terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
PSICANÁLISE, FÍSICA QUÂNTICA E AS INCERTEZAS - Prof. Renato Dias Martino
sexta-feira, 4 de agosto de 2023
INCERTEZA NA QUÂNTICA E NA PSICANÁLISE - Prof. Renato Dias Martino
terça-feira, 1 de agosto de 2023
PSICANÁLISE E RELIGIÃO - Prof. Renato Dias Martino
Quando a gente fala das formulações religiosas, ou da espiritualidade como um elemento que possa corroborar para o sucesso do trabalho psicanalítico, esta proposta precisa ser espontânea, precisa partir de dentro do sujeito. O Sigmund Freud (1856 - 1939) não tinha isso, infelizmente. O Freud não conseguiu ter isso, porque ele foi inundado de preconceitos a respeito da religiosidade. Ele era judeu e ele sofreu demais com isso. Ele padeceu a vida inteira, desde pequenininho até a sua morte. Ele foi forçado a sair de Viena, onde ele viveu quase que a vida toda e ir para Inglaterra fugido, porque Adolf Hitler (1889 – 1945) tinha tomado a Áustria e ele, como judeu teve que sair de lá fugido, depois de ver morrer parentes próximos, familiares. Então não tinha como Freud ter uma boa concepção do que era religiosidade, porque também existia ali, a questão da imposição e religião sendo elementos que coincidiam. No entanto, não é nesse âmbito que nós estamos é buscando aqui, esclarecer ou refletir. Nós estamos falando de algo que parte de dentro. O Freud. lá no MAL-ESTAR DA CIVILIZAÇÕES (1930), fala sobre não conseguir encontrar nele um “sentimento oceânico”. O que que esse “sentimento oceânico”? É de fazer parte do todo. Ele não conseguia sentir isso, mas é disso que nós estamos falando, de conseguir fazer parte do tudo, de ser capaz de se integrar ao todo, de se religar ao todo. Então, religião é religar. Infelizmente o Freud não teve essa chance. Não discordo do Freud quando ele coloca que o sujeito busca a Deus, o Pai Eterno, numa tentativa de reparação da relação conflituosa que teve com o seu pai físico, dentro da perspectiva, em relação familiar. No entanto, Deus está configurado numa dimensão muito mais ampla do que isso. Nós estamos falando aqui, do Deus que criou o homem, não do Deus que o homem criou. Tem uma publicação das cartas que o Freud trocava com Oskar Pfister (1873 - 1956), que era um pastor protestante e ali o próprio Pfister fala para ele que, tendo a posição dele, tão avesso, tão aversivo as formulações religiosas, ou a religião, ele apresentava características de um cristão, muito mais do que vários ditos, supostos cristãos. Ainda assim, o Freud era muito mais cristão sendo quem era, do que muitos pastores e ditos, supostos cristãos aí, que se colocam nesta posição de superioridade, dentro das formulações religiosas. A própria psicanálise é uma configuração de compaixão, de acolhimento e de uma série de elementos que estão dentro da posição do cristão e não só do cristão, mas também se correlaciona aí, com o budismo, com a cultura védica. Athur Schopenhauer (1788 - 1860), trouxe essa possibilidade de integração. Schopenhauer fala bastante da cultura védica, fala bastante do budismo. E não só, mas assim, se a gente for levar em consideração aí a mitologia grega já que a gente tá falando de deuses. Então, o Freud se utiliza disso o tempo inteiro. Dessas formulações. Ou seja, é impossível desagregar qualquer que seja a área do pensamento humano, das formulações religiosas. É uma grande estupidez, o sujeito que ainda tenta fazer essa coisa de separar as formulações religiosas da ciência, ou da tomada de consciência da realidade. Nós temos aí, cientistas famosos, que contribuíram demais para a humanidade e que são extremamente devotos, se não por Jesus Cristo, por Alá. Se não por Alá por Krishna, pelo budismo, ou qualquer outra coisa dentro dessa perspectiva da espiritualidade, ou ainda, das formulações religiosas. Existe uma outra configuração das formulações religiosas, independe de uma crença, independe de uma fé, que vai para além disso. É a formulação religiosa, ou a utilização da religião, como uma forma de carinho. Sabe quando a tua avó vai se despedir de você e pega na tua mão e diz assim: “Fica com Deus, filho”, “Vai com Deus”? Sabe o que é isso? Você pode ser ateu, meu amigo, mas isso, ainda assim, é uma forma genuína de amor puro. É uma forma de ternura, a forma mais bela do amor, sendo colocada sendo manifestada através de uma formulação religiosa. Isso não tem preço, gente! Sendo você ateu, ou não. De que outra forma a sua avó poderia ser tão amorosa com você, que não fosse com um “Vai com Deus”, “Que Deus te proteja”, “Que Deus te abençoe”. A contemplação é um elemento de psicanálise, para aquele que pratica psicanálise do acolhimento. o significado da palavra contemplar traz a ideia de com = junto e templo = local sagrado. Juntos no local sagrado. Então, o paciente e o analista estão numa posição de contemplação. Estão juntos num ambiente sagrado, num ambiente não local. Isso é muito interessante. Que aí a gente já busca ali, um conceito da física quântica. Do Goswami, do Amit Goswami da “realidade não local”, da “consciência não local”. O ambiente não local, porque nós não estamos aqui dentro do mesmo local, mas nós estamos dentro do mesmo ambiente emocional-afetivo sagrado por sua vez. Então, estamos contemplando. O preparo emocional-afetivo é a base para um bom relacionamento com as formulações religiosas. Um sujeito perturbado emocionalmente, vai voltar todas as configurações religiosas contra si mesmo e consequentemente, contra o outro também. Ele vai usar as formulações religiosas para se culpar, para se condenar, para se punir, para uma configuração nociva. Então, a psicanálise e a religiosidade estão juntas nesta perspectiva. O sujeito precisa cuidar do seu funcionamento emocional-afetivo para que ele possa estar integrado dentro das formulações religiosas, ou da espiritualidade. Então, a religiosidade cuida de uma parte, a psicanálise cuida da outra que, ao mesmo tempo, são interdependentes. Ao meu ver, a maior função da religião, ou da espiritualidade é propiciar para que o sujeito, que a gente possa se auto responsabilizar. Ele precisa se responsabilizar por ele e pelos seus vínculos. E quando eu falo aqui de vínculos, eu estou falando de vínculos com as pessoas que estão em volta dele e também com o mundo, com a natureza, com o todo. Assumir a sua responsabilidade. A verdadeira religião, a verdadeira posição espiritual é aquela, a verdadeira espiritualidade é aquela que traz para o sujeito a responsabilidade e um sujeito que é responsável por si e pelos seus vínculos é um sujeito que não permite culpa. Onde existe a capacidade de responsabilização, a culpa não resiste. A culpa só domina o ambiente onde não existe sujeitos que são capazes de ser responsabilizar. A responsabilidade é o que neutraliza, é o que dissolve a culpa. O sujeito intolerante, acaba sendo vulnerável aos charlatões religiosos. Porque o charlatanismo religioso é aquele que traz respostas, quando na realidade, Deus é mistério. Ser capaz de estar dentro das formulações religiosas, ser capaz de estar de acordo com as formulações religiosas, requer tolerância à frustração, requer ser capaz de tolerar a dúvida, tolerar o mistério, tolerar aquilo que não pode ser entendido, não pode ser compreendido. Deus está dentro da perspectiva do incognoscível! Não pode ser conhecido e aí o sujeito que não tem essa tolerância naquilo que Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979), chamou de “capacidade negativa”... O que acontece? Ele é um alvo muito fácil dos charlatões do charlatanismo religioso, onde o dirigente traz respostas, ao invés de prepará-lo para dúvida. Também dentro da psicanálise, o papel do psicanalista não é dar respostas, mas é propiciar um ambiente fecundo de tolerar a dúvida, de ser capaz de tolerar o desconforto da Incerteza. Assim como propõe a própria física quântica, dentro da formulação do Werner Heisenberg (1901 — 1976), quando propõe o “princípio da incerteza”. Todo o pensamento mais nobre da humanidade, está de acordo com a dúvida, está de acordo com a incerteza. O que faz pensar não são as respostas, são as dúvidas. O Bion usa essa formulação do Maurice Blanchot (1907 - 2003): “A resposta é a desgraça da pergunta”. Você está respondido, não tem mais o que falar, não tem mais o que você pensar, está tudo resolvido e esta é a questão do diagnóstico hoje em dia. O sujeito recebe um diagnóstico psiquiátrico, ele se conforma com aquilo, se entope de medicamentos e acabou. Ele está fadado a aquilo, ele está confortavelmente dentro daquela perspectiva nociva.
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domingo, 11 de julho de 2021
VÉRTICES EPISTEMOLÓGICOS
O ser humano é uma criatura capaz de assimilar conhecimento, de saber sobre os fenômenos e coisas do mundo. É capaz, ainda de passar o que supostamente conheceu, aos outros e isso o torna um sujeito dito cognoscente. Ainda que isso do qual da o nome de conhecimento seja sempre parcial, já que na verdade, somos grandes ignorantes sobre o que de fato possa ser a realidade. Isso ocorre por que a realidade por si mesma parece não ser suscetível de ser conhecida, mas somente vivida no tempo presente, através do “estar sendo”. Sendo assim, quanto maior for a capacidade de tolerar e reconhecer a ignorância, tanto maior será a possibilidade de aprender com cada experiência vivida com a realidade, que por mais que possa ser registrada e armazenada na memória como saber adquirido, nunca será como a anterior. O que pode ser conhecido é tão somente aquilo que já passou e se já passou, não pode mais ser chamado de realidade. Portando, seria mais adequado o termo reconhecimento, como um ato de conhecer novamente a cada reencontro do que, simplesmente conhecimento, que pressupõe o já sabido e definitivamente conhecido. De qualquer forma, os seres humanos criam certo código do qual comungam entre si, tentando representar o que supostamente possa ser a realidade.
Sigmund Freud (1856 – 1939) cogita em seus TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE, de 1905, sobre o impulso natural pelo conhecimento ou pela pesquisa, no que chamou de pulsão epistemofílica na criança. Do Grego EPISTEME, “conhecimento”, mais PHILOS, “apreço” ou ainda, “amor”. A tendência inata por querer saber, a disposição conatural da busca pelo conhecimento. Freud propõe que essa tendência de investigação está ligada à esfera sexual e que de maneira alguma tem intuitos teóricos, mas sim práticos. Freud ainda enfatiza que são ativados pelo prenúncio de alguma experiência que possa o colocar inseguro em sua posição. Por exemplo, a chegada de um irmãozinho e o medo de que por conta disso não seja mais amado.
Mais tarde Melanie Klein (1882 — 1960), em sua obra PSICANÁLISE DA CRIANÇA, propõe que o conceito de pulsão epistemofílica, associado ao impulso de ver e tocar estão direcionados as tentativas de pesquisa do corpo materno. “Parece que seu primeiro objetivo é o interior do corpo da mãe que a criança considera, antes de tudo, como um objeto de gratificação oral e depois como acena onde tem lugar o coito dos pais e o lugar onde estão situados os bebês e o pênis do pai.” (Klein, 1932) Tudo que é estranho gera enorme insegurança. Para aplacar o desconforto de se sentir inseguro, deve ser de alguma forma dominado e conhecer é uma forma de tentar dominar. Klein propõe que o bebê quer forçar a entrada no corpo da mãe para se apossar dos seus conteúdos, assim como saber o que se passa ali. “Deste modo, seu desejo de saber o que há no interior daquele corpo se associa de muitas maneiras com desejo de forçar um caminho para o seu interior e um dos desejos reforça e toma o lugar do outro.” (Klein, 1932)
No entanto, por mais que Klein proponha uma conotação impulsiva gerada pela epistemofilia, por outro lado, conforme haja certo amadurecimento emocional, a pulsão epistemofílica passa a ter importância, principalmente em relação ao desenvolvimento intelectual da criança. E essa importância está justamente, na possibilidade de adiar a ação. Isso ocorre através do desviado do impulso da ação motora para atividade mental do conhecimento. “Dessa forma, com o auxílio do instinto epistemofílico, o ato substituto pode, por seu lado, ser substituído por atos preparatórios do pensamento.” (Freud, 1909) Em contrapartida, a repressão precoce do “impulso por saber” parece ser muito danosa. O histórico da vida de pacientes que apresentam características obsessivas parece revelar, quase sempre, um precoce desenvolvimento, seguido por uma repressão muito cedo do impulso de olhar e conhecer.
Para Wilfred Bion (1897 – 1979), em sua obra APRENDER COM A EXPERIÊNCIA, de 1962, três formas de vinculação: por amor (L), por ódio (H) e por conhecimento (K) e esse terceiro parece ser oriundo da pulsão epistemofílica. Para Bion, o pensamento humano é epistemologicamente anterior ao pensador, sendo que o antes do bebê tornar-se um ser cognoscente, ele tem uma expectativa intata que por sua vez, gera pré-concepções do que conhecerá posteriormente. O bebê nasce com a expectativa inata do seio e seu instinto de auto preservação o fará procurá-lo para que possa sobreviver. Para Bion, o pensar inicia-se a partir da frustração por não encontrar o seio. Isso ocorre se antes disso, tenha sido possível haver uma serie de experiências bem sucedidas com esse seio. O que o capacitará desenvolver tolerância à frustração da ausência e com isso o levando a pensar sobre o seio.
No andamento da obra de Bion é possível reconhecer três vértices do conhecimento humano, onde parece partir da ciência e da filosofia passando pela estética e pelas artes, expandindo para além, no campo do misticismo e nas formulações religiosas. Numa pesquisa cuidadosa, é possível, perceber certa evolução na ordem desses vértices, onde há uma sucessão que vai do mais saturado na rigorosidade das ciências exatas até o incerto, na possibilidade de abertura para inúmeros sentidos e significados possíveis presente no misticismo. Bion nos deixa uma valiosa contribuição da qual tentarei expandir nesse breve texto.
No âmbito do modelo científico-filosófico, é guardada certa exatidão das palavras, onde o cientista trata o saber de maneira unívoca, admitindo apenas uma interpretação, um único significado; sem abertura para ambiguidades. Porem, mesmo dentro da ciência é possível encontrarmos a abertura para um nível mais evoluído, como é o caso da mecânica quântica a partir dos estudos de Max Karl Ernst Ludwig Planck (1858- 1947). “Na visão geral da mecânica quântica os objetos de estudo são complementares, partículas/ondas, e devem ser interpretados através de probabilidade, onde o espaço e o tempo das partículas são conduzidos pelo princípio da incerteza.” (Martino, 2015) O princípio da incerteza é uma expansão introduzida por Werner Karl Heisenberg (1901-1976), em seu artigo SOBRE O CONTEÚDO INTUITIVO DA CINEMÁTICA QUÂNTICA E MECÂNICA 1927. “É um importante enunciado da mecânica quântica, que revela o fato de que não podemos determinar com precisão e simultaneamente a posição e o momento de uma partícula.” (Martino, 2018) Mas Heisenberg adverte para o fato de que a “boa física é inadvertidamente prejudicada por uma filosofia ruim”, que possam guiar o físico (Heisenberg, 1989). Sendo assim, a qualidade do estudo científico deve ser definida pela qualidade da filosofia que esteja o orientando.
No âmbito filosófico o pensamento pode se expandir pelo amor ao conhecimento, onde o questionamento sobre os fundamentos do que é realidade proporciona maior abertura nas possibilidades. Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), apoia que é função do filósofo esclarecer os fenômenos do mundo e propõe que o rebaixamento da vontade (ou ‘negação da vontade’ assim como se encontra na tradução disponível) é fundamental nessa tarefa. “Ele propõe que, através do rebaixamento da vontade, podemos estar de acordo com a realidade última, justamente a dimensão da intuição.” (Martino, 2015) Isso, já que a vontade, ou ainda o desejo, contamina o possível reconhecimento da realidade.
Podemos aqui arriscar um exemplo da aplicabilidade do modelo científico-filosófico na formulação: “A tolerância, quando ausente do reconhecimento do limite converte-se em permissividade”. Poderíamos configurar essa formulação em termos matemáticos da seguinte maneira: “tolerância – limite = permissividade”. Isso forma uma equação que da mesma maneira, pode ser aplicada a formulação sobre a crueldade gerada na tentativa de introdução da verdade quando ausente de amor. No modelo matemático teríamos: "verdade - amor = crueldade". A saber, seu inverso também é verdade, já que o amor, menos verdade, resulta em paixão.
É claro que essas formulações sofrem grande empobrecimento na medida em que são reduzidas a formulas frias e suscetíveis de cálculos. Por conta disso, é prudente que estejam associadas à reflexão filosófica e, além disso, sempre disponível à aplicabilidade nas relações afetivas, onde realmente é possível um acordo com a realidade. Por mais que o modelo das ciências exatas seja fundamental, ainda assim, parece ser uma forma que limita o reconhecimento do real, restringido no âmbito material, exclui aquilo que transcende esse campo. Esse modelo busca certa linguagem unificada que possa representar o conhecimento empírico de forma universal. Isso traz benefícios, mas também traz grandes prejuízos. Isso fica mais evidente ainda quando tentamos aplicar na prática clínica da psicanálise. O próprio Bion alerta para esse fato. “As matemáticas disponíveis não fornecem formulações adequadas ao analista.” (Bion, 1970) Não é pelo fato de não estar disponível aos órgãos dos sentidos, que não exista.
Já no modelo estético-artístico, ocorre um salto onde é possível se utilizar da linguagem poética no âmbito imagético, propiciando certa abertura polissêmica de forma metafórica. Nesse campo, sentimentos e experiências emocionais-afetivas podem ser manifestas, por exemplo, através da uma música, de poesias, da pintura e por ai a fora. Bion propõe, num seminário realizado em Paris, em 1978 e publicado em 1986, que não seria interessante descartar hipóteses imaginativas, justificando que não sejam científicas. Bion compara essa atitude com a de jogar fora sementes de uma planta, com a justificativa de que não se trata de um carvalho ou um lírio. “Isso se aplica a tudo que ocorre no consultório. Mas eu digo que valeria a pena considerá-lo não o seu consultório; e, sim, o seu ateliê. Que espécie de artista é você? Um ceramista? Um pintor? Músico? Escritor?” (Bion, 1986) Para Bion, muitos psicanalistas não são capazes de reconhecer qual tipo de artistas possam ser. Sendo assim, a expressão estetico-artistica parece ser a manifestação mais primitiva das três, já que ao observarmos uma criança é possível perceber que ela canta antes de falar, dança antes de andar e desenha antes de escrever.
Bem, quando é utilizado o vértice místico-religioso ocorre uma expansão onde o sentido não pode ser apreendido pelo aparato sensorial. Ainda assim, empenhamo-nos em expressar esse reconhecimento através do acordo entre os três vértices. Onde ocorra uma concordância, em que um vértice não tenha a função de disputar com o outro, ou ainda, servir de substituição. A proposta da filosofia de Schopenhauer, do rebaixamento da vontade, por exemplo, não é uma ideia original sua, mas é uma antiga proposta presente no cristianismo, nas escrituras védicas, no budismo, assim como de outras formulações religiosas. Nos estudos da mecânica quântica encontramos grande expansão no acordo entre o vértice científico-filosófico e o modelo místico-religioso. Na dimensão estético-artística a contemplação da beleza de algo está subordinada ao reconhecimento da verdade do que se contempla e não ao que se gostaria que fosse. Isso é tratado de maneira cuidadosa e expansiva pelo físico quântico indiano contemporâneo Amit Goswami, propõe em sua obra DEUS NÃO ESTÁ MORTO: Evidências Científicas da Existência Divina existe a possibilidade de trazer à baila a ideia de Deus na ciência no evento do colapso da função de onda.
Bion, talvez tenha sido um dos maiores pensadores dentre os que trouxeram as formulações místico-religiosas para um acordo com os outros vértices do conhecimento humano e o fez através da psicanálise. Bion chamou a atenção para o que denominou “O” da experiência. “Vou usar o símbolo ‘O’ para denotar aquilo que é a realidade última, representada por termos como 'realidade última', verdade absoluta, a divindade, o infinito, a coisa-em-si.” (Bion, 1970) Para Bion, “O” não pode ser conhecido, a não ser de forma fortuita ou imprevisível. “O” é sempre mistério e ausente de contorno, entretanto pode ser apreendido por meio da experiência. Para Bion a formulação de “O” é essencial tanto para a ciência quanto e para a religião. “Os místicos religiosos provavelmente foram aqueles que chegaram mais perto de conseguir expressar a experiência da verdade absoluta.” (Bion, 1970).
Um bom exemplo do acordo que pode ocorrer entre o que é do âmbito místicos-religioso e os outros vértices, está na Bíblia Sagrada do cristianismo, onde nos livros de Mateus 22:37, Marcos 12:30 e Lucas 10:27, encontramos a situação em que um dos estudiosos da lei indaga Jesus, que responde: “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. ” (Mateus 22:37,38,39). No primeiro mandamento, entende-se por “Senhor”, o “O” da experiência, proposto por Bion, ou ainda, no âmbito filosófico, temos a proposta de Friedrich Nietzsche (1844 -1900), no que chama de “Amor Fati” que significa “amor pelo inevitável”. “Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo – (...) – mas amá-lo...” (Nietzsche, em HUMANO, DEMASIADO HUMANO, 1878). O “O” da experiência de Bion parece estar de acordo com o “fato” de Nietzsche, que deve ser amado, assim como com o “Senhor” do cristianismo, do qual se deve respeitar a vontade. Na frase da oração do Pai Nosso, “Seja feita a vossa vontade”, temos a expressão do acordo com a realidade última. O segundo grande mandamento está diretamente de acordo com a proposta de Freud quanto a amar a si mesmo (libido do ego) e o amor que se possa ter pelo outro (libido objetal), quando escreve que “um verdadeiro amor feliz corresponde à condição primeira na qual a libido objetal e a libido do ego não podem ser distinguidas.” (Freud, 1914). Essa formulação, por si só tem uma conotação estético-artística, pela natural poesia e beleza contidas na própria ideia.
Na realidade o papel dos vértices do conhecimento é o de trazer esperança, apaziguando ansiedades e angústias, geradas naturalmente no caminho do reconhecimento de nossa ínfima posição frente o universo, assim como nossa grande ignorância quanto à realidade. Isso ocorre com o modelo científico-filosófico nos orientando quanto à necessidade de renunciarmos ao desejo do que gostaríamos que a realidade fosse para entrarmos num acordo com o que a realidade de fato é. O vértice estético-artístico enriquecendo de ilustrações e alegorias as mazelas da vida. E o âmbito místico-religioso nos orientado para que as coisas deste mundo terreno-material não nos afetem tanto.
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