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quarta-feira, 30 de julho de 2025

HUMANOS – Diferentes, Desejando Ser Iguais - Prof. Renato Dias Martino



SER HUMANO 

A gente usa a palavra humanidade, muitas vezes, para trazer uma característica de compaixão, de amor de reconhecimento do outro, de respeito das fragilidades do outro. No entanto, quando a gente reconhece um ser humano nas suas características próprias, peculiares, a gente reconhece um animal extremamente nocivo para a natureza, extremamente nocivo para os outros exemplares da mesma espécie, ou seja, dos outros seres humanos. Ao mesmo tempo que a gente usa a palavra humanidade para trazer características nobres, o ser humano é um animal que naturalmente não é nobre. É um animal narcisista, é um animal que tem características extremamente desprezíveis. É o único animal que entrega a sua cria vulnerável aos cuidados de um desconhecido. Nenhum outro animal faz isso.

COMUNISMO 

O Freud coloca isso daí com muita clareza lá no mal-estar nas civilizações. Essa ideia de implementar comunismo é uma falácia. Todos os países que implementaram o comunismo, eles implementaram trazendo o povo para o nível mais baixo possível. E isso foi implementado justamente através de imposições de impostos até que o sujeito possa dar ao governo tudo que ele tem para que ele se iguale a todos e o mandatário vive no luxo. Não dá para implementar isso. O ser humano é narcisista. Não existe comunismo espontâneo. Todo comunismo é uma ditadura. Sem ditadura não existe comunismo. Ah! Mas Jesus Cristo queria a igualdade de todo mundo. Então Jesus Cristo era comunista? Não! Jesus Cristo nunca impôs nada. Todo regime comunista é através de imposição, senão você vai querer ter o seu através daquilo que você trabalhou para isso.

HORDA

Lá em 1921 Freud vai dizer: "O ser humano não é um animal de grupo ele é um animal de horda”. Ele chama a horda a primeira esfera o estrito ambiente familiar. Este é o único grupo que o ser humano naturalmente faz parte. Quando um dos filhotes ali, começa a crescer e ganhar certa autonomia, ele já precisa se desligar da horda para criar outra horda, porque senão este ser humano vai encontrar atritos conflitos ali. Ele vai precisar de uma série de evoluções, de crescimentos em relação à sua nobreza, para que ele consiga continuar ali dentro. Aprender a tolerar um monte de coisas para que ele consiga permanecer ali dentro. Caso contrário ele vai se desligar e criar outra horda. No entanto, o ser humano hoje está se distanciando cada vez mais da sua natureza. Inúmeras características, inclusive essa, ele não está conseguindo sequer configurar a sua horda. A horda que não é uma instituição não foi instituída, foi gerado. A instituição é aquilo que o sujeito cria. A família não foi criada ela foi gerada naturalmente. Muitas vezes, a gente tem esse hábito de chamar família de instituição. Não! Ela não foi instituída, ela foi gerada. 

GRUPO DE TRABALHO

O ser humano está em busca de grupos porque a horda não deu conta. O ser humano que conseguiu ter dentro da horda, cumprida as funções necessárias, ele não vai deixar de buscar grupos, mas ele vai buscar grupos de trabalho, grupos formais e grupos específicos de algum tema que esteja em pauta para crescimento. Não é um grupo emocional não é um grupo afetivo. É claro que a partir da instituição desse grupo de trabalho vão ser criadas relações afetivas, mas não foi isso que ele foi buscar.

DIFERENÇA 

Esse é o grande contrassenso. Esse é o grande paradoxo humano. Ele é muito diferente dos outros da mesma espécie, mas ele morre de medo dessa diferença porque ele deseja demais ser igual ao outro. Ele deseja fugir da sua diferenciação. Ele deseja usar a mesma camiseta que a atriz da novela usou. Ele deseja fazer a mesma tatuagem que o cantor fez. Ele deseja cortar o cabelo como o ator da novela cortou. Ele se padroniza para fugir da realidade de que ele é diferente porque isso causa uma insegurança enorme.

IGUAL 

Para que o sujeito possa reconhecer a si mesmo, aprender a respeitar a si mesmo e se responsabilizar por si mesmo, ele precisa abrir mão, ele precisa se desapegar da tentativa de ser igual ao outro, porque ele não é porque ele nunca vai ser. Não somos iguais. E nós precisamos aprender a respeitar o outro mesmo não sendo igual. Porque respeitar o outro sendo igual é muito fácil. Amar o outro sendo o outro igual é muito fácil. Mas, amar pressupõe diferença. Amar o igual não é amor. Aquele que ama o igual não aprendeu a amar. Ele só vai amar quando ele reconhecer que o outro não é igual.

POSSIBILIDADE 

Quando a gente está falando da diferenciação do ser humano, nós não estamos só falando de um ser humano ser diferente do outro. Nós estamos falando do sujeito ser diferente dele mesmo a cada dia a cada momento. Nós estamos em constante transformação. Nós nos julgamos definidos, mas nós somos processo nós somos possibilidades nós somos transformações o tempo inteiro. Ninguém é nós estamos sendo. E o sujeito que insiste em ser ele vai acabar adoecendo. O sujeito que insiste em obstruir a sua transformação porque conseguiu um status conseguiu um título e agora ele é aquilo ele está adoecendo.

ENVELHECER 

O sujeito, ele é enaltecido quando ele parece não ter mudado. Sabe essa coisa da pessoa te encontrar depois de muitos anos falar: "Nossa! Mas você não muda, né? Você não envelheceu”? E você se sente muito enaltecido. Você não se transformou. Isso é quase que um elogio. Nós não aprendemos a respeitar e nos tornarmos capazes de contemplar o envelhecimento, contemplar a transformação.

DISPUTA 

Todas as vezes que começa a haver ou uma ligação por identificação com o outro, que seja fixada e se prolongue para além sem que se desenvolva em outro tipo de vínculo mais nobre, ou quando existe o desejo do sujeito se tornar igual ao outro, logo vai se instalar uma competitividade, uma disputa, porque dois iguais vão disputar. Não há espaço para dois iguais. Onde há dois iguais, ou porque ele se identificou com o outro, ele força o outro ser igual a ele, ou porque ele quer se tornar igual ao outro, logo vai se instalar um conflito por disputa, por competição. Esse é um dos grandes danos desta experiência de se tentar se tornar igual ao outro ou tentar que o outro se torne igual a ele.

DOIS MODELOS 

Então, existem duas configurações. Existe a configuração da extensão da ligação por identificação, onde o sujeito procura pessoas iguais a ele porque ele não consegue se ligar as pessoas diferentes, existe a configuração onde o sujeito não conseguiu substância na sua essência, reconhecimento nas suas peculiaridades e ele acaba tentando se tornar igual ao outro, buscando características do outro para que ele seja igual ao outro, porque ele não confia na sua essência. Ele não confia naquilo que ele está sendo, ele não confia em si mesmo como referência, então ele procura grupos, ele procura pessoas influentes, líderes para que ele possa agir igual ao outro.

GRUPOS 

Chega a ser assustador o tamanho da aderência do sujeito que nunca teve um acolhimento, que nunca se sentiu integrante de nada, quando ele é acolhido por um certo grupo e ele começa a se identificar com aquilo. Ideologia de gênero, ideologia política, instituições religiosas... O sujeito se sente inseguro, é acolhido por um grupo e aí, ele começa a defender aquelas ideias e procurar argumentos para justificar as ideias do grupo, por mais absurdas que elas sejam.

RECONHECIMENTO 

Como é que se aplaca o desejo de ser igual? A partir de um vínculo bem-sucedido. Quando o sujeito pode ser reconhecido nas suas particularidades, quando ele pode aprender a se autorreconhecer nas suas particularidades, ele não vai ter essa ânsia de se tornar igual ao outro, porque ele foi reconhecido pelos pais nas suas peculiaridades e por ser reconhecido ele é capaz de reconhecer o valor de si mesmo, mesmo não sendo igual ao outro. Quando o sujeito é reconhecido, ele diminui drasticamente esse desejo de ser igual ao outro.

NECESSIDADE E DESEJO 

Muitas vezes, a gente usa a palavra necessidade inadequadamente. Ninguém tem necessidade de ser igual ao outro, nós temos o desejo de ser igual ao outro. Ninguém necessita ser igual ao outro. E o desejo é o desdobramento de algo que faltou por conta do não cumprimento daquilo que, no seu tempo precisava ser cumprido. Não foi cumprido a função de reconhecimento da criança, logo ela desenvolve um desejo de ser igual ao outro, porque começa a usar o outro como referência. Então, não é uma necessidade, é um desejo.

PARTES DO EU 

Não é só, não ser capaz de respeitar a diferença do outro, mas é não ser capaz de respeitar a diferença das partes que constituem a minha personalidade. Eu sou partes diferentes que se constituem num todo. Eu preciso respeitar as diferenças que constituem a mim mesmo, porque senão, eu vou me desintegrar e vou acabar projetando essas partes que são diferentes em pessoas externas. E criando um atrito, criando uma competitividade, um conflito com as pessoas do meu convívio.

IDENTIFICAÇÃO

Chega um momento na vida que o sujeito começa a se perceber diferente dos outros. Porque no início da vida, assim como Freud nos orientou lá no Psicologia das Massas e análise do ego, a identificação é a primeira forma de relação entre duas pessoas. Duas pessoas se relacionam em primeiro momento por identificação, ou seja, acreditando que são iguais, mas num certo momento ela começa a perceber que ela é diferente, diferente do outro, e isso causa uma angústia enorme.

LATÊNCIA 

Na primeira infância, ela vive uma relação por identificação com a mãe. Conforme ela vai se desenvolvendo, ela vai passando pelas fases. O Freud vai nos sugerir a fase oral, a fase anal e a fase fálica. Logo depois da fase fálica, o sujeito vai entrar num período da latência. Neste período da latência, o sujeito começa a criar mecanismos para se agrupar com aqueles que ele imagina ser igual. Turminhas de menino, turminhas de meninas, pelo menos dentro de uma configuração saudável. É isso que vai acontecer. Todos se vestem da mesma forma para que pareçam ser iguais. Todos gostam do mesmo tipo de música. Tudo igual, tudo equalizado para aplacar esta sensação desconfortável de se perceber e se reconhecer diferente do outro.

DIFERENTE DO QUE FOI

 Quando a gente fala de diferenciação, de dificuldade de lidar com as diferenças, a gente tá falando não só do sujeito ter dificuldade de lidar com a diferença do outro, mas a dificuldade do sujeito lidar com a diferença de si mesmo. a diferença das partes que constituem a sua personalidade e a diferença daquilo que ele reconhecia como realidade anteriormente e ele passa a reconhecer agora. Muitas vezes o sujeito tem uma dificuldade enorme de repensar a realidade, de reconhecer a realidade, de conhecer a realidade novamente. Ele se apega àquilo que ele tinha como certeza e não solta disso maneira alguma. Porque ele tem medo de se tornar diferente, diferente daquilo que ele era, diferente daquilo que ele pensava.

CORPO FÍSICO 

Esta dificuldade de lidar com a diferença também está implicada na materialidade do corpo físico. O sujeito tem uma dificuldade enorme de lidar com as diferenças quando isto vai ocorrendo na transformação do seu corpo físico. vai envelhecendo, as características do corpo vão mudando e o ser humano tem uma dificuldade tremenda de respeitar as transformações do corpo. Por isso, ele cria técnicas e técnicas e técnicas estéticas para que ele possa conservar o corpo como se estivesse jovem, mas não está.

AMOR-PRÓPRIO E BELEZA FÍSICA
 
O sujeito diz assim: "Vou fazer uma operação plástica para cuidar da minha autoestima, para que eu possa melhorar o meu amor-próprio". Não, meu amigo! Você está equivocado. Amor-próprio é independente da configuração material do seu corpo. Se você não ama a si mesmo, não existe operação plástica, não existe procedimento estético que vai fazer com que você passe a amar a si mesmo. Amar a si mesmo é independente de gostar de si mesmo, é independente de gostar da sua forma física.

IGUALDADE E EQUIDADE 

Igualdade. Tratar todos como iguais. Não, isso é um equívoco. Não somos iguais e não podemos ser tratados como iguais. Precisamos ser tratados com equidade. É tratar cada um na sua peculiaridade. Respeitar cada um em suas características próprias. Respeitando isso. Existe um abismo entre tratar com equidade e obrigar o outro a ser igual. Ninguém é igual. Criar a capacidade de equidade. Tratar o outro com igualdade é mais fácil do que tratar o outro com equidade. Tratar com igualdade é tratar todo mundo do mesmo jeito. Tratar com equidade é reconhecer o outro para respeitar o outro nas suas peculiaridades. E isso é para poucas pessoas.

IGUALDADE E FORÇA

A igualdade traz uma sensação de onipotência, traz uma sensação de força. Um grupo unido porque acredita que são iguais é um grupo forte. E aí, se esse grupo consegue eleger um inimigo externo, ele se torna mais forte ainda.

SEMELHANTE

Afinidade, tanto tem características iguais, quanto características diferentes. Diferente da igualdade que cobra uma característica idêntica do outro. A gente está falando aqui de obrigar o outro a ser igual. E o outro não é igual. O outro é semelhante. O outro é similar. Similar a uma coisa, semelhante a uma coisa, igual é outra. Um bom exemplo disso é a família, os integrantes da família, os integrantes da horda primeva, como diria o Freud, cada integrante da família tem a sua função. Cada integrante da família tem a sua característica diferente do outro. A mãe é diferente do pai, que é diferente do filho. Cada um tem sua característica diferente dentro da família. Todos somos diferentes para cumprir funções distintas, mas precisamos de afinidades. Precisamos estar afinados um com o outro. Precisamos ter concórdia. É importante que uma família esteja junto de coração. Concordes? Isso não é ser igual, é ser semelhante. 

ILUSÃO E IGUALDADE

O iludido tende a odiar o sujeito que é orientado pela verdade. O iludido normalmente tem a ilusão de ser igual aos outros, tem a ilusão da igualdade. E o sujeito que está orientado pela verdade assume a sua diferença em relação ao outro, reconhece as suas diferenças, aprende a respeitar as suas diferenças e se responsabiliza por ser diferente do outro. E este sujeito normalmente é odiado por aqueles que propõem a obrigação de ser igual. Isso é uma violência. O ambiente escolar desde o primeiro estágio, desde o prézinho, é extremamente tóxico nesse sentido. Obriga as crianças a serem iguais. 

ESCOLA

A maior parte das queixas dos professores, dos coordenadores, dos diretores da escola quanto as crianças é justamente quando essas crianças começam a manifestar a sua diferenciação em relação às outras. Ela começa a manifestar a sua diferença em relação às outras e os professores se assustam com isso, porque as crianças precisam ser todas iguais. As crianças precisam aprender o currículo proposto pela escola, todas iguais. As notas, os conceitos aplicados às crianças são todos iguais e elas precisam ser todas iguais. E isso é uma violência, porque ninguém é igual a ninguém. Cada um tem o seu tempo de aprendizado. Cada um se interessa por alguma coisa diferente. Cada um tem afinidade por assuntos diferentes. 

PARTE NEURÓTICA E PARTE PSICÓTICA 

Tanto a parte neurótica, quanto a parte psicótica têm essa tendência a repetição, a tendência a igualdades e uma tendência a igualdades que não admite diferenças. É uma equação, não é uma analogia. Analogia admite diferenças e igualdades. A equação não admite diferenças. Então, no neurótico, esta repetição é uma manifestação do desejo de que tudo seja igual. O neurótico se atrai pelo igual. O psicótico não se atrai pelo igual. Ele só admite o igual. Para o psicótico, o que está dentro e o que está fora é a mesma coisa. Se fora deixar de existir, dentro também deixa de existir. E se dentro existir, ele força que fora exista também. A alucinação é isso. Ele alucina com alguma coisa e ele realmente acredita que aquela coisa existe no mundo externo. E se alguma coisa do mundo externo não estiver presente fisicamente, ele não consegue sustentar internamente.

SOCIEDADE PSICÓTICA

A sociedade te cobra ser fielmente igual àquilo que ela propôs, aquele pressuposto social. Se você não for aquilo que a sociedade te obrigou a ser, você será desaprovado. E isso é uma experiência psicótica. esquizofrênica. Esquizo quer dizer separado, cindido, porque a sociedade tem inúmeras demandas e você precisa cumprir todas. Você precisa agradar gregos e troianos, por assim dizer. Isso faz com que você se torne vários. E esta fragmentação é justamente o que configura a psicose. Não há possibilidade de ser a mesma pessoa em âmbitos diferentes de demandas sociais. 

SOCIEDADE E DISSIMULAÇÃO

 Não há como desempenhar o “verdadeiro eu” no âmbito social. As relações sociais demandam falsidade, demandam dissimulações. E aí, é prudente que você seja cauteloso nesta vivência social. Porque a exacerbação da utilização do “falso eu” acontece em detrimento da saúde do “verdadeiro eu”. O “verdadeiro eu” carece do “falso eu” para protegê-lo. O uso saudável do “falso eu” é na proteção do “verdadeiro eu”. No entanto, uma vida social intensa faz com que você exacerbe, que você aumente, que você potencialize o “falso eu” em detrimento da saúde, do “verdadeiro eu”. Aquilo que está lá dentro acaba ficando empobrecido e sufocado pela casca extremamente enrijecida e grossa. 

ESTEREÓTIPO

A sociedade te cobra cumprir um estereótipo. Que que é estereótipo? É um tipo estéril. É um tipo que não gera nada. É um tipo que só serve para cumprir o seu papel social. Tipo é aquilo que serve de impressão. Antigamente, para fazer um livro, para fazer uma publicação, para fazer uma impressão, você fazia primeiro o tipo e aí, ia batendo aquilo no papel com tinta como um carimbo, onde todas as folhas iam ficando iguais. Então, este é o estereótipo que a sociedade te cobra. E se você não cumprir o estereótipo, se você não for idêntico a todas as outras folhas que foram impressas, você será desaprovado. 

FAZER A DIFERENÇA 

Coragem de ser diferente. Coragem de ser você mesmo. Coragem de não ser igual ao outro. Porque aquele que é igual ao outro nunca vai fazer a diferença. Você abre as redes sociais, todo mundo postando coisas iguais. Hoje a palavra é “trend”, ou seja, o modelo de vídeo que você tem que fazer para que você possa ser notado nas redes sociais. A musiquinha igual, a dancinha igual, a roupinha igual, o sorrisinho igual, a expressão igual, para que você possa ter palminhas, likes.

INCONSCIENTE COLETIVO

Para o Jung, inconsciente coletivo é uma matriz que é inata em cada ser humano. Cada ser humano vai nascer com essa matriz igual a todos. Então, nascemos com um inconsciente coletivo junto com o inconsciente individual. Este inconsciente coletivo é como se fosse espaços abertos, espaços que carecem de ser preenchidos por experiências da vida de cada um. Então, nascemos com um arquétipo de mãe, com arquétipo de pai, com arquétipo de herói, com arquétipo de bruxa e por aí vão se desdobrando arquétipos que vão constituir o que ele chamou de inconsciente coletivo. Neste inconsciente coletivo, todo ser humano é igual. No entanto, assim que ele nasce, ele começa a preencher este inconsciente coletivo de experiências particulares.

ARQUÉTIPOS

Toda cultura tem o herói, toda a cultura tem o líder, toda a cultura tem a mãe, toda a cultura tem o pai. Toda filogênese, por assim dizer, vai apresentar figuras icônicas que são arquétipos do constituinte coletivo inconsciente. Mas cada um vai preencher estes arquétipos conforme as suas experiências. Nós nascemos com uma expectativa inata de mãe, uma expectativa inata de pai, uma expectativa inata de herói, uma expectativa inata de princesa, de bruxa, de rival, de inimigo. Tudo isso já está impresso enquanto arquétipo no sujeito, naquilo que o Jung chamou de inconsciente coletivo.

MANDALA

O Jung vai falar que o inconsciente coletivo se estrutura como uma Mandala. No centro da Mandala tem duas partes, uma chamada ânima e outra chamada ânimus. Então, é uma parte masculina e uma parte feminina. A ânima vai representar o feminino dentro do ser humano, seja ele homem ou mulher, e ânimos, a parte masculina em cada ser humano, seja ele homem ou mulher. E desses dois arquétipos vão se desdobrando outros arquétipos, mãe, pai, herói, rival, inimigo e por aí vai.

INDIVIDUAÇÃO

Individuação para o Jung é justamente o preenchimento destas lacunas arquetípicas com experiências particulares. Conforme ele vai preenchendo isso, vai trazer para o sujeito aquilo que o Jung chamou de individuação. E na individuação, o sujeito passa a se diferenciar dos outros, que a princípio ele poderia ser igual no inconsciente coletivo, ainda carente de experiências.

MATÉRIA CÓSMICA

Segundo Heisenberg, que é um dos pensadores da física quântica, nós somos constituídos da mesma matéria cósmica. Todos nós somos constituídos da mesma matéria, mas somos configurados de maneira diferente. E na realidade, não só nós somos constituídos de uma matéria única, mas também os objetos do mundo. A natureza, a madeira, pedra, o diamante, qualquer coisa é feita da mesma substância, mas configurada de maneira distinta, maneira diferente. É sensato a gente pensar que somos feitos de uma única matéria configurada de maneira diferente.

TODOS SOMOS UM

Quando a gente consegue concordar dentro da perspectiva epistemológica, seja ela qual for o vértice, seja no místico-religioso, seja no estético-artístico, ou seja, no filosófico-científico, quando a gente tem essa possibilidade de concórdia, nós estamos integrados, onde todos somos um só e não necessariamente iguais. Para que a gente possa ser um só enquanto concórdia, nós precisamos nos reconhecermos diferentes. Somos unidos sendo um só. Isso não quer dizer que nós vamos nos confundir um com os outros.



sexta-feira, 16 de maio de 2025

DO NARCISISMO PRIMÁRIO AO PSICODIAGNÓSTICO - Prof. Renato Dias Martino



PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO 

Narcisismo primário é uma etapa do desenvolvimento da personalidade do bebê onde ele vê na mãe aquilo que ele necessita. Então, ele se vê na mãe. A mãe é um espelho das suas necessidades. Narcisismo primário é uma fase saudável do desenvolvimento emocional e afetivo. O narcisismo secundário acontece por conta de um insucesso no narcisismo primário. O narcisismo secundário, então não é saudável. O narcisismo secundário é sintomático, vai trazer um desdobramento repetitivo daquilo que não pôde ter sido suprido na época do narcisismo primário. Quando o bebê começa a perceber que existe uma outra pessoa além dele. Esta outra pessoa é a mãe e aí ele começa a viver uma relação com essa mãe por identificação. Relação por identificação é quando o outro não é outro, mas o outro é uma extensão de mim. Esta etapa do desenvolvimento, o Freud chamou de narcisismo primário. Quando acontece resquícios de insucesso desta fase, estes resquícios vão configurar um narcisismo secundário.

SECUNDÁRIO 

Uma parte da experiência que acontece no narcisismo primário não pôde ter sucesso e esta parte vai se desdobrar num narcisismo secundário. A parte bem-sucedida do narcisismo primário é aquela que se desdobra no reconhecimento do outro como outro, o que o Freud vai chamar de relação objetal. O outro não é uma extensão de mim, assim como na relação por identificação, mas o outro é um objeto externo. Então, é uma relação objetal. Algumas experiências não conseguiram passar do narcisismo primário, ou seja, da relação por identificação para a relação objetal e estas experiências que não conseguiram. Isso vão se desdobrar num narcisismo secundário. Dentro do narcisismo primário, o bebê tinha necessidade de ser reconhecido pela mãe. Ele tinha necessidade de se ver na mãe. Quando ele não consegue isso, ele vai desenvolver um desejo substitutivo desta necessidade e este desejo substitutivo a gente vai chamar de narcisismo secundário. E aí, ele vai projetar isso que não pôde ser suprido pela mãe nas outras pessoas, futuramente e também na mãe, futuramente. Vai cobrar da mãe, vai manter uma relação fusionada com a mãe. Isso tudo se configura no narcisismo secundário, ou seja, aquilo que não pôde ser bem-sucedido no narcisismo primário.

RELAÇÃO FUSIONADA

quando o narcisismo primário não é bem-sucedido e não pode ser bem elaborado para se desdobrar naquilo que a gente vai chamar de relação objetal fatalmente os relacionamentos na vida adulta vão se tornar relacionamentos fusionados ou relacionamentos onde um não consegue reconhecer o outro como o outro mas imagina que o outro seja uma extensão do eu e isso a gente vai chamar de narcisismo secundário o outro existe para satisfazer os meus desejos assim como no narcisismo primário a mãe existe para satisfazer as necessidades do bebê quando a mãe não conseguiu existir para satisfazer as necessidades do bebê essas necessidades vão se desdobrar substitutivamente em desejos onde o adulto vai obrigar o outro a satisfazer senão ele vai ficar muito bravinho no

PROPORÇÕES 

Um dos maiores fundamentos do que a gente tem como psicanálise do acolhimento é o desenvolvimento e a reflexão e a expansão da ideia das cotas. A ideia das proporções de tudo que está no humano. Tudo que está no humano está em cada um de nós. Cada um de nós tem um pouco de tudo de saudável e de tudo de nocivo. Uma das maiores contribuições do Freud foi que todos nós somos neuróticos em alguma medida. Uma das maiores contribuições do Bion, foi que todos nós somos psicóticos em alguma medida. Isso deve ser expandido para todas as características presentes nos seres humanos. E aí, a gente volta lá no filósofo Terêncio Afro da época medieval.

PSICODIAGNÓSTICO 


A intolerância quanto a isso, a intolerância de reconhecer essas características e reconhecer essas características vai ser fundamental para que eu possa aprender a respeitar essas características e me responsabilizar por essas características, moldando o funcionamento da minha personalidade. Isso que faz cada um ser de uma forma. A dificuldade de reconhecer isso vai trazer a exacerbação dos psicosdiagnósticos. Então, hoje qualquer manifestação que não seja socialmente aprovada é passiva de ser catalogada pelo CID, pelo DSM e o sujeito vai passar a ser o “laudado”. O laudado na escola, laudado no trabalho, laudado na família. O sujeito que foi caracterizado patologicamente por conta de uma característica que é sua que faz parte da sua personalidade e quanto mais ele é catalogado, quanto mais ele é diagnosticado, menos ele é capaz de se responsabilizar por isso, menos ele é capaz de reconhecer isso como característica sua, aprender a respeitar isso e aprender a se responsabilizar por isso. Porque isso já não é dele. Isso é uma patologia, logo é responsabilidade do psiquiatra, do neurologista, ou sabe lá de quem. E aí, ainda por cima ele pode requerer cotas de benefícios que possa favorecê-lo, porque ele foi laudado com aquele psicodiagnóstico e aí, a gente vai entrar naquilo que o Freud chamou de ganho secundário, ou seja, ele se beneficia da sua moléstia.



domingo, 25 de fevereiro de 2024

AFINIDADES - Prof. Renato Dias Martino


Quando o sujeito não vive vínculos saudáveis que sejam nutridos de amor e de verdade ele tende a adoecer. Para ele nutrir um vínculo saudável consigo mesmo ele precisa estar se vinculando a pessoas que possam também nutri-lo desta forma. Que possam nutri-lo desses elementos. De amor e verdade. Quando o sujeito convive num ambiente que ele não pode estabelecer vínculos que tragam para ele amor e sinceridade ele tende a adoecer emocionalmente. A afinidade que se tem com o outro é a manifestação de que esse vínculo é saudável e conviver em ambientes onde não se tem afinidade é adoecedor.

AMOR E SINCERIDADE 

O vínculo de afinidade é aquele que traz amor e sinceridade. A palavra afines, ela diz respeito a algo que finda, que termina, ou seja algo que mostra um limite, entre o eu e o outro. Quando existe essa possibilidade do sujeito perceber o seu limite, reconhecer o seu limite e logo reconhecer o limite do outro, se estabelece um vínculo de respeito e afinidade entre duas pessoas. E quando eu falo afinidade, eu não estou falando de afinidade de coisas materiais fúteis ou banais, eu estou falando de afinidade no funcionamento emocional e afetivo. De você perceber que o outro funciona afetivamente como você. Se liga a você de maneira sincera. Se liga você de maneira afetiva e com sinceridade. Manifestando o limite que existe ainda.

IDENTIFICAÇÃO

Gostei daquela pessoa porque eu me identifiquei com aquela pessoa. Você se identificou com aquela pessoa, quer dizer que você se confundiu com ela. Uma ligação saudável precisa transcender a identificação que você se confundiu, se misturou com ela e expandir para uma afinidade porque a gente percebeu o limite entre o eu e o outro. AFINES quer dizer limite.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

CATIVAR, SIMBOLIZAR E CONTEMPLAR - Prof. Renato Dias Martino



As três etapas da simbolização, que vai acontecer com o bebê, mas vai se estender como um funcionamento para a vida toda no adulto. Experimentamos de uma realidade concreta, de uma realidade física, de uma realidade sensorial, onde existe uma necessidade concreta, uma necessidade sensorial e existe um objeto concreto e sensorial no mundo externo, que vá suprir essa necessidade. Experimentamos, uma realidade concreta, uma realidade abrangida pelo sensorial, num segundo momento, no afastamento desta realidade sensorial, vamos viver uma imaginação sobre isso que não está presente naquele momento. Preciso de alguma coisa e esta coisa é concreta, é física e neste momento, esta coisa física e concreta não está presente, então, eu imagino sobre isso. Este é o real Imaginário. Se a relação que eu tive com este objeto real e concreto, foi bem-sucedida, esta imaginação vai me levar para a simbolização. Ou seja, eu internalizei este objeto concreto e por ter internalizado, por ter simbolizado este objeto, eu sou capaz de tolerar a ausência deste objeto que um dia foi concreto, imaginário. Isto se chama uma simbolização para psicanálise.

EU

Quando a gente fala de doação, de doar-se, de renunciar para o outro, antes a gente precisa estar de bem com a gente mesmo, antes a gente precisa ter sido nutrido o suficiente, antes do nós existe um eu. Então, eu não posso considerar o nós se eu não tiver de bem comigo mesmo. Eu preciso estar de bem comigo mesmo, para que eu possa estar de bem com o outro. Eu preciso amar a mim mesmo, para que eu possa amar ao outro. Eu preciso estar respeitando a mim mesmo, para que eu possa respeitar o outro. O ego é fundamental para que eu possa ter uma estrutura suficiente para me doar para o outro. Se o meu ego não estiver nutrido e bem estruturado, eu não consigo estender qualquer que seja a ação nobre para o outro.

LUTO E CONFIANÇA

O bom desenvolvimento da personalidade depende fundamentalmente, de ter vivido experiências bem-sucedidas com as pessoas e que estas experiências bem-sucedidas possam nutrir o eu nutrir o ego. Esta é a base de uma personalidade bem estruturada. O luto é fundamental! Quando se vive uma experiência bem-sucedida com um objeto externo e aqui objeto externo estou falando sobre pessoas vincula-se pessoas, quando essa pessoa se afasta, ela deixa recordações dessas experiências bem-sucedidas e essas recordações nutrem o ego. O sujeito vai ficando autoconfiante na medida em que ele sente que o outro confiou nele e ele pôde confiar nesse outro.

CATIVAR E ENTRISTECER 

A raposa do Pequeno Príncipe explica para ele o que quer dizer cativar. Quer dizer criar laços, quer dizer passar a ser necessário para o outro. Um precisar do outro. Um ser singular para o outro. Este é o primeiro passo da experiência. Primeiro cativa-me, depois inicia-se um processo de expansão do vínculo. A experiência da simbolização, a experiência do cativar, inclui a tristeza, inclui o entretecimento. É necessário se entristecer para simbolizar. Se eu evito o sofrimento, se eu evito o entretecimento, eu não consigo simbolizar. Para ter recordações, eu preciso ter perdido o objeto da recordação e isso é triste. O sujeito que não tolera se entristecer, ele não simboliza, ele não cativa, ele não vive.

EQUAÇÃO OU ANALOGIA

A Hanna Segal, ela traz a ideia da equação simbólica. O que que ela chama de equação simbólica? É a relação que o bebê tem com a mãe, enquanto a mãe ainda não está simbolizada. A mãe real, concreta, física a mãe do mundo externo e a mãe que está dentro dele coincidem, equacionam-se. Quando uma sai, a outra deixa de existir. Quando uma se ausenta, a outra deixa de existir. O bebê não é capaz de ter uma imagem internalizada da mãe, até então, para que possa sustentar a ansiedade e angústia da ausência dessa mãe. Aos pouquinhos ele vai simbolizando esta mãe. A partir das experiências bem-sucedidas que ele teve com essa mãe, ele vai simbolizando essa mãe. O que que é simbolizar? É introjetar experiências bem-sucedidas e sustentar-se na ausência dessa mãe com as recordações que ele tem dela. Então, a parte partir daí, este símbolo é como se fosse a mãe e aí a gente expande pra ideia da analogia simbólica na equação simbólica. “Isso” é “isso”. Se “isso” não existe, “isso” também não existe. Na analogia simbólica, “isto” é como se fosse “isso”. Então, se “isso” não está, “isso” sustenta a ausência “disso”. Porque “isso” é como se fosse “isso”. Dentro de um desenvolvimento do processo psicoterapêutico, o paciente pode viver de início a sensação de que a analista é a mãe dele, que o analista é o pai dele, ou que o analista é a mãe dele e quando ele está longe do analista ele sente uma angústia muito grande, porque quando ele está numa situação difícil ele não sabe o que fazer. Ou seja, ele vive uma equação simbólica. Aos pouquinhos ele vai internalizando as experiências que ele vai vivendo dentro do setting terapêutico e aí ele vai vivendo uma analogia simbólica.

ANALOGIA E RECORDAÇÃO

Não é só dentro do processo psicoterapêutico. Quando o sujeito começa por exemplo, um relacionamento amoroso, quando ele começa a se relacionar efetivamente com uma pessoa, ele vive isso também. No princípio, ele não consegue simbolizar esta pessoa e quando essa pessoa sai de perto, ele fica desesperado. Chama no WhatsApp e a pessoa não responde, liga e ela não atende e ele se desespera. Ou seja, ele ainda não tem essa imagem internalizada, ele ainda não conseguiu guardar experiências bem sucedidas com essa pessoa o suficiente para ter recordações desta pessoa. Recordar. “Re”, de novo, “cor”, coração e doar. Experiências que possam ser novamente dadas ao coração. Aos pouquinhos com vivências bem-sucedidas com esta pessoa, ele vai conseguindo simbolizar. E aí, ele vai conseguir fazer analogias simbólicas.

IDENTIFICAÇÃO

A ausência do outro é a ausência de mim mesmo. Porque existe ali, uma relação por identificação. Assim como Freud nos propôs, esta relação por identificação acontece quando o outro não é outro. O outro é um pedaço de mim e aí se o outro se ausenta é como se tivesse arrancado um pedaço de mim.

MELANCOLIA 

Por outro lado, quando a gente não consegue viver experiências bem-sucedidas e a gente perde o objeto sem poder ter vivido experiências bem-sucedidas com este objeto, o sujeito passa a olhar o mundo com maus olhos. Ele passa a ser uma pessoa invejosa, desgostosa, obstruída de contemplação.

SIMBOLIZAÇÃO E CONTEMPLAÇÃO

Quando o sujeito é capaz de viver a experiência da simbolização, quando ele é capaz de viver a experiência do cativar, assim como ensinou a raposa ao Pequeno Príncipe, ele enriquece não só o ego, mas ele se enriquece da contemplação do mundo. Porque esta recordação das experiências bem-sucedidas que ele teve com o objeto vai fazer com que ele olhe para o mundo externo e consiga contemplar o mundo externo de uma forma que ele não fazia anteriormente. Então, a raposa não ligava para os campos de trigo, mas depois de ter cativado o principezinho, ela olhava para os campos de trigo e se lembrava dos cabelos dourados do principezinho. Ou seja, ela não contemplava os campos de trigo e depois da experiência bem-sucedida da simbolização da relação com o principezinho, ela passou a contemplar os trigos.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

IDENTIFICAÇÃO OU AFINIDADE

Dentre os fatores que propiciam a ligação e também são responsáveis por manter vínculos afetivos, dois deles carecem de atenção cuidadosa, já que correm o risco de serem confundidos e até mesmo tratados como unívocos. Popularmente, o termo identificação é frequentemente usado como um sinônimo de afinidade, no entanto, quando são submetidos a experiência afetiva é então possível reconhecer grande diferença entre os dois conceitos.

Dentro das formulações psicanalíticas, a ligação por identificação é a forma mais primitiva de relação com o outro além do eu. O conceito de identificação vem do idem, que quer dizer “o mesmo” e que também é a origem da palavra “idêntico”. Sigmund Freud (1856 - 1939) nos orientou sobre isso em 1921, no seu célebre texto PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANÁLISE DO EGO. "A identificação é conhecida pela psicanálise como sendo a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa." (Freud, 1921) Parece ser a única maneira que o bebê encontra para lidar com a quebra da ilusão de onipotência, na introdução da realidade de que existe alguém além dele. 

A ligação por identificação deve ser uma forma transitória de se relacionar com o outro, durante o período do desenvolvimento psíquico denominado narcisismo primário e que sucede o autoerotismo.  No autoerotismo, o bebê não é capaz de reconhecer a existência do outro, por mais que seja justamente o outro que provê e da manutenção à sua vida. Durante o período do autoerotismo, o bebê se auto satisfaz nas demandas libidinais, mesmo que seja através da mãe, da qual não é capaz de reconhecer como sendo outra pessoa. “Mostramos em outro ponto que a identificação é uma etapa preliminar da escolha objetal, que é a primeira forma - e uma forma expressa de maneira ambivalente - pela qual o ego escolhe um objeto.” (Freud, 1917) O narcisismo primário ocorre numa etapa que antecede a capacitação para a ligação objetal, que carece de maior tolerância às frustrações. Na ligação objetal é possível reconhecer o outro, efetivamente como sendo realmente outro, independente da expectativa do bebê. 

Em SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, Freud traz a proposta de que: "As pulsões autoeróticas, contudo, estão ali desde o início, sendo, portanto, necessário que algo seja adicionado ao autoerotismo – uma nova ação psíquica – a fim de provocar o narcisismo”. (Freud, 1914) Sendo assim, ao perceber com maior acuidade a presença da mãe, o autoerotismo vai se dissolvendo e dando lugar ao narcisismo primário, contudo, ainda reconhecendo o outro sem conseguir diferenciá-lo de si mesmo com tanta clareza. Aí se dá a ligação por identificação. Uma fase caótica, onde o ‘eu’ se confunde com o outro. Em conformidade com a semântica da palavra, essa é uma etapa do desenvolvimento emocional-afetivo que predomina a confusão. O termo confusão tem origem no latim, CONFUNDERE, “misturar”, formada por COM-, “junto”, mais FUNDERE, “derramar, fazer fluir”. Sendo assim, na ligação por identificação, o sujeito se mistura com o outro, onde uma personalidade tende a anular a outra, em detrimento da noção de limite.

Quando o sujeito, por algum motivo, é forçado a se afastar e ficar privado da presença sensorial do objeto do qual mantinha uma ligação por identificação, ocorre um quadro de empobrecimento da suposta autoestima, que se mantivera até então. Ocorre assim uma fragmentação na personalidade, que sem o objeto, não consegue se sustentar em sua integração. Isso acontece, pois o sujeito ainda não teve oportunidades favoráveis para que pudesse aprender a viver sem o objeto ora perdido. Em 1917, Freud denominou esse modelo de melancolia, que ocorre na impossibilidade de se viver o processo do luto. Esse estado mental ocorre quando não houve tempo e condições que propiciassem o desenvolvimento da relação por identificação para o modelo da ligação objetal. Nesse segundo modelo, existe maior capacidade para reconhecimento do outro em suas particularidades e maior desenvolvimento na autonomia do sujeito.

A partir das propostas de Freud, quanto à ligação por identificação, associada ao mecanismo de projeção, também proposto pelo pai da psicanálise, Melanie Klein (1882 - 1960), propõe, em seu texto NOTAS SOBRE ALGUNS MECANISMOS ESQUIZÓIDES, o mecanismo de identificação por projeção. Para Freud, com o mecanismo de defesa da projeção, busca-se a origem do desprazer, no mundo exterior, já que o sujeito não suporta reconhecer como próprio. “Uma percepção interna é suprimida e, ao invés, seu conteúdo, após sofrer certo tipo de deformação, ingressa na consciência sob a forma de percepção externa.”  (Freud, 1911) Freud propõe que a projeção é uma defesa de origem primitiva, peculiar dos casos de paranoia, porém, também está presente no funcionamento saudável, assim como ocorre com a ligação por identificação. A partir daí, Klein expande a ideia para desenvolver o conceito de identificação projetiva. “Consiste na fantasia primitiva de expulsão de substâncias perigosas do self para dentro da mãe.” (Klein, 1946)  

Junto com as evacuações, partes escindidas do ego são também projetadas na mãe ou, para dentro da mãe. Isso implica num empobrecimento do eu. 

No texto SOBRE A IDENTIFICAÇÃO, Klein expande sua proposta. "Identificação por projeção implica uma combinação de excisão de partes do self e da projeção dessas em (ou melhor, para dentro de) outra pessoa.” (Klein, 1955) Com isso, o outro adquire características do sujeito, potencializando a fusão. "O objeto torna-se em alguma medida um representante do ego e esses processos são, a meu ver, a base para a identificação por projeção ou 'identificação projetiva'." (Klein, 1952).

Enquanto que para Melanie Klein, a identificação projetiva incidi num mecanismo evacuatório defensivo, para Wilfred Bion (1897 – 1979) em APRENDENDO DA EXPERIÊNCIA, identificação projetiva é a forma mais primitiva de comunicação do bebê na relação com a mãe. Bion chamou de rêverie, uma característica da função-alfa da maternágem que deve dar conta de conter e transformar os conteúdos projetados pelo bebê. 

“Rêverie, usado nessa estrita acepção, é aquele estado de mente que está aberto à recepção de quaisquer “objetos” provenientes do objeto amado e que, portanto, é capaz de receber as identificações projetivas da criança, independentemente de a criança senti-las como boas ou más.” (Bion, 1962)

A mãe, quando continente, é capaz de rêverie, convertendo elementos-beta (caóticos, desordenados, desconectados) em elementos-alfa (digeríveis, integráveis, pensáveis) pela função-alfa. “Em suma, rêverie é um fator da função-alfa da mãe.” (Bion, 1962) Para a mãe, propiciar função-alfa para o bebê, ou ainda, para um psicoterapeuta se dispor a esse modelo com seus pacientes é provavelmente possível, no entanto, nas relações corriqueiras do cotidiano, entre adultos, passa a ser inviável. 

Hanna Segal (1918 - 2011), psicanalista seguidora de Melanie Klein, chama a atenção para a tentativa de controle ocorrente na experiência da fusão com o objeto. “Na identificação projetiva, partes do eu (self) e objetos internos são expelidos (split off) e projetados no objeto externo, o qual então, se torna possuído e controlado pelas partes projetadas, identificando-se com elas.” (Segal, 1964) Portanto, metaforicamente, nesse modelo de vínculo, é como se uma só alma habitasse dois corpos. Um prolongamento da configuração da fusão umbilical, ocorrente na vida intrauterina. 

Na incapacidade de elaborar o luto, fica impossibilitado o processo de simbolização do objeto perdido. Assim, predomina o que Hanna Segal chama de equação simbólica, onde o símbolo se iguala ao objeto original, que despertou a carga afetiva. O símbolo (interno) se confunde, equalizando-se com o objeto no nível sensorial (externo) e são percebidos idênticos a ele. A distinção entre o eu e o outro, fica obscurecida. “Então, já que uma parte do ego é confundida com o objeto, o símbolo – que é uma criação e função do ego – torna-se, por sua vez, confundido com o objeto que é simbolizado.” (Segal, 1983).

Mesmo na vida adulta, cada início de relação, com algo, ou alguém novo, estará, inevitavelmente, repleta de características de identificação. Nos aproximamos das pessoas e coisas do mundo, muito mais pelo que projetamos nelas, do que por características delas próprias. No entanto, para que se configure num vínculo saudável é imperioso que as características de identificação possam ir se dissolvendo, dando lugar para formas mais nobres e amadurecidas de relação. Quando a ligação por identificação se estende para além de uma configuração transitória, se instalando como fixação, passa então a manifestar características ambivalentes, gerando confusão, fusão com o outro, logo arma-se um ambiente de inveja, rivalidade e disputa. Portanto, aquilo que até então seria fator de ligação, torna-se em elemento de conflito.

Diferente da ligação por identificação, onde ocorre a equação simbólica, num vínculo por afinidade, ocorre o que poderíamos chamar de analogia simbólica, que abrange igualdades, mas também inclui diferenciações. Contudo, para que possa haver um vínculo por afinidade é necessário que se respeite o limite das partes. Assim como na semântica, a palavra afinidade vem do latim AFFINIS, “vizinho, contíguo”, de FINIS, “fronteira, limite, fim”. Para que haja afinidade é imperioso que as partes sejam capazes de reconhecer e respeitar seus limites, já que o limite é o que permite que duas coisas existam sem que uma anule a outra, numa fusão (confusão) com ela. 

Quando a ligação por identificação não está na ordem do transitório e se instala como fixação, não há possibilidade de crescimento, pois dois iguais não acrescentam nada. O ambiente de crescimento passa a existir quando, num clima de concórdia, as diferenças se perfazem, enriquecendo cada parte. Assim como o músico, quando afina as diferentes cordas do seu instrumento, colocando-as num acordo, mesmo cada uma soando notas diferentes, juntas promovem harmonia. Quanto maior for a fidedignidade de uma corda em relação sua própria nota, mais integrada ela estará com a outra, numa harmonização do todo. A saber, a palavra acordo vem do latim accordare, “estar em harmonia”, a junção ad, que significa “a, para”, mais cor, “coração”. Sendo assim, estar de acordo é, literalmente, dar ao coração. Tratamos de amor verdadeiro, que assim como na afinidade, inclui semelhanças, mas também abrange diferenças.

A partir da analogia da afinação do instrumento, passa ser possível nos aprofundarmos e expandirmos nas formulações religiosas, onde, no evangelho segundo Mateus, Jesus propõe: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o teu entendimento. Este é maior e o primeiro mandamento. O Segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os profetas dependem destes dois mandamentos.” (Mt. 22, 37-30). Ora, as cordas do instrumento devem manter um acordo, afinadas conforme certa tonalidade em comum, que assim, passa a manter a harmonia entre elas. 

Fica enriquecido o que quer que seja a realizado na relação por afinidade, assim como o próprio vínculo que se enriquece a cada realização. Num vínculo de afinidade, se mantém a identidade das partes, que assim podem se complementar, já que uma traz aquilo que não há na outra. Isso aponta para um modelo mais amadurecido de relação. No vínculo por afinidade não existe espaço para rivalidade, já que as diferenças evidentes nas partes se complementam, num modelo de casamento, que de forma profícua, tende a gerar o novo. 

Por outro vértice, o convívio em ambientes de vínculos pobres ou ausentes de afinidade, quando se estende por longos períodos, pode se tornar nocivo ao ponto de se adoecer no âmbito emocional. Quando se é submetido a coexistência por tempo prolongado num formato de vínculo que não exista afinidade, pode haver desgaste emocional e empobrecimento afetivo. Isso ocorre, pois nessa situação, o aparelho psíquico carece de muita energia para gerar defesas. Passa a haver grande demanda para alimentar o falso eu, que se ergue, tentando proteger o eu verdadeiro. O sujeito se vê obrigado a dissimular para evitar conflitos, já que, sem afinidade o ambiente de concórdia fica sempre ameaçado. A energia psíquica que, em uma situação favorável, poderia ser investida em realizações e no cultivo de vínculos saudáveis, fica então comprometida com defesas. Isso empobrece o funcionamento psíquico, desestrutura a possibilidade de um pensar profícuo e obstrui o funcionamento emocional e afetivo saudável.

BION, W. R. O APRENDER COM A EXPERIÊNCIA. 1962 - Rio de Janeiro: Imago, 1991.

FREUD, S. (1911). O CASO SCHREBER: NOTAS PSICANALÍTICAS SOBRE UM RELATO AUTOBIOGRÁFICO DE UM CASO DE PARANÓIA (dementia paranoides). Rio de Janeiro: Imago, 1998.

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KLEIN, M. (1946). NOTAS SOBRE ALGUNS MECANISMOS ESQUIZÓIDES. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) / Melanie Klein: tradução da 4 ed. inglesa; Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores. — Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.

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_______. (1952). ALGUMAS CONCLUSÕES TEÓRICAS RELATIVAS À VIDA EMOCIONAL DO BEBÊ. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) / Melanie Klein: tradução da 4 ed. inglesa; Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores. — Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.

SEGAL, H. (1964) INTRODUÇÃO À OBRA DE MELANIE KLEIN, Rio de Janeiro: Imago,1975.

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