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quarta-feira, 9 de julho de 2025

DÚVIDA, INCERTEZA E NUTRIÇÃO AFETIVA - Prof. Renato Dias Martino



NUTRIÇÃO AFETIVA

 

Muitas vezes o sujeito chega na clínica psicanalítica, chega para fazer psicoterapia e ele se queixa de uma dor psíquica, seja ela uma ansiedade ou uma angústia, e ele busca que isso seja reparado. No entanto, ele vive num ambiente extremamente empobrecido de vínculos saudáveis. Logo, isso fica inviável, porque o vínculo que não seja saudável, além de não nutrir o sujeito dessa saúde afetiva, que inclui amor e verdade, que inclui doação e limite, ele ainda retira do sujeito o pouco de saúde emocional que esse sujeito possa ter. Para que o sujeito possa ter um funcionamento emocional saudável, ele carece de ser nutrido de afeto saudável. Ele carece de vínculos saudáveis. Ele carece desse tipo de nutrição. Assim como o corpo se alimenta de comida, a mente se alimenta de amor e verdade. Quando o funcionamento emocional não tem isso, ele tende a se desnutrir e com isso adoecer. A psicoterapia precisa ser por excelência um ambiente nutridor de amor e verdade, de dedicação e de limites.

 

APRENDER A TOLERAR

 

Professor, como é que eu aprendo a tolerar frustrações? Já que a tolerância frustração é a base de um bom funcionamento emocional, somente a partir de vínculos saudáveis, somente através de vínculos de confiança. É a partir desse tipo de vínculo que o sujeito aprende a tolerar frustrações.

 

INCERTEZAS

 

Viver num acordo com a realidade é viver na dúvida, é viver na incerteza. E a dúvida e a incerteza são geradoras de desconforto. E para que eu possa viver num acordo com a realidade, eu preciso tolerar esse desconforto que é gerado pela dúvida e pela incerteza. O bebê aprende a lidar com a dúvida e com a incerteza a partir do vínculo saudável com a mãe e, posteriormente, com o pai. São eles que vão trazer para o sujeito um ambiente seguro o suficiente para que ele possa aprender a tolerar qualquer incerteza que venha a acontecer.

 

O CAMINHO

 

O ambiente psicoterapêutico também tem esta função. Muitas vezes o paciente chega cheio de dúvidas e cheio de incertezas, imaginando que isto é o fim, imaginando que isso é o colapso da sua mente. No entanto, a partir das experiências bem-sucedidas com o psicoterapeuta, ele vai percebendo que a dúvida e a incerteza são elementos que fundamentam o acordo com a realidade. O caminho é dúvida, o caminho é incerteza. A gente até cria objetivos, a gente até cria ideais, mas aqueles ideais e aqueles objetivos não são o final da história, não vão trazer segurança alguma para gente, não vão trazer certeza alguma para gente. Um sujeito que está caminhando de forma saudável, quando ele chega lá, o lá não é mais lá, porque o que importa é o caminho e não a chegada.

 

APOIAR OU INCENTIVAR

 

O vínculo saudável é aquele que permite dependência, mas que propicia a independência. Para que um vínculo seja saudável, este vínculo deve permitir que haja a dependência, mas que esteja propício à independência assim que for possível. Deve apoiar a independência, não deve sugerir, não deve promover, não deve incentivar, mas deve apoiar, porque assim que esse vínculo for realmente estabelecido, de maneira saudável, a independência começa a se desenvolver.

 

DESPREPARO DOS PAIS

 

A criança é um grande para-raios, é uma grande esponja de tudo que acontece dentro da casa, tudo que acontece no lar, tudo que acontece na família. A criança acaba sendo um grande porta-voz. E muitas vezes, aquele que nos procura na clínica é o sujeito mais saudável da família, porque é aquele que deu conta de tudo aquilo e ainda foi capaz de pedir ajuda, enquanto os outros estão extremamente envolvidos com as suas defesas, com as suas neuroses, com as suas psicoses, responsabilizando o outro, culpando o outro. Então, muitas vezes a gente tem quando criança a impressão de que a gente é o problema. E quando a gente cresce, a gente começa a perceber que grande parte desses problemas vinham dos pais, o despreparo desses pais de cuidarem dessa criança. E aí mandam a criança para o neurologista, pro psicopedagogo, para o psiquiatra, sabe lá para quem? Para dar conta daquilo que na realidade foram os pais que não deram conta.

 

DE GERAÇÃO PARA GERAÇÃO

 

As mazelas que são transmitidas de geração para geração, passando de pai para filho, onde um não é capaz de reconhecer a realidade e cuidar de si mesmo para que ele possa reparar o seu funcionamento emocional. E ele passa isso para os filhos e os filhos passam pros netos e vão vai passando de geração em geração, porque ninguém foi capaz de dar conta disso, porque o meu filho não pode sofrer daquilo que eu sofri em relação aos meus pais.

 










Prof. Renato Dias Martino


quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

SOBRE A PSICOTERAPIA - Prof. Renato Dias Martino


PSICOTERAPIA OU PSICANÁLISE

A psicanálise é uma teoria a psicanálise é aquilo que o Bion chamou de sistema dedutivo teórico, é uma série de conceitos que precisam ser preenchidos de experiência que interconectados vão formar um sistema. Psicoterapia é aquilo que pode ser realizado através da psicanálise. A análise propicia a psicoterapia. Tem muitos pensadores que tentam diferenciar o processo psicoterapêutico do processo psicanalítico, eu não vejo diferença alguma. Quando você está praticando a psicanálise, você está praticando uma psicoterapia. O que é psicoterapia PSICO é a parte do eu que não está disponível aos órgãos dos sentidos, a parte não sensorial do sujeito e TERAPIA é cuidado. A psicanálise propicia um cuidado com a psique. Tentar diferenciar processo psicoterapêutico do processo psicanalítico é uma perca de tempo, porque nós estamos psicoterapeutas.

PSICOTERAPIA PROFUNDA

Existem profissionais que tentam diferenciar psicoterapia de psicanálise dizendo que a psicoterapia é algo mais superficial e a psicanálise é algo mais profundo. A psicanálise é um método para se aplicar à psicoterapia, o cuidado com a mente a psicoterapia pode ser profunda, a partir da premissa da psicanálise. Se você estiver utilizando do método psicanalítico, a psicoterapia vai ser profunda. 

COMPORTAMENTO OU FUNCIONAMENTO

Nós temos vários modelos de psicoterapias. Algumas trabalham o comportamento, tentam trazer para o sujeito, tarefas ou novos modelos de comportamento e propõem para o sujeito exercitar, fazer exercícios para que ele possa mudar o seu comportamento. Agora, existem outras propostas que trabalham o funcionamento do sujeito. Quando eu trabalho o funcionamento, o comportamento vai se transformar por si só. É uma consequência da transformação do funcionamento. A maturação emocional e afetiva vai trazer como desdobramento. A transformação do comportamento, mas mudar comportamentos não pode trazer maturidade emocional.

ANOTAR

Esse estereótipo de um psicanalista com uma prancheta na mão anotando aquilo que o paciente fala é uma caricatura. O psicanalista real não anota nada que o paciente fale ou faça, porque a anotação é um registro e o psicanalista precisa renunciar da memória. Cada sessão é sem passado e sem futuro. Inclusive o Freud até orientava assim: “Não escreva sobre os casos que você esteja atendendo” Freud nunca notou nada que o paciente estava falando.

CONTINENTE 

A psicanálise, sobretudo a partir das propostas do Bion, do Wilfred Bion, passa a ser um continente para receber conteúdos. Se o paciente não trouxer um conteúdo para ser contido, eu não tenho o que fazer. Tudo aquilo que vai ser feito dentro de uma sessão psicanalítica precisa vir do paciente, eu vou acolher e tentar pensar junto com o paciente, tentar propiciar uma transformação daquele conteúdo, para devolver para o paciente. Se o paciente não trouxer nada, nada eu posso fazer, porque qualquer coisa que eu faça que não tenha sido trazido pelo paciente é meu e o meu eu trato na minha análise.

O NÃO DITO

A gente ouve muito orientações de psicanalistas assim ó: “Você precisa ouvir aquilo que não está sendo dito”. Precisamos ter muito cuidado com isso. Muitas vezes, quando você ouve aquilo que não está sendo dito, na verdade, você está projetando algo teu ali e chamando atenção por algo que não é do paciente. Então, se o paciente ficou em silêncio, sim, o silêncio dele está querendo dizer alguma coisa. Mas o que? Não sei! Enquanto ele não manifestar isso eu não posso fazer suposições através do seu silêncio. Psicanalista não é adivinho, nós não estamos ali para adivinhar as coisas. O paciente fica calado e eu começo a adivinhar o que que é que ele está querendo dizer com o silêncio dele. O paciente cruza as pernas, eu falo: “Ah! Cruzou as pernas porque não sei o que, não sei o que mais”. Não! Isso é dedução e nós trabalhamos com intuição.

SILÊNCIO  

Quando o sujeito está num ambiente de paz. Quando o sujeito está num ambiente de silêncio, o caos interno começa a emergir, o barulho interno começa a emergir, aparecer e aí que é o grande problema. É por isso que, muitas vezes, o sujeito tem um benefício de estar em ambientes caóticos, perturbadores, barulhentos, porque aí, ele não precisa a se responsabilizar pelo barulho interno, pela bagunça interna. Então, muitas vezes, ele colabora para que o ambiente em volta dele seja perturbador e barulhento para que ele não precise reconhecer a realidade do barulho interno dele. Se o paciente ficar em silêncio, em silêncio eu ficarei. O silêncio dele será muito bem acolhido por mim, sem que eu precise ficar cutucando ele para que ele fale qualquer coisa. Quando ele começar confiar no ambiente, ele começa a trazer aquilo que precisa ser trazido, já que nós somos acolhedores. Então, nós só podemos acolher aquilo que estiver pronto para ser acolhido. Se não estiver pronto para ser acolhido. eu não posso fazer nada. Porque senão, não é acolhimento é captura, é investigação. Eu não investigo nada, eu não sou um investigador, eu só acolho aquilo que estiver pronto para ser acolhido. Quando você persegue alguma coisa, você promove, na verdade, mais defesas do que o sujeito já tinha. Quando você investiga um sujeito, o sujeito tenta fugir desta investigação.

DEDICAÇÃO OU ESFORÇO

Para que haja uma transformação verdadeira é necessário dedicação, mas para transformar, para mudar comportamentos é necessário esforço. Esforço não é dedicação. Esforço é forçar alguma coisa. Dedicação é persistência, é constância naquilo que se propõe fazer.

DISPUTA 

A competitividade é sempre prejudicial a disputa é sempre nociva. Ah! Mas e o esporte? Pois é, o esporte é um recurso para que você possa elaborar esta competitividade, essa disputa, para que essa disputa e essa competitividade não transbordem para a sua vida cotidiana. Porque quando ela transborda pra vida cotidiana, ela passa a ser nociva e nós somos educados para competir. Nós somos educados para disputar. A escola promove isso. A educação dos pais promove isso. Mas isso é nocivo! Uma criança competitiva e ela vai ser competitiva porque isto é um ímpeto da criança, é importante que ela encontre um esporte, ou alguma atividade para que ela possa elaborar isso e não levar pra sua vida adulta, porque nada mais insuportável do que conviver com um adulto que está tentando competir com você o tempo inteiro. Muitas vezes, você está dando um grupo de estudo com a melhor boa intenção e vem um bonitinho lá no meio: “Eu não concordo!” Não é que ele não concorda com a ideia, é que ele está ali com um ímpeto de disputa, de competição. Muitas vezes, para uma palestra com centenas de pessoas ali, para discordar do sujeito que está falando ali em cima. Se você discorda, fica quietinho e leva embora para casa, tua discordância. Isso é impertinente! Então, o esporte é muito importante para quê? Para elaborar a competição. para elaborar a disputa, para que ela não transborde para sua vida cotidiana e com isso atrapalha e obstrua os vínculos afetivos. Do pai disputando com a mãe, do marido disputando com a esposa, do filho disputando com o pai, do pai vai disputando com o filho. Muitas vezes, com criança! Então, a disputa é nociva, ela precisa ser elaborada, você precisa encontrar recursos para elaborá-la. Pelo amor de Deus! Se você estiver educando seu filho para que ele seja competitivo, você está adoecendo esta criança e vai fazer com que ela se torne um adulto insuportável emocionalmente. Ele vai ser ótimo na empresa, ele vai ser ótimo no mundo corporativo, mas afetivamente, vai ser um chato. As pessoas vão gostar dele porque ele é muito bem-sucedido, mas as pessoas não vão amá-lo, porque ele é insuportável.

JOGO

Muitas vezes, o paciente você traz para ele uma interpretação e ele fala assim: “Ah! Me pegou, heim? Nessa você ganhou!” Não estou aqui competindo com você. Eu estou a favor, estou do teu lado, não estou contra você. Então, a psicoterapia precisa ser uma brincadeira, precisa ser lúdica, assim como propôs Melanie Klein e não um jogo, onde um ganha e outro perde. Não estamos competindo aqui.

INTUIÇÃO

Nós precisamos nos guiar pela intuição. Aí vem a pergunta: “Professor como é que eu posso saber se é intuição ou é uma alucinação? Como é que eu posso saber se essa intuição é realmente um reconhecimento da realidade, ou se eu estou ali imaginando, alucinando alguma coisa?” O que vai definir isso é a possibilidade de criar um vínculo saudável com a realidade. Quando eu estabeleço um vínculo saudável com a realidade, quando eu estabeleço um acordo com a realidade A minha intuição passa a ser a melhor via de reconhecimento das manifestações desta realidade agora quando eu não tenho vínculo com a realidade A minha intuição provavelmente vai ser muito mais referente a coisas que eu estou alucinando ou que eu estou iludido do que um reconhecimento da realidade.

INVESTIGAÇÃO

Quando a gente fala de protopensamento, a gente está falando de um elemento que está entre a ilusão e a realidade. Entre a associação com ilusões alucinações e a possibilidade de passar por aquilo que o Freud chamou de teste de realidade para entrar num acordo com a realidade. O que é que vai definir se o protopensamento vai se associar a Ilusões, ou ele vai tolerar a passagem do teste de realidade é um ambiente acolhedor. O ambiente acolhedor vai fazer com que, espontaneamente o protopensamento se disponha a ser pensado. Não é uma investigação. A investigação não pode fazer isso. Investigar protopensamento vai fazer com que este protopensamento se enfronhe com as Ilusões, seja reprimido. Porque está sendo perseguido, porque está sendo investigado. Então, por mais que a gente tenha esta palavra, “investigação” dentro das formulações psicanalíticas tradicionais, nesta clínica que a gente está conversando aqui, não estamos dispostos a investigar o paciente.



domingo, 5 de janeiro de 2025

SOBRE VÍNCULOS SAUDÁVEIS - Prof. Renato Dias Martino




AVALIAR A REALIDADE

A possibilidade de avaliarmos a realidade de maneira segura e posteriormente entrarmos num acordo com esta realidade depende exclusivamente e fundamentalmente do vínculo afetivo que a gente possa estabelecer. Não há como entrar num acordo com a realidade sem que a gente tenha um bom vínculo afetivo, ou bons vínculos afetivos. Este vínculo afetivo saudável é que vai servir de ponte para o acordo com a realidade. Um sujeito que não tem vínculos afetivos saudáveis, muito provavelmente, vai tomar como verdade, suas ilusões. Vai tomar como realidade aquilo que ele imagina que seja.

SUPERFICIAL E PROFUNDO

O vínculo afetivo, ele se estabelece a partir de dois “verdadeiros eus”. Um verdadeiro eu que se relaciona com outro verdadeiro eu. Isso se chama vínculo afetivo. Diferente do vínculo social que é estabelecido por dois “falsos eus”. Um falso eu que se relaciona com outro falso eu. Por mais que essa palavra, “falso”, possa suar pejorativa, não é pejorativo. É um constituinte da personalidade do sujeito. Mas é falso. E o ser social é um ser dissimulado. Então, uma ligação é profunda, a ligação afetiva é profunda e a ligação social é superficial.

CASCA

Quando o sujeito, por exemplo, vai se desenvolvendo e aí, dentro de uma metáfora, ele vai soltando as suas cascas, assim como a cigarra faz, assim como muitos animais, a cobra faz, outros animais vão soltando as cascas, esses vínculos sociais tendem a serem abandonados. Porque eles são superficiais e estavam ligados à casca e vão ficando os vínculos afetivos que são ligados profundamente.

VÍNCULO COM A REALIDADE

O vínculo saudável é um vínculo verdadeiro. O vínculo saudável é aquele que traz a possibilidade de se desvencilhar de defesas. O vínculo saudável é aquele que está ligado por afeto. Por afeto e sinceridade. Esta ligação de afeto e sinceridade não carece de defesas porque são dois “verdadeiros eus”. Sendo verdadeiro e sendo um vínculo com algo que está além do eu, passa a ser uma ponte com a realidade. O outro é uma realidade e uma possibilidade de estar ligado ao outro verdadeiro, que faz parte da realidade externa sem defesas sem impedimentos.

ACORDO

Tem pessoas que não conseguem se ligar ao outro de maneira afetiva. Ele só se liga ao outro de maneira social. Ele só se liga ao outro de maneira falsa e dissimulada. E eu não estou criticando aqui, eu não estou, de maneira alguma, criticando o sujeito que faz isso. Pelo contrário, esse sujeito ele é digno de compaixão, porque ele não aprendeu a amar. Então, ele só se liga ao outro a partir do falso eu, logo ele nunca está num acordo com a realidade, porque ele está sempre ligado ao outro através de ilusões, de dissimulações, de mentiras, de falsidades, de imaginações. Para que ele possa estabelecer um acordo com a realidade ele precisa ter vínculos afetivos e não tão somente vínculos sociais.

AFINIDADE

O vínculo afetivo é construído. O vínculo social se cria automaticamente, instantaneamente porque o vínculo social se dá a partir de aparências, de identificações. O vínculo afetivo se dá a partir de afinidades e as afinidades vão sendo reconhecidas gradativamente.

AFINADO 

Cada corda do violão emite uma nota diferente. Tem duas cordas do violão que são a mesma nota, só que em oitavas diferentes. Todas as notas estão afinadas num só tom, mas emitindo notas diferentes. As cordas são diferentes, mas elas estão afinadas entre si. Se tiver uma corda que não esteja afinada, ela vai dar uma dissonância. O som vai ficar desconfortável. Para que haja harmonia, as cordas precisam estar afinadas, precisam ter afinidades uma com a outra. Então, quando a gente fala de afinidade, nós não estamos falando de gostar da mesma coisa, nós estamos falando de uma frequência, de uma vibração dentro da mesma tonalidade.

NO QUE É FUNDAMENTAL

Quando a gente está falando de gostar, a gente está falando de desejo e a afinidade, ela é muito mais profunda do que aquilo que eu gosto ou deixo de gostar. Dentro de uma família bem estruturada, todas as pessoas estão afinadas emocionalmente e afetivamente. Existe uma forma de afinidade afetiva que vai estar regendo esta família. Não tem a ver com, eu gosto de música sertaneja e você gosta de rock n’ roll, eu gosto de manga e você gosta de pera, eu gosto de macarrão e você gosta de pizza. Não tem a ver com isso. Tem a ver com estar afinado emocionalmente, naquilo que é fundamental, naquilo que é base de um vínculo como respeito, como responsabilidade, como afeto como dedicação.

AFINIDADE E RESPEITO

Quando existe afinidade, eu posso não aceitar aquilo que você faz, mas eu respeito o que você faz. Quando existe afinidade, eu posso não gostar do mesmo estilo de música que você gosta, mas eu respeito o estilo de música que você gosta. A afinidade está dentro da perspectiva do respeito e não da aceitação. Eu não aceito, mas eu respeito, logo tenho afinidade. Estou afinado.

CONFIANÇA

Dentro da configuração do vínculo saudável do vínculo afetivo saudável e não tão somente um vínculo social, a gente tem a ideia da confiança. A gente tem a experiência da confiança este conceito que vai ser preenchido por uma experiência é muito importante. A confiança - COM quer dizer junto e FIANÇA quer dizer acreditar. confiança é vínculo, é o fio, “com-fio”. Esse fio é o que liga uma pessoa a outra afetivamente. Então, a confiança traz a possibilidade de se relacionar com o outro não somente no âmbito social, mas no âmbito afetivo, onde um afeta o outro criando um vínculo.

CONCORDAR

COM quer dizer junto e CORDES quer dizer coração. Então, concordar é estar junto de coração, não é aceitar a ideia que o outro traz. Concordar a estar junto de coração, independente da opinião de cada um, independente de quem está com a razão. Então, um ambiente de afinidade é um ambiente de concórdia, de concordância, onde um concorda com o outro, apesar de não compartilhar da mesma ideia. Porque a racionalidade porque a razão, ela está num nível onde tudo é relativo. Então, eu posso dizer para você que a minha mão é branca e você vai dizer não a sua mão é rosa, é rosada. Eu vou falar não é branca, não é rosada... Então, a gente vai começar a debater aqui sobre uma coisa que é infecunda, porque na realidade, se a gente estiver concordando, tanto branco quanto rosado, vai solucionar a questão.

RAZÃO 

Enquanto houver a necessidade de alguém ter razão, não há concórdia. Enquanto houver a necessidade de uma verdade prevalecer sobre a outra, não existe verdade, porque a verdade é soberana, independente do que eu acho, ou o que você acha. Quando nós somos capazes de estarmos num ambiente de concórdia, a verdade vai emergir, vai se desvelar. Ela vai aparecer, independente daquilo que eu acho, ou da sua opinião. E aí, nós temos, realmente a possibilidade de entrar num acordo com a realidade.

PERFAZER 

A identificação é quando eu vejo no outro, algo que está em mim. Não tem a ver com afinidade. Afinidade é quando as partes se perfazem pelo reconhecimento do limite. Nós reconhecemos o limite, logo podemos nos encaixar, podemos casar uma parte com a outra. Na identificação as duas partes se misturam e eu já não sei mais o que que é de um o que que é do outro.



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

RESPONSABILIZAÇÃO - Prof. Renato Dias Martino



Quando eu percebo que está se formando um vínculo, eu preciso reconhecer esse vínculo. Como é que eu reconheço esse vínculo? É percebendo se esse vínculo é saudável ou nocivo. Neste reconhecimento, eu vou, ou me aproximar mais, ou me afastar. Depois que eu reconheci, eu preciso passar a respeitar este vínculo. Respeitar, porque me aproximei, ou respeitar porque me afastei. Depois que eu aprendi a respeitar este vínculo, eu preciso passar a me responsabilizar por este vínculo. E aí, quando eu me responsabilizo por este vínculo, começa a se desdobrar em outras experiências nobres. Tanto na aproximação, quanto no distanciamento, eu preciso me responsabilizar. Quando o vínculo é bem-sucedido, e eu me aproximei mais, estreitei este laço, eu começo a criar uma confiança com o outro. Quando eu me afastei, porque eu percebi que este vínculo era nocivo, eu reafirmei a confiança em mim mesmo. Quando eu percebo que está havendo esta relação, está se formando, está se criando um vínculo e eu passo a reconhecer o formato desse vínculo, o teor desse vínculo. Se ele pode ser saudável ou nocivo. Eu não vou decidir me aproximar ou me afastar, eu vou avaliar e tomar uma atitude. Não tem decisão! Se eu decidir me aproximar, mesmo percebendo que é nocivo, eu estou iludido. E aí, essa decisão é um desdobramento da ilusão. Por outro lado, a mesma coisa. Se eu percebo que ali é uma possibilidade de criar um vínculo afetivo saudável e mesmo assim eu me afasto, eu decido me afastar. Também está havendo aí uma ilusão. Porque talvez eu não me sinta merecedor de estar num vínculo saudável. A questão central da responsabilização não passa pelo querer, não passa por eu não quero me responsabilizar. Na realidade, ele nunca teve alguém que foi responsável por ele e hoje ele não consegue se responsabilizar por si mesmo e por nada mais. Uma criança que teve que aprender a se responsabilizar por si mesmo muito cedo, ela não aprendeu a se responsabilizar, ela aprendeu a se virar, ela aprendeu a dar um jeito para continuar vivendo. Porque, a gente só aprende a se responsabilizar por nós mesmos a partir da responsabilização do outro. Quando eu percebo que meus pais se responsabilizaram por mim, eu aprendo a me responsabilizar por mim mesmo e passo a me responsabilizar pelas minhas ações, pelos meus atos. Nunca se responsabilizaram por mim, eu não aprendi a me responsabilizar por mim mesmo e não me responsabilizo por nada. Eu só me importo com aquilo que me é conveniente, que possa me trazer um benefício, que possa me dar uma recompensa. Esta é a máxima da sociedade contemporânea. Quando os pais não permitem que os filhos se desenvolvam e aprendam a se responsabilizar por si mesmo, eles têm um benefício com isso. Eles estão se tornando essa pessoa patologicamente dependente deles e se beneficiando disso. Estão garantindo ali, que não vão ser abandonados. Esses filhos não vão querer sair de perto deles. A fonte não seca e eles não têm que buscar água em qualquer outro lugar e eles com medo de abandono estão garantindo que não serão abandonados.



sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Participação no Podcast Frequência Elevada - Prof. Renato Dias Martino




O QUE É PSICANÁLISE?


Uma definição legal da psicanálise é: Um recurso para se aprender a conviver com aquilo do qual não está de acordo com a minha expectativa. Então, muitas vezes, a gente se depara com a realidade e esta realidade não condiz com o meu desejo, então, a psicanálise é um recurso para que você possa aprender a lidar com esse desconforto que a realidade traz e que não coincide com aquilo que a gente gostaria que fosse.

ACEITAR

O aceitar ele é passivo. O aceitar, ele te leva para um lugar de comodidade, de comodismo, melhor dizendo. Então, talvez a gente pudesse usar a palavra respeitar, aprender a respeitar a realidade. Porque, aceitar a gente não vai aceitar e se a gente aceitar, a gente entrou num âmbito patológico. Todas as vezes que você aceita alguma coisa é porque você olha para aquilo e perdeu a esperança de qualquer transformação. Entendi! Olha só, eu não tinha pensado para esse lado. Por isso que eu tinha falado até “aceitar”. Realmente, quando a gente aceita algo está tudo certo. Aceito, então já... Pois é. Se acomoda e fica ali. Seria meio que ficar na zona de conforto. Pois é, é isso mesmo.

INCONSCIENTE 

Quais são as principais os principais conceitos da teoria psicanalítica? Assim... A psicanálise foi criada pelo Freud, Sigmund Freud. Foi ele que criou, mesmo? Ele que criou, ele que elaborou esta psicoterapêutica que hoje a gente chama de psicanálise. Os conceitos, o conceito fundamental da psicanálise é o inconsciente, a parte inconsciente da mente, isso é o esteio da psicanálise. A psicanálise está estruturada nisso. Onde você encontrar e inconsciente, você tem um viés psicanalítico.

DIFÍCIL É ADMITIR

Se você me permitir só fazer uma introduçãozinha. Assim, a psicanálise ela criou um ranço vocabulário particular e que traz uma complexidade do leigo entender isso é extremamente nocivo. A psicanálise é algo que precisa ser acessível a qualquer um. Então, entender psicanálise não é difícil, o difícil é admitir aquilo que a psicanálise traz.

ID, EGO E SUPEREGO

Id, ego e superego. Tem como falar para gente, explicar melhor isso para gente? Como que a gente como que a gente consegue entender isso aí? Vou explicar para você rapidamente o que o Freud chamou de segunda tópica, que é o modelo estrutural da mente. A personalidade se estrutura a partir dessas três instâncias. O id é a parte animal do ser humano, é a parte indomada, é aquilo que vem puro como uma vontade, como um instinto de impulsionar o sujeito em direção a as coisas da vida. Básico. Quando age por impulso. Seria dentro desse id? Seria a força do id. O id é puramente fome, é necessidade sexual... O id é aquilo que está numa num limiar do corpo para o psíquico. O superego é uma instância que é censora. O superego é aquilo que traz o “não”. Estabelece um deveria ser e o ego é aquilo que eu “estou sendo”. O ego é isto que eu estou sendo. Agora, todas as vezes que eu falar de ego, eu estou falando para você de algo que é fluxo e constante construção. Id, vontades instintuais, superego, instância censora, que determina o que eu deveria ser e ego aquilo que eu estou sendo. O ego é aquilo que eu estou sendo e o superego é aquilo que eu deveria ser. Então, todas as vezes que eu não... Esse deveria seria o que eu gostaria de ser? O que eu gostaria, o que a sociedade... Quando a gente pensa assim: poxa eu gostaria de ser assim, eu gostaria de fazer tal coisa, mas não consigo fazer... Isso, isso, isso... Isso comandado pelo superego. É um “ideal de eu”. Todas as vezes que você não está confiando no seu ego, que é aquilo que você está sendo, o que vai te guiar é o seu “ideal de eu”. Quando eu estou confiando e quando eu estou reconhecendo e respeitando aquilo que eu estou sendo o espaço do superego na minha vida é muito pequeno. Se aquilo que eu estou sendo me basta aquilo que eu deveria ser não me importa tanto. Se a gente tem muita coisa que deveria ser seria ruim? Se você estabelece muito o que você deveria ser é porque você não está contente com aquilo que você está sendo.

FILOSOFIA

Tem um pouco de filosofia nisso. Ah! com certeza! O Bion que é um psicanalista contemporâneo que eu gosto muito, ele diz assim, que “a psicanálise é a praxes de uma certa filosofia”. A diferença da filosofia e da psicanálise é a aplicabilidade.

CONVECER

Quando a gente fala assim para alguém: “Ah! Você precisa, de repente, você passar por um psicólogo, um psiquiatra, a pessoa fala assim: ah! Eu não estou louco! Ah! eu não preciso disso!” Existe esse tipo de é um preconceito? Existe sim, existe sim, Marlon. Mas, assim ó: a psicanálise que eu acredito é aquela em que o sujeito vai espontaneamente. Que ele percebe que ele precisa e ele vai. Como que a gente consegue convencer uma pessoa de que isso não é ruim, pelo contrário... Se você precisa se você precisar convencer uma pessoa ela já ela não está pronta para isso. Não está preparada. Até porque, eu acredito que tentar convencer alguma a pessoa de alguma coisa é um desrespeito. Não é função da psicanálise convencer ninguém de nada. A psicanálise pode ajudar no tratamento de problemas emocionais e mentais? Recurso por excelência. A psicanálise pode ajudar muito, se o sujeito estiver disponível para isso. Ele precisa estar disponível. Se ele tiver disponível, a psicanálise é um recurso muito bom para isso. Talvez o melhor. Tenho vinte anos de prática da psicanálise e tem história belíssimas para te contar.

PSICÓLOGO, PSIQUIATRA E PSICANALISTA

Psic-logos = psicologia. Psique é a mente é o funcionamento do sujeito que não está no corpo físico. Eu tenho um corpo físico e eu tenho uma coisa além. Eu tenho uma instância além do corpo físico. Isso a gente vai chamar de psique. Logos é conhecimento. É aquele sujeito que é se propõe a conhecer sobre a psique. Este é o psicólogo. Psiquiatra é uma especialidade da medicina que se propõe a medicar um sujeito que tenha uma patologia mental. Ele vai trabalhar essencialmente, com medicamentos. Medicação. Apesar de que, se você me permitir um adendo aqui, hoje existe uma área da psiquiatria que se deslocou do tratamento de doentes mentais, de pessoas que têm problemas psíquicos e precisam de medicação, mas criou-se uma psiquiatria estética. Sabe o que é isso? Não faço ideia. A psiquiatria estética é aquela que se ocupa de recolocar focar o sujeito no convívio social. Então, se o sujeito por exemplo, apresenta algum funcionamento que destoa do que é socialmente aceito, ele começa a se medicar para se formatar novamente para esse convívio social. Na realidade, a gente está falando aqui de um sujeito que está sendo medicado para satisfazer o olhar social e aí a gente pode chamar esse remedinho que dão para ele de “fica quietinho pra gente gostar de você”. Está acontecendo muito em todas as instâncias, né? Não é? E aí, vamos falar da psicanálise. A psicanálise não é psicologia, a psicanálise não é psiquiatria, a psicanálise se presta a criar um ambiente saudável o suficiente para que o sujeito possa permitir que aquilo que esteja incomodando possa emergir para ser tratado para ser cuidado. E a psicanálise não busca saber, como um psicólogo. O psicólogo quer saber, o psicanalista não quer saber. Não é função do psicanalista saber sobre, mas é função do psicanalista “estar sendo” em relação. Uma coisa é o saber sobre você, outra coisa é estar sendo em relação a você. Quando eu estou sendo em relação a você, eu crio um ambiente emocional que propicia um crescimento, uma expansão, uma maturação. A gente precisa viver experiências juntos, experiências que possam propiciar reparação emocional. Estar ali, num ambiente emocional-afetivo sem julgamento, sem crítica, sem bajulação, sem tentativa de convencimento, ou sedução. Isso é terapêutico.

ÉDIPO

A gente falou você falou também aqui sobre o Freud e sobre o complexo de Édipo. Pode explicar um pouquinho para gente, o que é isso? À princípio, quando o Freud apresentou o complexo de Édipo, ele foi execrado pela classe médica, pela classe dos pensadores da época. Porque, ele trouxe assim: o filho quer se apossar da mãe e quer matar o pai. Essa é a história do Édipo. O Édipo foi um sujeito que matou o pai e casou-se com a mãe, na mitologia grega de Sófocles que é o autor do Édipo. Essa é a história e isso é vido por cada um de nós. O bebê quer ficar com a mãe só para ele. Tanto o menino, quanto a menina. Ele quer a mãe para ele. Só para ele. E quando o pai entra, o pai é um intruso e qualquer intruso que possa entrar ali, para estragar aquele paraíso que ele vive, entre ele e a mãe, vai ser, tem que ser exterminado. Não é? Aniquilado! Então, esta é a proposta inicial do Freud. Este é o complexo de Édipo do Freud. Mas, vai muito para além disso. Essa estruturação do Édipo, traz assim, um sujeito um objeto de desejo e um opositor a se conseguir esse objeto de desejo. O que que você faz quando você deseja muito uma coisa e tem alguma coisa que te impede de conseguir esta coisa? Você tenta tirar aquilo que está te atrapalhando. A nossa vida cotidiana é um grande complexo de Édipo.

RELACIONAMENTO TÓXICO 

Como que seria esse relacionamento tóxico que você citou ali? O relacionamento tóxico, o Marlon, ele se configura sempre quando eu me relaciono com o outro, não como sendo outro, como sendo uma outra pessoa, que tem sua autonomia, que tem suas vontades, tem seus desejos, mas eu me relaciono com o outro, como se ele fosse uma extensão do meu desejo. Quando eu não consigo reconhecer o limite entre o eu e o outro. Quando esse limite não é reconhecido, não é respeitado e não há uma responsabilização, se instala uma relação tóxica. Vamos criar um casal aqui? Para gente resolver a situação desse casal, qual seriam os passos? Teria algum passo a passo, teria alguma coisa que eles podem fazer? É assim, para se resolver essa questão um desses dois precisa despertar para aquela situação nociva. Precisa haver um despertar do sujeito e esse despertar é de dentro para fora, não é de fora para dentro. Na psicanálise não acreditamos em qualquer intervenção que venha de fora. Tudo precisa vir de dentro. É por isso que eu disse, precisa ser um ambiente saudável o suficiente para que aquilo que está dentro, possa vir para fora. Essa pessoa precisa conseguir enxergar o que ela está fazendo isso. Cinco passos. Um, perceber que está acontecendo alguma coisa, dois, reconhecer que isso realmente está acontecendo. Perceber é uma coisa, reconhecer é admitir que realmente aquilo está acontecendo. Terceiro passo, aprender a respeitar isso, quarto passo, se responsabilizar por isso que está acontecendo. Quando o sujeito se responsabiliza, começa a transformação e a transformação vai se dar de uma maneira mais bem sucedida, por assim dizer, se ele estiver sendo auxiliado por alguém qualificado. No caso, um psicanalista.

ESCOLHAS 

Decisão é quando você tem escolha. Você tem opções, atitude, o caminho é um só. Eu posso ficar parado, ou ir. Então, atitude é uma coisa, decisão é outra. Decisão, eu tinha opções, atitude não tem opção, eu só estou esperando o meu momento adequado para agir. Tomar coragem para vir fazer isso. Isso! Coragem! Essa palavra é magnífica. Cor-agem! “Cor” é coração e “agem” é ação. Agir pelo coração. Então, eu preciso estar preparado para agir com o coração e aí, não tem escolha. Que top! E aí, não tem escolha Marlon. E aí, é assim é capacidade, é desenvolvimento. Quanto mais maduro emocionalmente você fica, menos escolha você tem. Você vai e faz. Você vai e faz, porque você percebeu que aquele é o caminho. Eu gosto muito do vértice místico-religioso, das formulações religiosas. Porque, auxilia demais na prática da psicanálise. Deus nos dá o livre arbítrio. Deus nos dá a faculdade da escolha. Mas, para que que ele dá? Ele dá para que a gente possa viver experiências, para reconhecer que, na verdade é a vontade Dele que prevalece e não a tua. Desempenhando o seu livre arbítrio, você está iludido, você está envolvido com as questões materiais e mundanas. Quando você está de acordo com a realidade, você está no caminho Dele. Seja feita a Vossa vontade e não a minha. Isso te conduz para o caminho que é um só. O acordo com a realidade.

LUTO

Qual que é a importância do luto? Para o pessoal aqui, realmente saber. Fundamental! Vamos voltar no Complexo do de Édipo? Vamos! Então, assim óh! Um desdobramento saudável, a criança começa a perceber que a mamãe é do papai e não minha. Isso leva a criança a viver um luto. Todas as vezes que você reconhece e aprende a respeitar aquilo que você perdeu, você vive um luto. Quando a gente não respeita esse processo, a gente vai acumulando lutos não elaborados e é isso que leva o sujeito a cair naquilo que, contemporaneamente a gente chama de depressão.

DEPRESSÃO

Na psicanálise o que seria depressão? Depressão, na realidade, é todo o movimento de introjetar, interno. Quando você se deprime é porque você se entristeceu, porque você se desinteressou do mundo externo, por assim dizer. As coisas do mundo perdem a graça e você se volta para dentro. Isso é saudável. Você precisa viver isso. Cada vez que você vive uma frustração, é importante que você se retire do mundo externo para viver uma elaboração disso que você se desiludiu. Isso vai te levar à um acordo com a realidade. Mas o sujeito pode viver duas situações que vão levar ele a uma depressão patológica, que não é essa que eu estou te dizendo. A primeira é quando ele viveu com aquilo que foi perdido, uma relação nociva, que não tenha sido saudável, quando você viveu uma relação nociva com alguém e você perdeu este alguém, você cai numa depressão patológica. Porque, o que fica são lembranças ruins. A depressão, realmente, é ficar revivendo o passado. Isso mesmo! E aí, você cai nisso que o Freud vai chamar de melancolia. Mas tem uma outra forma de você cair, patologicamente, em depressão. Quando você é impedido de viver os lutos cotidianos da sua vida. Quando você foi perdendo coisas e você não pôde se retirar para viver o luto dessas coisas e teve que continuar trabalhando, continuar sorrindo, continuar fazendo as coisas que você tinha que fazer, porque existia uma demanda social que você precisava cumprir. Você vai acumulando esses lutos e uma hora você não aguenta mais e cai em depressão patológica.

ANSIEDADE

E ansiedade? Ansiedade é gerada por um “deveria ser”. Quando você estabelece alguma coisa que você tem que ser, que você deveria ser e você não está de acordo com aquilo que você está sendo. É aquilo que te cobra, que te exige de ser alguma coisa, de fazer alguma coisa, que muitas vezes não está no seu alcance. E onde tem cobrança, ou exigência não pode ter a saúde nos vínculos. Nem do eu com o outro, nem do eu com ele mesmo. Quando a gente não confia na gente mesmo, a gente abre essa brecha.

CONFIAR

Como que a gente consegue uma confiança na gente mesmo? Autoconfiança só pode se desenvolver a partir da confiança do outro. Quando alguém confia em mim eu consigo ter autoconfiança, é isso? Isso! O Marlon convidou o Professor Renato para o podcast, eu confiei no Marlon, a partir da minha estada aqui você passa a confiar mais em você. Cada um que você convida e confia em você, você vai ficando, cada vez mais autoconfiante. Não adianta vir falar que tem técnica. que tem autoajuda, livro disso, aquilo. Não existe! A autoconfiança é originada da confiança do outro. Não tem outro lugar. O que é confiança? Toda a palavra que tem o radical, no latim e tem “com” no prefixo, quer dizer “junto”. E fiança é fiar. Eu fio com você e você fia comigo. Confiança é vínculo, eu fio daqui e você fia daí. Eu acredito em você, você acredita em mim e isso faz com que a gente cresça.

EXPECTATIVA 

Quando eu posto alguma coisa na rede social, eu não estou querendo um resultado, eu já estou postando o resultado. Então, isso é muito interessante. Quando você faz alguma coisa sem expectativa de resultado, o resultado vem. A expectativa é a mãe da frustração.




quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

INVESTIGAÇÃO, CONFUSÃO E COMPAIXÃO - Prof. Renato Dias Martino



Na literatura psicanalítica vamos encontrar a palavra investigação amiúde. Vamos encontrar a palavra investigação em Freud, em Melanie Klein, em Winnicott, em Bion... Não é função do psicanalista, que esteja praticando a psicanálise do acolhimento, a investigação.

INVESTIGAÇÃO

Não somos investigadores, não temos a função de investigar a vida do paciente. Não temos a função de investigar o funcionamento do nosso paciente. Isso é uma falácia, não funciona. Nós somos acolhedores. Não vamos escarafunchar a vida do paciente. Tudo aquilo que a gente precisa, emergiu espontaneamente por conta de um ambiente livre de críticas e bajulações. A nossa função é criar um ambiente saudável o suficiente para que, aquilo que precisa ser repensado, aquilo que precisa ser acolhido, possa emergir espontaneamente. Não é nossa função, ficar penetrando no funcionamento do paciente. Isso é um desrespeito. Corajosamente, estou aqui, novamente, tentando repensar elementos que são frequentes na literatura psicanalítica. O analista que fica procurando nas redes sociais a vivência dos pacientes por exemplo. Esse é um absurdo! Investigando o Facebook do sujeito, investigando o Instagram dele. Mas, não precisa fazer isso, pode ser, por exemplo, na própria sessão. Ficar com curiosidades para saber mais sobre aquilo que o paciente está falando. Não é função do analista a curiosidade. Eu estou ali para conter. Eu sou um facilitador para que o paciente possa se sentir à vontade o suficiente e permitir que os elementos possam emergir durante a análise e aí eu vou acolher. Você investiga um crime e eu não estou ali frente a um criminoso. A ideia de investigação é persecutória. O analista investigador é aquele sujeito que está ali, de uma maneira perseguidora. Está procurando qualquer coisa que o paciente fale e que possa contradizer alguma outra coisa que ele disse, para que eu possa pegá-lo e apontar. Não! Não é isso.

PERDIDO NA FLORESTA

Eu costumo comparar o processo psicoterapêutico com um sujeito que está perdido na floresta. A função do analista é estar junto com ele, perdido na floresta, não é mostrar o caminho para sair da floresta. Seu analista que é capaz de subir na árvore para olhar longe na floresta, para ver e te falar lá embaixo: “Olha, ali tem um rio ó... Lá tem uma estrada...” Ele não vai dizer: “Ó! O caminho é por aqui.” Mas ele vai te dar um panorama daquilo que está acontecendo na floresta. Porque, o caminho para sair da floresta do psicanalista não é o mesmo caminho de sair da floresta do paciente. Você está perdido na floresta sozinho é uma coisa e você está perdido na floresta junto com o seu analista é outra coisa.

COMPAIXÃO OU CONFUSÃO 

A compaixão é um elemento fundamental de um psicanalista, dentro da perspectiva do acolhimento. Com-paixão – “com”, quer dizer junto e “paixão”, nesse sentido, quer dizer sofrimento, sentimento. Este termo paixão é o mesmo que dá origem à palavra paciente. Paciente é o sujeito do sofrimento, o sujeito do sentimento, que será acolhido pelo analista. Então, o analista precisa estar junto do paciente no seu sofrimento. Isso é compaixão. Estar junto do outro no sofrimento. Para que isso possa acontecer, o analista precisa estar muito bem com o seu funcionamento e muito bem consigo mesmo. Acolhendo a si mesmo, tendo compaixão consigo mesmo, porque senão, o que vai acontecer é uma confusão. O analista se confundir com o paciente na sua dor. Confundir a sua dor com a dor do paciente não é compaixão, é confusão. E aí, você não pode ajudar seu paciente, porque você está confundido com ele.