terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
PSICANÁLISE, FÍSICA QUÂNTICA E AS INCERTEZAS - Prof. Renato Dias Martino
sábado, 29 de novembro de 2025
AFIRMAÇÃO DE CERTEZAS - Prof. Renato Dias Martino
É espantoso observar afirmações veementes a respeito daquilo que é da ordem do mistério da fé, ou ainda nos estudos científicos em que as comprovações são hipotéticas. Naquilo que está no âmbito do mistério, não cabem certezas. Ainda assim, é comum observar pessoas afirmando com grande certeza formulações que não passam de hipóteses fragilmente ligadas a indícios do que se afirma. Na maioria das vezes, aquele que afirma o faz por ter lido em algum lugar ou ainda porque ouviu alguém dizer. Parece existir uma conveniência em afirmar com certeza aquilo que é da natureza do incerto. Essa conveniência pode estar desde o lucro financeiro até o status de superioridade intelectual daquele que afirma. Grande parte dos cientistas concorda com quem os financia. Isso também acontece no que se refere ao universo mental. Estudiosos da mente humana e profissionais da área vêm desenvolvendo diagnósticos, técnicas, assim como medicamentos baseados em deduções e suposições. Dentro das formulações do que ocorre no campo emocional, é tudo possibilidade e nada pode ser afirmado com certeza. Aquilo que ocorre no âmbito emocional não coincide com o que o aparato cognitivo pode abranger. Aquilo que o sujeito manifesta com seu comportamento está distante do que ocorre no seu funcionamento emocional. Os comportamentos podem vir a ser doutrinados; no entanto, o funcionamento emocional pode ser reparado somente através de vínculos afetivos saudáveis. Enquanto o comportamento está ligado ao cognitivo, o funcionamento emocional está subordinado ao afeto.
domingo, 19 de outubro de 2025
RECONHECENDO A REALIDADE - Prof. Renato Dias Martino
O MAIS SAUDÁVEL
Eu costumo dizer que o sujeito que
procura psicoterapia normalmente é o sujeito mais saudável da família, porque
na realidade é o sujeito que conseguiu perceber e reconhecer a verdade, e por
conta disso começa a sentir o desconforto desta percepção e deste
reconhecimento. Logo, ele procura a psicoterapia para tentar lidar com isso.
Então, ele é o sujeito mais saudável, porque todos os outros estão envolvidos
com suas ilusões, com suas defesas e se virando com suas defesas. Defesas que
os afastam da realidade. Isso fica muito claro, não só dentro desse ambiente
emocional e afetivo, mas dentro da sociedade. Quando um sujeito é capaz de
reconhecer a realidade e se manifesta quanto essa realidade, ele é apedrejado
por todos que estão iludidos e estão muito bem confortáveis na sua ilusão.
CAOS ALUCINADO
Existe uma conveniência em se manter
iludido. Existe uma conveniência em negar a realidade, negar a verdade, porque
o sujeito tira um proveito disso. Quanto mais caótico estiver, mais ele vai
poder agir ilicitamente, mais ele vai poder agir de maneira insana e tirar
proveito disso. Porque se responsabilizar dá trabalho! Reconhecer, aprender a
respeitar e se responsabilizar é muito difícil. Não é para qualquer um. A
maioria prefere estar inserido num caos alucinado para que ele não precise
reconhecer nada, respeitar nada e muito menos se responsabilizar. Isso tanto
dentro das famílias quanto na sociedade. Na política isso fica muito claro.
DESACORDO
Isso é verdade, tanto nos grupos
externos quanto no grupo interno. Parte do sujeito reconhece a verdade,
reconhece a realidade e as outras partes dele se revoltam contra esta parte e
aí se instala o caos interior. Assim como no Mito da Caverna, que o sujeito
saiu, viu o mundo externo e voltou e quis contar para os caras lá dentro o que
que estava acontecendo lá fora e ele foi ridicularizado. Todo mundo falava:
"Do que que você tá falando, cara? Que mundo externo que lá fora?”
TIRAR PROVEITO DO CAOS
E também nos grupos externos. Na
política é isso que acontece. Quando aparece um querendo trazer a verdade, ele
é apedrejado. Porque existe todo um sistema caótico, onde existe muita gente
tirando proveito disso. Quanto mais caótico, melhor. E essas pessoas que estão
tirando proveito disso, acabam tendo um poder muito maior do que o sujeito que
porventura venha reconhecer a realidade e se manifeste quanto a isso. Porque o
sujeito que está tirando proveito do caos, ele é um sujeito inconsequente.
Então ele vai “tudo ou nada” muito facilmente. Enquanto o sujeito está reconhecendo
a verdade, ele começa a perceber que ele tem a perder. E aí, é uma briga
desleal.
OFURÔ DE COCÔ
O sujeito está mergulhado num ofurô
extremamente luxuoso, só que cheio de cocô. Confortável, quentinho, garantido.
Não vai faltar cocô, porque cada um que se aproxima vai jogar um pouco ali
dentro. E ele está ali confortavelmente podre, até porque, sair dali vai dar
trabalho. Como é que ele vai sair dali? Todo sujo, sem roupa, nu? Como é que
ele vai se virar cheirando mal? Então é melhor ele se manter ali.
RESPONSABILIDADE
A questão fundamental é a capacidade de
se responsabilizar. Nós vivemos numa sociedade em que ninguém se responsabiliza
por nada. Todos estão procurando um culpado, mas ninguém se responsabiliza por
nada. Num ambiente onde as pessoas não são capazes de se responsabilizar, está
todo mundo procurando culpado, está todo mundo tentando investigar a situação
para ver quem é o culpado, mas ninguém se responsabiliza, porque
responsabilidade não é uma escolha, é uma capacidade. Ou o sujeito é capaz, ou
o sujeito desenvolveu esta capacidade, ou não. Não tem como você imputar
responsabilidade. Responder por alguma coisa é ser capaz de se responsabilizar
por aquilo. Se você não é capaz, você vai se sentir culpado.
PESQUISA
A questão é que a psicanálise não é um
método investigativo, não é um método de pesquisa. Ou você é um pesquisador ou
você é um acolhedor. Não dá para ser duas coisas ao mesmo tempo, porque um
pesquisador tem um projeto de um objeto que ele quer investigar e quer pesquisar.
O psicanalista não tem um objeto que ele quer pesquisar. O psicanalista, ele
não tem um objetivo de pesquisa. Ou você é acolhedor daquilo que vier, sem
expectativa, ou você é um pesquisador de alguma coisa que você pré-estabeleceu.
Aí você vai fazer um projeto de pesquisa e este projeto vai ser implementado. A
psicanálise não pode estar dentro desta função. O Freud nunca fez isso. O Freud
nunca propôs um projeto de pesquisa. Ele escreveu a partir das experiências que
ele foi conseguindo na sua clínica.
CERTEZAS
Nós buscamos certezas. Nós buscamos
qual é a área do pensamento humano que pode oferecer certezas. A ciência te
oferece certezas. A psicanálise não é uma ciência porque não oferece certezas.
Quem diz que eu defendo que seja? O que que você chama de ciência? Que ciência
que realmente está com a verdade? Que que você anda acreditando? Qual é a
conveniência de você acreditar nisso aí que você diz que é ciência? Quem foi
que desenvolveu essa ciência? Quem patrocinou esse estudo?
IGNORÂNCIA
A maior virtude de um psicanalista real
é a consciência da sua própria ignorância. Então, nós precisamos, enquanto
psicanalistas, continuar sendo psicanalistas mesmo fora do consultório. E este
é o princípio deste psicanalista que você continua sendo: a consciência da sua ignorância.
Logo, sempre sendo um aprendiz, aprendendo com cada experiência. Não é sair
interpretando todo mundo, não é sair dizendo que você é o que sabe tudo, não é
sair por aí dizendo que você é o conhecedor da mente humana, ou sair dando
conselhos. Isso não é psicanálise. Não é função de um psicanalista dar
conselhos para ninguém, mas é função de um psicanalista tolerar a sua
ignorância.
CONHECIMENTO
Muitas vezes a gente consegue certo
conhecimento e para conseguir este conhecimento a gente batalhou muito, estudou
muito e aí, a gente se apega a esse conhecimento e não quer largar dele. E aí,
a gente tenta enfiar este conhecimento em tudo na vida, porque foi tão difícil
eu conseguir esse conhecimento. Agora tudo tem que ser isso.
ESTUDOS
Ah, mas eu estudei muito Freud. Ah, mas
eu estudei muito Melanie Klein. Estudei muito Bion. Estudei muito Winnicott.
Agora, tudo tem que ser isso, porque eu sou doutor nisso. Eu gastei um
dinheirão, gastei um tempo, gastei uma energia enorme nisso e agora, ai de você
de falar que não é isso.
TÍTULO
Muitas vezes o sujeito nunca foi
acreditado por ninguém, ninguém confiou nesse sujeito. Ele não confia em si
mesmo. E ele entra numa universidade, começa a estudar muito, consegue o título
de doutor e agora ele vai se apegar a isso, porque isso vai trazer para ele uma
certa segurança de existir com aquilo ele pode se afirmar perante o mundo. E
aí, ele tem um convite de se tornar um grande arrogante, porque ele conseguiu
ser visto pelo outro a partir do título.
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
DA DÚVIDA À RESPOSTA - Prof. Renato Dias Martino
Enquanto o sujeito busca por respostas, a vida se propaga na dúvida. A capacidade de tolerar dúvidas é característica da maturação emocional. Certezas são ilusões confortáveis para aqueles que ainda não aprenderam a respeitar as dúvidas. Quando é possível tolerar a incerteza inerente ao fluxo da vida, percebemo-nos grandes ignorantes quanto à realidade. À medida que aprendemos a reconhecer e respeitar o mistério da vida, passa a ser possível nos responsabilizarmos por nossa ignorância — e isso nos torna inacabáveis aprendizes. O sujeito que age, sempre seguro daquilo que imagina saber, é constantemente convidado à arrogância.
Aquele que não é consciente de sua ignorância tende a ter atitudes a partir do que imagina ser sabedor, agindo, assim, com estupidez.
segunda-feira, 18 de agosto de 2025
MATURIDADE, DÚVIDA E ILUSÃO - Prof. Renato Dias Martino
Quando funcionamos bem no âmbito emocional, torna-se possível exercer plenamente a função afetiva na relação com o outro.
Tolerar desconfortos é a base de um bom funcionamento emocional.
Quanto ao reconhecimento da realidade, não há escolha: ou se está sendo capaz, ou não.
quarta-feira, 9 de julho de 2025
DÚVIDA, INCERTEZA E NUTRIÇÃO AFETIVA - Prof. Renato Dias Martino
NUTRIÇÃO
AFETIVA
Muitas
vezes o sujeito chega na clínica psicanalítica, chega para fazer psicoterapia e
ele se queixa de uma dor psíquica, seja ela uma ansiedade ou uma angústia, e
ele busca que isso seja reparado. No entanto, ele vive num ambiente
extremamente empobrecido de vínculos saudáveis. Logo, isso fica inviável,
porque o vínculo que não seja saudável, além de não nutrir o sujeito dessa
saúde afetiva, que inclui amor e verdade, que inclui doação e limite, ele ainda
retira do sujeito o pouco de saúde emocional que esse sujeito possa ter. Para
que o sujeito possa ter um funcionamento emocional saudável, ele carece de ser
nutrido de afeto saudável. Ele carece de vínculos saudáveis. Ele carece desse
tipo de nutrição. Assim como o corpo se alimenta de comida, a mente se alimenta
de amor e verdade. Quando o funcionamento emocional não tem isso, ele tende a
se desnutrir e com isso adoecer. A psicoterapia precisa ser por excelência um
ambiente nutridor de amor e verdade, de dedicação e de limites.
APRENDER
A TOLERAR
Professor,
como é que eu aprendo a tolerar frustrações? Já que a tolerância frustração é a
base de um bom funcionamento emocional, somente a partir de vínculos saudáveis,
somente através de vínculos de confiança. É a partir desse tipo de vínculo que
o sujeito aprende a tolerar frustrações.
INCERTEZAS
Viver
num acordo com a realidade é viver na dúvida, é viver na incerteza. E a dúvida
e a incerteza são geradoras de desconforto. E para que eu possa viver num
acordo com a realidade, eu preciso tolerar esse desconforto que é gerado pela
dúvida e pela incerteza. O bebê aprende a lidar com a dúvida e com a incerteza
a partir do vínculo saudável com a mãe e, posteriormente, com o pai. São eles
que vão trazer para o sujeito um ambiente seguro o suficiente para que ele
possa aprender a tolerar qualquer incerteza que venha a acontecer.
O
CAMINHO
O
ambiente psicoterapêutico também tem esta função. Muitas vezes o paciente chega
cheio de dúvidas e cheio de incertezas, imaginando que isto é o fim, imaginando
que isso é o colapso da sua mente. No entanto, a partir das experiências
bem-sucedidas com o psicoterapeuta, ele vai percebendo que a dúvida e a
incerteza são elementos que fundamentam o acordo com a realidade. O caminho é
dúvida, o caminho é incerteza. A gente até cria objetivos, a gente até cria
ideais, mas aqueles ideais e aqueles objetivos não são o final da história, não
vão trazer segurança alguma para gente, não vão trazer certeza alguma para
gente. Um sujeito que está caminhando de forma saudável, quando ele chega lá, o
lá não é mais lá, porque o que importa é o caminho e não a chegada.
APOIAR
OU INCENTIVAR
O
vínculo saudável é aquele que permite dependência, mas que propicia a
independência. Para que um vínculo seja saudável, este vínculo deve permitir
que haja a dependência, mas que esteja propício à independência assim que for
possível. Deve apoiar a independência, não deve sugerir, não deve promover, não
deve incentivar, mas deve apoiar, porque assim que esse vínculo for realmente
estabelecido, de maneira saudável, a independência começa a se desenvolver.
DESPREPARO
DOS PAIS
A
criança é um grande para-raios, é uma grande esponja de tudo que acontece
dentro da casa, tudo que acontece no lar, tudo que acontece na família. A
criança acaba sendo um grande porta-voz. E muitas vezes, aquele que nos procura
na clínica é o sujeito mais saudável da família, porque é aquele que deu conta
de tudo aquilo e ainda foi capaz de pedir ajuda, enquanto os outros estão
extremamente envolvidos com as suas defesas, com as suas neuroses, com as suas
psicoses, responsabilizando o outro, culpando o outro. Então, muitas vezes a
gente tem quando criança a impressão de que a gente é o problema. E quando a
gente cresce, a gente começa a perceber que grande parte desses problemas
vinham dos pais, o despreparo desses pais de cuidarem dessa criança. E aí mandam
a criança para o neurologista, pro psicopedagogo, para o psiquiatra, sabe lá
para quem? Para dar conta daquilo que na realidade foram os pais que não deram
conta.
DE
GERAÇÃO PARA GERAÇÃO
As
mazelas que são transmitidas de geração para geração, passando de pai para
filho, onde um não é capaz de reconhecer a realidade e cuidar de si mesmo para
que ele possa reparar o seu funcionamento emocional. E ele passa isso para os
filhos e os filhos passam pros netos e vão vai passando de geração em geração,
porque ninguém foi capaz de dar conta disso, porque o meu filho não pode sofrer
daquilo que eu sofri em relação aos meus pais.
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