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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

PSICANÁLISE, FÍSICA QUÂNTICA E AS INCERTEZAS - Prof. Renato Dias Martino

 


Existem inúmeros fatores, dentro da ciência quântica, da física quântica, que concordam com a ciência psicanalítica. E aí, um nome extremamente importante dentro da física quântica é o Werner Heisenberg (1901 — 1976), que ele vai trazer a possibilidade de a gente perceber as coisas com um vértice do princípio da incerteza. Ele percebeu que, quando ele estudava uma partícula quântica. Ou seja, a menor partícula que se pode estudar, que se pode conhecer, ele precisava jogar um foco de luz nesta partícula, para que ele pudesse estudar. Sem luz não tem como você visualizar esta coisa, mas quando ele jogava esse foco de luz nessa partícula, a luz trabalha através de partículas de fóton, essas partículas ao baterem nesta partícula que se tentava ser estudada interferia na possibilidade de estudo. Não tinha como ter uma certeza daquilo, porque todas as vezes que se iluminava isso, isso sofria uma mudança. É claro que não só a partir disso, mas um estudo muito maior, que eu estou tentando sintetizar de uma maneira extremamente grosseira aqui, mas não se pode ter uma precisão de uma partícula quântica por conta da luminosidade que é necessária para estudar, e aí, na psicanálise, isso surge como uma dádiva, porque não é a função do psicanalista, jogar luz no material que o paciente traz. 

A nossa função é justamente o contrário. Nós precisamos trazer a possibilidade de um foco de escuridão, nós precisamos apagar as luzes, para que o paciente possa se iluminar por si só. Não é função do analista iluminar alguma coisa, é função do psicanalista propicia é um ambiente de silêncio e de escuridão, para que o paciente possa iluminar-se por si só, iluminar as suas ideias. A luz não vem do analista, a luz vem do interior do paciente. 

Assim como um físico quântico, o psicanalista precisa, sempre abrir sua atenção, incluindo a possibilidade da incerteza. O Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979), vai chamar isso daí de “capacidade negativa”, da possibilidade de viver uma incerteza, ou de não se convencer com um saber antecipado. Estar sempre aberto a algo que possa surgir, algo que possa estar ali, que ainda não tenha sido notado. 

O paciente chega na clínica sofrendo da certeza. Ele tem uma certeza e aquela certeza começa a conduzir a vida dele ao ponto de obstruir o fluxo na sua vida. Porque a vida incerta, porque a vida não tem uma saturação, porque a vida é transformação, porque a vida são possibilidades. Nos julgamos definidos, porém somos possibilidades. 

A física quântica contribui dentro nessa perspectiva para as formulações psicanalíticas, quando a gente é capaz de tolerar a incerteza, nós desobstruímos o fluxo da vida e permitimos que as coisas comecem a acontecer a partir das possibilidades. Esta certeza, que o paciente chega trazendo é colocada lá pela Melanie Klein (1882 — 1960) como um mecanismo de defesa da posição esquizoparanóide, naquela posição em que o sujeito cinde a realidade em bom e ruim. Este mecanismo de defesa, é o mecanismo de defesa da onisciência. Então, ele já sabe tudo e a partir do processo psicanalítico, ele vai dissolvendo isso. Ele vai percebendo, porque ele não sabe nada, que ele é um grande ignorante, como todos nós somos, mas aí ele passa a ter consciência desta ignorância e isso é libertador. 

Grande parte dos pacientes, sofrem justamente disso, de ter que saber. Nós vemos aí, sujeitos aí, propondo a física quântica como alguma coisa mágica, que faz com que você consiga tudo que você deseja, que é só você ficar pensando assim, ou assado, te dando ali tarefas ou exercício para que você... Não, a física quântica não é nada disso. Isso aí é um mau uso do que a gente chama de física quântica. Assim como nós temos inúmeros ditos psicanalistas, ou supostos psicanalistas usando a psicanálise no mesmo propósito, prometendo coisas ao outro, prometendo processos mágicos de conseguir o que o outro deseja. 

Não, não é nada disso! Tanto a física, quanto a psicanálise tem um pressuposto muito claro de tolerar a dúvida, tolerar a incerteza, ser capaz de tolerar o desconforto da sua própria ignorância. É justamente isso, ser capaz de renunciar ao desejo do que você gostaria que fosse para que você possa reconhecer a realidade, assim como ela é, e não como você gostaria que ela fosse. O psicanalista lida com o inconsciente. Se existe um conceito, um termo que baliza, ou que, na realidade fundamenta toda psicanálise, este conceito é o inconsciente. 

Se nós estamos falando de inconsciente, dentro da perspectiva psicoterapêutica, nós estamos falando de psicanálise. A descoberta do inconsciente foi a maior descoberta de Sigmund Freud (1856 - 1939), sem sombra de dúvida. Então, se o psicanalista lida com inconsciente, ele não pode lidar com o saber, porque o inconsciente não está disponível ao saber. Pode, na melhor hipótese, ser reconhecido, que diz respeito a admitir que existe e não saber sobre. Quando a gente está falando de psicanálise, quando a gente está falando de física quântica, quando a gente está falando de formulações religiosas, a gente está falando de ser capaz de tolerar a dúvida e não estar focado em um resultado pré-estabelecido. 

De ser capaz de tolerar o fluxo incerto da vida e não buscar a realização de um desejo. Então, tanto o crente que está lá na igreja tentando buscar com aquela estada ali, com aquele contato que ele tem com Deus, um benefício com isso, conseguir o seu lugarzinho no céu. O quanto o paciente que busca psicanálise buscando conseguir aquilo que ele tanto quer, ou realização do seu desejo. Quando os cientistas, que começa a estudar, não por uma descoberta científica, mas confirmar aquilo que ele já sabia, que ele supostamente já sabia. Todos estão equivocados! Um sujeito que não tem uma filosofia nobre, ele vai usar essa psicanálise para um mau propósito. 

Em todas as áreas, desde a medicina, passando pela psicanálise, passando pela ciência quântica, passando pela política, passando pela religião, passando por todas as os vértices aí, do conhecimento humano, nós temos esta configuração. Uma filosofia de péssima qualidade, conduz esse pensamento para o mal propósito.




sábado, 29 de novembro de 2025

AFIRMAÇÃO DE CERTEZAS - Prof. Renato Dias Martino

É espantoso observar afirmações veementes a respeito daquilo que é da ordem do mistério da fé, ou ainda nos estudos científicos em que as comprovações são hipotéticas. Naquilo que está no âmbito do mistério, não cabem certezas.
Ainda assim, é comum observar pessoas afirmando com grande certeza formulações que não passam de hipóteses fragilmente ligadas a indícios do que se afirma. Na maioria das vezes, aquele que afirma o faz por ter lido em algum lugar ou ainda porque ouviu alguém dizer.
Parece existir uma conveniência em afirmar com certeza aquilo que é da natureza do incerto. Essa conveniência pode estar desde o lucro financeiro até o status de superioridade intelectual daquele que afirma. Grande parte dos cientistas concorda com quem os financia.
Isso também acontece no que se refere ao universo mental. Estudiosos da mente humana e profissionais da área vêm desenvolvendo diagnósticos, técnicas, assim como medicamentos baseados em deduções e suposições. Dentro das formulações do que ocorre no campo emocional, é tudo possibilidade e nada pode ser afirmado com certeza.
Aquilo que ocorre no âmbito emocional não coincide com o que o aparato cognitivo pode abranger. Aquilo que o sujeito manifesta com seu comportamento está distante do que ocorre no seu funcionamento emocional.
Os comportamentos podem vir a ser doutrinados; no entanto, o funcionamento emocional pode ser reparado somente através de vínculos afetivos saudáveis.
Enquanto o comportamento está ligado ao cognitivo, o funcionamento emocional está subordinado ao afeto.




domingo, 19 de outubro de 2025

RECONHECENDO A REALIDADE - Prof. Renato Dias Martino


O MAIS SAUDÁVEL

 

Eu costumo dizer que o sujeito que procura psicoterapia normalmente é o sujeito mais saudável da família, porque na realidade é o sujeito que conseguiu perceber e reconhecer a verdade, e por conta disso começa a sentir o desconforto desta percepção e deste reconhecimento. Logo, ele procura a psicoterapia para tentar lidar com isso. Então, ele é o sujeito mais saudável, porque todos os outros estão envolvidos com suas ilusões, com suas defesas e se virando com suas defesas. Defesas que os afastam da realidade. Isso fica muito claro, não só dentro desse ambiente emocional e afetivo, mas dentro da sociedade. Quando um sujeito é capaz de reconhecer a realidade e se manifesta quanto essa realidade, ele é apedrejado por todos que estão iludidos e estão muito bem confortáveis na sua ilusão.

 

CAOS ALUCINADO

 

Existe uma conveniência em se manter iludido. Existe uma conveniência em negar a realidade, negar a verdade, porque o sujeito tira um proveito disso. Quanto mais caótico estiver, mais ele vai poder agir ilicitamente, mais ele vai poder agir de maneira insana e tirar proveito disso. Porque se responsabilizar dá trabalho! Reconhecer, aprender a respeitar e se responsabilizar é muito difícil. Não é para qualquer um. A maioria prefere estar inserido num caos alucinado para que ele não precise reconhecer nada, respeitar nada e muito menos se responsabilizar. Isso tanto dentro das famílias quanto na sociedade. Na política isso fica muito claro.

 

DESACORDO

 

Isso é verdade, tanto nos grupos externos quanto no grupo interno. Parte do sujeito reconhece a verdade, reconhece a realidade e as outras partes dele se revoltam contra esta parte e aí se instala o caos interior. Assim como no Mito da Caverna, que o sujeito saiu, viu o mundo externo e voltou e quis contar para os caras lá dentro o que que estava acontecendo lá fora e ele foi ridicularizado. Todo mundo falava: "Do que que você tá falando, cara? Que mundo externo que lá fora?”

 

TIRAR PROVEITO DO CAOS

 

E também nos grupos externos. Na política é isso que acontece. Quando aparece um querendo trazer a verdade, ele é apedrejado. Porque existe todo um sistema caótico, onde existe muita gente tirando proveito disso. Quanto mais caótico, melhor. E essas pessoas que estão tirando proveito disso, acabam tendo um poder muito maior do que o sujeito que porventura venha reconhecer a realidade e se manifeste quanto a isso. Porque o sujeito que está tirando proveito do caos, ele é um sujeito inconsequente. Então ele vai “tudo ou nada” muito facilmente. Enquanto o sujeito está reconhecendo a verdade, ele começa a perceber que ele tem a perder. E aí, é uma briga desleal.

 

OFURÔ DE COCÔ

 

O sujeito está mergulhado num ofurô extremamente luxuoso, só que cheio de cocô. Confortável, quentinho, garantido. Não vai faltar cocô, porque cada um que se aproxima vai jogar um pouco ali dentro. E ele está ali confortavelmente podre, até porque, sair dali vai dar trabalho. Como é que ele vai sair dali? Todo sujo, sem roupa, nu? Como é que ele vai se virar cheirando mal? Então é melhor ele se manter ali.

 

RESPONSABILIDADE

 

A questão fundamental é a capacidade de se responsabilizar. Nós vivemos numa sociedade em que ninguém se responsabiliza por nada. Todos estão procurando um culpado, mas ninguém se responsabiliza por nada. Num ambiente onde as pessoas não são capazes de se responsabilizar, está todo mundo procurando culpado, está todo mundo tentando investigar a situação para ver quem é o culpado, mas ninguém se responsabiliza, porque responsabilidade não é uma escolha, é uma capacidade. Ou o sujeito é capaz, ou o sujeito desenvolveu esta capacidade, ou não. Não tem como você imputar responsabilidade. Responder por alguma coisa é ser capaz de se responsabilizar por aquilo. Se você não é capaz, você vai se sentir culpado.

 

PESQUISA

 

A questão é que a psicanálise não é um método investigativo, não é um método de pesquisa. Ou você é um pesquisador ou você é um acolhedor. Não dá para ser duas coisas ao mesmo tempo, porque um pesquisador tem um projeto de um objeto que ele quer investigar e quer pesquisar. O psicanalista não tem um objeto que ele quer pesquisar. O psicanalista, ele não tem um objetivo de pesquisa. Ou você é acolhedor daquilo que vier, sem expectativa, ou você é um pesquisador de alguma coisa que você pré-estabeleceu. Aí você vai fazer um projeto de pesquisa e este projeto vai ser implementado. A psicanálise não pode estar dentro desta função. O Freud nunca fez isso. O Freud nunca propôs um projeto de pesquisa. Ele escreveu a partir das experiências que ele foi conseguindo na sua clínica.

 

CERTEZAS

 

Nós buscamos certezas. Nós buscamos qual é a área do pensamento humano que pode oferecer certezas. A ciência te oferece certezas. A psicanálise não é uma ciência porque não oferece certezas. Quem diz que eu defendo que seja? O que que você chama de ciência? Que ciência que realmente está com a verdade? Que que você anda acreditando? Qual é a conveniência de você acreditar nisso aí que você diz que é ciência? Quem foi que desenvolveu essa ciência? Quem patrocinou esse estudo?

 

IGNORÂNCIA

 

A maior virtude de um psicanalista real é a consciência da sua própria ignorância. Então, nós precisamos, enquanto psicanalistas, continuar sendo psicanalistas mesmo fora do consultório. E este é o princípio deste psicanalista que você continua sendo: a consciência da sua ignorância. Logo, sempre sendo um aprendiz, aprendendo com cada experiência. Não é sair interpretando todo mundo, não é sair dizendo que você é o que sabe tudo, não é sair por aí dizendo que você é o conhecedor da mente humana, ou sair dando conselhos. Isso não é psicanálise. Não é função de um psicanalista dar conselhos para ninguém, mas é função de um psicanalista tolerar a sua ignorância.

 

CONHECIMENTO

 

Muitas vezes a gente consegue certo conhecimento e para conseguir este conhecimento a gente batalhou muito, estudou muito e aí, a gente se apega a esse conhecimento e não quer largar dele. E aí, a gente tenta enfiar este conhecimento em tudo na vida, porque foi tão difícil eu conseguir esse conhecimento. Agora tudo tem que ser isso.

 

ESTUDOS

 

Ah, mas eu estudei muito Freud. Ah, mas eu estudei muito Melanie Klein. Estudei muito Bion. Estudei muito Winnicott. Agora, tudo tem que ser isso, porque eu sou doutor nisso. Eu gastei um dinheirão, gastei um tempo, gastei uma energia enorme nisso e agora, ai de você de falar que não é isso.

 

TÍTULO

 

Muitas vezes o sujeito nunca foi acreditado por ninguém, ninguém confiou nesse sujeito. Ele não confia em si mesmo. E ele entra numa universidade, começa a estudar muito, consegue o título de doutor e agora ele vai se apegar a isso, porque isso vai trazer para ele uma certa segurança de existir com aquilo ele pode se afirmar perante o mundo. E aí, ele tem um convite de se tornar um grande arrogante, porque ele conseguiu ser visto pelo outro a partir do título.

 


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

DA DÚVIDA À RESPOSTA - Prof. Renato Dias Martino

 


Enquanto o sujeito busca por respostas, a vida se propaga na dúvida.
A capacidade de tolerar dúvidas é característica da maturação emocional.
Certezas são ilusões confortáveis para aqueles que ainda não aprenderam a respeitar as dúvidas.
Quando é possível tolerar a incerteza inerente ao fluxo da vida, percebemo-nos grandes ignorantes quanto à realidade.
À medida que aprendemos a reconhecer e respeitar o mistério da vida, passa a ser possível nos responsabilizarmos por nossa ignorância —
e isso nos torna inacabáveis aprendizes.
O sujeito que age, sempre seguro daquilo que imagina saber, é constantemente convidado à arrogância.

Aquele que não é consciente de sua ignorância tende a ter atitudes a partir do que imagina ser sabedor, agindo, assim, com estupidez.






Prof. Renato Dias Martino

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

MATURIDADE, DÚVIDA E ILUSÃO - Prof. Renato Dias Martino


Quando funcionamos bem no âmbito emocional, torna-se possível exercer plenamente a função afetiva na relação com o outro.


Tolerar desconfortos é a base de um bom funcionamento emocional.

Desenvolvemos a capacidade de tolerância a partir de um vínculo bem-sucedido com o outro, e a possibilidade de estabelecer e manter um vínculo saudável depende dessa mesma capacidade.

O bom funcionamento emocional favorece o desenvolvimento da maturidade nessa esfera, onde certezas são impraticáveis.

Quanto mais desenvolvida for essa maturidade, maior será nossa capacidade de reconhecer, respeitar e nos responsabilizarmos por nossa ignorância em relação à realidade.


A maturidade emocional manifesta-se na capacidade de tolerar a dúvida; a estupidez, na insistência em certezas.

A ignorância é uma condição inerente a cada um de nós; a estupidez é a recusa em admiti-la. Não se pode exigir que alguém reconheça a realidade, nem censurar quem ainda se alimenta de ilusões.

Quanto ao reconhecimento da realidade, não há escolha: ou se está sendo capaz, ou não.

A saber, essa capacidade é transitória, depende do momento, das condições emocionais internas ou ainda das condições do ambiente emocional e afetivo.
Logo, a expressão “estar sendo capaz” é mais adequada do que a afirmação “ser capaz”.

Cada um compreende apenas o que lhe é útil. Não há como se libertar de uma prisão que não se reconhece como tal.

A transformação verdadeira brota do íntimo, quando a vida mescla dor e cuidado.

Quando as ilusões se desfazem e a insegurança emerge, o acolhimento do outro torna-se o sopro essencial para que o sujeito renasça.










quarta-feira, 9 de julho de 2025

DÚVIDA, INCERTEZA E NUTRIÇÃO AFETIVA - Prof. Renato Dias Martino



NUTRIÇÃO AFETIVA

 

Muitas vezes o sujeito chega na clínica psicanalítica, chega para fazer psicoterapia e ele se queixa de uma dor psíquica, seja ela uma ansiedade ou uma angústia, e ele busca que isso seja reparado. No entanto, ele vive num ambiente extremamente empobrecido de vínculos saudáveis. Logo, isso fica inviável, porque o vínculo que não seja saudável, além de não nutrir o sujeito dessa saúde afetiva, que inclui amor e verdade, que inclui doação e limite, ele ainda retira do sujeito o pouco de saúde emocional que esse sujeito possa ter. Para que o sujeito possa ter um funcionamento emocional saudável, ele carece de ser nutrido de afeto saudável. Ele carece de vínculos saudáveis. Ele carece desse tipo de nutrição. Assim como o corpo se alimenta de comida, a mente se alimenta de amor e verdade. Quando o funcionamento emocional não tem isso, ele tende a se desnutrir e com isso adoecer. A psicoterapia precisa ser por excelência um ambiente nutridor de amor e verdade, de dedicação e de limites.

 

APRENDER A TOLERAR

 

Professor, como é que eu aprendo a tolerar frustrações? Já que a tolerância frustração é a base de um bom funcionamento emocional, somente a partir de vínculos saudáveis, somente através de vínculos de confiança. É a partir desse tipo de vínculo que o sujeito aprende a tolerar frustrações.

 

INCERTEZAS

 

Viver num acordo com a realidade é viver na dúvida, é viver na incerteza. E a dúvida e a incerteza são geradoras de desconforto. E para que eu possa viver num acordo com a realidade, eu preciso tolerar esse desconforto que é gerado pela dúvida e pela incerteza. O bebê aprende a lidar com a dúvida e com a incerteza a partir do vínculo saudável com a mãe e, posteriormente, com o pai. São eles que vão trazer para o sujeito um ambiente seguro o suficiente para que ele possa aprender a tolerar qualquer incerteza que venha a acontecer.

 

O CAMINHO

 

O ambiente psicoterapêutico também tem esta função. Muitas vezes o paciente chega cheio de dúvidas e cheio de incertezas, imaginando que isto é o fim, imaginando que isso é o colapso da sua mente. No entanto, a partir das experiências bem-sucedidas com o psicoterapeuta, ele vai percebendo que a dúvida e a incerteza são elementos que fundamentam o acordo com a realidade. O caminho é dúvida, o caminho é incerteza. A gente até cria objetivos, a gente até cria ideais, mas aqueles ideais e aqueles objetivos não são o final da história, não vão trazer segurança alguma para gente, não vão trazer certeza alguma para gente. Um sujeito que está caminhando de forma saudável, quando ele chega lá, o lá não é mais lá, porque o que importa é o caminho e não a chegada.

 

APOIAR OU INCENTIVAR

 

O vínculo saudável é aquele que permite dependência, mas que propicia a independência. Para que um vínculo seja saudável, este vínculo deve permitir que haja a dependência, mas que esteja propício à independência assim que for possível. Deve apoiar a independência, não deve sugerir, não deve promover, não deve incentivar, mas deve apoiar, porque assim que esse vínculo for realmente estabelecido, de maneira saudável, a independência começa a se desenvolver.

 

DESPREPARO DOS PAIS

 

A criança é um grande para-raios, é uma grande esponja de tudo que acontece dentro da casa, tudo que acontece no lar, tudo que acontece na família. A criança acaba sendo um grande porta-voz. E muitas vezes, aquele que nos procura na clínica é o sujeito mais saudável da família, porque é aquele que deu conta de tudo aquilo e ainda foi capaz de pedir ajuda, enquanto os outros estão extremamente envolvidos com as suas defesas, com as suas neuroses, com as suas psicoses, responsabilizando o outro, culpando o outro. Então, muitas vezes a gente tem quando criança a impressão de que a gente é o problema. E quando a gente cresce, a gente começa a perceber que grande parte desses problemas vinham dos pais, o despreparo desses pais de cuidarem dessa criança. E aí mandam a criança para o neurologista, pro psicopedagogo, para o psiquiatra, sabe lá para quem? Para dar conta daquilo que na realidade foram os pais que não deram conta.

 

DE GERAÇÃO PARA GERAÇÃO

 

As mazelas que são transmitidas de geração para geração, passando de pai para filho, onde um não é capaz de reconhecer a realidade e cuidar de si mesmo para que ele possa reparar o seu funcionamento emocional. E ele passa isso para os filhos e os filhos passam pros netos e vão vai passando de geração em geração, porque ninguém foi capaz de dar conta disso, porque o meu filho não pode sofrer daquilo que eu sofri em relação aos meus pais.

 










Prof. Renato Dias Martino