E afetivo é aquilo que implica a relação com o outro. AFACERE. “A” em direção a e “FACERE” é fazer. Fazer alguma coisa em direção a. Então, temos aí, uma emoção que encontra um afeto. Quando a gente está falando de desenvolvimento, maturação emocional-afetiva, ou ainda, reparação emocional-afetiva quando a gente está falando desse tipo de experiência, nessa ordem de experiência, eu preciso impreterivelmente do outro. Não existe a possibilidade de desenvolvimento, de maturação, ou de reparação no funcionamento emocional-afetivo, que não tenha a implicação do outro. Ou seja, o estabelecimento do vínculo. Então, todas as vezes que a gente estiver falando de formulações psicanalíticas, nós temos implicado aquilo que lá em 1963, Bion sugeriu como primeiro elemento de psicanálise. Lá em ELEMENTOS DE PSICANÁLISE. Qual é o primeiro elemento de psicanálise para o Bion? É a relação entre continente e contido. É muito simples isso: algo passa a ser contido e algo que passa a conter. Então, precisa haver isso que aqui nós chamamos de acolhimento. Algo que está propício a acolher e algo que está disposto a ser acolhido. Quando a gente tem esse encontro, passa a ser possível a expansão, a maturação desenvolvimento, ou ainda, a reparação, a restauração, a entrada do outro é preponderante no funcionamento emocional-afetivo. Tanto para as experiências bem-sucedidas, quanto mal sucedidas é o outro que traz a possibilidade do desenvolvimento. É o outro que traz a possibilidade da reparação, mas também é o outro que vem para estragar tudo. Quando eu não cuido morre, quando eu cuido mal cuidado, volta-se contra mim, agora, quando eu cuido bem, cuidado com o amor, com dedicação, com sinceridade, aí vira minha esperança. Então, nós temos aqui uma analogia muito interessante, que é da semente e do solo fértil. Então, todos os elementos que nós vamos ver aqui; um por um, carecem de um olhar dentro dessa analogia da germinação. Da possibilidade de uma semente germinar. Então, nós não vamos estar falando aqui, em nenhum momento, do “deveria ser assim”, tem que ser assim, mas nós vamos olhar para isso, reconhecer isso, como se reconhece uma planta que vai germinando. Ninguém está olhando você precisa fazer isso, tem que fazer assim. Você não tem que, você olha para semente, você não fala para ela: “agora você tem que fazer isso”. Se ela encontrar um solo fértil, vai acontecer, se ela não encontrar, não vai acontecer e o desenvolvimento emocional é assim também. Não tem que ser, vai ser, se houver todo o ambiente saudável e próspero, profícuo o bastante para que isso possa acontecer. Então, alguns elementos que vão se suceder, dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, sendo que não existe a possibilidade de sobreposição de um elemento ao outro. Existe um processo que respeita um fluxo e ao mesmo tempo não existe retrocesso. Pode haver sim, uma obstrução. Eu diria até que, na maioria das vezes há uma obstrução, mas retrocesso não. Não existe retrocesso dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, por isso que eu sou categórico em dizer que a palavra “regressão”, “regredir”, é completamente inadequada dentro das formulações psicanalíticas. Não existe regressão. Existe fixação, por conta de uma obstrução, mas não regressão. “P 3R T” O primeiro é o “P” – PERCEPÇÃO. Perceber algo no funcionamento emocional afetivo. Este é o ponto de partida o sujeito percebe algo e este algo que ele percebe é impreterivelmente um desconforto. Todo o crescimento, toda experiência, todo e qualquer movimento do aparelho emocional-afetivo, parte de um desconforto. Não existe qualquer experiência emocional-afetiva que não tenha partido do meu desconforto. O Freud chamava isso de libido, pulsão. A libido, quando se movimenta, ela tem a tendência de pulsão e isso é sentido pelo corpo como um desconforto. Antes do Freud, o Schopenhauer já chamava isso aí de vontade, vontade de viver. A vontade de viver é um desconforto. Antes do Schopenhauer, Kant já chamava isso aí de “coisa em si”. A “coisa em si” é desconfortável, incognoscível, eu não posso conhecer isso, eu só sinto como um desconforto. Esse desconforto pode ser sentido como uma insegurança, como um medo, tristeza... Esses desconfortos vão se desdobrar em raiva, hostilidade, inveja e um monte de coisa que a gente vai chamar de indesejável. Por isso, a percepção tem um perigo de obstrução, porque o sujeito sente isso e ele quer acabar com isso. Você sente uma coisa ruim, você quer acabar com aquilo, ali você quer controlar aquilo, você quer cessar aquilo e este é o grande problema. Porque aí, você aborta o processo. Aí você obstruir processo. Muitas vezes, o sujeito percebe alguma coisa, percebe um desconforto no funcionamento-emocional dele e ele corre direto para o psiquiatra, para que ele possa ser medicado, para ele parar de sentir aquilo. Mas é aquilo ali que vai fazer com que ele se desenvolva emocionalmente. O sujeito perde alguma coisa e ao invés dele passar pelo processo do luto, ele sente entretecimento por conta da perda e ele já vai se medica e acabou. Agora, não é só o medicamento. O medicamento, talvez seja a mais complicada de todas, a mais difícil, porque, quem te dá esse medicamento é um doutor. E aí, não tem como discutir com o doutor, né? E obstrui esse processo, abortar o processo, logo de início de percepção. Um outro, de outras formas, você pode com uso de algo drogas, abusos de compras, compulsão de compras, compulsão alimentar, tem um monte de jeitos do sujeito desviar obstruir o processo de desenvolvimento emocional dele no comecinho que é a percepção da dor. Principalmente se ele estiver sozinho, principalmente se ele não puder contar com o primeiro elemento de psicanálise, que é continente<>contido. Principalmente se ele não puder ser acolhido pelo outro, principalmente se essa sementinha não encontrar um solo fértil para germinar. Aí vai abortar... Mas não abortando e conseguindo tolerar o desconforto da percepção, ele passa para a próxima fase do processo, que é o RECONHECIMENTO, que é o primeiro “R” dos 3 erres. “P 3R T” Quando o sujeito admite realmente que ele sente aquilo e que aquilo ali está nele. Eu reconheço isso, eu não só sinto isso, eu não só percebo isso, mas eu reconheço que isso está ali, eu reconheço isso e reconheço que isso está em mim. Porque eu posso pensar que está no outro, eu posso projetar isso no outro. Não, mas eu admito a existência disso e admito que isso está em mim. Aí, também pode ser obstruir, se ele estiver no reconhecimento, ele não pode retroceder. Mas reconheceu não tem como voltar, não tem como deixar de perceber, porque ele já reconheceu. Agora, ele pode obstruir aí, ao invés de reconhecer ele passa a tentar saber sobre isso. Não reconhecer, mas conhecer isso, entender o que é isso, compreender o que é isso, que não está na ordem do cognoscível. Não, você não pode saber o que é isso, se você der um nome para isso, ali naquele momento você aborta o processo. Você precisa tolerar a dúvida, reconhecer isso tolerando a dúvida. Reconhecer não é conhecer, é admitir a existência. Procura o diagnóstico por exemplo, E aí, ele vai no psiquiatra, o psiquiatra vai dar um nome para aquilo. Porque ele tentou cessar aquilo, ele tentou parar aquilo, ele tentou controlar aquilo, que na realidade é o fluxo do desenvolvimento emocional dele. Dolorido, desconfortável. Muitas vezes, é nesse momento que o paciente interrompe a psicoterapia, porque ele reconhece que aquele desconforto está nele, não está no outro e que é da competência dele tratar aquilo. Reconhecendo isso e essa palavra “reconhecer”, ela é sugestiva, né? É polissêmica, né? Ela tem vários sentidos, um deles é “conhecer novamente”. Cada encontro que eu tenho com isso é como se eu não conhecesse. Então. eu conheço novamente cada vez que eu sinto isso. Eu sinto de uma forma diferente e é por isso que o Bion nos orienta: sem memória. O analista precisa não estar se baseando, se apoiando nos conteúdos armazenados na memória sobre o paciente, sobre qualquer coisa, porque cada vez que o paciente chega, é uma pessoa nova que tá ali. Ele tem a chance de ser uma pessoa nova e isso passa a ser um modelo para o sujeito tratar a si mesmo, cada vez que ele entra em contato consigo mesmo ele precisa entrar em contato com alguém novo. O vínculo é um vínculo novo. Então, reconhecer. Mas essa palavra ela é muito mais do que conhecer novamente, ela também é ser grato. Ser grato por ter percebido um desconforto. Consegue? Porque, muitas vezes a gente sente um desconforto a gente quer evitar. Aquilo é ruim. Mas como é que eu posso ser grato por algo que é confortável. Pois é! Porque isso daí é a chave da minha libertação, que se eu for capaz de tolerar isso, isso daí vai crescer, vai me tornar uma pessoa melhor. Reconhecer também é ser grato. Bom, se foi possível reconhecimento e não fiquei obstruído no meio do caminho, passamos para a próxima etapa: aprender a RESPEITAR. Eu PERCEBI, admitia a existência, RECONHECI e agora, eu passo a RESPEITAR isso que eu reconheci. Agora, eu posso ficar na etapa anterior, não posso? Reconhecer alguma coisa não garante que eu seja capaz de respeitar isso que eu reconheci. Foi o que a gente falou: o paciente pode obstruir o processo aí. Ele reconheceu, mas não deu conta de respeitar aquilo. Se ele conseguir encontrar a possibilidade de estabelecer a relação continente<>contido, como nos orientou o Bion, passa a ser possível expandir para aprender a respeitar isto que foi reconhecido. Vamos usar o exemplo do medo. Percebi um medo, reconheci esse medo e agora eu passo a respeitar este medo. Ao reconhecer este elemento, ele já não é mais um intruso na minha mente, ele foi reconhecido, ele já não é mais um elemento estranho. Eu já percebo aquilo ali como um integrante do meu processo psíquico, meu processo emocional-afetivo. Não é estranho, mas é meu e se é meu eu preciso aprender a respeitar esta limitação. Se foi possível chegar até aí, é porque a gente teve ali um vínculo bem sucedido. Tivemos aí, uma experiência de acolhimento. Porque, só a experiência de acolhimento pode levar o sujeito a chegar a respeitar isso que ele admitiu a existência e que ele percebeu. Um medo, vamos voltar no medo. Quando ele percebe o medo, reconhece esse medo e passa a respeitar este medo, este medo que um dia foi uma obstrução das experiências dele, das atitudes dele, que estavam sempre povoadas de medo, sempre inundadas de medo, se chegar até o respeito, este medo passa a ser um integrante da prudência. Já não é o medo paralisador, é um medo que traz para ele prudência, autopreservação. Mas ele precisa ter aprendido a tolerar a ponto de respeitar. Aí, já não é obstrutor, protege e faz com que ele consiga viver as experiências dele de uma maneira muito mais saudável. Nem paralisado e nem é inconsequente. Se eu conseguir aprender a respeitar, eu passo para a próxima fase, que é aprender a me RESPONSABILIZAR por isso. Responder por isso. Isso é meu, faz parte de mim e eu me responsabilizo por isso. E não só me responsabilizo por isso, mas eu me responsabilizo por todas as consequências disso na minha vida. Todo esse processo é impossível, é inaplicável sem o vínculo afetivo com o outro, sem que outro possa me ajudar a fazer isso não dá para fazer isso sozinho. Não se faz isso sozinho, é impossível. Por mais que você tenha comprado vinte, trinta livros de autoajuda, que dizem para você que dá para fazer sozinho, não, dá! Quando eu passo a me responsabilizar, abre-se a possibilidade de TRANSFORMAÇÃO. Agora, todo esse processo é vivido com uma incerteza enorme. Cada etapa não tem certeza nenhuma. Não existe certeza nesse processo e a transformação é uma grande insegurança. Porque quando a gente fala que de transformação, essa palavra parece ser muito bonita, mas a transformação quer dizer que você está saindo de uma forma e transformando para outra e você não sabe qual é esta outra. Quando você vê ali a lagarta virando borboleta é muito lindo, né? Você já sabe que a lagarta vai virar borboleta. Mas quando é você que é a lagarta, você não tem qualquer noção de que borboleta que você vai virar. Você pode ser uma lagarta da beronha, né? Sei lá! Ué! Do Besouro Rola Bosta, né? Desculpa brincadeira, mas não é isso? Você não sabe o que que você vai se tornar. E se você vai ser capaz de ser responsabilizar por isso você vai se tornar.

 






Prof. Renato Dias Martino

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segunda-feira, 27 de abril de 2026

DA FORMAÇÃO DO PSICANALISTA - Prof. Renato Dias Martino



Hoje temos uma grande oferta de cursos de formação para psicanalistas, muitos deles em um período muito breve. Nesse ensaio, gostaria de trazer alguns aspectos fundamentais que envolvem esse tema. A vasta oferta de cursos de formação traz consigo grande probabilidade de baixa qualidade no que se oferece. No Brasil, a psicanálise é considerada uma ocupação de livre exercício. Não é uma profissão regulamentada por lei específica ou por conselho federal próprio. Segundo a lei brasileira, a prática da psicanálise não depende de um diploma universitário, nem de registro em conselhos como o de Medicina ou Psicologia para ser exercida. Por outro lado, no Brasil abriu-se a possibilidade de cursos superiores na área, como o “Bacharelado em Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais”, reforçando o caráter acadêmico e teórico e colocando a psicanálise numa posição mais distante da habilitação prática clínica. 


O QUE PENSAVA FREUD


Esse fato traz à baila o olhar questionador de Sigmund Freud (1856–1939) quanto ao modelo que via nas universidades da época: “ministradas de forma dogmática e puramente teórica”. E complementa: “... é claro que o psicanalista pode prescindir completamente da universidade sem qualquer prejuízo para si mesmo.” (Freud, 1919) Freud acreditava que deveria se ensinar “algo sobre” a psicanálise na universidade (teoria, conceitos, relações com outras ciências como biologia, mitologia, sociologia etc.), sendo isso útil e benéfico. No entanto, questionava a possibilidade de se aprender “algo da” psicanálise (no sentido profundo, experiencial) na universidade. A questão fundamental é a da institucionalização da psicanálise, seja ela acadêmica (na universidade) ou em qualquer outro formato de instituição. A palavra “instituição” tem na sua origem o significado de “definir, estabelecer”, que vem do latim instituere. Bem, se falamos de uma psicanálise real, esta deve, de maneira adequada, ser constituída e não meramente instituída. A palavra “constituir” vem do latim construere, “construir”, formada por com (“junto”) + struere (“empilhar, montar”). A verdadeira psicanálise é constituída (construída internamente), e não instituída por uma estrutura externa. Em 1919, Freud expressou que a formação do psicanalista não se adequa ao modelo acadêmico, já que a formação de um analista não tem um “começo, meio e fim” como uma graduação tradicional. Além disso, para que alguém se torne psicanalista, é imprescindível que seja, antes, dotado de coragem, responsabilidade e, fundamentalmente, de uma determinada atitude. Pressupõe-se, com isso, que o aspirante a psicanalista seja capaz, através de sua atitude, de corajosamente se responsabilizar pela organização de seus estudos teóricos, sem depender de uma exigência externa vinda de uma instituição que cobre sua produtividade e o teste sobre o que aprendeu nas aulas. 


MÉTODO SUPEREGÓICO 


O método de ensino acadêmico atual coincide com um modelo superegóico, que tende a levar o sujeito a decorar os conteúdos apenas para se livrar da reprovação. Um método fundamentado num ideal pretendido e preestabelecido num “deveria ser”. Aquele que criou a psicanálise, assim como grandes pensadores posteriores, nos orienta com muita clareza quanto ao tripé psicanalítico constituído pela análise pessoal, pelo estudo teórico constante e pela supervisão de um colega mais experiente. Um psicanalista nasce no divã e não numa sala de aulas. O primeiro passo para aquele que pretende vir a praticar a psicanálise é a dedicação à sua análise pessoal, pois, antes disso, tudo fica deveras obstruído. A teoria psicanalítica não é tão difícil de se compreender quanto é difícil de admitir em seu conteúdo. Isso esbarra diretamente em questões mal elaboradas do sujeito que pretende estudar psicanálise. Sendo assim, tentar estudar psicanálise sem antes ter se dedicado à sua análise pessoal, na melhor das hipóteses, não conseguirá apreender verdadeiramente o que estuda, muitas vezes se desmotivando e desistindo por conta das resistências. Ou, ainda, corre o grande risco de voltar o conteúdo do seu aprendizado contra si mesmo e contra os outros. As experiências vividas na análise pessoal encontrarão, nos estudos teóricos constantes, uma maneira de serem nomeadas. Dessa forma, os conceitos vão se associando às experiências vividas, constituindo um sistema teórico rico de vivências. Na constituição de uma verdadeira psicanálise, isso deve ocorrer respeitando o tempo de cada um, e não exigindo que se cumpra um currículo preestabelecido e institucionalizado. Diferentemente do que se faz numa universidade, que é justamente o oposto: ensina-se a teoria, cobra-se por meio de testes o que foi ensinado e, depois, tenta-se aplicar na prática. 


MODELO


Wilfred Bion (1897–1979) propõe, em 1962, a ideia da função alfa, na qual a mãe recebe os conteúdos caóticos e desconexos do bebê — aos quais denominou elementos beta —, os contém, os organiza, irriga-os de afeto e os devolve ao bebê em formato de elementos alfa, agora prontos a serem pensados e ligados aos outros elementos do mundo interno. Quando a mãe exerce a função alfa, ela não está simplesmente dando manutenção ao funcionamento emocional do bebê, mas fornecendo um modelo que será internalizado por ele, o qual aprenderá, com cada experiência afetiva junto da mãe continente, a exercer a função alfa com seus próprios elementos e, posteriormente, se qualificará a fazê-lo com o próximo. Esse mesmo modelo acontece na prática clínica da psicanálise, onde, através das experiências com seu analista, o paciente vai aprendendo com a experiência e, mesmo que não seja sua pretensão inicial, impreterivelmente se qualificará para vir a exercer essa prática, mesmo que não venha a fazê-lo profissionalmente. 


PRÓXIMO PASSO 


Depois de iniciar a análise pessoal com um psicanalista com quem consiga estabelecer um vínculo afetivo saudável e de iniciar a dedicação aos estudos teóricos semanais — de preferência em grupo, onde haja um colega mais experiente orientando o percurso —, o sujeito poderá avaliar o momento em que se sinta preparado para atender seus pacientes. Para tanto, é fundamental que possa contar com a supervisão de um colega psicanalista mais experiente, que possa orientá-lo nas questões operacionais do atendimento, como manejo de agenda, horários e honorários. O suposto psicanalista que imagine já ter se formado não está, ainda, sendo psicanalista.


Referências:

BION, Wilfred R. Aprender da experiência. Tradução de Paulo Dias Corrêa. São Paulo: Blucher, 2021. (Obra original: 1962)

FREUD, Sigmund. “Sobre o ensino da psicanálise nas universidades” (1918/1919). In: Obras Completas, v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1976.









Prof. Renato Dias Martino


segunda-feira, 20 de abril de 2026

TERCEIRIZANDO FILHOS - Prof. Renato Dias Martino

Antes de iniciarmos efetivamente a proposta reflexiva contida neste texto, penso ser importante esclarecer que não se trata de uma incitação ao sentimento de culpa ou algo parecido, mas de uma oportunidade de alerta para o reconhecimento e a responsabilização do que esteja ao alcance da atenção daquele que lê.
A proposta é pensarmos sobre algo que atualmente tem sido normalizado como se não houvesse consequências, enquanto, na minha avaliação, grande parte dos males que assolam a sociedade contemporânea decorre justamente disso.

Grande parte dos humanos tem filhos que são, na prática, criados por terceiros. Geram-nos e os entregam aos cuidados de alguém afetivamente estranho. Talvez seja o único animal na natureza que o faça. Ainda assim, para que haja um desenvolvimento saudável — ao menos no âmbito emocional —, a criança necessita de cuidados maternos atentos, resguardados pela função paterna, no mínimo até os 3 anos de idade. Após esse período, aumentam significativamente suas chances de enfrentar os desafios inerentes à vida social, que se fundamenta em dissimulação e falsidade.

Essa demanda de cuidado não é apenas de ordem física ou fisiológica, mas, antes de tudo, de ordem afetiva. Não se trata de algo que uma profissional possa oferecer, por mais qualificada que seja, mas da presença afetiva da genitora, bem resguardada pelo companheiro que esteja desempenhando bem a função paterna, capaz de acompanhar cada passo do desenvolvimento da criança. Um outro afetivamente estranho não pode ser capaz de vir a ocupar esse lugar.
No entanto, o que se observa na realidade contemporânea é que a criança passa mais tempo acordada com educadores, cuidadores remunerados ou instituições do que com os próprios pais: creches que recebem bebês desde os primeiros meses de vida, escolas em tempo integral, babás rotativas e, mais recentemente, telas ocupando o lugar de “cuidadoras”.

Há, nesse contexto, implicações psíquicas importantes. Em Sobre o narcisismo: uma introdução (1914), Freud descreve o chamado “narcisismo primário”, momento em que a criança necessita se sentir como a coisa mais importante no mundo para a mãe. É dessa experiência — quando bem-sucedida — que se desdobram a autoconfiança, o sentimento de valor próprio e elementos estruturantes da personalidade. Quando os pais projetam na criança seu próprio narcisismo — por meio de enunciados como “você é o mais lindo”, “o mais perfeito”, “o centro do meu mundo” —, não estão simplesmente exagerando: estão, na verdade, oferecendo as bases da autoestima. A criança aprende a amar-se a si mesma, pois foi amada, e, com isso, se qualificará para amar o próximo. Está aí a semente da capacidade futura de investir libido em objetos externos (pessoas, projetos, ideais) sem prejuízo do investimento em si mesma. Se constitui uma auto-importância saudável: não megalomaníaca, mas suficientemente sólida para sustentar o sujeito diante das inevitáveis frustrações da vida.

Freud também aborda as fases do desenvolvimento libidinal em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). As experiências próprias dessas etapas só podem ser devidamente elaboradas sob os cuidados de quem ama a criança. E aqui revela-se um ponto crucial: não existe “tempo de qualidade”. O desenvolvimento emocional não se organiza segundo recortes artificiais no tempo, mas demanda continuidade. As intercorrências psíquicas não respeitam agendas preestabelecidas. O sofrimento, a angústia de separação, a excitação, a frustração, a necessidade de ser visto — tudo isso emerge de forma imprevisível. O tempo do amadurecimento emocional não coincide com tempo do relógio produtivo.

Mais tarde, Winnicott introduz o conceito de “dependência absoluta”, especialmente em O brincar e a realidade (1971) e em Os processos de maturação e o ambiente facilitador (1965). Nos primeiros meses de vida, o bebê é totalmente dependente da mãe-ambiente para sua sobrevivência física e integração psíquica. Sendo assim, deixá-lo aos cuidados de terceiros afetivamente estranhos passa a ser uma experiência perigosa e de danos emocionais imensuráveis. Trata-se de uma experiência potencialmente disruptiva, cujos efeitos podem se prolongar por toda a vida, manifestando-se como fixações e imaturidades no funcionamento emocional do adulto, desdobrando-se em severas incapacidades afetivas.

Cabe aqui um reconhecimento: há um conflito real entre as necessidades psíquicas do desenvolvimento e as exigências da estrutura econômica contemporânea, que impõe o retorno precoce dos pais ao trabalho. Por outro lado, é muito comum mães que terceirizam os cuidados de seus filhos pequenos por não terem paciência, não tolerarem o desconforto que se inclui no cuidado com crianças ou por qualquer outro motivo que não seja a necessidade de trabalhar fora. Ainda assim, na natureza, quando não há condições mínimas para a preservação e o desenvolvimento da prole, a reprodução tende a não ocorrer. É como se, na natureza, os animais dissessem: “Se não posso oferecer o necessário para que essa vida prospere com integridade, melhor não trazê-la”. 

Tratamos aqui de uma perspectiva estrutural. Parece-me que o funcionamento social e econômico atual se orienta na direção oposta às necessidades do desenvolvimento psíquico saudável. Isso gera um círculo vicioso, no qual vão sendo gerados exemplares de péssima qualidade, que configurarão uma sociedade cada dia mais doente. Vivemos em uma cultura de gratificação imediata e uma criança é, por natureza, imprevisível e trabalhosa. Para muitos, o filho passou a ser um "projeto de autorrealização" que, quando começa a dar trabalho, é prontamente terceirizado aos cuidados de outro, para que a vida pessoal do adulto não sofra interrupções. Com isso o alicerce da personalidade é estruturado com falhas severas e o desdobramento é uma sociedade composta por adultos tecnicamente funcionais, contudo emocionalmente desintegrados. Sujeitos habilidosos tecnicamente, inteligentes, capazes de operar máquinas, softwares, planilhas, redes sociais, mercados, conquistar títulos de mestrado e doutorado, mas emocionalmente desintegrados.

Atualmente, os jovens são instruídos a buscar o ensino superior sob uma idealização de títulos acadêmicos, contudo não são preparados para serem mães e pais. No entanto, a probabilidade de seguirem a carreira e exercerem as profissões de seus cursos é significativamente menor do que a de gerarem filhos. Antigamente, as meninas cresciam observando mães cuidando de crianças. Hoje, muitas chegam à maternidade sem nunca terem segurado um bebê. O desconforto da rotina infantil torna-se insuportável porque não houve preparo emocional ou cultural para o sacrifício que a criação exige. 

Portanto, parece que estamos constituindo uma legião de indivíduos que operam no modo de falso eu. Um exército tentando preencher fixações infantis, desejando futilidades, consumindo banalidades, funcionando emocionalmente de maneira patológica, o que os leva a se comportar não por atitude própria, mas de forma reativa, já que a base narcísica nunca foi devidamente elaborada. Os pais confiam seus filhos aos cuidados de um outro, afetivamente estranho fazendo com que os próprios filhos se tornem estranhos, sem a menor afinidade com eles. Cria-se, assim, um abismo de conflitos onde deveria haver o aconchego do lar. A implicação disso é a imaturidade generalizada, com adultos instáveis nas relações afetivas. Humanos incapazes de amar.


Referências:

FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. 1914.

FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. 1971.

WINNICOTT, D. W. Os processos de maturação e o ambiente facilitador. 1965.