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quarta-feira, 23 de julho de 2025

RENÚNCIA OU REPRESSÃO - Prof. Renato Dias Martino



O pressuposto para a renúncia é a responsabilização. Aquele que não se responsabilizou por alguma coisa, não é capaz de renunciar a esta coisa. Ele só passa a ser capaz de renunciar a alguma coisa a partir do momento que ele reconhece aquilo, que ele passa a respeitar a si mesmo em relação à aquilo e passa se responsabilizar por aquilo. Aí ele pode realmente renunciar a isso. senão, não é renúncia. Senão, é repressão. Se não ficou escondido.

RENÚNCIA DO ÉDIPO

Eu vou te dar um exemplo básico. Vamos pensar no exemplo edípico, assim como Freud nos trouxe. A criança deseja ter a mãe só para ela, então, ela percebe que ela deseja a mãe só para ela. Consequentemente, inclui o desejo de excluir o pai. Ele passa a reconhecer que realmente esse desejo existe, passa a respeitar a si mesmo por conta daquilo. Porque, muitas vezes, quando o sujeito reconhece isso ele passa não respeitar isso. E aí, ou ele pode abortar o processo, ou ele pode ali, desenvolver uma perversão e realmente pegar a mãe para ele e matar o pai. E aí, a partir desse respeito, ele passa a se responsabilizar por aquilo. “Não, realmente isso acontece comigo, eu me responsabilizo por isso.” A partir daí, ele é capaz de renunciar a isso, ou seja, sem julgamento. Eu passo a reconhecer, eu passo a respeitar e me responsabilizar, porque não me julguei, por conta disso. Porque, se eu me julgar por conta disso, o que que vai acontecer? Ou, eu vou me condenar, me sentir inferiorizado, ou eu vou condenar o outro, projetando esse desejo no outro e inferiorizando o outro. “Ou” e “e”. Pode acontecer uma coisa e outra. Se ele não reconhece, não respeita e não se responsabiliza, o que ele pode fazer é reprimir isso e reprimindo isso, ele vai desenvolver um modelo substitutivo para isso. Ou seja, ele vai levar isso vida fora, desdobrando em outras relações, com outras coisas, que vão repetir este mesmo modelo.



terça-feira, 8 de abril de 2025

DESEJO E SOFIMENTO - Prof. Renato Dias Martino


DESEJO E NECESSIDADE

 

O teu desejo te afasta da tua verdade. O teu desejo te afasta de você mesmo. Quanto mais você tiver focado no seu desejo, menos você está sendo capaz de estar sendo você mesmo. Porque, para estar sendo você mesmo, você precisa estar de acordo com as suas necessidades. Na maioria das vezes, o sujeito está tão encantado com a ilusão do desejo, que ele não consegue suprir as suas necessidades básicas. Ele gasta dinheiro com viagem não paga um plano de saúde quando precisa de um médico vai lá disputar com pessoas carentes lá no serviço público e quando ele volta da viagem, ele olha para aquilo e fala: “E aí? Para que que serviu essa viagem?” “Ah! Para recordações!” Mas você pode viver recordações na sala da sua casa. Se você estiver de bem com você mesmo, você pode viver recordações belíssimas no jardim da sua casa.

 

SOFRE OU PADECER

 

Sofrer é diferente de padecer. Padecer é simplesmente sentir a dor e sofrer é ser capaz de submeter essa dor a uma transformação. Sofrer o processo! Podemos afirmar que o sujeito que é capaz de renunciar aos seus desejos ele está muito mais de acordo com a realidade e padece menos. Padece menos, mas não sofre menos, porque sofrer diz respeito ao processo e todos aqueles que estão vivos estão sofrendo. só não sofre aquele que morreu!

 

AMOR OU SEXO

 

Esse é um tema extremamente polêmico, porque nós aprendemos desde pequenininho que praticar o sexo com o outro é fazer amor. No entanto, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Desejo sexual não é amor. O desejo sexual é um desejo de se satisfazer com o corpo do outro, amor é justamente a capacidade de adiar a sua satisfação pelo outro. Uma coisa é o avesso da outra.  O sexo precisa ser de comum acordo dos dois. O sexo saudável é aquele que acontece quando os dois estão disponíveis, naquele momento. Esse negócio de que precisa haver sexo, tem que ter sexo, é uma conversa fiada. Não tem que ter sexo. O sexo tem que acontecer quando houver a sintonia das duas pessoas e aquilo acontecer como uma brincadeira. É muito mais um entrosamento dos dois, do que um desejo. O sujeito que é maduro emocionalmente, ele é capaz de adiar a sua vontade sexual, porque ele percebe que o outro não está disponível. Ele é capaz de renunciar ao seu desejo sexual por conta do outro. Porque desejo sexual é uma coisa, vontade de sexo é outra. Desejo sexual diz respeito a alguma coisa que vai para além da satisfação sexual. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Você tem vontade sexual e isso é fisiológico e você precisa do sexo para suprir esta vontade. Agora, o desejo sexual é outra coisa. O desejo sexual diz respeito a um biotipo específico, o desejo sexual diz respeito a “eu desejo ser desejada pelo meu companheiro”. Isso não tem nada a ver com satisfação sexual, dentro do âmbito da necessidade. Então, o desejo sexual é nocivo, a vontade de sexo é saudável.

 

RENÚNCIA OU REPRESSÃO

 

O pressuposto para a renúncia é a responsabilização. Aquele que não se responsabilizou por alguma coisa, não é capaz de renunciar a esta coisa. Ele só passa a ser capaz de renunciar a alguma coisa a partir do momento que ele reconhece aquilo, que ele passa a respeitar a si mesmo em relação à aquilo e passa se responsabilizar por aquilo. Aí ele pode realmente renunciar a isso. senão, não é renúncia. Senão, é repressão. Se não ficou escondido.

 

RENÚNCIA DO ÉDIPO

 

Eu vou te dar um exemplo básico. Vamos pensar no exemplo edípico, assim como Freud nos trouxe. A criança deseja ter a mãe só para ela, então, ela percebe que ela deseja a mãe só para ela. Consequentemente, inclui o desejo de excluir o pai. Ele passa a reconhecer que realmente esse desejo existe, passa a respeitar a si mesmo por conta daquilo. Porque, muitas vezes, quando o sujeito reconhece isso ele passa não respeitar isso. E aí, ou ele pode abortar o processo, ou ele pode ali, desenvolver uma perversão e realmente pegar a mãe para ele e matar o pai. E aí, a partir desse respeito, ele passa a se responsabilizar por aquilo. “Não, realmente isso acontece comigo, eu me responsabilizo por isso.” A partir daí, ele é capaz de renunciar a isso, ou seja, sem julgamento. Eu passo a reconhecer, eu passo a respeitar e me responsabilizar, porque não me julguei, por conta disso. Porque, se eu me julgar por conta disso, o que que vai acontecer? Ou, eu vou me condenar, me sentir inferiorizado, ou eu vou condenar o outro, projetando esse desejo no outro e inferiorizando o outro. “Ou” e “e”. Pode acontecer uma coisa e outra. Se ele não reconhece, não respeita e não se responsabiliza, o que ele pode fazer é reprimir isso e reprimindo isso, ele vai desenvolver um modelo substitutivo para isso. Ou seja, ele vai levar isso vida fora, desdobrando em outras relações, com outras coisas, que vão repetir este mesmo modelo.

 

DEVERIA SER OU ESTAR SENDO

 

Nós psicanalistas, temos o hábito de condenar o superego. Nós temos uma propensão automática de perceber um sujeito que tem ali, uma conduta de um ideal de eu, daquilo que ele deveria ser e nós atribuímos isso a um superego rígido. E nós não estamos equivocados, no entanto, a gente precisa olhar sempre para além daquilo e quando a gente fala de um superego rígido, antes de um superego rígido, nós temos um ego desnutrido, um ego desacreditado. Eu costumo dizer que o ego é aquilo que eu estou sendo. E na medida que eu consigo reconhecer, respeitar e me responsabilizar por aquilo que eu estou sendo, eu confio naquilo que eu estou sendo, logo eu tenho muito pouco que me importar com aquilo que eu deveria ser, que é o superego. O sujeito, quando ele está desnutrido naquilo que ele está sendo, num recurso natural e importante, o superego vai se enrijecer. Ele precisa que o superego se enrijece, ele precisa que o superego seja firme. Porque ele não está confiando naquilo que ele está sendo e ele passa a confiar naquilo que ele deveria ser, no ideal de eu, no superego e não no ego. Todas as vezes que a gente olhar para um superego rígido, nós precisamos olhar para além desse superego rígido, porque atrás desse superego rígido, tem um ego desnutrido, desacreditado. Um sujeito que desconfia daquilo que ele está sendo. Tudo aquilo que ele está sendo, tudo aquilo que ele está fazendo, passa por um crivo de desconfiança e esta desconfiança dá na mão do superego o controle da vida dele.








Prof. Renato Dias Martino


domingo, 3 de novembro de 2024

SOBRE A VONTADE E A PSICOTERAPIA - Prof. Renato Dias Martino




VONTADE OBSTRUTORA 

Se a gente for levantar aí as nossas aulas, pelo menos aí, nos últimos meses, a gente vai ver que a gente tem falado muito sobre a vontade, sobre a vontade e sobre o desdobramento dessa vontade no desejo. Por que isso é tão importante? Porque é justamente a vontade e o desejo no desdobramento da frustração da vontade que vai ser um fator fundamentalmente obstrutor da nossa prática diária da psicanálise na clínica. Todas as vezes que a nossa vontade sobressair ao reconhecimento da realidade e isso a miúde pode acontecer, este acordo que pode ser travado entre o sujeito e a realidade vai ser comprometido, vai ser poluído. Ou seja, o sujeito deseja alguma coisa, ou ainda a sua vontade está prevalecendo e por conta disso ele tem dificuldade de reconhecer a realidade, tendo dificuldade de reconhecer a realidade ele não é capaz de respeitar esta realidade, não sendo capaz de respeitar essa realidade ele não é capaz de se responsabilizar por si mesmo e pela realidade e aí, estamos obstruídos de um fluxo no vínculo que pode ser estabelecido com o paciente.

ACORDO

O Bion propõe a ideia de “sem memória, sem desejo e sem compreensão”, então ele diz assim quanto menos você resgatar dados da memória, quanto menos você estiver sendo conduzido pelo seu desejo, quanto menos você estiver com ânsia de saber, ou com uma ânsia de tentar encaixar aquilo que está acontecendo no que você já sabia, mais de acordo com a realidade você estará. No entanto, tanto o conhecimento, quanto o resgate dos dados da memória, estão subordinados ao desejo. É o desejo que faz você resgatar as coisas da memória. É o desejo que faz você tentar encaixar aquilo que você está vivendo no já sabido. Então, é muito importante que a gente possa olhar para o desejo como algo que é fundamentalmente obstrutor na prática da clínica. Nos impede de reconhecer a realidade e portanto nos obstrui de entrar num acordo com esta realidade.

RENÚNCIA E FRUSTRAÇÃO 

A questão de renunciar do desejo está subordinada à capacidade de tolerar a frustração, que é gerada pela incerteza. Quando eu não sou capaz de tolerar a incerteza, eu estou apegado àquilo que eu gostaria de ser. Eu tomo como real aquilo que eu gostaria de ser, ou aquilo que eu gostaria que fosse a realidade e isso é justamente o desejo.

PROJEÇÃO 

Quando o analista está vivendo uma grande dor, por exemplo e de alguma forma ele ainda evita sofrer essa dor. Isso é muito importante! A gente separar, sofrimento de dor. Sofrimento, sugere movimento e dor é algo que você sente. Sofrer a dor é diferente de sentir a dor. Quando você sofre essa dor, essa dor tende a se transformar. Diferente de quando você simplesmente sente essa dor. Quando o analista está com dificuldade de sofrer a dor, ele pode projetar esta dor que ele ora está sentindo no paciente. Quando ele projeta essa dor no paciente, porque o paciente sugeriu algo parecido com essa dor, ele passa a tentar solucionar ou resolver ou ainda amenizar essa dor do paciente então ele projeta, essa dor, no paciente e tenta então resolver a dor do paciente, amenizar a dor do paciente. Quando ele está em dia com a sua análise pessoal, quando ele está integrado, ele consegue tolerar esta dor até que ele possa sofrer esta dor para que haja uma transformação, mas para isso ele precisa ser capaz de renunciar ao seu desejo e adiar das suas vontades.

FUGA

Muitas vezes, quando a gente está sentindo uma dor muito intensa, quando a gente está sentindo uma angústia muito grande, uma ansiedade muito grande, a gente tende a fugir dessa dor, dessa dor psíquica, dessa dor emocional. E tudo bem! Não tem problema, nós vamos fazer isso a miúde, mesmo. Nós vamos fugir dessas dores. No entanto, a gente precisa ter consciência de que fugir de uma dor psíquica é impreterivelmente se iludir. A fuga da dor emocional é a ilusão, que vai gerar alucinação, que vai gerar delírios. Ninguém foge de um processo psíquico, ele se engana estar fugindo.

SENTIMENTO, EMOÇÃO, AFETO E VÍNCULO

Quando a gente fala de emoção, vamos começar pela emoção, eu penso ser muito importante a gente partir da semântica da palavra. “E + MOÇÃO” E, no latim é ex. Corta-se os X, aí quer dizer para fora e MOÇÃO é movimento. Então, movimento para fora, ou seja, algo que está dentro que vai para fora, se projeta no mundo externo. A emoção é impreterivelmente algo que eclode do mundo interno. O sentimento já é algo que você sente independente de externalizar. Eu sinto isso e isso não necessariamente vai gerar uma emoção. É claro que toda emoção é gerada de um sentimento, mas nem todo sentimento gera uma emoção. Sentimento é algo que me faz mobilizar algo internamente e emoção é quando eu externalizo isso. Quando eu coloco para fora, quando eu manifesto isso no mundo externo. E aí, vale acrescentar mais uma experiência que é do afeto. A quer dizer em direção alguma coisa e FACERE quer dizer fazer. Fazer alguma coisa em direção. Então, um sentimento gera uma emoção e esta emoção está buscando um afeto que possa afetá-la. Quando esta emoção encontra um afeto acontece um vínculo.

MODELO

Cada psicoterapeuta tem a sua técnica, cada psicoterapeuta tem a sua maneira, a sua metodologia de praticar a psicoterapia. Não só cada psicoterapeuta, mas existem inúmeras teorias de aplicabilidade psicoterapêutica, no entanto, seja a prática que for, seja o método que for, seja a técnica que possa ser usada, na realidade, o que realmente é transformador é o vínculo saudável que se estabelece entre as duas pessoas, psicoterapeuta e paciente. Como é que funciona isso? Você propicia a possibilidade de se estabelecer um vínculo saudável com esse paciente, este vínculo ora estabelecido vai começar a se tornar um modelo de vínculo para que o paciente possa internalizar e aplicar na relação que ele tem consigo mesmo. Muitas vezes, ele não consegue reconhecer a si mesmo. Muitas vezes, ele não consegue respeitar a si mesmo. Muitas vezes, ele não consegue se responsabilizar por si mesmo, mas dentro do vínculo psicoterapeuta/paciente vai haver a possibilidade disso. O psicoterapeuta vai reconhecer esse paciente, vai respeitar este paciente, vai se responsabilizar por esse vínculo com o paciente. E o paciente vai aprendendo isso e internalizando. E ele passa a fazer isso em relação a si mesmo. A partir desse vínculo que ele vai reparando consigo mesmo, ele vai sendo capaz de estender este mesmo modelo nas relações que ele tem com as pessoas. E não só estender este modelo na relação com as pessoas, mas ser capaz de avaliar se a pessoa que ele vem a se relacionar é capaz de manter um vínculo desta qualidade e se afastar das pessoas que definitivamente ele perceba que não são capazes de manter esta qualidade de vínculo saudável.

TRANSFORMAR 

A psicoterapia não promove transformação, ela propicia um ambiente para que a transformação possa acontecer. A transformação vai acontecer por si só, não é a psicoterapia que promove. A psicoterapia propicia um ambiente para desobstruir a possibilidade de transformação. O sujeito não se transforma porque ele está obstruído de um monte de coisas que ele foi criando e colocando no seu caminho e que vão represando a sua possibilidade de fluxo do desenvolvimento. A psicoterapia é um recurso de desobstrução. Então, o que realmente propicia desobstrução é um vínculo saudável, é um vínculo que tenha dedicação e limite, amor e verdade. Dedicação é amor. Acolhimento! O que é acolhimento? É amor com limite. Acolher é algo que carece de limite, mas também carece de dedicação, de doação, de atenção, mas isso tudo dentro do limite. Qual é o limite? O limite da capacidade de ambos. Precisamos respeitar o limite de cada um. O limite do analista e o limite do paciente. O quanto o analista é capaz de se doar. Tem um limite. O quanto o paciente é capaz de se doar. Tem um limite!

DEBRIS

Auto-lapidação! É muito bonito isso. O que é lapidação? É ir retirando as partes que não são tão nobres de si mesmo e se desfazendo daquilo que talvez não seja saudável de si mesmo e ficando só com a essência. Esta questão de auto-lapidação é muito bela. O Bion vai falar dos debris. Ele vai falar dos escombros, dos entulhos que o paciente chega na clínica e você vai ajudando ele a tirar aquilo de cima dele para ver o que é que sobra de verdadeiro. Então, essa questão é muito e interessante, é muito bela, de ir se autou-lapidando daquilo que não é nobre, daquilo que não te ajuda, daquilo que só te obstrui o fluxo da sua própria vida.

SOFRER A DOR

O Bion trata sobre essa questão do sofrer a dor e o sentir a dor lá no ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, 1970. Então, ele vai dizer que alguns pacientes não são capazes de sofrer a dor. Eles sentem a dor, mas eles não conseguem submeter essa dor ao sofrimento. Ele não consegue viver essa dor, então ele padece da dor. Ele sente aquela dor repetidamente, da mesma forma e ele se lamenta daquela dor. Ele reclama daquela dor, mas ele não consegue sofrer aquela dor. Quando ele coloca esta dor dentro da perspectiva do sofrimento e se propõe a realmente sofrer esta dor... O que é sofrer essa dor? É RECONHECER essa dor como sua, é aprender a RESPEITAR essa dor e é se RESPONSABILIZAR por essa dor. Quando ele consegue esses três “Rs”: reconhecer, respeitar e se responsabilizar, essa dor começa a se transformar em algo nobre, em aprendizado e já não está mais naquela perspectiva da lamentação, do padecimento, mas esse sofrimento leva à transformação. Não é simplesmente... Sofrer a dor não é simplesmente sentir a dor, mas é viver essa dor para que ela possa se transformar. Mas, para isso eu preciso de tolerar essa dor. Quando eu estou padecendo da dor e não estou sofrendo da dor, eu estou a aguentando essa dor, eu não estou tolerando a dor. Quando eu tolero, ela se transforma. Quando eu aguento... E o que é aguentar? É suportar como se suporta um peso. Então, quando eu aguento, quando eu suporto, aquela dor fica represada e não se transforma. E aí, a gente vai chamar em psicanálise isso daí de melancolia, de estado de melancolia. Quando o sujeito submete essa dor ao sofrimento ele passa a viver o processo do desta dor e aí é transformador.

RESPONSABILIDADE

Um exemplo claro de sentir a dor, de padecer da dor e não sofrer da dor: eu sinto essa dor dentro de uma perspectiva de angústia, de ansiedade, de medo, de insegurança e eu atribuo ao outro a responsabilidade disso. “Foi você que me deixou inseguro!” “Quando você faz isso eu fico assim!” “Foi você que provocou isso!” E aí, eu brigo com o outro, porque eu não sou capaz de reconhecer que essa dor é minha, que é uma insegurança minha, que eu não estou sendo capaz de reconhecer isso como meu, não estou sendo capaz de respeitar isso como meu e não estou sendo capaz de me responsabilizar por isso. Então, eu coloco no colo do outro e digo: “É você quem faz isso acontecer comigo!” E aí, o que acontece? Quando o sujeito sente a dor e padece da dor e não é capaz de sofrer a dor ele prejudica todo mundo que está em volta dele. Todo mundo se sente culpado por aquilo. Quando, na realidade, é o sujeito que precisa se responsabilizar por isso.

CULPA

Qual é o antídoto para dissolver a culpa? É a capacidade de se responsabilizar. Não existe outra coisa! Mas, qual é o benefício do sujeito manter a culpa, se manter se sentindo culpado? É justamente atribuir ao outro esta culpa. “A culpa é minha, eu coloco em quem eu quiser!” Manter a culpa tem um benefício. Reconhecer, aprender a respeitar e se responsabilizar pelo fato é muito trabalhoso. Requer uma dedicação enorme. Requer uma capacidade de frustração muito grande. Não é para qualquer um. É muito mais fácil eu jogar para o outro. É muito mais fácil eu armar um caos, sair brigando com todo mundo, gritando, esbravejando, do que me responsabilizar por isso, do que cuidar disso na minha análise pessoal.

REALIDADE

Nós temos a tendência de enxergar no mundo aquilo que coincide com a nossa vontade. A gente imagina alguma coisa e procura no mundo isso que a gente imaginou. A possibilidade de reconhecer as coisas reais do mundo é muito difícil para o ser humano. Ele só consegue fazer isso a partir de um encontro bem sucedido com o mundo externo. O bebê precisa encontrar com a mãe generosa, com a mãe suficientemente boa, porque a mãe é a primeira noção de mundo externo. Quando ele não consegue encontrar esta mãe generosa, essa mãe benevolente, essa mãe suficientemente boa, ele vai guardar uma dificuldade enorme de reconhecer as coisas do mundo externo, as coisas reais e vai priorizar aquilo que ele imagina e não aquilo que realmente é.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Tenho minhas restrições ali com o Saramago, porque era ateu, mas tudo bem, respeito, não tem problema, mas ele tem obras geniais e uma das obras geniais dele é o Ensaio Sobre a Cegueira, que depois virou um filme tão bacana quanto o livro. Então, muitas vezes, o paciente chega na clínica vivendo uma experiência muito parecida com esta obra. Ele é o único que está sendo capaz de ver, de enxergar, simbolicamente é claro, num ambiente onde está todo mundo cego. E ele chega desesperado por causa disso e muitas vezes, ele acreditando que o mal dele é enxergar. Porque está todo mundo cego e adaptado à cegueira, só que pendurado nele. Muitas vezes, na maioria das vezes o sujeito que procura terapia é o sujeito mais saudável emocionalmente da família.

REPARAÇÃO

Quando a criança é pequena, existe maior possibilidade dele conseguir reparar esta relação com o mundo externo. Conforme ele vai crescendo, conforme ele vai se desenvolvendo, vai se tornando cada vez mais difícil, porque esta interação quando vai passando o tempo, vai criando maiores obstruções maiores ilusões e ilusões muitas vezes, intransponíveis, que não podem ser ultrapassadas na barreira que separa o sujeito do outro. Então, quanto mais terra for a possibilidade de reparação, tanto mais ela pode ser bem-sucedida.





domingo, 29 de setembro de 2024

DESAPEGO E VONTADE - Prof. Renato Dias Martino


DESAPEGO


Toda a configuração da prática do desapego, e quando eu falo prática do desapego aqui, nós estamos falando diretamente do intuito da própria psicanálise, porque a psicanálise propõe essa ideia de se desapegar. São inúmeras formas de se dizer isso, uma delas por exemplo está proposta lá em 1917 no LUTO E MELANCOLIA, que é ser capaz de viver o processo do luto e aqui nós estamos chamando de desapego. Então, a proposta do desapego coincide com a proposta psicanalítica. Esta proposta tem um desafio que é a vontade. A vontade que, na medida em que não é satisfeita no seu tempo, na medida que não é cumprida, suprida no seu tempo adequado, vai se desdobrar em desejo. Um sujeito que está saudável, que está funcionando de maneira saudável é aquele que é capaz de se desapegar, é aquele que é capaz de renunciar dos seus desejos e capaz de adiar suas vontades. Isso se configura num fluxo do desenvolvimento emocional e afetivo.


VONTADE


Quando a gente fala de vontade, a gente está falando daquilo que ao mesmo tempo que é a manifestação da vida, também é aquilo que pode obstruir o próprio fluxo da vida. Muitas vezes, a manifestação da vontade atenta contra a própria vida do sujeito. Ele, muitas vezes, está com tanta vontade que ele, por si só, pode se colocar em uma cilada. Um Bom exemplo disso é quando a molecadinha, lá no sítio, arma uma arapuca para pegar passarinho. A arapuca está cheia de milho para que o passarinho possa se alimentar e é justamente a vontade de viver que leva o passarinho buscar o milho. E esta vontade de viver faz com que ele caia na arapuca. Então, a vontade de viver é também aquilo que leva sujeito, muitas vezes, para a própria morte.


DESEJO


Essa ideia do desejo, ela é extremamente polêmica, principalmente dentro de outras escolas aí, por exemplo, dentro da escola lacaniana. Vou ser bem sincero, tenho um conhecimento extremamente limitado das propostas do Lacan, mas me parece que ele trata, os lacanianos tratam da ideia de desejo diferente da forma como nós tratamos aqui. Nós tratamos aqui o desejo como algo que não é necessário, mas que ainda assim, o sujeito quer. Então, quanto mais o sujeito for capaz de se desapegar, renunciar desse desejo, mais ele vai estar de acordo com a realidade, que está configurada naquilo que é necessário.

NECESSÁRIO


A vontade é genuinamente do sujeito. O sujeito tem vontade de alguma coisa e isso diz respeito à sua necessidade básica. O desejo diz respeito à interferência, ou a contaminação do que o outro quer. Então, vontade é básica, a vontade se manifesta através do corpo, por conta de necessidades básicas. E aí, o Schopenhauer nos orienta muito bem, lá no MUNDO COMO VONTADE DE REPRESENTAÇÃO. O desejo já é algo que se elegeu um objeto substitutivo para tentar suprir algo que não foi adequadamente suprido no nível da vontade.


REPRIMIDO


Existe um instinto e o instinto está ali, assim como o Freud nos orientou, está ali na barreira entre o somático e o psíquico, entre o somático e o psíquico, entre a carne e a mente. De início é uma manifestação orgânica que nós vamos chamar de instinto. Então, o instinto está ali naquela barreira, o instinto se manifesta pelo corpo, mas já não é mais do corpo. O corpo é o soma, o corpo são manifestações orgânicas. O instinto já transcende o orgânico. Primeiro o instinto. O instinto está ali, na barreira do somático e do psíquico. Este instinto vai se manifestar através da pulsão. A pulsão é algo que acontece por conta da demanda instintiva, ou instintual, melhor dizendo. Esta pulsão vai gerar o que a gente vai chamar de impulso. Então, o impulso é a ação da pulsão. Este impulso vai ser a ação em direção a um possível objeto que possa vir suprir a demanda do instinto. Quando essa satisfação não acontece o impulso retorna. E aí, a gente vai chamar de reprimido. Por quê? Porque não houve a satisfação, não houve o suprimento da demanda do instinto. Retorna este impulso. E aí, a gente vai chamar de impulso reprimido. Este impulso reprimido agora não vai mais se satisfazer com o objeto original, ele vai eleger um outro objeto para satisfazê-lo. Este outro objeto é um objeto de desejo, não mais um objeto de vontade, que seria a demanda do instinto.


NASCE UM DESEJO


Para que se desenvolva o desejo é necessário ter havido a repressão. Reprimiu-se a vontade e agora a vontade já não se satisfaz mais com o objeto original, mas agora, precisa de algo a mais, para ser supostamente satisfeito. Porque não vai ser satisfeito. Desejo nunca se satisfaz, o que se satisfaz é a vontade. O sujeito que deseja, ele quer sempre mais. A vontade se satisfaz até que haja novamente a sua demanda.


AMBIENTE 


Quando o Winnicott propõe a mãe ambiente, ele está propondo a mãe, não como outro, mas como o ambiente. Ela vai dar conta da demanda das necessidades. Ela vai dar conta da demanda da vontade e se ela der conta disso, tanto menor vai ser a geração de desejos. Quando ela não é capaz de suprir essas necessidades, quando ela não está sendo suficientemente boa, ele começa a desenvolver desejos, porque a vontade não foi satisfeita. Então ele começa a vincular aquela vontade à relação com o outro que já não é mais ambiente, mas é realmente um outro. Então ele precisa fazer alguma coisa para que esse outro venha suprir isso. E aí, já não é mais vontade é desejo.


PULSÃO DE VIDA 


Quando Freud propõe pulsão de vida, ele está ali, se baseando na ideia de vontade do Schopenhauer, falando sobre a manifestação do instinto, daquilo que é mais primitivo no ser humano. Então, não tem a ver com desejo. Quando isso não é satisfeito, começa a se desenvolver o desejo que já não é mais básico, mas que já tem uma contaminação de algo a mais do que a satisfação da necessidade básica.


VORACIDADE


A voracidade é uma expressão do desejo. Quando a criança começa desenvolver voracidade é porque ela não foi satisfeita, ou não foi suprida no tempo adequado, aí ela começa a ter vontade para além da conta. E aí, se torna desejo. O Winnicott vai falar assim, que a criança alucina o seio e a mãe encaixa o seio real na alucinação do bebê. Quando essa alucinação que o bebê tem do seio não é suprida no seu tempo, esta alucinação cresce. A vontade não foi satisfeita e começa a crescer, então aquela vontade que gerou uma alucinação x, agora é x elevada a tanto. Aquele seio que vai se encaixar nessa alucinação já não vai mais suprir, porque essa alucinação já virou um desejo.


SUJEITO DESEJANTE


Então a gente vai partir da ideia do objeto. O que é um objeto? Ser um objeto é ser alguma coisa que alguém deseja. Objeto é algo que é desejado. O bebê precisa ser um objeto desejado. Ele precisa ser alguma coisa que o outro deseja. Um objeto precisa ser desejado para que ele possa se mover. Um vaso é um objeto. Se alguém não desejar esse vaso, ele vai ficar esquecido lá. Então, eu preciso desejar o vaso para que o vaso saia do lugar. Eu desejo o vaso, eu pego o vaso e levo pra minha casa. Quando o sujeito vai se desenvolvendo emocionalmente, ele deixa o lugar de objeto desejado para sujeito desejante ele passa a desejar. A maioria das escolas psicanalíticas acabam a história aí. O sujeito é um sujeito desejante, está ótimo! Não! Não está ótimo. Agora ele precisa se qualificar para ser capaz de renunciar do seu desejo. Aí sim, ele está aberto. Aí sim, ele desobstrui o caminho do acordo com a realidade. Porque a realidade existe independente do seu desejo e se você continuar sendo um sujeito desejante, você não vai conseguir entrar num acordo com a realidade, que existe independente do seu desejo.


RENÚNCIA


No senso comum a gente vincula a ideia de liberdade à possibilidade de satisfazer os desejos, mas na realidade, a verdadeira liberdade é ser capaz de renunciar dos desejos, de não satisfazer os desejos. Ser capaz de tolerar que o seu desejo não vai ser satisfeito. Para quê? Para que você possa investir a sua libido na necessidade básica, na vontade, naquilo que realmente vai te trazer enriquecimento para o fluxo da sua vida. Então, a liberdade não está em satisfazer desejos, mas está em ser capaz de investir naquilo que é necessário.


ESCOLHA


Se a gente estiver falando de vontade, não tem escolha, o caminho é um só. Você pode até adiar, mas não tem como escolher você não tem como escolher se alimentar ou não, mas você pode adiar a alimentação. O desejo tem escolha. Você pode escolher ou não. Eu posso escolher por exemplo até não suprir a minha vontade e tentar realizar o meu desejo. Vou ter um prejuízo com isso, mas o livre arbítrio está ali. Para que eu possa, talvez reconhecer que, quando eu estou satisfazendo o meu desejo, eu tenho prejuízo da minha necessidade básica. E aí, eu aprendo com a experiência e percebo que o caminho é um só não são dois.


QUERER


A semântica da palavra vontade, ela diz respeito a querer. Querer está ligado tanto à vontade, quanto ao desejo. Quem deseja quer alguma coisa e quem tem vontade também quer alguma coisa. Querer é a base, mas esse querer é de desejar ou de ter vontade. Se for de ter vontade é necessidade básica, se for de desejar é alguma coisa que não é necessário.


TOLERAR


A vontade, ou o desejo geram ansiedade. Ansiedade é ânsia, busca. Quando eu sou frustrado nisso que eu fui buscar, eu sinto angústia. Angústia diz respeito à frustração. Quando eu estou falando de adiamento da vontade, ou de renúncia do desejo, nós estamos falando de ser capaz de tolerar a frustração, de ser capaz de tolerar a angústia gerada por não conseguir aquilo que se buscava. Eu preciso me tornar capaz de renunciar, ou adiar. Renunciar se for desejo e adiar se for vontade. Se eu conseguir isso, eu vou conter essa ansiedade e aí, eu inclusive, posso até direcionar para alguma outra coisa mais adequada, ou suprir essa vontade num momento mais adequado.


TROFÉU 


O sujeito, quando está com sobrepeso, quando ele está mais gordo do que o saudável, isso quer dizer que está havendo uma obstrução na vontade de viver. Quando você está pleno na sua vontade de viver, o seu corpo está adequado ao fluxo da sua vida. Então, emagrecer dentro da vontade de viver é se adequar ao peso que vai te trazer a possibilidade do fluxo da sua vida. Agora, muitas vezes, o sujeito tem uma configuração mais fofinha, o sujeito tem uma configuração natural mais gordinha, por conta de inúmeros fatores hereditários, inúmero... isso não é, de maneira alguma, nocivo. Mas, o que acontece? Existe um padrão social de beleza e quando esse padrão fala mais alto, o sujeito começa a questionar a sua configuração corpórea para se adequar a este modelo. Aí já não tem a ver com vontade, aí tem a ver com desejo, aí tem a ver com o desejo de se adequar àquilo que é o desejo do outro. Então, eu preciso ser de uma forma ou de outra, para ser desejado pelo outro. Quando estou falando de uma adequação da saúde, nós estamos falando da vontade. E aí, você pode realmente adiar o emagrecimento, mas você não pode renunciar, porque senão você morre. Você vai engordando até morrer, até uma obesidade mórbida. Agora, quando você é fofinha, sempre foi desde menininha, a tua mãe é fofinha, todo mundo da tua família tem, mais ou menos esse estereótipo e você por algum motivo, por alguma experiência malsucedida, não conseguiu reconhecer a si mesmo e se contentar com o seu corpo e começa a estabelecer um ideal de corpo que a sociedade pregou, então, você está desejando ser de outra forma, então isso não é simplesmente adiar o emagrecimento, mas é renunciar a esse emagrecimento. Porque, por mais que você seja fofinha, você está saudável e muitas vezes, qualquer tipo de dieta, ou de exercício excessivo, vai fazer muito mais mal do que continuar sendo fofinha e linda como você é. Uma cilada! Porque, um sujeito que procura uma mulher com o corpo no padrão pré-estabelecido da sociedade, ele não está disposto a se aproximar de uma mulher para amá-la, mas ele quer um troféu para mostrar, para exibir a mulher. Quer se tornar bela para ser desejada pelo outro e o homem quer uma mulher bela para ser desejado pelo outro por ter essa mulher bela. Uma sociedade podre! Uma sociedade nociva, que só pega os desavisados, que só pega os estruturados, que só afeta o sujeito que não está sendo capaz de reconhecer a si mesmo, que não está de bem consigo mesmo.


TEORIA


Nós estamos aqui tentando refletir. Ninguém aqui está tentando colocar uma verdade acabada, ou saturada. Até porque, isso aqui é uma formulação nova, nós estamos formulando agora. Ah! Mas onde é que eu encontro isso, na literatura? Eu não sei! Sinto muito! Vou ficar devendo para vocês. Se não estiver fazendo sentido através da nossa reflexão, passa o vídeo, não precisa assistir. Não tem problema. Agora, se estiver fazendo o sentido, ótimo, vamos pensar juntos. É muito mais interessante que a gente possa, através das nossas experiências, refletir sobre o que a gente está chamando de instinto, sobre o que a gente tá chamando de pulsão, do que a gente tá chamando de desejo, ou de vontade, do que revisar literaturas. É muito importante que a gente possa reconhecer esse desencadeamento que vai do corpo até a alma. Não por uma especulação teórica, ou literária, mas por conta de algo que você reconhece no seu próprio funcionamento. Isso é muito mais importante do que qualquer leitura teórica, seja desde Kant, Schopenhauer, Platão, até Bion. ou qualquer outro contemporâneo.





domingo, 7 de julho de 2024

ADIAMENTOS E RENÚNCIAS NO FUNCIONAMENTO DA MENTE - Prof. Renato Dias Mar...


FUNCIONAMENTO MENTAL
 
O que realmente existe é o processo primário. O processo secundário é simplesmente uma consequência de ser capaz de adiar satisfações imediatas e adiar a evitação de desconfortos. Quando o sujeito tem esta capacidade de tolerar frustrações, ele entra num processo secundário. Ele deixa o princípio do prazer/desprazer em standby, por assim dizer. Ele não deixa de existir, porque ele é um fluxo do inconsciente, da pulsão e ele passa a admitir o outro além da minha satisfação, além da minha evitação de desconforto existe o outro.

ADIAR OU RENUNCIAR

Quando a gente fala de renúncia, a gente está falando necessariamente de desejo. Você não pode renunciar de vontades. O que eu estou chamando de vontades? De necessidades básicas. Não tem como renunciar necessidades básicas. Se você renunciar as necessidades básicas, você morre. Mas você pode adiar e esse adiamento, esta capacidade de adiar necessidades básicas é que faz com que o sujeito se adeque à vida com o outro. O bebê vai amadurecendo emocionalmente, o bebê vai se capacitando emocionalmente, essa capacitação se desdobra na capacitação afetiva, a partir da capacidade de adiar a satisfação imediata, adiar as necessidades básicas. Adiar a necessidade de se alimentar, lá na fase oral. Ele já é capaz de adiar a necessidade de se alimentar, de mamar. Por quê? Porque ele reconhece que existe a mãe e a mãe tem suas vontades, independente dele. Na segunda fase, na fase anal, ele vai aprender a adiar a necessidade de evacuar e a partir daí ele vai desfraldar. E por aí a fora, no desenvolvimento.

DESEJO

Agora, quando a gente fala de renúncia, nós estamos falando de desejo. O bebê não deseja, ele passa a desejar quando, no decurso do suprimento da satisfação desta vontade, acontece alguma falha. Ocorreu alguma falha; desenvolve-se um desejo. O é o desejo? O desejo é um substituto da vontade. Eu tenho uma vontade, que é necessidade básica, essa vontade teve uma falha, não foi suprida de maneira suficientemente boa, então eu elenco, eu elejo um objeto substitutivo para isso. Não é somente aquilo, mas é aquilo, mais alguma outra coisa do mundo externo que eu escolhi. E aí, é uma escolha, porque tem a ver com ilusão. Imaginando que vai dar conta daquilo que falhou, mas aquilo que falhou já ficou lá atrás, já não tem mais jeito. Mas esse objeto de desejo passou a ser uma ilusão de satisfação daquilo que ficou lá atrás, por isso que o desejo é uma grande ilusão e precisa ser renunciado. Porque ele nunca vai trazer essa satisfação, essa satisfação ficou lá atrás. A criança precisa da atenção dos pais. A atenção dos pais é necessidade básica. A criança precisa que os pais prestem atenção nela, deem atenção a ela e ela não consegue isso. Falha esse suprimento da vontade de ser o centro das atenções. No quê? Naquilo que o Freud chamou de “narcisismo primário”. A criança precisa se sentir o centro das observações dos pais, das atenções dos pais. Quando a criança não consegue isso, ela vai procurar no mundo externo, algum objeto substitutivo para isso. Hoje, por exemplo, existe o videogame, o celular, então ela encontra o celular e este celular vai ser, agora, o objeto de desejo dela. Supre aquilo que faltou? Não! Nunca vai suprir e é justamente isso que faz com que ela se torne compulsiva no uso desse objeto substitutivo. Eu estou trazendo um exemplo, mas são inúmeros exemplos que a gente pode eleger como objeto de desejo, que traz a ilusão de suprir aquilo que um dia foi da vontade, ou seja, da necessidade básica, seja ela fisiológica ou emocional-afetiva.

PSICOTERAPIA E DESILUSÃO

O espaço da psicoterapia, do processo psicoterapêutico, traz a possibilidade do sujeito se desiludir a conta gotas, devagarinho, até que ele seja capaz de renunciar daquele desejo. Renunciar daquele desejo que, na realidade só está fazendo com que ele desperdice suas energias e não consiga aquilo que ele imaginava poder conseguir. Por que renunciar desse desejo? Porque é pecado? Porque é proibido? Não! Porque é um desperdício de energia. Então, o nosso papel, enquanto psicoterapeutas é acolher o sujeito para que ele possa entrar num acordo com a realidade. Este acordo com a realidade vai mostrar para ele que, aquilo ali, que ele tá fazendo é uma ilusão e que ele está se auto prejudicando fazendo aquilo. Ele tem que se livrar daquilo? Não! Ele não tem que se livrar daquilo. Não é papel do psicanalista dizer: “você tem que largar disso!” Não! Você não tem que largar disso, pelo contrário, você pode continuar fazendo isso, mas você precisa aos pouquinhos ir reconhecendo que isso é uma ilusão.




quinta-feira, 4 de julho de 2024

DESEJAR OU AMAR - Prof Renato Dias Martino


O PRIMEIRO E MAIOR DESEJO

Para que o bebê possa sobreviver e para que possa ser bem-sucedido o seu desenvolvimento é necessário que a mãe esteja ali, cuidando dele, que a mãe esteja desejando que este bebê esteja ali. E, é claro, que este desejo precisa ser dissolvido aos pouquinhos, porque um desejo cristalizado é um desejo nocivo. A mãe, a princípio, deseja o bebê e aos pouquinhos vai dissolvendo esse desejo, para que o bebê possa existir como ele mesmo e não como aquilo que ela desejava. O maior desejo do ser humano é o de ser desejado. O maior e o primeiro desejo. Então, o bebê deseja ser desejado.

ETAPAS DO AMAR

Não existe outra forma de aprender a amar que não seja a partir do narcisismo. Então, o sujeito, ele é amado pela mãe como se fosse a coisa mais importante do mundo e precisa ser na realidade a coisa mais importante para mãe no momento que o bebê nasce, precisa ser o bebê. E ele se sente amado como se fosse a coisa mais importante do mundo, passa a amar a si mesmo, a partir desse amor, como sendo a coisa mais importante deste mundo e este amor quando bem estruturado, passa a servir como apoio para amar as outras pessoas. Não existe outra forma de desenvolvimento do amor que não siga essas etapas.

O AMOR DO OUTRO

Não existe uma maneira de aprender a amar o outro se eu não fui amado pelo outro antes disso. Ninguém nasce sabendo amar. A gente precisa aprender a amar e a gente aprende a amar pelo amor do outro. Quando a gente é amado pelo outro, a gente cria um vínculo afetivo com aquilo que existe além do eu e passa então, a aprender amar o outro. Mas primeiro, eu preciso ter sido amado. Primeiro eu preciso ter tido atenção do outro, porque senão, eu não vou conseguir prestar atenção em nada mais além de mim mesmo.

AMOR NARCÍSICO 

Tudo inicia-se no narcisismo. Não tem como. Tudo começa no narcisismo. O amor, por mais que ele seja doação, ele nasce do narcisismo e quanto mais ele puder ser narcísico, mais ele vai ter a chance de se expandir para um modelo que inclua o outro.

MEDO DO ABANDONO

Essa é uma experiência que se estende para vida toda. O bebê resiste em reconhecer a mãe como outro, porque quando ele reconhece a mãe como uma outra pessoa, ele passa a ter medo de perdê-la. As relações que tem uma configuração narcisista, elas são fusionadas, são fusionadas, justamente para o sujeito não reconhecer o outro como o outro e passar a ter medo que o outro o abandone. Então, ele ainda acredita que ele domina o outro, ele acredita que o outro é parte dele mesmo, naquilo que o Freud chamou de relação por identificação, onde um é extensão do outro. Quando ele passa a reconhecer o outro como o outro, ele passa a ter medo de ser abandonado. Ele deseja muito o outro e este desejo traz para ele uma sensação de iminente abandono.

DESEJO SAUDÁVEL

Todo o desejo, para ser saudável, ele precisa ter prazo de validade. O desejo saudável tende a se dissolver. Quando o bebê é desejado pela mãe e a mãe vai sendo capaz de dissolver esse desejo em relação ao bebê, para que o bebê possa se tornar ele mesmo e não ser aquilo que ela gostaria que ele fosse. Ele também introjeta esse modelo e ele vai desejar as coisas no mundo da mesma forma. Vai desejar e aos pouquinhos vai dissolvendo esse desejo para que as coisas possam ser aquilo que elas são e não aquilo que ele gostaria que elas fossem. Agora, quando a mãe deseja o bebê e esse desejo não se dissolve e ela continua desejando que ele seja aquilo que ela quer que ele seja, ele também vai fazer assim com o mundo. Ele vai desejar as coisas do mundo e se não for do jeito que ele quer ele vai quebrar tudo, ou ele vai desistir.

DESEJAR OU AMAR

Desejar não é amar desejar, é querer possuir alguém e amar é ser capaz de se doar a este alguém. Então, existe uma diferença gritante entre as duas coisas. No entanto, para que possa haver amor, um dia precisou haver desejo. Então, Freud vai dizer que a primeira forma que o sujeito se relaciona com o outro é numa relação por identificação, onde ele imagina que o outro é uma extensão dele mesmo. Uma extensão daquilo que ele deseja, uma extensão de si mesmo. Só depois, ele vai reconhecendo esse outro como sendo realmente outro. Então, primeiro precisou haver uma relação de necessidade, uma relação de desejo, uma relação que não havia diferenciação entre o eu e o outro, para depois de bem comprida esta fase, ele conseguir aprender a amar o outro. Logo, a capacidade de amar não é inata do ser humano. O ser humano não nasceu sabendo amar. Ele precisa aprender a amar. E como que ele aprende a amar? Através do amor do outro. Sendo amado pelo outro. Aprendendo a Amar a si mesmo a partir desse amor que ele tem do outro e depois através desse amor que ele tem por si mesmo, ele estende para as outras pessoas.

RENÚNCIA DO DESEJO

Eu preciso ser capaz de renunciar desse desejo, para que eu possa amar realmente. Só ama aquele que renunciou do desejo. Enquanto, eu estiver desejando o outro, eu não consigo amá-lo, eu estou obstruído de amá-lo. O amor acontece a partir da renúncia do desejo. Se sentir atraído pelo outro, desejar obter o outro, não é amor. O amor acontece justamente na capacidade de renunciar esta atração, esse desejo de obter o outro, de controlar o outro, de possuir o outro. O desejo é um sentimento, “sentir desejo”, o amor é uma capacidade, “ser capaz de amar”. Porque, nós aprendemos desde pequenininho que praticar o sexo com o outro é fazer amor, no entanto desejo sexual não é amor. O desejo sexual é um desejo de se satisfazer com o corpo do outro, amor é justamente a capacidade de adiar a sua satisfação pelo outro. Uma coisa é o avesso da outra.

INTENSIDADE E DURABILIDADE

O sexo é intensidade, o amor é constância, é durabilidade. A intensidade é inimiga da durabilidade. Tudo aquilo que é muito intenso, tende a não ser durável. Para ter um relacionamento saudável precisa haver constância, precisa haver durabilidade e não intensidade. O desejo é intensidade o amor é durabilidade.

FASE CORDIAL 

Na realidade, eu diria que quando acabar o sexo, aí é que a gente vai ver se realmente tem amor. Então, para além da fase genital, onde dois seres humanos se encontram para proliferar a espécie, existe a fase cordial, onde as pessoas se encontram com os corações e não com os órgãos genitais. CORDES – cordial, esta é a fase real do acordo com a realidade, onde dois seres humanos estão unidos pelo coração e não pelo genital, pode haver completo desentrosado um com o outro o relacionamento é saudável.

NO HOMEM E NA MULHER

Na verdade, o homem, ele procura sexo muito mais pela vontade de satisfação sexual e a mulher procura o sexo muito mais para se sentir desejada. Não estou dizendo que são todos os casos, mas na maioria dos casos é isso. Por quê? Porque o homem tem uma produção seminal constante e a mulher está disponível organicamente para o sexo um ou dois dias por mês e se não coincidirem com uma dor de cabeça, ou alguma outra coisa. Porque aí, nem esses dias ela vai estar disponível fisiologicamente.

MATURIDADE E RENÚNCIA

A maturidade emocional leva o sujeito a renunciar de desejos e se integrar às vontades que são necessidades. Quanto mais maduro emocionalmente o sujeito for, ele vai priorizar as suas necessidades. E esta priorização também inclui a capacidade de adiar estas vontades. Ser capaz de adiar as vontades faz parte da sua maturidade emocional. Ele é capaz de adiar as vontades, renunciar de desejos e com isso ele amplia a sua capacidade de se doar, que é justamente o amor.