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segunda-feira, 20 de abril de 2026

TERCEIRIZANDO FILHOS - Prof. Renato Dias Martino

Antes de iniciarmos efetivamente a proposta reflexiva contida neste texto, penso ser importante esclarecer que não se trata de uma incitação ao sentimento de culpa ou algo parecido, mas de uma oportunidade de alerta para o reconhecimento e a responsabilização do que esteja ao alcance da atenção daquele que lê.
A proposta é pensarmos sobre algo que atualmente tem sido normalizado como se não houvesse consequências, enquanto, na minha avaliação, grande parte dos males que assolam a sociedade contemporânea decorre justamente disso.

Grande parte dos humanos tem filhos que são, na prática, criados por terceiros. Geram-nos e os entregam aos cuidados de alguém afetivamente estranho. Talvez seja o único animal na natureza que o faça. Ainda assim, para que haja um desenvolvimento saudável — ao menos no âmbito emocional —, a criança necessita de cuidados maternos atentos, resguardados pela função paterna, no mínimo até os 3 anos de idade. Após esse período, aumentam significativamente suas chances de enfrentar os desafios inerentes à vida social, que se fundamenta em dissimulação e falsidade.

Essa demanda de cuidado não é apenas de ordem física ou fisiológica, mas, antes de tudo, de ordem afetiva. Não se trata de algo que uma profissional possa oferecer, por mais qualificada que seja, mas da presença afetiva da genitora, bem resguardada pelo companheiro que esteja desempenhando bem a função paterna, capaz de acompanhar cada passo do desenvolvimento da criança. Um outro afetivamente estranho não pode ser capaz de vir a ocupar esse lugar.
No entanto, o que se observa na realidade contemporânea é que a criança passa mais tempo acordada com educadores, cuidadores remunerados ou instituições do que com os próprios pais: creches que recebem bebês desde os primeiros meses de vida, escolas em tempo integral, babás rotativas e, mais recentemente, telas ocupando o lugar de “cuidadoras”.

Há, nesse contexto, implicações psíquicas importantes. Em Sobre o narcisismo: uma introdução (1914), Freud descreve o chamado “narcisismo primário”, momento em que a criança necessita se sentir como a coisa mais importante no mundo para a mãe. É dessa experiência — quando bem-sucedida — que se desdobram a autoconfiança, o sentimento de valor próprio e elementos estruturantes da personalidade. Quando os pais projetam na criança seu próprio narcisismo — por meio de enunciados como “você é o mais lindo”, “o mais perfeito”, “o centro do meu mundo” —, não estão simplesmente exagerando: estão, na verdade, oferecendo as bases da autoestima. A criança aprende a amar-se a si mesma, pois foi amada, e, com isso, se qualificará para amar o próximo. Está aí a semente da capacidade futura de investir libido em objetos externos (pessoas, projetos, ideais) sem prejuízo do investimento em si mesma. Se constitui uma auto-importância saudável: não megalomaníaca, mas suficientemente sólida para sustentar o sujeito diante das inevitáveis frustrações da vida.

Freud também aborda as fases do desenvolvimento libidinal em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). As experiências próprias dessas etapas só podem ser devidamente elaboradas sob os cuidados de quem ama a criança. E aqui revela-se um ponto crucial: não existe “tempo de qualidade”. O desenvolvimento emocional não se organiza segundo recortes artificiais no tempo, mas demanda continuidade. As intercorrências psíquicas não respeitam agendas preestabelecidas. O sofrimento, a angústia de separação, a excitação, a frustração, a necessidade de ser visto — tudo isso emerge de forma imprevisível. O tempo do amadurecimento emocional não coincide com tempo do relógio produtivo.

Mais tarde, Winnicott introduz o conceito de “dependência absoluta”, especialmente em O brincar e a realidade (1971) e em Os processos de maturação e o ambiente facilitador (1965). Nos primeiros meses de vida, o bebê é totalmente dependente da mãe-ambiente para sua sobrevivência física e integração psíquica. Sendo assim, deixá-lo aos cuidados de terceiros afetivamente estranhos passa a ser uma experiência perigosa e de danos emocionais imensuráveis. Trata-se de uma experiência potencialmente disruptiva, cujos efeitos podem se prolongar por toda a vida, manifestando-se como fixações e imaturidades no funcionamento emocional do adulto, desdobrando-se em severas incapacidades afetivas.

Cabe aqui um reconhecimento: há um conflito real entre as necessidades psíquicas do desenvolvimento e as exigências da estrutura econômica contemporânea, que impõe o retorno precoce dos pais ao trabalho. Por outro lado, é muito comum mães que terceirizam os cuidados de seus filhos pequenos por não terem paciência, não tolerarem o desconforto que se inclui no cuidado com crianças ou por qualquer outro motivo que não seja a necessidade de trabalhar fora. Ainda assim, na natureza, quando não há condições mínimas para a preservação e o desenvolvimento da prole, a reprodução tende a não ocorrer. É como se, na natureza, os animais dissessem: “Se não posso oferecer o necessário para que essa vida prospere com integridade, melhor não trazê-la”. 

Tratamos aqui de uma perspectiva estrutural. Parece-me que o funcionamento social e econômico atual se orienta na direção oposta às necessidades do desenvolvimento psíquico saudável. Isso gera um círculo vicioso, no qual vão sendo gerados exemplares de péssima qualidade, que configurarão uma sociedade cada dia mais doente. Vivemos em uma cultura de gratificação imediata e uma criança é, por natureza, imprevisível e trabalhosa. Para muitos, o filho passou a ser um "projeto de autorrealização" que, quando começa a dar trabalho, é prontamente terceirizado aos cuidados de outro, para que a vida pessoal do adulto não sofra interrupções. Com isso o alicerce da personalidade é estruturado com falhas severas e o desdobramento é uma sociedade composta por adultos tecnicamente funcionais, contudo emocionalmente desintegrados. Sujeitos habilidosos tecnicamente, inteligentes, capazes de operar máquinas, softwares, planilhas, redes sociais, mercados, conquistar títulos de mestrado e doutorado, mas emocionalmente desintegrados.

Atualmente, os jovens são instruídos a buscar o ensino superior sob uma idealização de títulos acadêmicos, contudo não são preparados para serem mães e pais. No entanto, a probabilidade de seguirem a carreira e exercerem as profissões de seus cursos é significativamente menor do que a de gerarem filhos. Antigamente, as meninas cresciam observando mães cuidando de crianças. Hoje, muitas chegam à maternidade sem nunca terem segurado um bebê. O desconforto da rotina infantil torna-se insuportável porque não houve preparo emocional ou cultural para o sacrifício que a criação exige. 

Portanto, parece que estamos constituindo uma legião de indivíduos que operam no modo de falso eu. Um exército tentando preencher fixações infantis, desejando futilidades, consumindo banalidades, funcionando emocionalmente de maneira patológica, o que os leva a se comportar não por atitude própria, mas de forma reativa, já que a base narcísica nunca foi devidamente elaborada. Os pais confiam seus filhos aos cuidados de um outro, afetivamente estranho fazendo com que os próprios filhos se tornem estranhos, sem a menor afinidade com eles. Cria-se, assim, um abismo de conflitos onde deveria haver o aconchego do lar. A implicação disso é a imaturidade generalizada, com adultos instáveis nas relações afetivas. Humanos incapazes de amar.


Referências:

FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. 1914.

FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. 1971.

WINNICOTT, D. W. Os processos de maturação e o ambiente facilitador. 1965.





quinta-feira, 23 de outubro de 2025

GRUPO HUMANO: Uma Entidade Psicótica - Prof. Renato Dias Martino

 

A massa humana é estúpida por natureza, já que é heterogênea.
Mesmo que exista um motivo unindo um grupo humano, sempre existirão inúmeros outros que não sustentam essa união. Assim que o motivo de união se dissolver, outros elementos logo se manifestarão, promovendo a dissolução do grupo humano. 
Freud já nos alertava, em 1921, sobre a característica estúpida do grupo humano. O ser humano é narcisista por natureza, e isso faz do grupo uma entidade psicótica, formada por inúmeras partes que dificilmente concordam entre si.
O grupo humano carece do cuidado obstinado de um líder para que não se dissolva ou para que conflitos desastrosos entre os membros não ocorram.
Somente em raras situações o grupo humano consegue uma orientação comum e afinada entre seus integrantes.
A harmonia dentro do grupo humano é, geralmente, superficial, guardando em seu íntimo infindáveis desacordos entre os membros.











Prof. Renato Dias Martino


sexta-feira, 16 de maio de 2025

DO NARCISISMO PRIMÁRIO AO PSICODIAGNÓSTICO - Prof. Renato Dias Martino



PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO 

Narcisismo primário é uma etapa do desenvolvimento da personalidade do bebê onde ele vê na mãe aquilo que ele necessita. Então, ele se vê na mãe. A mãe é um espelho das suas necessidades. Narcisismo primário é uma fase saudável do desenvolvimento emocional e afetivo. O narcisismo secundário acontece por conta de um insucesso no narcisismo primário. O narcisismo secundário, então não é saudável. O narcisismo secundário é sintomático, vai trazer um desdobramento repetitivo daquilo que não pôde ter sido suprido na época do narcisismo primário. Quando o bebê começa a perceber que existe uma outra pessoa além dele. Esta outra pessoa é a mãe e aí ele começa a viver uma relação com essa mãe por identificação. Relação por identificação é quando o outro não é outro, mas o outro é uma extensão de mim. Esta etapa do desenvolvimento, o Freud chamou de narcisismo primário. Quando acontece resquícios de insucesso desta fase, estes resquícios vão configurar um narcisismo secundário.

SECUNDÁRIO 

Uma parte da experiência que acontece no narcisismo primário não pôde ter sucesso e esta parte vai se desdobrar num narcisismo secundário. A parte bem-sucedida do narcisismo primário é aquela que se desdobra no reconhecimento do outro como outro, o que o Freud vai chamar de relação objetal. O outro não é uma extensão de mim, assim como na relação por identificação, mas o outro é um objeto externo. Então, é uma relação objetal. Algumas experiências não conseguiram passar do narcisismo primário, ou seja, da relação por identificação para a relação objetal e estas experiências que não conseguiram. Isso vão se desdobrar num narcisismo secundário. Dentro do narcisismo primário, o bebê tinha necessidade de ser reconhecido pela mãe. Ele tinha necessidade de se ver na mãe. Quando ele não consegue isso, ele vai desenvolver um desejo substitutivo desta necessidade e este desejo substitutivo a gente vai chamar de narcisismo secundário. E aí, ele vai projetar isso que não pôde ser suprido pela mãe nas outras pessoas, futuramente e também na mãe, futuramente. Vai cobrar da mãe, vai manter uma relação fusionada com a mãe. Isso tudo se configura no narcisismo secundário, ou seja, aquilo que não pôde ser bem-sucedido no narcisismo primário.

RELAÇÃO FUSIONADA

quando o narcisismo primário não é bem-sucedido e não pode ser bem elaborado para se desdobrar naquilo que a gente vai chamar de relação objetal fatalmente os relacionamentos na vida adulta vão se tornar relacionamentos fusionados ou relacionamentos onde um não consegue reconhecer o outro como o outro mas imagina que o outro seja uma extensão do eu e isso a gente vai chamar de narcisismo secundário o outro existe para satisfazer os meus desejos assim como no narcisismo primário a mãe existe para satisfazer as necessidades do bebê quando a mãe não conseguiu existir para satisfazer as necessidades do bebê essas necessidades vão se desdobrar substitutivamente em desejos onde o adulto vai obrigar o outro a satisfazer senão ele vai ficar muito bravinho no

PROPORÇÕES 

Um dos maiores fundamentos do que a gente tem como psicanálise do acolhimento é o desenvolvimento e a reflexão e a expansão da ideia das cotas. A ideia das proporções de tudo que está no humano. Tudo que está no humano está em cada um de nós. Cada um de nós tem um pouco de tudo de saudável e de tudo de nocivo. Uma das maiores contribuições do Freud foi que todos nós somos neuróticos em alguma medida. Uma das maiores contribuições do Bion, foi que todos nós somos psicóticos em alguma medida. Isso deve ser expandido para todas as características presentes nos seres humanos. E aí, a gente volta lá no filósofo Terêncio Afro da época medieval.

PSICODIAGNÓSTICO 


A intolerância quanto a isso, a intolerância de reconhecer essas características e reconhecer essas características vai ser fundamental para que eu possa aprender a respeitar essas características e me responsabilizar por essas características, moldando o funcionamento da minha personalidade. Isso que faz cada um ser de uma forma. A dificuldade de reconhecer isso vai trazer a exacerbação dos psicosdiagnósticos. Então, hoje qualquer manifestação que não seja socialmente aprovada é passiva de ser catalogada pelo CID, pelo DSM e o sujeito vai passar a ser o “laudado”. O laudado na escola, laudado no trabalho, laudado na família. O sujeito que foi caracterizado patologicamente por conta de uma característica que é sua que faz parte da sua personalidade e quanto mais ele é catalogado, quanto mais ele é diagnosticado, menos ele é capaz de se responsabilizar por isso, menos ele é capaz de reconhecer isso como característica sua, aprender a respeitar isso e aprender a se responsabilizar por isso. Porque isso já não é dele. Isso é uma patologia, logo é responsabilidade do psiquiatra, do neurologista, ou sabe lá de quem. E aí, ainda por cima ele pode requerer cotas de benefícios que possa favorecê-lo, porque ele foi laudado com aquele psicodiagnóstico e aí, a gente vai entrar naquilo que o Freud chamou de ganho secundário, ou seja, ele se beneficia da sua moléstia.



domingo, 9 de fevereiro de 2025

AMOR INCONDICIONAL E LIMITE - Prof. Renato Dias Martino



INTEGRAÇÃO

O fundamento de um bom funcionamento emocional é estar de acordo consigo mesmo. E quando eu falo estar de acordo é concordar estar junto de coração, estar junto de coração consigo mesmo. Ser o seu melhor companheiro ser o seu cúmplice. Por mais que você esteja fazendo a maior besteira do mundo, ainda assim, estar junto de si mesmo, amar a si mesmo. Amor-próprio não pode estar subordinado a gostar de si mesmo. Eu posso não estar gostando daquilo que eu estou fazendo, eu posso não estar gostando daquilo que eu estou sendo, mas ainda assim, eu me amo, ainda assim, eu me considero, ainda assim, eu estou do meu lado. “Ah! Mas você está fazendo uma besteira com o outro e consigo mesmo!” Não importa! É o que eu estou dando conta de fazer agora. E isso, dentro da teoria psicanalítica, sobretudo esta teoria que a gente está cogitando aqui, a gente vai chamar de integração.

AMOR-PRÓPRIO OU NARCISISMO

E não vamos confundir amor-próprio com narcisismo. Narcisismo não é amor-próprio. Narcisismo é gostar de si mesmo, amor-próprio é independente de gostar. O Narciso, ele olhou para imagem dele no rio e gostou. Ele foi atraído por aquilo e aí ele ficou ali, encantado, ele ficou ali apaixonado pela sua imagem. Ele não se dedicou a aquilo. Ele estava interessado naquilo. Então, amor-próprio não é narcisismo.

AMA OU GOSTA

O amor é construído a partir de relacionamentos bem-sucedidos. O outro me amou, eu aprendi a amar a mim mesmo e agora eu sou capaz de amar as outras pessoas. O outro se dedicou a mim, o outro foi meu companheiro o outro esteve do meu lado, mesmo eu fazendo a pior besteira do mundo, eu passei a estar do meu próprio lado, mesmo eu fazendo a pior besteira do mundo e agora eu sou tolerante com as besteiras dos outros. Gostar é outra coisa. Gostar é se sentir atraído, gostar é se sentir atraído porque aquilo que me atrai sugere que vai me trazer um benefício e quando eu não vejo mais esse benefício, eu abandono porque eu não gosto mais.

AMOR E DESRESPEITO 

A expressão “amor incondicional” é um pleonasmo. Amor é incondicional. Se não for incondicional, não é amor. Se houver condição, então não é amor. Agora, é importante a gente pensar o seguinte: quando eu estou falando de uma relação amorosa, esta relação precisa partir do amor-próprio. Eu me amo e a partir daí, eu sou capaz de amar o outro e eu me amo porque fui amado pelo outro. Agora, não é porque eu tenho um amor incondicional que eu vou permitir abuso, desrespeito, agressão, violência. Então, o amor incondicional é que eu não estou esperando qualquer coisa para que eu passe a amar, mas isso não quer dizer que eu vá permitir abusos e desrespeitos.

LIMITES

O amor incondicional está dentro da perspectiva do limite. Qual o limite? O limite entre “eu” e “você”. Nós somos duas pessoas. Amor incondicional não é fusionamento. Não é me fundir com o outro. É justamente o contrário. É ser capaz de estar integrado o suficiente para que você possa reconhecer o limite entre “eu” e o “outro”. E quando começa a haver desrespeito, quando começa a haver agressão, quando começa a haver aí, uma um abuso é porque está havendo um fusionamento, já que, quando eu desrespeito o outro é porque eu já estou me desrespeitando há muito tempo. E através desse fusionamento eu passo a desrespeitar e abusar do outro também.

PERMISSIVIDADE

Amor incondicional não inclui a permissividade. Se eu não estiver amando a mim mesmo incondicionalmente, eu não posso chamar isso que eu tenho com o outro, de amor. O amor não inclui a permissividade. Quando um filho desrespeita a mãe, quando um filho começa a passar do limite, na adolescência, por exemplo, ele já estava fazendo isso desde pequeno, porque a mãe foi permitindo que ele fizesse. Quando não há ali, a possibilidade de uma configuração de desenvolvimento que deixa muito claro o limite, lembrando que quem mostra o limite, quem traz a possibilidade de reconhecimento do limite é a função paterna na figura do pai, quando isso não pode acontecer e chega no adolescente ou na idade adulta isso passa a ter que sofrer imposições e a imposição nunca é saldável.

DISTANCIAMENTO NECESSÁRIO 

Muitas vezes, para que eu possa amar incondicionalmente o outro eu preciso respeitar um distanciamento necessário. Isso não é impor condições, porque de outra forma o outro vai me provocar e me desrespeitar e eu vou ter muita dificuldade para construir e manter este amor.


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

O EU E O OUTRO - Prof. Renato Dias Martino



O LIMITE DO AMOR

Lá, no SOBRE O NARCISISMO UMA INTRODUÇÃO, o Freud fala sobre o que ele chamou de amor feliz. Eu tenho uma restrição quanto à ideia de feliz. Eu, mais adequadamente, colocaria: o amor real, ou um amor bem-sucedido. Mas, de qualquer forma, o Freud coloca lá que, para que possa ser chamado de amor feliz, a libido do ego precisa coincidir com a libido objetal, ou seja, o quanto o sujeito ama a si mesmo precisa coincidir com o quanto ele ama o outro. Todas as vezes que um uma tendência de interesse sobressair a outra, vai haver uma falta correlacionada. Se eu amar mais o outro do que a mim mesmo, eu não posso chamar isso de amor e se eu amar a mim mesmo mais do que ao outro, tanto quanto. E aí, a gente vai resgatar lá, a formulação religiosa com os dois mandamentos de Jesus Cristo. “Ama a Deus sobre todas as coisas e ama o outro como a ti mesmo”. E aí, é interessante, vale lembrar que, quando a gente lê na Bíblia, “mandamento”, isso não quer dizer que Jesus está mandando você fazer isso. Jesus está mostrando uma regra. Jesus está mostrando uma lei. Jesus está mostrando ali, um princípio. Então, ele está dizendo assim: “não há como amar o outro além do que você ama a si mesmo”. Não tem como. E antes de amar a si mesmo, você precisa estar amando a Deus. Amando a realidade, amando o todo. Porque, senão, isso que você tem com você não é amor, muito menos aquilo que você tem com o outro.

O OUTRO COMO AMBIENTE 

O Winnicott traz o conceito de mãe ambiente. Para o Winnicott, é importante que a mãe seja capaz de, antes de ser uma outra pessoa na vida do bebê, que ela possa ser o ambiente do bebê. Como uma extensão do que o útero foi para o bebê. Então, a mãe é o ambiente do bebê que cuida de toda a psicosfera, por assim dizer, para que ele possa se integrar ao todo. Depois que ele se integrou ao todo, ele está capacitado a reconhecê-la como uma outra pessoa e não simplesmente como o ambiente saudável que o circunda.
O INDIVÍDUO OU A ESPÉCIE 

O ser humano tem essa coisa do indivíduo, do individual, do individualismo. Ele tende, a todo custo preservar a si próprio. O seu desejo, aquilo que ele quer, mas a natureza não está nem aí para o indivíduo. A natureza não está nem aí para o sujeito. A natureza está aí para espécie. Schopenhauer já chamou atenção sobre isso. A natureza tem interesse que a espécie prolifere. Uma formiga não tem a menor importância, o que tem importância é o formigueiro. Ou você está de acordo com o formigueiro, ou você não tem a menor relevância para a natureza. E o ser humano é extremamente incapaz de estar de acordo com o todo, com a natureza. Ele quer saber dele próprio, do umbigo dele e ele, ele, ele, ele e nada mais.



sexta-feira, 4 de outubro de 2024

DO AUTOEROTISMO AO AMOR PELO OUTRO - Prof. Renato Dias Martino


AUTOEROTISMO

Hoje nós temos aí, pessoas com um dom extremamente elevado de diagnosticar as pessoas, de apontar os dedos e trazer com precisão inúmeros dados, mas nós psicanalistas, precisamos ser humildes o suficiente para admitir que a gente não sabe nada e que a gente precisa viver essas experiências junto com o paciente. A questão é o sujeito que só consegue se satisfazer através da masturbação. Então, a gente está falando aí, da impossibilidade de ter passado do autoerotismo para o narcisismo primário. O que é o autoerotismo? É quando o sujeito se satisfaz consigo mesmo, por mais que seja através do corpo do outro, mas ele ainda tem uma autossatisfação, ele não consegue admitir o outro. Ele não inclui o outro. Então, ele não conseguiu fazer essa transição do autoerotismo para o objeto externo, para o outro. Então, ele ainda ficou fixado nisso.

NARCISISMO PRIMÁRIO

Como se dá a passagem do autoerotismo para o narcisismo primário? Então, Freud vai colocar em 1914, SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, que, para que possa haver o narcisismo primário, precisa ter havido uma ação a mais. Qual é essa ação a mais? É a apresentação do objeto que é a mãe. A mãe precisa entrar na relação, porque se a mãe não entra na relação ele fica preso no autoerotismo. Para a mãe se apresentar e para que o sujeito possa reconhecer esta mãe, ela precisa chegar de mansinho. Aí, vamos resgatar o Winnicott: ela, primeiro, precisa ter sido o ambiente. Quando ela é um ambiente, o bebê vive o autoerotismo, porque ela não é outra pessoa. Então, ele desenvolve, ele vive a experiência do autoerotismo até o ponto que isso possa se desenvolver e ele passe a ser capaz de reconhecer o outro. Este outro passa a ser um espelho para ele. Quando ele passa a ser um espelho para ele, ele começa a viver o narcisismo primário. Então, agora ele admite a entrada do outro, mas um outro que vive exclusivamente para ele. Quando ele não tem este outro que vive exclusivamente para ele, ele fica fixado no autoerotismo como se não existisse qualquer outra pessoa. Porque essa outra pessoa não foi boa o suficiente para que ele pudesse abrir mão daquela configuração autoerótica para se abrir para o outro.

FUNÇÕES

Quando eu falo aqui da função materna, eu estou falando implicitamente da função paterna. Não há como exercer a função materna de maneira suficientemente boa, ou de maneira bem-sucedida, sem a presença atuante da função paterna não tem como.

INTENSO OU DURÁVEL 

Amor intenso não existe! Amor intenso é paixão e na paixão o elemento fundamental é o desejo. Na paixão eu desejo o outro, no amor eu me dedico ao outro. E a dedicação não é intensa, ela é constante. O amor é constância, a paixão é intensidade. Então, quando a gente está falando de um amor saudável, de um amor verdadeiro, a gente está falando de constância, de continuidade. Quando a gente fala de intensidade, nós estamos falando de paixão. Na paixão o sujeito elege o outro como um objeto de desejo e quando ele percebe que o outro não corresponde ao seu desejo, ele já não quer mais o outro. 

GOSTAR OU AMAR

Nós temos a ideia de que amor é um sentimento, nós temos a ideia de que se sente amor. Eu sinto amor! Não! Eu não sinto amor. Amor não é um sentimento, amor é uma capacidade. Nós tendemos a colocar o amor no super relativo do gostar. Eu gosto tanto que eu amo. Não! Amor é independente de gostar. Amor é dedicação, amor é doação. Gostar é para coisas, amar é para pessoas. Quando a gente ama o outro é quando a gente está aberto a se dedicar ao outro. Por quê? Porque a gente está amando a gente mesmo, porque a gente é capaz de amar a gente mesmo, a gente estende esse amor ao outro. E amar a nós mesmos independente de gostar de nós mesmos. Eu posso não estar gostando de mim, mas eu me amo, eu me dedico a mim mesmo. Isso porque aquele que cuidou de mim, aquela que fez a função materna e aquele que fez a função paterna me amava independente de gostar de mim. Uma mãe não gosta do bebê o tempo todo. Bebê é muito difícil de cuidar e eu não posso esperar que eu goste desse bebê para amá-lo. Gostar é quando o outro me traz um benefício, amar é quando eu me dedico ao outro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.


DIFERENCIAÇÃO 

A mãe se separou do pai e o menininho de 11 anos, um dia chegou para mãe e falou assim: “Mãe, olha, eu te amo muito, mas o papai é muito mais legal que você”. Na avaliação da criança, o pai é mais legal. Agora, quando a criança não é capaz de amar ainda, porque ela ainda não tem esta capacidade. Uma criança não ama. Crianças não amam! Bebê não ama! Eu não posso exigir de uma criança que ela ame, porque ela ainda não é capaz disso. Ela precisa ser amada, muito amada, muito bem-amada, para que ela possa desenvolver isso. Então, não posso exigir isso da criança. Então, enquanto ela não se torna capaz de amar ela também não é capaz de discernir o que está vindo do outro, se é amor, ou qualquer outra coisa. Mas, a ainda assim, a dedicação é amor e quando ela aprender a amar através dessa dedicação, que hoje ela não consegue reconhecer como amor, ela vai perceber e vai avaliar quem realmente ama. Talvez a criança não seja capaz de diferenciar quem gosta dela e quem a ama, mas isso aí é temporário, é até que ela possa aprender a amar. Aprender a amar através do quê? Através da dedicação que tiveram com ela e não através das pessoas que gostam dela. Porque as pessoas que gostam dela, gostam porque ela pode trazer um benefício. Porque ela é bonitinha, porque ela fala legalzinho, porque ela sabe fazer continha, porque ela faz desenho bonito, isso é gostar, mas isso daí só alimenta um falso eu, porque você vai ficar preso naquilo que você tem que fazer para que o outro possa gostar de você. O amor não! O amor é dedicação. As pessoas que se dedicaram a mim, alimentaram em mim a minha auto-dedicação e hoje eu sou capaz de dedicar a mim mesmo e estender essa dedicação ao outro. Isso é amor! Gostar é outra coisa. O amor se manifesta quando eu não espero nada do outro. Enquanto eu estiver esperando alguma coisa do outro, não é amor. Então, o amor se manifesta quando o sujeito é idoso e quando o sujeito é criança. Por quê? Porque quando ele é criança, ele não pode trazer benefício nenhum para o outro e quando ele é idoso, tanto quanto. Então, a criança pode não estar sendo capaz de reconhecer, ou diferenciar, ou avaliar o que é amor e o que é gostar, mas mesmo que ela não esteja sendo capaz de diferenciar, está acontecendo a nutrição e ela está se alimentando disso e se nutrindo disso.

DEPRESSÃO PÓS 

Depressão é um movimento. O movimento para dentro, para baixo. A depressão pode tanto ser patológica, quanto ser saudável. Todas as duas são desconfortáveis. Então, depressão pós-parto, ela vai acontecer, em alguma medida, em todos os partos, em todos os pós-partos, todo filho que nasce vai gerar na mãe uma certa depressão. Todo sujeito que entra na minha vida, após a entrada desse sujeito na minha vida, vai gerar uma depressão. Por quê? Porque esta entrada do outro vai, de alguma forma sacrificar uma parte do meu narcisismo. Então, o bebê que nasce vai, de alguma forma, suprimir a vida da mãe em alguma medida. A mãe, agora, vai ter que viver para aquela criatura e dizer que você vai lidar com isso de uma maneira: Ah está tudo bem! Não! Não vai lidar com isso, “tudo bem”. Umas estão mais preparadas para isso, outras menos, mas de alguma forma, você vai sentir isso. Ou seja, você, em algum momento, não vai gostar que aquela criança esteja ali, mas você vai amá-la, da mesma forma, mesmo não gostando que ela esteja ali, porque amar é dedicação.

EDUCAR

Você sabe qual que é a semântica da palavra educar? “E” quer dizer fora e “DUCERE” quer dizer colocar. Educar é colocar para fora. Educar é um fator da função paterna, a mãe não educa é o pai que vai preparar para fora. É a função paterna que prepara a criança para que ela possa viver no mundo externo. A mãe não! Quando não tem a função paterna, a mãe tem que carregar esse duro fardo de educar e aí, ela tem que se destituir da sua sensibilidade que é a sua maior virtude para fazer isso.

NÃO DE PAI 

Para o pai, falar um não é uma coisa, para a mãe falar um não é outra. Custa muito para uma mãe falar não. Para o pai é corriqueiro. Então, numa família bem estruturada, o filho pede alguma coisa para mãe e a mãe fala assim: “Vai pedir pro seu pai”. Por quê? Porque para ela custa falar não, mas para ele é simples. “O pai... Não! Não! Não! Não! Não! Já falei que não.” Acabou a conversa! O pai dedicado é o pai que ama, é o pai que se dedica ao filho, é o pai que se dedica à criança. Não é simplesmente aquele que fala não. Não é simplesmente aquele que faz reconhecer o limite, mas é aquele que se dedica. E este pai que é capaz de amar também vai dizer o não e este não é mais um fator da função de dedicação. A dedicação dele inclui o não. Então, o pai que ama não precisa sequer justificar o não, porque o não é uma expressão do amor, da dedicação. Quando ele fala esse não com amor, este não é internalizado como autocuidado e esta criança vai aprendendo a dizer não para ela mesma como um autocuidado e não como uma repressão, como uma castração, ou como qualquer coisa nesse sentido, mas como uma capacidade de respeitar a si mesmo. E a partir daí, ele vai se posicionando e tomando atitudes que incluem esta configuração de limite e amor.

MODELO

O nosso desenvolvimento emocional trabalha através de modelos. Eu preciso de modelos. Modelos que possam me trazer limite e amor. Eu preciso ser amado com limite para que eu possa ver no outro um modelo que eu possa seguir, mas hoje nós estamos extremamente carentes de modelos. Modelos aonde? Dentro de casa. O pai precisa ser um modelo para o menino se tornar um homem. O pai precisa ser um modelo para que a menina possa avaliar qual é o homem que ela vai se envolver. A mãe precisa ser um modelo para menina se tornar uma mulher. A mãe precisa ser um modelo para que o menino possa avaliar a mulher que ele vá se envolver. Mas nós não temos mais isso. O pai não está mais presente. A mãe também não está mais presente. E aí, ou ele desiste de procurar modelos, ou ele busca o modelo externo, o modelo de um ídolo que sabe lá onde é que está. Muitas vezes político, muitas vezes dirigente religioso... Sei lá onde... Um cantor de funk, um artista, ele busca esse modelo onde este modelo não é adequado para que ele possa estruturar a sua própria personalidade.