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terça-feira, 25 de março de 2025

ANSIEDADE E ANGÙSTIA - Prof. Renato Dias Martino


TEMPO E ESPAÇO

Angústia quer dizer aperto. Aperto remete a espaço. Espaço apertado. Um aperto no peito é chamado de angústia. Quando a gente fala de ansiedade, nós estamos falando de um conceito que leva a uma experiência relacionada a tempo. Espaço e tempo. Angústia leva a noção de tempo, de um tempo curto, ou de um tempo que não vai ser suficiente para se fazer aquilo que precisa ser feito. Então, o sujeito ansioso é aquele sujeito que tem a impressão de que não dará tempo de fazer qualquer coisa. A ansiedade leva o sujeito para fora, a angústia leva o sujeito para dentro.

DOIS LADOS

Não existe um sujeito que sofre somente de angústia. E não existe um sujeito que sofre somente de ansiedade. O sujeito que tem as ditas crises de ansiedade é o momento onde ele está mais ansioso, mas esta ansiedade logo dará lugar para um sentimento de angústia. Então, o sujeito quando ele deseja alguma coisa ele se sente ansioso. O sujeito quando ele se frustra porque não conseguiu esta coisa ele se sente angustiado. Então, o desejo gera ansiedade e a frustração gera angústia.

DESEJO E FRUSTRAÇÃO

Quando eu não consigo as coisas, eu fico angustiado. Quando eu desejo alguma coisa, quando eu tenho vontade de alguma coisa, eu fico ansioso. Eu me frustrei, sinto um aperto. Eu desejei, tive vontade, eu tenho ansiedade, porque parece que não vai dar tempo, eu quero logo aquilo.

O QUE O OUTRO ESTÁ SENTINDO

A função do psicanalista não é dizer o que o outro está sentindo, mas é propiciar um ambiente seguro saudável o suficiente para que o outro possa se sentir à vontade, seguro o suficiente para trazer aquilo que ele esteja sentindo. Eu não posso dizer o que que o outro está sentindo. Eu não tenho meios para avaliar o que o outro está sentindo. O que eu posso fazer é propiciar um ambiente para que ele se sinta confiante o suficiente para trazer aquilo que ele está sentindo.



domingo, 29 de setembro de 2024

DESAPEGO E VONTADE - Prof. Renato Dias Martino


DESAPEGO


Toda a configuração da prática do desapego, e quando eu falo prática do desapego aqui, nós estamos falando diretamente do intuito da própria psicanálise, porque a psicanálise propõe essa ideia de se desapegar. São inúmeras formas de se dizer isso, uma delas por exemplo está proposta lá em 1917 no LUTO E MELANCOLIA, que é ser capaz de viver o processo do luto e aqui nós estamos chamando de desapego. Então, a proposta do desapego coincide com a proposta psicanalítica. Esta proposta tem um desafio que é a vontade. A vontade que, na medida em que não é satisfeita no seu tempo, na medida que não é cumprida, suprida no seu tempo adequado, vai se desdobrar em desejo. Um sujeito que está saudável, que está funcionando de maneira saudável é aquele que é capaz de se desapegar, é aquele que é capaz de renunciar dos seus desejos e capaz de adiar suas vontades. Isso se configura num fluxo do desenvolvimento emocional e afetivo.


VONTADE


Quando a gente fala de vontade, a gente está falando daquilo que ao mesmo tempo que é a manifestação da vida, também é aquilo que pode obstruir o próprio fluxo da vida. Muitas vezes, a manifestação da vontade atenta contra a própria vida do sujeito. Ele, muitas vezes, está com tanta vontade que ele, por si só, pode se colocar em uma cilada. Um Bom exemplo disso é quando a molecadinha, lá no sítio, arma uma arapuca para pegar passarinho. A arapuca está cheia de milho para que o passarinho possa se alimentar e é justamente a vontade de viver que leva o passarinho buscar o milho. E esta vontade de viver faz com que ele caia na arapuca. Então, a vontade de viver é também aquilo que leva sujeito, muitas vezes, para a própria morte.


DESEJO


Essa ideia do desejo, ela é extremamente polêmica, principalmente dentro de outras escolas aí, por exemplo, dentro da escola lacaniana. Vou ser bem sincero, tenho um conhecimento extremamente limitado das propostas do Lacan, mas me parece que ele trata, os lacanianos tratam da ideia de desejo diferente da forma como nós tratamos aqui. Nós tratamos aqui o desejo como algo que não é necessário, mas que ainda assim, o sujeito quer. Então, quanto mais o sujeito for capaz de se desapegar, renunciar desse desejo, mais ele vai estar de acordo com a realidade, que está configurada naquilo que é necessário.

NECESSÁRIO


A vontade é genuinamente do sujeito. O sujeito tem vontade de alguma coisa e isso diz respeito à sua necessidade básica. O desejo diz respeito à interferência, ou a contaminação do que o outro quer. Então, vontade é básica, a vontade se manifesta através do corpo, por conta de necessidades básicas. E aí, o Schopenhauer nos orienta muito bem, lá no MUNDO COMO VONTADE DE REPRESENTAÇÃO. O desejo já é algo que se elegeu um objeto substitutivo para tentar suprir algo que não foi adequadamente suprido no nível da vontade.


REPRIMIDO


Existe um instinto e o instinto está ali, assim como o Freud nos orientou, está ali na barreira entre o somático e o psíquico, entre o somático e o psíquico, entre a carne e a mente. De início é uma manifestação orgânica que nós vamos chamar de instinto. Então, o instinto está ali naquela barreira, o instinto se manifesta pelo corpo, mas já não é mais do corpo. O corpo é o soma, o corpo são manifestações orgânicas. O instinto já transcende o orgânico. Primeiro o instinto. O instinto está ali, na barreira do somático e do psíquico. Este instinto vai se manifestar através da pulsão. A pulsão é algo que acontece por conta da demanda instintiva, ou instintual, melhor dizendo. Esta pulsão vai gerar o que a gente vai chamar de impulso. Então, o impulso é a ação da pulsão. Este impulso vai ser a ação em direção a um possível objeto que possa vir suprir a demanda do instinto. Quando essa satisfação não acontece o impulso retorna. E aí, a gente vai chamar de reprimido. Por quê? Porque não houve a satisfação, não houve o suprimento da demanda do instinto. Retorna este impulso. E aí, a gente vai chamar de impulso reprimido. Este impulso reprimido agora não vai mais se satisfazer com o objeto original, ele vai eleger um outro objeto para satisfazê-lo. Este outro objeto é um objeto de desejo, não mais um objeto de vontade, que seria a demanda do instinto.


NASCE UM DESEJO


Para que se desenvolva o desejo é necessário ter havido a repressão. Reprimiu-se a vontade e agora a vontade já não se satisfaz mais com o objeto original, mas agora, precisa de algo a mais, para ser supostamente satisfeito. Porque não vai ser satisfeito. Desejo nunca se satisfaz, o que se satisfaz é a vontade. O sujeito que deseja, ele quer sempre mais. A vontade se satisfaz até que haja novamente a sua demanda.


AMBIENTE 


Quando o Winnicott propõe a mãe ambiente, ele está propondo a mãe, não como outro, mas como o ambiente. Ela vai dar conta da demanda das necessidades. Ela vai dar conta da demanda da vontade e se ela der conta disso, tanto menor vai ser a geração de desejos. Quando ela não é capaz de suprir essas necessidades, quando ela não está sendo suficientemente boa, ele começa a desenvolver desejos, porque a vontade não foi satisfeita. Então ele começa a vincular aquela vontade à relação com o outro que já não é mais ambiente, mas é realmente um outro. Então ele precisa fazer alguma coisa para que esse outro venha suprir isso. E aí, já não é mais vontade é desejo.


PULSÃO DE VIDA 


Quando Freud propõe pulsão de vida, ele está ali, se baseando na ideia de vontade do Schopenhauer, falando sobre a manifestação do instinto, daquilo que é mais primitivo no ser humano. Então, não tem a ver com desejo. Quando isso não é satisfeito, começa a se desenvolver o desejo que já não é mais básico, mas que já tem uma contaminação de algo a mais do que a satisfação da necessidade básica.


VORACIDADE


A voracidade é uma expressão do desejo. Quando a criança começa desenvolver voracidade é porque ela não foi satisfeita, ou não foi suprida no tempo adequado, aí ela começa a ter vontade para além da conta. E aí, se torna desejo. O Winnicott vai falar assim, que a criança alucina o seio e a mãe encaixa o seio real na alucinação do bebê. Quando essa alucinação que o bebê tem do seio não é suprida no seu tempo, esta alucinação cresce. A vontade não foi satisfeita e começa a crescer, então aquela vontade que gerou uma alucinação x, agora é x elevada a tanto. Aquele seio que vai se encaixar nessa alucinação já não vai mais suprir, porque essa alucinação já virou um desejo.


SUJEITO DESEJANTE


Então a gente vai partir da ideia do objeto. O que é um objeto? Ser um objeto é ser alguma coisa que alguém deseja. Objeto é algo que é desejado. O bebê precisa ser um objeto desejado. Ele precisa ser alguma coisa que o outro deseja. Um objeto precisa ser desejado para que ele possa se mover. Um vaso é um objeto. Se alguém não desejar esse vaso, ele vai ficar esquecido lá. Então, eu preciso desejar o vaso para que o vaso saia do lugar. Eu desejo o vaso, eu pego o vaso e levo pra minha casa. Quando o sujeito vai se desenvolvendo emocionalmente, ele deixa o lugar de objeto desejado para sujeito desejante ele passa a desejar. A maioria das escolas psicanalíticas acabam a história aí. O sujeito é um sujeito desejante, está ótimo! Não! Não está ótimo. Agora ele precisa se qualificar para ser capaz de renunciar do seu desejo. Aí sim, ele está aberto. Aí sim, ele desobstrui o caminho do acordo com a realidade. Porque a realidade existe independente do seu desejo e se você continuar sendo um sujeito desejante, você não vai conseguir entrar num acordo com a realidade, que existe independente do seu desejo.


RENÚNCIA


No senso comum a gente vincula a ideia de liberdade à possibilidade de satisfazer os desejos, mas na realidade, a verdadeira liberdade é ser capaz de renunciar dos desejos, de não satisfazer os desejos. Ser capaz de tolerar que o seu desejo não vai ser satisfeito. Para quê? Para que você possa investir a sua libido na necessidade básica, na vontade, naquilo que realmente vai te trazer enriquecimento para o fluxo da sua vida. Então, a liberdade não está em satisfazer desejos, mas está em ser capaz de investir naquilo que é necessário.


ESCOLHA


Se a gente estiver falando de vontade, não tem escolha, o caminho é um só. Você pode até adiar, mas não tem como escolher você não tem como escolher se alimentar ou não, mas você pode adiar a alimentação. O desejo tem escolha. Você pode escolher ou não. Eu posso escolher por exemplo até não suprir a minha vontade e tentar realizar o meu desejo. Vou ter um prejuízo com isso, mas o livre arbítrio está ali. Para que eu possa, talvez reconhecer que, quando eu estou satisfazendo o meu desejo, eu tenho prejuízo da minha necessidade básica. E aí, eu aprendo com a experiência e percebo que o caminho é um só não são dois.


QUERER


A semântica da palavra vontade, ela diz respeito a querer. Querer está ligado tanto à vontade, quanto ao desejo. Quem deseja quer alguma coisa e quem tem vontade também quer alguma coisa. Querer é a base, mas esse querer é de desejar ou de ter vontade. Se for de ter vontade é necessidade básica, se for de desejar é alguma coisa que não é necessário.


TOLERAR


A vontade, ou o desejo geram ansiedade. Ansiedade é ânsia, busca. Quando eu sou frustrado nisso que eu fui buscar, eu sinto angústia. Angústia diz respeito à frustração. Quando eu estou falando de adiamento da vontade, ou de renúncia do desejo, nós estamos falando de ser capaz de tolerar a frustração, de ser capaz de tolerar a angústia gerada por não conseguir aquilo que se buscava. Eu preciso me tornar capaz de renunciar, ou adiar. Renunciar se for desejo e adiar se for vontade. Se eu conseguir isso, eu vou conter essa ansiedade e aí, eu inclusive, posso até direcionar para alguma outra coisa mais adequada, ou suprir essa vontade num momento mais adequado.


TROFÉU 


O sujeito, quando está com sobrepeso, quando ele está mais gordo do que o saudável, isso quer dizer que está havendo uma obstrução na vontade de viver. Quando você está pleno na sua vontade de viver, o seu corpo está adequado ao fluxo da sua vida. Então, emagrecer dentro da vontade de viver é se adequar ao peso que vai te trazer a possibilidade do fluxo da sua vida. Agora, muitas vezes, o sujeito tem uma configuração mais fofinha, o sujeito tem uma configuração natural mais gordinha, por conta de inúmeros fatores hereditários, inúmero... isso não é, de maneira alguma, nocivo. Mas, o que acontece? Existe um padrão social de beleza e quando esse padrão fala mais alto, o sujeito começa a questionar a sua configuração corpórea para se adequar a este modelo. Aí já não tem a ver com vontade, aí tem a ver com desejo, aí tem a ver com o desejo de se adequar àquilo que é o desejo do outro. Então, eu preciso ser de uma forma ou de outra, para ser desejado pelo outro. Quando estou falando de uma adequação da saúde, nós estamos falando da vontade. E aí, você pode realmente adiar o emagrecimento, mas você não pode renunciar, porque senão você morre. Você vai engordando até morrer, até uma obesidade mórbida. Agora, quando você é fofinha, sempre foi desde menininha, a tua mãe é fofinha, todo mundo da tua família tem, mais ou menos esse estereótipo e você por algum motivo, por alguma experiência malsucedida, não conseguiu reconhecer a si mesmo e se contentar com o seu corpo e começa a estabelecer um ideal de corpo que a sociedade pregou, então, você está desejando ser de outra forma, então isso não é simplesmente adiar o emagrecimento, mas é renunciar a esse emagrecimento. Porque, por mais que você seja fofinha, você está saudável e muitas vezes, qualquer tipo de dieta, ou de exercício excessivo, vai fazer muito mais mal do que continuar sendo fofinha e linda como você é. Uma cilada! Porque, um sujeito que procura uma mulher com o corpo no padrão pré-estabelecido da sociedade, ele não está disposto a se aproximar de uma mulher para amá-la, mas ele quer um troféu para mostrar, para exibir a mulher. Quer se tornar bela para ser desejada pelo outro e o homem quer uma mulher bela para ser desejado pelo outro por ter essa mulher bela. Uma sociedade podre! Uma sociedade nociva, que só pega os desavisados, que só pega os estruturados, que só afeta o sujeito que não está sendo capaz de reconhecer a si mesmo, que não está de bem consigo mesmo.


TEORIA


Nós estamos aqui tentando refletir. Ninguém aqui está tentando colocar uma verdade acabada, ou saturada. Até porque, isso aqui é uma formulação nova, nós estamos formulando agora. Ah! Mas onde é que eu encontro isso, na literatura? Eu não sei! Sinto muito! Vou ficar devendo para vocês. Se não estiver fazendo sentido através da nossa reflexão, passa o vídeo, não precisa assistir. Não tem problema. Agora, se estiver fazendo o sentido, ótimo, vamos pensar juntos. É muito mais interessante que a gente possa, através das nossas experiências, refletir sobre o que a gente está chamando de instinto, sobre o que a gente tá chamando de pulsão, do que a gente tá chamando de desejo, ou de vontade, do que revisar literaturas. É muito importante que a gente possa reconhecer esse desencadeamento que vai do corpo até a alma. Não por uma especulação teórica, ou literária, mas por conta de algo que você reconhece no seu próprio funcionamento. Isso é muito mais importante do que qualquer leitura teórica, seja desde Kant, Schopenhauer, Platão, até Bion. ou qualquer outro contemporâneo.





sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Participação no Podcast Frequência Elevada - Prof. Renato Dias Martino




O QUE É PSICANÁLISE?


Uma definição legal da psicanálise é: Um recurso para se aprender a conviver com aquilo do qual não está de acordo com a minha expectativa. Então, muitas vezes, a gente se depara com a realidade e esta realidade não condiz com o meu desejo, então, a psicanálise é um recurso para que você possa aprender a lidar com esse desconforto que a realidade traz e que não coincide com aquilo que a gente gostaria que fosse.

ACEITAR

O aceitar ele é passivo. O aceitar, ele te leva para um lugar de comodidade, de comodismo, melhor dizendo. Então, talvez a gente pudesse usar a palavra respeitar, aprender a respeitar a realidade. Porque, aceitar a gente não vai aceitar e se a gente aceitar, a gente entrou num âmbito patológico. Todas as vezes que você aceita alguma coisa é porque você olha para aquilo e perdeu a esperança de qualquer transformação. Entendi! Olha só, eu não tinha pensado para esse lado. Por isso que eu tinha falado até “aceitar”. Realmente, quando a gente aceita algo está tudo certo. Aceito, então já... Pois é. Se acomoda e fica ali. Seria meio que ficar na zona de conforto. Pois é, é isso mesmo.

INCONSCIENTE 

Quais são as principais os principais conceitos da teoria psicanalítica? Assim... A psicanálise foi criada pelo Freud, Sigmund Freud. Foi ele que criou, mesmo? Ele que criou, ele que elaborou esta psicoterapêutica que hoje a gente chama de psicanálise. Os conceitos, o conceito fundamental da psicanálise é o inconsciente, a parte inconsciente da mente, isso é o esteio da psicanálise. A psicanálise está estruturada nisso. Onde você encontrar e inconsciente, você tem um viés psicanalítico.

DIFÍCIL É ADMITIR

Se você me permitir só fazer uma introduçãozinha. Assim, a psicanálise ela criou um ranço vocabulário particular e que traz uma complexidade do leigo entender isso é extremamente nocivo. A psicanálise é algo que precisa ser acessível a qualquer um. Então, entender psicanálise não é difícil, o difícil é admitir aquilo que a psicanálise traz.

ID, EGO E SUPEREGO

Id, ego e superego. Tem como falar para gente, explicar melhor isso para gente? Como que a gente como que a gente consegue entender isso aí? Vou explicar para você rapidamente o que o Freud chamou de segunda tópica, que é o modelo estrutural da mente. A personalidade se estrutura a partir dessas três instâncias. O id é a parte animal do ser humano, é a parte indomada, é aquilo que vem puro como uma vontade, como um instinto de impulsionar o sujeito em direção a as coisas da vida. Básico. Quando age por impulso. Seria dentro desse id? Seria a força do id. O id é puramente fome, é necessidade sexual... O id é aquilo que está numa num limiar do corpo para o psíquico. O superego é uma instância que é censora. O superego é aquilo que traz o “não”. Estabelece um deveria ser e o ego é aquilo que eu “estou sendo”. O ego é isto que eu estou sendo. Agora, todas as vezes que eu falar de ego, eu estou falando para você de algo que é fluxo e constante construção. Id, vontades instintuais, superego, instância censora, que determina o que eu deveria ser e ego aquilo que eu estou sendo. O ego é aquilo que eu estou sendo e o superego é aquilo que eu deveria ser. Então, todas as vezes que eu não... Esse deveria seria o que eu gostaria de ser? O que eu gostaria, o que a sociedade... Quando a gente pensa assim: poxa eu gostaria de ser assim, eu gostaria de fazer tal coisa, mas não consigo fazer... Isso, isso, isso... Isso comandado pelo superego. É um “ideal de eu”. Todas as vezes que você não está confiando no seu ego, que é aquilo que você está sendo, o que vai te guiar é o seu “ideal de eu”. Quando eu estou confiando e quando eu estou reconhecendo e respeitando aquilo que eu estou sendo o espaço do superego na minha vida é muito pequeno. Se aquilo que eu estou sendo me basta aquilo que eu deveria ser não me importa tanto. Se a gente tem muita coisa que deveria ser seria ruim? Se você estabelece muito o que você deveria ser é porque você não está contente com aquilo que você está sendo.

FILOSOFIA

Tem um pouco de filosofia nisso. Ah! com certeza! O Bion que é um psicanalista contemporâneo que eu gosto muito, ele diz assim, que “a psicanálise é a praxes de uma certa filosofia”. A diferença da filosofia e da psicanálise é a aplicabilidade.

CONVECER

Quando a gente fala assim para alguém: “Ah! Você precisa, de repente, você passar por um psicólogo, um psiquiatra, a pessoa fala assim: ah! Eu não estou louco! Ah! eu não preciso disso!” Existe esse tipo de é um preconceito? Existe sim, existe sim, Marlon. Mas, assim ó: a psicanálise que eu acredito é aquela em que o sujeito vai espontaneamente. Que ele percebe que ele precisa e ele vai. Como que a gente consegue convencer uma pessoa de que isso não é ruim, pelo contrário... Se você precisa se você precisar convencer uma pessoa ela já ela não está pronta para isso. Não está preparada. Até porque, eu acredito que tentar convencer alguma a pessoa de alguma coisa é um desrespeito. Não é função da psicanálise convencer ninguém de nada. A psicanálise pode ajudar no tratamento de problemas emocionais e mentais? Recurso por excelência. A psicanálise pode ajudar muito, se o sujeito estiver disponível para isso. Ele precisa estar disponível. Se ele tiver disponível, a psicanálise é um recurso muito bom para isso. Talvez o melhor. Tenho vinte anos de prática da psicanálise e tem história belíssimas para te contar.

PSICÓLOGO, PSIQUIATRA E PSICANALISTA

Psic-logos = psicologia. Psique é a mente é o funcionamento do sujeito que não está no corpo físico. Eu tenho um corpo físico e eu tenho uma coisa além. Eu tenho uma instância além do corpo físico. Isso a gente vai chamar de psique. Logos é conhecimento. É aquele sujeito que é se propõe a conhecer sobre a psique. Este é o psicólogo. Psiquiatra é uma especialidade da medicina que se propõe a medicar um sujeito que tenha uma patologia mental. Ele vai trabalhar essencialmente, com medicamentos. Medicação. Apesar de que, se você me permitir um adendo aqui, hoje existe uma área da psiquiatria que se deslocou do tratamento de doentes mentais, de pessoas que têm problemas psíquicos e precisam de medicação, mas criou-se uma psiquiatria estética. Sabe o que é isso? Não faço ideia. A psiquiatria estética é aquela que se ocupa de recolocar focar o sujeito no convívio social. Então, se o sujeito por exemplo, apresenta algum funcionamento que destoa do que é socialmente aceito, ele começa a se medicar para se formatar novamente para esse convívio social. Na realidade, a gente está falando aqui de um sujeito que está sendo medicado para satisfazer o olhar social e aí a gente pode chamar esse remedinho que dão para ele de “fica quietinho pra gente gostar de você”. Está acontecendo muito em todas as instâncias, né? Não é? E aí, vamos falar da psicanálise. A psicanálise não é psicologia, a psicanálise não é psiquiatria, a psicanálise se presta a criar um ambiente saudável o suficiente para que o sujeito possa permitir que aquilo que esteja incomodando possa emergir para ser tratado para ser cuidado. E a psicanálise não busca saber, como um psicólogo. O psicólogo quer saber, o psicanalista não quer saber. Não é função do psicanalista saber sobre, mas é função do psicanalista “estar sendo” em relação. Uma coisa é o saber sobre você, outra coisa é estar sendo em relação a você. Quando eu estou sendo em relação a você, eu crio um ambiente emocional que propicia um crescimento, uma expansão, uma maturação. A gente precisa viver experiências juntos, experiências que possam propiciar reparação emocional. Estar ali, num ambiente emocional-afetivo sem julgamento, sem crítica, sem bajulação, sem tentativa de convencimento, ou sedução. Isso é terapêutico.

ÉDIPO

A gente falou você falou também aqui sobre o Freud e sobre o complexo de Édipo. Pode explicar um pouquinho para gente, o que é isso? À princípio, quando o Freud apresentou o complexo de Édipo, ele foi execrado pela classe médica, pela classe dos pensadores da época. Porque, ele trouxe assim: o filho quer se apossar da mãe e quer matar o pai. Essa é a história do Édipo. O Édipo foi um sujeito que matou o pai e casou-se com a mãe, na mitologia grega de Sófocles que é o autor do Édipo. Essa é a história e isso é vido por cada um de nós. O bebê quer ficar com a mãe só para ele. Tanto o menino, quanto a menina. Ele quer a mãe para ele. Só para ele. E quando o pai entra, o pai é um intruso e qualquer intruso que possa entrar ali, para estragar aquele paraíso que ele vive, entre ele e a mãe, vai ser, tem que ser exterminado. Não é? Aniquilado! Então, esta é a proposta inicial do Freud. Este é o complexo de Édipo do Freud. Mas, vai muito para além disso. Essa estruturação do Édipo, traz assim, um sujeito um objeto de desejo e um opositor a se conseguir esse objeto de desejo. O que que você faz quando você deseja muito uma coisa e tem alguma coisa que te impede de conseguir esta coisa? Você tenta tirar aquilo que está te atrapalhando. A nossa vida cotidiana é um grande complexo de Édipo.

RELACIONAMENTO TÓXICO 

Como que seria esse relacionamento tóxico que você citou ali? O relacionamento tóxico, o Marlon, ele se configura sempre quando eu me relaciono com o outro, não como sendo outro, como sendo uma outra pessoa, que tem sua autonomia, que tem suas vontades, tem seus desejos, mas eu me relaciono com o outro, como se ele fosse uma extensão do meu desejo. Quando eu não consigo reconhecer o limite entre o eu e o outro. Quando esse limite não é reconhecido, não é respeitado e não há uma responsabilização, se instala uma relação tóxica. Vamos criar um casal aqui? Para gente resolver a situação desse casal, qual seriam os passos? Teria algum passo a passo, teria alguma coisa que eles podem fazer? É assim, para se resolver essa questão um desses dois precisa despertar para aquela situação nociva. Precisa haver um despertar do sujeito e esse despertar é de dentro para fora, não é de fora para dentro. Na psicanálise não acreditamos em qualquer intervenção que venha de fora. Tudo precisa vir de dentro. É por isso que eu disse, precisa ser um ambiente saudável o suficiente para que aquilo que está dentro, possa vir para fora. Essa pessoa precisa conseguir enxergar o que ela está fazendo isso. Cinco passos. Um, perceber que está acontecendo alguma coisa, dois, reconhecer que isso realmente está acontecendo. Perceber é uma coisa, reconhecer é admitir que realmente aquilo está acontecendo. Terceiro passo, aprender a respeitar isso, quarto passo, se responsabilizar por isso que está acontecendo. Quando o sujeito se responsabiliza, começa a transformação e a transformação vai se dar de uma maneira mais bem sucedida, por assim dizer, se ele estiver sendo auxiliado por alguém qualificado. No caso, um psicanalista.

ESCOLHAS 

Decisão é quando você tem escolha. Você tem opções, atitude, o caminho é um só. Eu posso ficar parado, ou ir. Então, atitude é uma coisa, decisão é outra. Decisão, eu tinha opções, atitude não tem opção, eu só estou esperando o meu momento adequado para agir. Tomar coragem para vir fazer isso. Isso! Coragem! Essa palavra é magnífica. Cor-agem! “Cor” é coração e “agem” é ação. Agir pelo coração. Então, eu preciso estar preparado para agir com o coração e aí, não tem escolha. Que top! E aí, não tem escolha Marlon. E aí, é assim é capacidade, é desenvolvimento. Quanto mais maduro emocionalmente você fica, menos escolha você tem. Você vai e faz. Você vai e faz, porque você percebeu que aquele é o caminho. Eu gosto muito do vértice místico-religioso, das formulações religiosas. Porque, auxilia demais na prática da psicanálise. Deus nos dá o livre arbítrio. Deus nos dá a faculdade da escolha. Mas, para que que ele dá? Ele dá para que a gente possa viver experiências, para reconhecer que, na verdade é a vontade Dele que prevalece e não a tua. Desempenhando o seu livre arbítrio, você está iludido, você está envolvido com as questões materiais e mundanas. Quando você está de acordo com a realidade, você está no caminho Dele. Seja feita a Vossa vontade e não a minha. Isso te conduz para o caminho que é um só. O acordo com a realidade.

LUTO

Qual que é a importância do luto? Para o pessoal aqui, realmente saber. Fundamental! Vamos voltar no Complexo do de Édipo? Vamos! Então, assim óh! Um desdobramento saudável, a criança começa a perceber que a mamãe é do papai e não minha. Isso leva a criança a viver um luto. Todas as vezes que você reconhece e aprende a respeitar aquilo que você perdeu, você vive um luto. Quando a gente não respeita esse processo, a gente vai acumulando lutos não elaborados e é isso que leva o sujeito a cair naquilo que, contemporaneamente a gente chama de depressão.

DEPRESSÃO

Na psicanálise o que seria depressão? Depressão, na realidade, é todo o movimento de introjetar, interno. Quando você se deprime é porque você se entristeceu, porque você se desinteressou do mundo externo, por assim dizer. As coisas do mundo perdem a graça e você se volta para dentro. Isso é saudável. Você precisa viver isso. Cada vez que você vive uma frustração, é importante que você se retire do mundo externo para viver uma elaboração disso que você se desiludiu. Isso vai te levar à um acordo com a realidade. Mas o sujeito pode viver duas situações que vão levar ele a uma depressão patológica, que não é essa que eu estou te dizendo. A primeira é quando ele viveu com aquilo que foi perdido, uma relação nociva, que não tenha sido saudável, quando você viveu uma relação nociva com alguém e você perdeu este alguém, você cai numa depressão patológica. Porque, o que fica são lembranças ruins. A depressão, realmente, é ficar revivendo o passado. Isso mesmo! E aí, você cai nisso que o Freud vai chamar de melancolia. Mas tem uma outra forma de você cair, patologicamente, em depressão. Quando você é impedido de viver os lutos cotidianos da sua vida. Quando você foi perdendo coisas e você não pôde se retirar para viver o luto dessas coisas e teve que continuar trabalhando, continuar sorrindo, continuar fazendo as coisas que você tinha que fazer, porque existia uma demanda social que você precisava cumprir. Você vai acumulando esses lutos e uma hora você não aguenta mais e cai em depressão patológica.

ANSIEDADE

E ansiedade? Ansiedade é gerada por um “deveria ser”. Quando você estabelece alguma coisa que você tem que ser, que você deveria ser e você não está de acordo com aquilo que você está sendo. É aquilo que te cobra, que te exige de ser alguma coisa, de fazer alguma coisa, que muitas vezes não está no seu alcance. E onde tem cobrança, ou exigência não pode ter a saúde nos vínculos. Nem do eu com o outro, nem do eu com ele mesmo. Quando a gente não confia na gente mesmo, a gente abre essa brecha.

CONFIAR

Como que a gente consegue uma confiança na gente mesmo? Autoconfiança só pode se desenvolver a partir da confiança do outro. Quando alguém confia em mim eu consigo ter autoconfiança, é isso? Isso! O Marlon convidou o Professor Renato para o podcast, eu confiei no Marlon, a partir da minha estada aqui você passa a confiar mais em você. Cada um que você convida e confia em você, você vai ficando, cada vez mais autoconfiante. Não adianta vir falar que tem técnica. que tem autoajuda, livro disso, aquilo. Não existe! A autoconfiança é originada da confiança do outro. Não tem outro lugar. O que é confiança? Toda a palavra que tem o radical, no latim e tem “com” no prefixo, quer dizer “junto”. E fiança é fiar. Eu fio com você e você fia comigo. Confiança é vínculo, eu fio daqui e você fia daí. Eu acredito em você, você acredita em mim e isso faz com que a gente cresça.

EXPECTATIVA 

Quando eu posto alguma coisa na rede social, eu não estou querendo um resultado, eu já estou postando o resultado. Então, isso é muito interessante. Quando você faz alguma coisa sem expectativa de resultado, o resultado vem. A expectativa é a mãe da frustração.




sábado, 9 de setembro de 2023

ANGÚSTIA E ANSIEDADE - Prof. Renato Dias Martino


Os desconfortos emocionais se dividem em dois modelos. Essencialmente, ansiedades e angústias.

ANGÚSTIA

A angústia é aquele sentimento de aperto, é um sentimento que leva a um embotamento, a um estado depressivo, a um estado deprimente. Então, a angústia é essencialmente, e a palavra que vem do latim já sugere isso, é aperto, estreito. O sujeito que tem a mente angustiada, não consegue pensar, porque não existe espaço. Para pensar é necessária uma mente ampla, expansiva. A angústia está diretamente ligada a noção de espaço, que na realidade é uma criação do humano para apaziguar esta angústia. Quando existe a criação da divisão em pedaços, de espaço é para dar conta desta demanda, porque na realidade, o ser humano tem uma dificuldade enorme de lidar com a ideia do infinito. O infinito é angustiante. Pensar sobre o infinito, reconhecer o infinito gera angústia.

ANSIEDADE

Enquanto a angústia está ligada à noção de espaço, a ansiedade está ligada à noção de tempo. O sujeito ansioso é aquele sujeito que está sempre com pressa. O sujeito ansioso é aquele que sente que não vai dar tempo. O sujeito quando tem ansiedade começa a dividir a vida dele em horas minutos, em dias e anos... Um ansioso é sempre aquele cara que consegue guardar datas, que está o tempo todo olhando no relógio.

ESPAÇO E TEMPO

Quando a gente reconhece o conceito de eterno, a gente se sente ansioso. O mundo existia antes do ser humano, o tempo existia antes do ser humano e vai continuar existindo depois que não houver mais humanos. Para o ser humano, o tempo existe ao seu serviço. Ou seja, ele criou essa divisão de tempo, de anos, de dias, de meses. Não é? Ele criou isso para dar conta da incapacidade de lidar com a ideia do eterno. Então, dois conceitos aí: eterno e infinito. Quando a gente fala de infinito, infinito não é a soma de todos os pedaços, é ausência de pedaço e o eterno não é a soma de todos os tempos né de todos os anos, de todos os séculos, mas é ausência desses conceitos. Angústias, ansiedade, são resultado de desconforto pela introdução de espaço e tempo no funcionamento inconsciente. Porque, nessa dimensão psíquica não se tolera esse tipo de lógica, esse tipo de limitação. Para o inconsciente não existe divisão de tempo. Para um inconsciente não existe divisão de espaço.

CULPA

O angustiado fica embotado, ele fica deprimido e o ansioso é aquele que fica agitado. Enquanto angústia é para dentro a ansiedade é para fora. O sujeito, quando está se sentindo culpado, ele se angustia. O ansioso tende a tentar fazer alguma coisa para apaziguar a sua culpa. Então, ele tem uma atitude. “Vai trabalhar, vai fazer alguma coisa para ver se você se sente menos culpado.” O angustiado já é o contrário, ele já se rende essa culpa. Então ele se autopune, porque ele é culpado e não tem mais nada para ser feito.

DUAS FACES

A angústia gera ansiedade e ansiedade gera angústia. Essas, duas coisas estão sempre juntas. O sujeito pode acordar ansioso e dali a pouco já está angustiado. Tempo e espaço estão sempre juntos. Conceitos juntos, noções que estão juntas. Muitas vezes, o sujeito está ansioso, tentando fazer alguma coisa para tentar apaziguar a sua culpa e em outro momento, ele se rende a aquilo e diz: “Olha, não tem jeito mesmo, eu sou um fracasso e não tem o que ser feito. Porque eu sou culpado mesmo e só me resta me auto por nele.”

MELANCOLIA 

A melancolia é o quadro. Um quadro de melancolia pode gerar ansiedades a angústias. O melancólico é um sujeito essencialmente angustiado, é um sujeito que desistiu, mas ele pode ter episódios de ansiedade, que a gente vai chamar de mania. O Freud vai chamar isso de mania. Então, a mania é a tentativa desesperada de fazer alguma coisa para se livrar daquele sentimento de embotamento, de angústia, que a melancolia traz. O quadro de melancolia, que é a incapacidade de lidar com a perda, vai trazer episódios de angústia e episódios de ansiedade. Essencialmente, de angústia essencialmente, de embotamento, mas com algumas experiências externas de mania, que são movidas pela ansiedade.


terça-feira, 4 de outubro de 2022

INVESTIMENTO NA REALIDADE

Quando tratamos da saúde emocional, estamos cogitando sobre o fator norteador do desenvolvimento humano como um todo, já que dela depende a autonomia do funcionamento integral de cada um de nós. Um sujeito que se desenvolve emocionalmente, consequentemente se torna capaz de administrar todas as outras dimensões da sua vida, desenvolvendo autonomia, inclusive para se capacitar a auxiliar o próximo. Por outro lado, aquele que não desenvolve a maturação saudável no âmbito emocional, tende a continuar subordinado aos cuidados do outro. Portanto, aquele que não se desenvolve emocionalmente, também não consegue se desenvolver afetivamente, já que só se torna capaz de amar o outro, aquele que não depende dele para viver. 

A saúde emocional-afetiva está diretamente relacionada a administração no investimento de energia, ou do interesse e isso está subordinado à capacidade de continência emocional. Uma das características dessa ordem de saúde é o nível do acordo que se possa entrar com a realidade e a realidade se manifesta somente no tempo presente. Sendo assim, saúde emocional coincide com a possibilidade de manter as energias investidas no aqui, no agora.   

A manifestação da intolerância as frustações é um sinal de que o funcionamento emocional não está saudável, ou ainda, indica imaturidade dessa ordem de funcionamento. Essa intolerância ocorre justamente em relação ao presente, cheio de incertezas e não disponível ao conhecimento. Ocupar-se do presente requer tolerância. Já na situação da intolerância, o sujeito desloca seu interesse para o passado, nos registros da memória, assim como no futuro, na projeção da expectativa.
Sentimentos intensos de ansiedade e angústias são características desse quadro. Esses sentimentos também fazem parte de um funcionamento saudável, assim como da maturidade emocional, no entanto, aparecem extremamente intensos, espaçosos e muitas vezes predominantes, no funcionamento que não seja saudável, ou mesmo, quando imaturo. 

O sentimento de ansiedade se relaciona com a energia investida em algo do tempo futuro. Incapaz de tolerar aquilo que ocorre no presente, o sujeito se apega às expectativas, se preocupando com aquilo que ainda não ocorreu e que nem se sabe se realmente ocorrerá. A preocupação com o futuro impede o sujeito de se ocupar com o presente, adequadamente. Já a angústia tem a ver com a energia investida naquilo que está no passado. Incapaz de tolerar aquilo que está acontecendo no presente o sujeito foge para os dados armazenados na memória, apegando-se a eles. No entanto, acaba por criar uma emboscada para si mesmo, já que amiúde, passa a se culpar, se condenando e com isso tendendo a se punir por aquilo que supostamente ocorreu. Priva-se das alegrias no presente, assim como, se perde nas preocupações, temendo a perda no futuro. 

Sendo que nas duas situações o objeto de investimento é ilusão. Falsas realidades mantidas pelo investimento de energia, na incapacidade de lidar com o presente. Ainda assim, toda energia investida, seja no passado ou no futuro, é assim desperdiçada. O que implica diretamente na diminuição da energia necessária para o desempenho das experiências no tempo presente. 

No entanto, não se escolhe onde se investir energia. O que pode ser possível, na melhor das hipóteses, é desenvolver a tolerância aos desconfortos e nisso, o processo psicoterapêutico é um meio por excelência para o desenvolvimento de recursos para tanto.






Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Escritor







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domingo, 14 de julho de 2019

ANSIEDADE E SOCIEDADE

Comumente encontramos o termo ansiedade como sendo certo distúrbio que causa nervosismo, medo, apreensão e preocupação, sendo catalogada como patologia nos compêndios psiquiátricos. Esse conceito propõe vontade imensa, ânsia por algo. “Em inglês temos anxiety que por sua vez, significa falta de tempo, sem tempo ficamos ansiosos”. (Martino, 2015). A ansiedade pode ser de duas origens.
A primeira ocorre quando existe algum perigo real e Sigmund Freud (1856-1939) nomeia, em sua TEORIA GERAL DAS NEUROSES de 1917, essa ordem de ansiedade como sendo “ansiedade realística”. Quando for assim, a mente se mobiliza frente essa ameaça e a ansiedade é uma preparação para a ação quanto a esse perigo. Por outro lado, é possível que a ansiedade seja de origem ilusória, no que Freud denomina “ansiedade neurótica”, dessa forma, é quando o medo manifestado não tem uma causa na realidade presente, mas é fruto de experiências emocionais anteriores e malsucedidas. 
Sendo de uma origem ou de outra, quando falamos de ansiedade, não tratamos de uma doença. Ela é o indicativo de um perigo, como mencionado anteriormente, sendo de natureza real ou fantasiosa. Desenvolver tolerância à ansiedade é fator fundamental para o bom funcionamento mental. Isso propicia a possibilidade de avaliação de sua origem e dimensão real do perigo. 
A compulsão, por sua vez é um desdobramento da ansiedade, quando se elege um elemento substitutivo para tentar dar conta daquilo que o sujeito não tem consciência. Assim como no plano físico, a elevação da temperatura do corpo indica uma inflamação, a ansiedade é um aviso de que algo precisa ser avaliado para que assim possa ser tratada sua causa adequadamente. 
Com isso, abre-se um grande risco no uso das medicações já que a ansiedade se configura num sintoma e não na causa. Com a introdução de ansiolíticos diminuem-se os sintomas, logo, a causa pode ficar oculta, dificultando assim o tratamento adequado. Antes de tentativas de introduzir a administração de drogas, deve receber seu primeiro olhar num processo psicoterapêutico. Quando for possível se contar com um ambiente emocionalmente saudável, que possa acolher essa ansiedade, abrir-se-á a possibilidade de se reconhecer a real causa. 
Ainda assim, a pressão gerada pelas exigências sociais é fator frequente na origem e agravamento das ansiedades.
Um ambiente social exigente, somado às cobranças internas de um sujeito que esteja desintegrado em sua personalidade e com dificuldades em confiar em si mesmo, configura-se num fator fundamental na formação das patologias que serão manifestadas essencialmente por angustias e ansiedades. “Angústias e ansiedades são o resultado do desconforto gerado pela introdução dos conceitos de espaço e tempo no funcionamento inconsciente, dimensão psíquica que não tolera essa lógica. O inconsciente não suporta noções limitadoras como as de tempo/espaço, que propõem limites e com isso frustrações.”.(Martino, 2015)
Toda a configuração da vida em sociedade tem uma grande cota de pressão geradora de ansiedade. O sistema de normas sociais é estruturado através de exigências. Desde as profissionais, com critérios de horários e obrigações a serem cumpridas, até os fatores pertinentes aos relacionamentos interpessoais, repletos de preconceitos, inveja e intolerância, características comuns nos grupos de humanos.
Mas, antes de tudo, a ansiedade é inerente ao funcionamento mental. Sendo assim, não sentir ansiedade é impossível, principalmente vivendo em grandes grupos como na configuração social. Se estivermos tratando da ansiedade gerada pela vida tumultuada das cidades, aplacá-la só pode ser possível se afastando dessa configuração ambiental. Não acredito em métodos que prometam apaziguar ansiedades enquanto se permaneça sendo ameaçado e submetido a exigências. A não ser que se esteja dopado. Conforme a maturidade emocional se desenvolve o sujeito pode aprender a lidar cada vez melhor com suas ansiedades, no entanto isso implica em se afastar de ameaças e exigências, quando não fisicamente, pelo menos emocionalmente.
O ser humano não é um animal que se agrupa naturalmente e Freud deixou isso muito claro no capítulo nono de sua obra PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANÁLISE DO EGO que fala sobre a ausência de um instinto gregário, ou seja, um elemento inato no humano, que nos levaria a naturalmente agrupar-nos. Freud levanta essa questão onde propõe que o medo da criança quando fica sozinha relaciona-se à presença unicamente da mãe da criança e, apenas posteriormente, de outras pessoas próximas e muito bem conhecidas da familiar. O medo da criança, que se vê está sozinha, não pode ser acalma do por um estranho, como nos animais gregários, mas, na realidade se intensifica.
“Assim, durante longo tempo nada na natureza de um instinto gregário ou sentimento de grupo pode ser observado nas crianças.”. (Freud, 1921). Portanto, não temos um instinto gregário como é próprio de outros animais, como algumas espécies de aves, caprinos, bovinos e outros. Assim como os primatas mais desenvolvidos (que somos), somos animais de horda, onde o grupo natural se restringe à família. Nós nos agrupamos para além do núcleo familiar por conveniência, não por nossa natureza. Por conta disso, quando inseridos em grandes grupos dificilmente não estaremos ansiosos de alguma forma, ou em alguma medida. 



Freud. S. (1917). TEORIA GERAL DAS NEUROSES. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_______ . (1921). PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANÁLISE DO EGO. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
Martino, R. D. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. - São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.







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