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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

DA DÚVIDA À RESPOSTA - Prof. Renato Dias Martino

 


Enquanto o sujeito busca por respostas, a vida se propaga na dúvida.
A capacidade de tolerar dúvidas é característica da maturação emocional.
Certezas são ilusões confortáveis para aqueles que ainda não aprenderam a respeitar as dúvidas.
Quando é possível tolerar a incerteza inerente ao fluxo da vida, percebemo-nos grandes ignorantes quanto à realidade.
À medida que aprendemos a reconhecer e respeitar o mistério da vida, passa a ser possível nos responsabilizarmos por nossa ignorância —
e isso nos torna inacabáveis aprendizes.
O sujeito que age, sempre seguro daquilo que imagina saber, é constantemente convidado à arrogância.

Aquele que não é consciente de sua ignorância tende a ter atitudes a partir do que imagina ser sabedor, agindo, assim, com estupidez.






Prof. Renato Dias Martino

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

SOBRE O CONHECIMENTO E A PRÁTICA CLÍNICA DA PSICANÁLISE - Prof. Renato ...



INTELIGÊNCIA 

O conhecimento é inútil e muitas vezes perigoso nas mãos do imaturo. Então, quando a gente fala de conhecimento, nós não estamos falando de maturidade emocional. O conhecimento não está subordinado à maturidade emocional e a maturidade emocional também não está subordinada ao conhecimento. Ser inteligente não garante a sua maturidade emocional. A maturidade emocional se desenvolve paralelamente a capacidade intelectual. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Por mais que nós tenhamos aí, pensadores que tentam aproximar uma coisa da outra, falando até de “inteligência emocional”, a maturidade emocional, a capacidade emocional, que se desdobra na capacidade afetiva, nada tem a ver com o âmbito intelectual, ou a capacidade de armazenar, acumular conhecimento e articular estes esses conhecimentos. Um sujeito muito inteligente pode ser muito pouco maduro emocionalmente.

IGNORÂNCIA

A maturidade emocional inclui a capacidade de tolerar a sua própria ignorância. Tolerar o não saber, tolerar que não sabe das coisas, logo, passa a estar aberto a aprender. Diferente de um sujeito intelectual, ou inteligente, que já sabe tudo e que não tem muita coisa a aprender. Quando a gente fala de ignorância, nós estamos falando da condição do ser humano. O ser humano tem a condição da ignorância. Por mais que ele é dito um sujeito cognoscente, ainda assim, ele é um grande ignorante da realidade como um todo. Ele pode até saber algumas coisas, mas essas coisas são pedaços e não o todo. O todo está fora da sua capacidade de conhecimento. Quando o sujeito é capaz de reconhecer a sua própria ignorância, ele está pronto a aprender. Quando ele não é capaz de reconhecer a sua ignorância e age como se ele soubesse, ele passa a agir com estupidez. Agir com estupidez é ignorar a própria ignorância.

DESCONFORTO

Para que você possa aprender com a experiência, você precisa reconhecer a sua ignorância e isso é desconfortável. Principalmente, se você não está confiando naquilo que você está sendo e o que comanda a sua vida é aquilo que você deveria ser, então, se aquilo que está regendo a sua vida é aquilo que você deveria ser, você não consegue aprender com a experiência. Porque existe sempre um pressuposto daquilo que você deveria ser e aquilo que você deveria ser é alguma coisa muito nobre, muito bonita, muito cheia de perfeições e aí não tem como aprender com a experiência. Porque, na experiência será revelada a sua limitação a sua ignorância logo a possibilidade de aprender.

CONFORMADO 

Aquele sujeito que até reconhece a sua ignorância, mas está conformado com isso. E esta conformação vai levá-lo a caminhos perigosos. Por exemplo, passar a estar subordinado a outras pessoas, subordinado a instituições. Religiosas, políticas, governamentais... Então, ele conforma com a sua ignorância e passa a ser um dependente do outro. Onde o outro vai dizer para ele para onde ele tem que ir. Tão nocivo quanto o sujeito que é ignorante da sua própria ignorância, logo acredita que sabe, é aquele que é consciente da sua ignorância, mas está conformado com isso.

DEFESA

A tentativa de conhecer é o primeiro recurso que o sujeito lança a mão quando ele não consegue amar. Quando ele não é capaz de reconhecer, de respeitar e se responsabilizar, ele tenta entender. O respeito não está subordinado ao entendimento. Se você tiver que entender primeiro para depois respeitar, você já faltou com o respeito. Conhecer é uma defesa. Quando eu sou capaz de acolher meu paciente, eu não preciso ficar tentando entender. Eu simplesmente propicio um ambiente para que ele possa trazer tudo aquilo que está doendo independente que eu entenda aquilo ali.

INSEGURANÇA

O conhecimento é um desdobramento de uma experiência. A epistemofilia vai acontecer, ou seja, o sujeito vai, de maneira inata ter esse ímpeto, esse impulso de vir a conhecer. É um impulso de exploração, de conhecimento e a gente já conversou sobre isso. O Freud vai falar que está dentro da perspectiva da sexualidade, depois a Melanie Klein vai falar que essa epistemofílico está ligada a explorar o corpo na mãe. A tendencia a buscar conhecer é inata, mas é inata como uma possibilidade de se defender.  A epistemofilia vai ser provocada pela insegurança. Eu me sinto inseguro, então, eu busco saber por que estou me sentindo inseguro. Enquanto eu estiver seguro, eu não busco saber. Enquanto eu estiver acreditando em mim mesmo, eu não vou buscar conhecer. Não me interessa conhecer. O conhecimento advém da insegurança.

DISPUTA 

Hoje, com o advento das redes sociais, a gente tem essa chance de observar e muitas vezes até se ver envolvido em debates infecundos, que não vão dar em nada, onde um quer saber mais que o outro. E aí, cada um vai angariar argumentos e provas para contestar a ideia do outro. Tudo em nome de ser o campeão na disputa de quem tem a razão.

INFORMAÇÕES INÚTEIS

ENEM, ENADE, todos esses testes, todas essas provas que são aplicadas nos jovens, são falácias, inúteis. Ele não aprendeu aquilo, ele decorou aquilo e decorar um conteúdo frio e sem qualquer afeto é nocivo para o funcionamento emocional. Intoxica a mente. Ele vai decorar fórmulas químicas, ele vai decorar equações matemáticas, ele vai decorar inúmeras informações que vão ser inúteis para o resto da vida dele. Ele nunca mais vai usar esse monte de porcaria e ao mesmo tempo ele não vai ser capaz de trocar um botijão de gás quando for necessário. Ele não consegue desenvolver as coisas que vão ser úteis para ele e ao mesmo tempo ele está entulhado de informações inúteis.

APRENDENDO

Um paciente o procura, ele como analista, e diz assim: “Olha, eu preciso de atendimento porque eu estou com problema alimentar, estou compulsivo na minha alimentação, estou comendo demais”. Então, ele adianta isso aí, ali na mensagem. Ele marca o horário com o analista e a partir dali o analista começa a ler livros e artigos a respeito de compulsão alimentar. Não! Você não vai receber uma compulsão alimentar, você vai receber um ser humano que sofre. Você vai receber um ser humano que está desnutrido afetivamente e por conta disso não está funcionando emocionalmente adequadamente. Ele não está nesses artigos que você está procurando. Ele não está em nenhum livro que você vai ler. Você precisa aprender com ele o que é que está acometendo esse sujeito.

ACOLHER

Esse tipo de atitude é muito mais difícil. Não é para qualquer um. É muito mais fácil você se afundar na leitura e se tornar especialista em compulsão alimentar e colocar uma placa na frente do seu consultório: “especialista em compulsão alimentar”. Você sabe tudo sobre isso. Você é doutor em compulsão alimentar. Você é mestre em compulsão alimentar. Só que, quem vai te procurar não é uma compulsão alimentar é um ser humano, é uma pessoa que está em dor e que a compulsão alimentar é apenas uma característica desta dor. E diga-se de passagem, a característica mais superficial desta dor. E indo para além, a dor que está gerando a compulsão alimentar, você não pode conhecer e nem o seu paciente. Você pode acolher. Você pode, junto com o seu paciente, desenvolver recursos para tolerar esta dor. Para conviver com esta dor. Para lidar com esta dor e através disso, pode ser até que essa dor possa ir se amenizando, mas isso também não é promessa.

INTEGRAÇÃO

Um paciente me trazendo a seguinte queixa: “eu estou fumando demais e eu tenho me preocupado com isso”. E eu digo para ele: “vamos continuar o nosso processo de integração”. “Esta integração vai trazer para você um desinteresse em relação ao ato de fumar”. É a integração que traz a possibilidade de se desinteressar daquilo que não é fundamental, não é o contrário. Não é abandonar ou se afastar daquilo que não é fundamental, ou aquilo que é tóxico que vai trazer a integração. O processo de psicoterapia traz a reparação emocional para que haja a integração da personalidade e nesta integração da personalidade o sujeito vai se afastando da aquilo que é nocivo para ele, ou daquilo que não é fundamental para que ele viva.

CONHECIMENTO NA CLÍNICA

O conhecimento não entra na clínica. O conhecimento precisa estar fora da clínica. O conhecimento precisa estar no grupo de estudo. Na clínica é o acolhimento. Na clínica é abrir mão do conhecimento. É ser capaz de rebaixar ao máximo tudo aquilo que você sabe. Se o conhecimento estiver entrando na clínica ele precisa ser somente alegórico. O que é alegórico? Eu vou até explicar para o paciente: “Olha, seria interessante que você reconhecesse, aprendesse a respeitar e se responsabilizasse”. Isso é teórico. Isso é um conhecimento, mas eu não estou pretendendo que, com esta minha fala alguma coisa seja mobilizada no paciente, mas a minha atitude de dar atenção ao meu paciente e mobilizar alguma argumentação para estar junto dele, que mobiliza a desobstrução para a transformação. Eu poderia ter recitado um Fernando Pessoa, eu poderia ter cantado o Renato Russo, eu poderia ter falado sobre a teoria do Heisenberg, dentro da física quântica... Não é isto! Mas é o ato de estar disposto a prestar atenção junto com o paciente. Este foi o grande avanço que o Freud trouxe. O Freud se dispôs a ouvir as histéricas que os médicos estavam chamando de frescura. Ele se dispôs a estar com estas mulheres. Ele se dispôs a ouvir aquele que a classe médica estava menosprezando, porque não encontrava indício fisiológico da origem daquilo que o paciente estava sofrendo.

I.A.

A inteligência artificial está chegando para fazer uma revolução muito importante na humanidade. Para revelar realmente o que é importante. O que é verdadeiramente importante. O que é verdadeiramente impossível ser feito por máquina. Todas as outras coisas vão poder ser feitas pela Inteligência Artificial, menos o essencial e a psicanálise é uma dessas coisas. Quando a gente fala de psicanálise, nós não estamos falando aqui do analista dizer pro paciente alguma coisa que possa intervir na transformação, ou possa promover uma transformação, nós estamos falando aqui de um vínculo que se estabelece e pode trazer a possibilidade de experiências emocionais e afetivas reparadoras. Não existe a possibilidade de viver experiências emocionais reparadoras com uma máquina. Não há como aprender a amar com uma máquina. Não há como aprender a amar a si mesmo com uma máquina.

O FALO DO SABER

Grande parte dos sujeitos que se interessam pela psicanálise, se interessam porque parece que o psicanalista é aquele cara que sabe muito, que é muito inteligente. Nossa como você é inteligente! Vi um vídeo seu na internet, como você é inteligente! E aí, o sujeito fica “faludo”, né? Não meu amiguinho! Não é isso! Mas grande parte dos sujeitos que se interessam pela psicanálise, se interessam porque aquilo traz um falo poderoso para se exibir, para falar nos podcasts. Coitado do paciente dessas pessoas.

PSICANÁLISE REAL

Por mais que o Freud tenha analisado obras de autores, inclusive já falecidos como Leonardo da Vinci, como o caso do Schreber, como a Gradiva de Jensen. Ele estudou obras e analisou as obras. Isso é uma grande dedução. Porque a psicanálise real é aquela que acontece onde duas pessoas estão de acordo com o processo. Onde o analista e o paciente estão de acordo com aquilo que vai acontecer. Uma análise real é aquela que acontece com um paciente que está disponível a esta análise. Disponível e presente. Então, esta coisa que a gente vê por aí, de ficar analisando pessoas ausentes, ou que estão ali, dentro de notícias bombásticas, no quadro político, religioso, sei lá qual quadro. Muitas vezes, o sujeito diagnosticando pessoas, personagens aí, de notícia, isso não é psicanálise. A psicanálise não pode se prestar a isso. Isso aí está no nível intelectual e a psicanálise não está dentro deste nível. A psicanálise se presta a um processo emocional. Primeiro precisa ser estabelecido um vínculo para, depois disso, começar a algum tipo de análise. Antes disso é impossível. Sem um vínculo saudável, tudo que sai dali é duvidoso. O próprio Freud, depois, veio falar da transferência. Sem que tenha havido uma transferência entre paciente e analista, tudo é duvidoso. A análise só pode acontecer dentro da transferência e quando ele fala isso daí, ele está dando o primeiro passo para dizer para gente que é só a partir do vínculo estabelecido. Depois o Bion vai falar que o primeiro elemento de psicanálise é a conjunção constante do continente e contido. Então, se não houver esta conjunção constante entre algo que esteja disponível a ser acolhido e algo que esteja pronto a acolher nada pode acontecer de verdadeiro.

ESPECIALISTA 

Quando a gente fala de psicanálise, pelo menos dentro desse modelo aqui, a gente precisa tomar muito cuidado com esta coisa de especialista em uma coisa ou especialista em outra coisa. Psicanalista é aquele que recebe o que vier, independente da especialidade. O psicanalista real acolhe uma pessoa, não uma patologia. Ele acolhe um ser humano e não o que está cometendo esse ser humano. A especialidade vem através de um estudo teórico e o analista não vai se basear em estudos teóricos. Ele vai se basear, ele vai se sustentar, ele vai se apoiar no seu preparo emocional e afetivo. Nós estamos tratando de maturidade emocional. Nós não estamos falando de especialidade teórica, porque quando você se especializa em alguma coisa, das duas uma: ou você vai obrigar o seu paciente a estar dentro da sua especialidade, ou você vai simplesmente dizer: “isso aí eu não atendo”.

QUEIXA INICIAL

A experiência mostra que muitas vezes, a queixa inicial do paciente é trazida somente na primeira sessão. Porque, na verdade, aquilo ali era apenas a casca de alguma coisa muito mais profunda. Quando o analista está sendo acolhedor, ele recebe o paciente, o paciente começa a perceber e começa a ter coragem de mexer nisso tudo. E aí, se você é especialista em alguma coisa, você tende a ficar naquela coisa que o paciente trouxe, insistindo naquilo.

DISPONIBILIDADE

Agora, vou dizer para vocês qual é a minha especialidade. Eu sou especialista. Eu sou especialista em tratar pacientes que estejam disponíveis para a análise, que estejam abertos a isso, que estejam predispostos ao processo psicoterapêutico. Eu sou especialista nisso. Aí, ele pode vir com o rótulo de autista, de caolho, seborreia no couro cabeludo, hemorroida... Tudo bem! Não tem problema. Eu recebo essa pessoa com todo o carinho, se esta pessoa estiver predisposta ao processo psicoterapêutico. Essa é a minha especialidade. Agora, se o sujeito não estiver predisposto, eu não tenho muito o que fazer. Se ele veio porque a irmã dele disse que ele tem que vir, eu não tenho o que fazer. Você atende online, ou você atende presencial? Sim! Qual é o valor da sessão? É tanto. Ah! Mas não é para mim não, é pro meu marido. Então, ele tem que entrar em contato comigo. Ah! É para o meu filho. Quantos anos ele tem? 25 anos. Pois é, é ele que tem que me procurar.

QUERER

A gente usa essa ideia de “eu não quero”, “eu não vou numa reunião social porque eu não quero” e tudo bem eu não querer. A questão não é que eu não quero, é que eu não dou conta, é que passa do meu limite, agride a minha intimidade. Então, eu não vou! Se eu falo: “eu não quero”, fica parecendo que eu poderia querer. Que é por conta de alguma coisa e eu decidi não ir, eu escolhi não ir. Não! Não escolhi! Esse tipo de reunião não me faz sentido, porque atenta contra a minha intimidade emocional. Então, eu não vou e tudo bem, você pode ir.

QUERER NÃO É PODER

Não adianta só o paciente querer fazer psicoterapia, ele precisa estar preparado, ele precisa estar predisposto, ele precisa estar no tempo de se dedicar à psicoterapia. Muitas vezes ele até deseja, muitas vezes ele até quer, mas não é o suficiente. A psicanálise nos ensina que querer não é poder. O querer está aquém da possibilidade real das coisas acontecerem. Precisa haver um ponto de desenvolvimento para que a psicoterapia possa trazer algum benefício para esse sujeito, alguma expansão.

DESEJA PELO OUTRO

Você vê a sua agenda cheia de pessoas que não veem sentido em fazer terapia. E aí, o que é que acontece? Você começa a tentar convencer o outro. Aí você deseja fazer terapia pelo outro. E aí você não sabe por que no final do dia você está exausto. Porque você passou o dia inteiro tentando convencer o outro que ele tem que isso, que ele tem que aquilo, que não sei o que mais... Isso não é função do psicoterapeuta, não é função do psicanalista.

CONVENCER 

Não é função do psicanalista convencer ninguém de nada. O convencimento não é função da psicanálise. E vou mais longe, se o paciente começa a questionar muito: Ah! eu não sei muito bem o que dizer... Aí eu já pergunto para ele: será que ainda está fazendo sentido vir aqui, porque você não tem que vir aqui. Ah! mas meu irmão falou que que eu tenho... Pois é, então, se teu irmão falou que você tem que vir, muito provavelmente, é ele que está precisando mais de terapia do que você. Porque você está se virando com os mecanismos de defesa aí, com a tua forma de viver. Ele não! Ele está se queixando.

O MEDO É FILHO DO DESEJO

Quando o sujeito está atendendo pessoas que não estão disponíveis a serem atendidas, ele passa a desejar pelo paciente. “Ah! Mas eu tenho que pagar meu aluguel!” “Ah! Mas eu tenho que pagar minhas contas e se o paciente parar eu não vou ter dinheiro para fazer isso.” Então, você ainda não está pronto para ter uma clínica de psicanálise. Eu tenho medo que o paciente pare e aí eu começo a insistir que o paciente precisa continuar e eu começo a desejar pelo paciente. O medo é filho do desejo.

REPETIR

O paciente que precisa ser lembrado da sessão um dia antes, ou no dia da sessão é porque, na realidade, ele ainda está naquele modelo da mãe falar: “Fulano, vai tomar banho!” “Fulano, vai jantar!” “Fulano, já escovou os dentes?” E aí, você entra na vida dele e repete esse modelo.

COMPULSÃO ALIMENTAR

Quando a gente fala de compulsão alimentar a gente está falando de uma carência. Eu não posso propor para o meu paciente que ele pare de comer. Eu não posso propor para o meu paciente tarefas para que ele possa se defender daquilo que já é uma defesa. Então, nós precisamos tratar alguma coisa que está mais profundo, que está gerando esta compulsão alimentar. Podem ser inúmeros fatores. Desde o mais superficial que é a exigência dos pais, ou exigência social, que na realidade tem a ver muito mais com a autoexigência, até uma tentativa de substituir o amor que ele não conseguiu pelo prazer de comer. Então, não adianta desviar do restaurante.


domingo, 3 de dezembro de 2023

SOBRE REGREDIR - Prof. Renato Dias Martino


Qual é a grande importância de refletir sobre essa questão da reversibilidade, de retroagir nos processos emocionais-afetivos? Daquela famosa expressão psicanalítica “regredir”. Por que a importância disso? Porque, me parece que isso é quase que um consenso dentro da psicanálise. No entanto, isso é um absurdo. Ninguém regride. Não existe a possibilidade de regressão. Uma vez que você cresceu, uma vez que você amadureceu, uma vez que você expandiu, uma vez que você deu um passo à frente, não tem como voltar, dentro dos processos emocionais-afetivos. É de imperiosa a importância que a gente possa tratar com os nossos pacientes de uma maneira muito cuidadosa sobre isso. Quando existe a crença na reversibilidade, na possibilidade de regressão, o sujeito vive numa constante insegurança de que em qualquer momento, tudo aquilo que ele construiu, tudo aquilo que ele cresceu, tudo aquilo que ele amadureceu, pode se desfazer como um castelo de areia. Quando, na realidade, isso é impossível. Então, é muito importante que a gente possa observar que, quando o paciente apresenta uma característica imatura, ou infantilizada, deixar muito claro que na realidade aquilo nunca amadureceu. Justamente para mostrar que uma vez que tenha amadurecido, não tem retorno. Até para que ele possa se responsabilizar por esta parte do aparelho emocional-afetivo dele que ainda não conseguiu crescer, para que ele possa, a partir do reconhecimento desta parte que ainda não evoluiu, que ainda não amadureceu, passar a respeitar essa imaturidade e a partir daí começar um trabalho de responsabilização. Essa etapa de reconhecer, respeitar e responsabilizar, é justamente o que vai conduzi-lo à maturação desta parte e de outras partes da sua personalidade. Muitas vezes, o paciente através das experiências com o analista, ele percebe o que seria melhor para ele. Por exemplo, um paciente que tenha a característica da arrogância. Ele percebe o quanto é inadequada aquela característica. Quanto é inadequado aquele funcionamento arrogante. Então, ele começa implementar um trabalho de se livrar daquela característica. Isso não quer dizer que ele amadureceu o suficiente para que isso não se manifeste mais. Então, muitas vezes, ele empurra aquilo para debaixo do tapete e acredita que ele cresceu e quando aquela arrogância, por acaso, escapa debaixo do tapete, ele tem a impressão de que ele regrediu.



domingo, 15 de novembro de 2015

DO MEDO À ARROGÂNCIA - Prof. Renato Dias Martino

Segundo nos ensina a etimologia, a palavra arrogância tem em sua raiz o ato de arrogar-se. Certo movimento de atribuir a si mesmo direitos, poderes ou privilégios. Com isso o sujeito assume certa característica prepotente de menosprezo quanto ao outro. O vocábulo vem do latim arrogans, que quer dizer “o que exige”.
A exigência, por sua vez, é um ato que encontra-se num nível primitivo de imaturidade, no curso do desenvolvimento no exercício do pensar. Num ímpeto desesperado, exige-se aquilo que se deseja, sem considerar a própria realidade dos fatos. O bebê exige a presença da mãe, sem ser capaz de se importar com o bem estar desta que ora cuida dele. Aquele que exige, revela assim, a incapacidade de autonomia. Quando se exige algo, revela-se o fato de que, sem isto que esta sendo exigido, o sujeito se vê vulnerável. Bem como um bebê a chorar compulsivamente, exigindo a presença da mãe. Nesse nível do funcionamento mental, o agir deve ser a forma fundamental de lidar com a descarga desconfortável gerada pela insegurança.
Do modo como nos orienta a psicanálise, e também outras das mais nobres vertentes do pensamento humano comungam dessa mesma ideia, nascemos na mais densa ignorância, necessitando portanto, de apoio de qualidade para conseguirmos desenvolver a consciência de nossa natureza. 
A natureza humana é afetada constantemente pela péssima qualidade de cuidado emocional nas fases iniciais do desenvolvimento,  assim como é comprometida pela privação de ambientação saudável o bastante para propiciar sucesso no processo de maturação. 

"Se sentindo ameaçado cria um falso eu que parece superior, mas que na verdade não vai além das aparências. Um ego quando bem estruturado traz características de humildade, compaixão e capacidade para o acolhimento, diferente de um ego inflado que, sem substância ou conteúdo, arma-se sempre de arrogâncias e exclusivismos." Martino (2015)

Melanie Klein (1882 —1960)
Assim, quando se está exigindo, atesta-se o distanciamento que existe da realidade dos fatos, numa incapacidade de reconhecer o limite do outro, do qual se exige algo. Dessa maneira o desejo de um sobrepõe a realidade do outro, na expressão da voracidade. Melanie Klein (1882 —1960), em INVEJA E GRATIDÃO, de 1957 descreve a voracidade como sendo uma ânsia impetuosa que ignora o limite do outro no exclusivo objetivo de saciar o desejo. Melanie Klein relaciona a voracidade à inveja, que segundo a autora, amiúde andam juntas. Para Klein a voracidade é uma tentativa de controlar,  por meio da total possessão. "Isto é utilizado para neutralizar a inveja." Klein (1957). Incorporando o objeto ele passa a fazer parte do eu, logo, não há do que sentir inveja.
Artur Schopenhauer
( 1788 — 1860)
 
Um desejo sem a menor capacidade é gerador de inveja. O mesmo desejo do qual Artur Schopenhauer ( 1788 — 1860) em O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO, de 1818, já havia alertado quanto ao perigo. Vontade que se estendendo desde o desejo mais superficial de obter algo material, até a ânsia por viver. Seja como for, o convite para se perder num desejo estará sempre à espreita. Quando perdidos no desejo, a arrogância pode ser um conveniente recurso de manutenção desse estado.
Bem, a ignorância quando vivida num clima de insegurança, numa assustadora incerteza de sobrevivência, gera medo aterrorizante de aniquilamento.
Eros e Tânatos
O arrogante, na realidade é alguém com muito medo, que então, usa da hostilidade para tentar amedrontar o outro. Uma tentativa de aplacar esse temor que o aterroriza. O medo que é representante da pulsão de vida e de morte, na ilustração freudiana de Eros e Tânatos.
Sigmund Freud (1856 - 1939)
Sigmund Freud (1856 - 1939) em ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER, de 1920, introduz o conceito de pulsão de morte em sua obra; como certa tendência, constituinte da natureza, que leva à segregação de tudo o que é vivo. A manifestação do instinto de autopreservação num desprendimento e no recolhimento do interesse no mundo externo.
No artigo SOBRE ARROGÂNCIA (1958), Wilfred Bion (1897 — 1979) propõe certo momento em que a arrogância pode emergir e instituindo com isso um clima caótico na qual paciente e analista conformam-se numa dupla frustrada.


Wilfred Bion (1897 — 1979)
“É possível ter uma indicação do significado que desejo conferir ao termo ‘arrogância’, se recorrermos à hipótese de que, na personalidade em que predominam os instintos de vida, o orgulho se converte em respeito a si mesmo; predominando os instintos de morte, o orgulho se transforma em arrogância.” (Bion, 1994/1985)

Sob a regência da pulsão de morte, erguem-se defesas em forma de arrogância para lidar com a ansiedade. Numa tentativa de reequilibrar o funcionamento que foi abalado pela insegurança, geradora de ansiedade. Para Bion, quando a tendência que nos retrai, num movimento de desligamento das relações, sobrepõe a disposição que nos abre para a vida e para os vínculos, o que seria autoestima então se converteria em arrogância. 
Através da hostilidade, arma-se o ataque que se articula como barreira e a violência convida à estupidez, num agir como se conhecesse a verdade, sem de fato conhecê-la. Quando as palavras se encontram vazias de experiência e são projetadas para ferir. O arrogante aferra-se à racionalidade dos fatos, descartando qualquer possibilidade de nova experiência. 


"O grande prejuízo nesse ponto da razão é que, quanto mais enriquecidos de saberes inquestionáveis, ainda mais empobrecidos das faculdades do pensar nos tornamos. Dessa maneira, quando em ocasião da crise e percebendo-se inseguro, alguma força só pode ser gerada da imposição desse saber inquestionável e isso, então, logo se manifesta como arrogância". Martino (2013)

A prática psicanalítica deve ser totalmente prejudicada quando inundada pela experiência da arrogância. A proposição de que 'se não for capaz de dizer com amor, não diga' é uma condição fundamental para a prática da psicanálise e não uma simples frase romântica. Ora, o que poderiamos esperar de certa experiência emocional onde existe a falha no amor? Um analista arrogante é um analista amedrontado dentro do ambiente da dupla, assim como a arrogância do paciente denuncia a insegurança vivida frente a dupla.


"Muitas vezes, pronunciamos “eu sei” antes mesmo do outro concluir o que quer dizer. É uma maneira de não dar muita atenção ou de ignorar alguém." Martino (2011)

No Congresso do IPA, em Edimburgo realizado em 1962, Bion apresentou a teoria que vinha desenvolvendo sobre sua releitura do mito de Édipo. Nessa releitura da alegoria iniciada em seu artigo SOBRE ARROGÂNCIA (1958), Bion adverte não sobre o crime sexual, mas a propósito da formas arrogante que Édipo conduz a busca pela verdade. 
Quando resolve o charada da Esfinge, Édipo acredita ter desatado Tebas de sua moléstias e isso é confirmado quando valeu à ele, como recompensa, a mão da rainha Jocasta e o trono real. No entanto, ele resolveu o 'complicado' da história no enigma, mas ficava sem solução aquilo que é 'complexo' e que está representado pelo mistério. O ponto complexo era mesmo a questão da verdade, da qual Édipo permanecia desconhecendo, ainda que agisse como se a conhecesse.
Agride Tirésias, o velho cego adivinho do qual a pouco havia enaltecido e colocado a verdade nas mãos. Tirésias, amedrontado pela possível reação de Édipo ao saber da verdade diz: "Fica certo de que a verdade, ainda que eu a encubra com meu silêncio, chegará a seu tempo". Assim sendo, mesmo que a ilusão seja prazerosa, a verdade, mesmo que dolorosa, prevalecerá.
Pois bem, as questões referentes ao complexo edípico são fundamentais e a psicanálise nos orientou sobre o fato de ser o Édipo, em sua elaboração, estruturante da personalidade. O Édipo é então, de onde as relações entre as personalidades estão sobremaneira subordinadas. A elaboração dessa ordem de experiências propicia o reconhecimento verdadeiro que permite o estabelecimento do respeito para com os vínculos afetivos. Assim a personalidade passa a assumir o caráter de estrutura nas relações que sendo de natureza afetiva e emocional, gera comunicação mais verdadeira entre as personalidades vinculadas.
Reconhecer o conflito edípico promove a capacidade do desapego, questão de fundamental importância quanto ao tema da arrogância. Sempre que apegados ao saber corremos o risco de nos seduzir pela arrogância. De sorte que a arrogância traz a sensação de força e poder à aquele que na realidade se sente inferiorizado. No entanto, a realidade não é definida pela vontade do humano.

BION, W. R. [1952]. Uma teoria sobre o pensar. In: Estudos psicanalíticos revisados – Second thoughts. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
KLEIN. M. Inveja e Gratidão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1957.
MARTINO, Renato Dias. Para Além da Clínica.Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011. 
_____ . Primeiros passos rumo à psicanálise,  1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
 _____ . O amor e a expansão do pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva , 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.
_____ . O Livro do Desapego,  1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2015.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação (III parte); Crítica da filosofia kantiana, Parerga e Paralipomena (capítulos V, VIII, XII, XIV), In: Coleção Os pensadores, trad. de Wolfgang Leo Maar e Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola, São Paulo, Nova Cultural, 1997.