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quinta-feira, 11 de julho de 2024

O SONHAR E A CESURA - Prof. Renato Dias Martino


SONHO TERAPEUTICO

A mãe sonha o sonho do bebê, até que ele seja capaz de sonhar os seus próprios sonhos. Isso é belíssimo! A mãe sonha o sonho do bebê. Ele não é capaz de sonhar. O psicanalista precisa sonhar o sonho do paciente. Não é sonhar o sonho dele para o paciente, é sonhar o sonho do paciente. Bion chama isso de RÊVERIE. O paciente, muitas vezes, chega obstruído com um “deveria ser”, com uma regra, com normas, com críticas, com exigências, que não permitem que ele sonhe e a partir da vivência com o psicoterapeuta, com o analista, ele começa a desobstruir tudo isso na vida dele e passa a ser capaz de sonhar. É sonhar com ele, não é realizar. É muito importante que a gente seja capaz de pensar isso. O espaço psicoterapêutico não é um espaço de realizar coisas, é um espaço de pensar de sonhar.

RÊVERIE

O Bion traz a ideia do RÊVERIE. O que ele propõe com o rêverie? Rêverie é sonhar. Então, ele diz assim: “o analista sonha o sonho do paciente”. Então, a gente precisa separar a ideia de sonho, com a ideia de sonhar. Sonhar é um processo, sonho é um conteúdo. O sonho é do paciente, agora, o processo é o analista que vai fazer. Precisa haver uma diferenciação dessas duas coisas. O analista reconhece o sonho do paciente e percebe a dificuldade do paciente submeter esse sonho ao processo do sonhar e aí o analista vai entrar para ajudar nesta tarefa. Vai sonhar o sonho do paciente para que o paciente possa entrar no próprio sonho e se tornar protagonista desse sonho e passar a sonhar. Então, uma coisa é o sonho. Este sonho é dele, outra coisa é o processo de sonhar e isso ele está obstruído de fazer.

TRANSFORMAÇÃO 

Toda a transformação funciona de uma maneira processual. Existe um processo para transformação. Nada acontece de uma hora para a outra. Nada pode acontecer de um formato para outro instantaneamente. Tudo, pode ser mais lento, ou pode ser mais rápido. Há ali, um processo e o processo que leva de uma forma para outra forma, nós vamos chamar de “cesura”. A palavra cesura, ela vem da gramática. Uma pausa de uma estrofe para outra. O Bion ainda vai usar a ideia de “mudança catastrófica”. CATA que é virar e estrofe. Virar uma estrofe para outra. É muito usado no teatro grego, onde existia uma parte de uma encenação aí, entrava o couro e depois entrava outro ato, já com tudo mudado. A partir do texto que foi falado pelo couro ali, é esta é a mudança catastrófica. Então, esta fala do couro que tem uma intersecção do primeiro ato para o segundo ato, ou seja, de um ato para outro ato, a gente vai chamar de cesura. Quando a gente fala de dia e de noite a gente precisa falar do entardecer. Este entardecer é a cesura. Eu era uma pessoa ontem e hoje eu sou outra pessoa, mas para aquela pessoa que eu fui ontem e a pessoa que eu sou hoje, houve uma cesura, houve um processo de transformação, que muitas vezes a gente não dá conta de tolerar. A gente prefere não olhar para isso, porque é feio quando a gente está se transformando. A gente não gosta de se transformar. A gente gosta de ser isso, ou aquilo. A gente não tolera a transformação. A transformação é desconfortável, porque quem transforma não sabe no que vai se transformar. A lagarta, quando ela está se transformando em borboleta, ela passa por uma fase horrível. Ela prefere continuar sendo lagarta, porque ela vai ter que ficar presa naquele casulo e é horrível. Vai passar por uma fase extremamente vulnerável. Qualquer bicho vai poder ir lá e comer. Então, esta cesura é muito desconfortável e o processo psicanalítico é pura cesura, a psicoterapia é só cesura. Você está se transformando em outra pessoa por isso é desconfortável e você não sabe que que outra pessoa você vai se tornar isso é desconfortável. O melancólico tem um problema enorme com entardecer. O sujeito que tem uma cota proeminente da melancolia, ele tem um problema seríssimo com o entardecer, ele se desespera conforme o sol vai abaixando. E aí, dá-lhe Rivotril! E o que que acontece? O sujeito toma o medicamento psiquiátrico e se descola da cesura, não vive a cesura e a vida é uma grande cesura. A gente está aqui de passagem, a gente não é, a gente está sendo. Então, a vida é uma grande transformação, é um processo, mas a gente tem uma dificuldade enorme de viver esse processo. É desconfortável! É desconfortável você olhar no espelho e começar a ver que a tua barba está ficando branca, que você está com rugas. E aí, dá-lhe botox, dá-lhe esticar o couro do tamborim.

FANTASIAR, SONHAR, PENSAR

Qual é a diferença entre fantasiar e sonhar. Se a gente for pensar no processo de sonhar, existe a fantasia, o processo onírico e aí, ele está preparado para o pensar. O fantasiar seria um fator da função do sonhar. Então, existe fatores que constituem a função do sonhar, um desses fatores é o fantasiar. O fantasiar é lidar com alguma coisa que não existe, como se existisse. O sonhar já é mais do que isso. O sonhar já é um processo. Eu fantasio e não saio daquilo, quando eu sonho, isso já propõe um processo. E aí, já está em transformação. Quando isso está num processo onírico, isso já está se transformando. Enquanto, quando eu estou fantasiando, aquilo ali está dentro das minhas expectativas, independente do que está acontecendo no mundo externo. o Freud vai propor que, quando ele fala ali, do processo primário para o processo secundário, ele diz assim: “uma cota disso que está dentro do processo secundário ainda se manteve no processo primário, não conseguiu passar para o processo secundário. Ou seja, ainda está dentro do princípio do prazer, ainda está dentro do princípio do prazer/desprazer, ainda está dentro do intuito de satisfações imediatas, ou evitação de frustrações de desconfortos” e esta cota ele chamou de fantasiar. O sujeito que tem a proeminência neurótica, ele tem esta cota do fantasiar e este fantasiar não se submete a processos. Quando esse fantasiar se submete ao processo, ele passa para o nível onírico, que já está sendo transformado e já está sendo preparado para ser pensado. Ou seja, já está dentro daquilo que o Bion vai chamar de função-alfa, transformação.

SONHO E REALIDADE

Para que o sujeito possa realizar o seu sonho, ele precisa ser capaz de tolerar que a realização não coincide com o sonho. A realização é real - me perdoe o pleonasmo - o sonho é ideal. O sonho é uma imaginação, o sonho está no mundo de possibilidades infinitas, a realidade restringe. Então, o sujeito realiza o sonho não como sonhou mas como foi possível realizar.

SONHO, LIMITE E REALIZAÇÃO

Onde está o limite da realização dos sonhos? No outro! É o outro que mostra o limite da possibilidade na realização do sonho. É o outro que mostra esse limite, mas também é o outro que viabiliza a realização. Sem o outro não há realização de nada. Para ser real tem que incluir o outro e não só incluir o outro, mas tem que se doar ao outro. Então, a realização está subordinada à capacidade de amar. Se o sujeito não for capaz de amar, aquilo que ele está fazendo é, na melhor das hipóteses, uma produção. Ele produz alguma coisa, mas não realiza.

PRODUZIR, CONSUMIR OU REALIZAR

Onde está a origem dessa configuração de uma sociedade formada por sujeitos que só produzem e consomem? A dificuldade em confiar em si mesmo! A dificuldade em acreditar em si mesmo, a dificuldade em reconhecer a si próprio. Então, ele vive esperando que o outro acredite nele. Ele vive buscando o emprego, porque ele não acredita nele mesmo. Ele passa anos dentro de uma faculdade, dentro de uma universidade e sai dali procurando um emprego, esperando que o outro acredite nele. Pega o diploma como mais uma prova de que ele pode ser confiável, porque não acredita em si mesmo. E ele sai dali, da faculdade, depois de se dedicar ali, 5, 6, 7, 8, anos aí, incluindo pós-graduações, buscando aprovação do outro. Tentando passar em concursos, tentando passar em testes, porque ele não acredita nele. Esperando que alguém acredite nele. Essa é a sociedade contemporânea. As escolas e muitas vezes, os pais educam os filhos para isso: para buscar um emprego para que ele possa produzir e não realizar. Porque este emprego traz para ele, segurança. Um concurso público te dá segurança. Que segurança? De chegar na velhice, olhar para trás falar: “que que eu fiz na minha vida? O que que eu realizei? Eu trabalhei a minha vida inteira para quê?




domingo, 30 de junho de 2024

UNIVERSO COMO ELEMENTO DE PSICANÁLISE - Prof. Renato Dias Martino



ELEMENTO DE PSICANÁLISE

O Bion, lá no ELEMENTOS DE PSICANÁLISE, ele orienta que, para que algum elemento seja elemento de psicanálise, ele precisa de duas condições básicas, pelo menos. Que ela não fuja do seu significado original, que ela esteja de acordo com a semântica da palavra e o segundo é que ela possa se ligar aos outros elementos de psicanálise, criando assim aquilo que ele chamou de sistema de dedutivo teórico, ou sistema dedutivo científico. Para que a gente possa transformar o conceito “universo” ou experiência de universo, para a psicanálise dentro da perspectiva de um elemento psicanalítico, nós precisamos buscar resgatar a semântica da palavra e tentar alinhavar ou associar este elemento com outros elementos dentro da psicanálise. Então, vamos tentar fazer esse exercício juntos aqui.

UNIVERSO

Se a gente pensar a semântica da palavra universo, UNI quer dizer unificar e VERSO quer dizer vértice, aquilo que eu posso unificar num vértice. Vamos levar agora para prática clínica. Dentro do setting terapêutico nós criamos um universo. Este universo, a gente pode levar na perspectiva da ambiência, da psicosfera. Ali, na prática clínica na dupla no setting, no quadre do vínculo paciente e analista. Nós criamos um universo. Este universo, ele por mais que a gente chame de universo, ele não tem a conotação de uma bolha, por exemplo, porque ali estão sendo elaborados elementos que vão servir, não só para aquele universo, mas para expansão esses elementos têm o intuito fundamental de expansão o universo do setting terapêutico, ou universo da prática terapêutica é um universo em expansão, assim como os cientistas, os astrônomos têm a ideia do próprio universo que o universo está em expansão. Todo o desenvolvimento traz a ideia de expansão, isso não é diferente na prática clínica. O universo é o vértice Uno que é possível dentro do setting terapêutico, ou de qualquer outra perspectiva, mas que para ser saudável precisa estar em expansão.

UNIVERSO INDIVIDUAL 

Muitas vezes, a gente ouve as pessoas falando assim: “Ah! A realidade dele era essa...”. Não! A realidade é uma só. Ninguém tem sua realidade. Você tem seu universo, você tem o seu vértice de unidade. A realidade é uma só para todo mundo, o que muda é o universo de cada um. Ou seja, a capacidade de cada um de reconhecer esta realidade. O universo do sujeito tem aquela dimensão dentro da realidade, que é um universo maior. A “realidade última”, como diria o Bion.


UNIVERSO EM EXPANSÃO


Conforme o sujeito amadurece a sua dimensão emocional, conforme ele vai vivendo experiências que vão trazendo para ele maturidade emocional, que vai se desdobrar na maturidade afetiva, qualificando ele para isso, esta capacidade emocional e a capacidade afetiva vai fazendo com que ele possa expandindo esse universo em direção ao infinito. Eu gosto muito do modelo da espiral progressiva. O sujeito vai vivendo experiências de integração e desintegração e cada volta que ele dá nessa espiral progressiva, ele vai expandindo o seu universo em direção ao reconhecimento, da capacidade de respeitar e a responsabilização pela realidade.

UNIVERSO E O PENSAR

Nós precisamos, impreterivelmente, do outro para expandir o nosso universo. Não há como expandir o universo sem que eu possa contar com o outro. O universo vai expandir através do pensar, da possibilidade de pensar. Quando eu penso eu estou em expansão. Este pesar precisa de duas medidas. Esse “pesar”! A medida vem do outro. Não é? O contraponto vem do outro. Então, não há como pensar sozinho. Não há como expandir sozinho e esse é o exercício da própria psicanálise.

SONHO E REALIDADE

Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é realidade. O Raul coloca no “Prelúdio”, mas na verdade isso daí é uma frase lá dos Cervantes no Dom Quixote de la Mancha. Sonho é, segundo Freud, a manifestação de um desejo. Ele vai falar que é realização alucinada de um desejo. O desejo, para se tornar real, ele precisa perpassar pelo outro, ele precisa incluir o outro. O outro vai fazer aquilo que a gente chama, em psicanálise de “quebra do narcisismo”. Porque o outro traz a noção da realidade e quando o outro traz a noção da realidade, esse sonho que era só um sonho que se sonhava só, passa a ser realidade. Traz uma conotação de um universo mais expansivo. Não só aquele desejo narcisista, mas agora a possibilidade da viabilidade da realização deste sonho. É muito bonito quando dois universos se juntam num universo só e a psicanálise é um recurso por excelência para propiciar essa possibilidade de união de universos.




sexta-feira, 3 de julho de 2015

DO REENCONTRO

O que de mim fica em você enquanto eu não estou presente?

O ato de encontrar-se novamente é o tema desse pequeno ensaio. Uso aqui o termo reencontro como sendo a situação onde houve uma aproximação que é sucedida por um afastamento e essa experiência então, possibilita o reencontro. Entretanto o reencontro tratado aqui não é o fim do processo, já que outros distanciamentos ocorrerão. Quando partimos desse pressuposto de que existe um processo acontecendo, em que o reencontro não é desfecho, mas é elemento de um processo que não interrompe de acontecer, é então possível reconhecer que na realidade, a ocorrência desse ciclo é sinal de que o vínculo esta se desenvolvendo.

Os sites de relacionamento e redes sociais virtuais como o Facebook, trouxeram grande chance para o reencontro de pessoas que há tempos não se viam. Muitos deles importantes, já que os vínculos podem manter-se independentes do tempo e da distância.
É justamente através do vínculo que nos mantemos ligados ao mundo externo ou à realidade que existe independente de nossa vontade. É também através dos vínculos que nutrimos nossa autoestima, mas, além disso, é por onde podemos nos intoxicar emocionalmente. É o que permite estarmos ligados à aquilo que está fisicamente ausente. Isso só é possível por conta da recordação. Experiências bem sucedidas com essa realidade que ora está sensorialmente ausente, mas que deixara uma boa impressão emocional. Essa questão da perpetuação do vínculo depende particularmente e diretamente da capacidade de simbolizar. Quando nos é possível introjetar a imagem do outro de maneira verdadeira e afetiva, o vínculo é preservado e a recordação é um sinal de que isso valeu.

Em grego a palavra "symbolon" é derivada do verbo "symbalo" que significa reunir, ou mais precisamente lançar junto, a possibilidade de concórdia. O contrário é a "diabolé" que constitui divisão e promove a discórdia. O conceito de símbolo tem uma concepção clássica na Odisseia de Homero, poeta épico da Grécia antiga. A Odisseia relata o retorno de Ulisses, herói da guerra de Troia. Depois de vinte anos ele volta para sua esposa Penélope:

"O símbolo era um objeto primitivamente uno, que duas ou mais pessoas repartem entre si no momento em que vão separar-se por um longo tempo. Elas conservam seu fragmento, em sinal dos vínculos que as ligavam. Quando mais tarde se reencontram, cada qual se serve de seu fragmento para fazer-se reconhecer. Nesse reconhecimento, elas se identificam por um nome novo, como sinal da história que viveram em separado, mas também do novo lugar e da nova função que vão ser os seus no todo igualmente renovado".

Sigmund Freud
(1856- 1939) 
Nos primeiros estudos de Sigmund Freud (1856- 1939) sobre observação de bebês, ele percebeu a ansiedade da criança na ausência da mãe. Notou as brincadeiras de sumir e aparecer como um ensaio para ausências cada vez mais longas que o bebê terá de suportar.

“Certo dia, fiz uma observação que confirmou meu ponto de vista. O menino tinha um carretel de madeira com um pedaço de cordão amarrado em volta dele. Nunca lhe ocorrera puxá-lo pelo chão atrás de si, por exemplo, e brincar com o carretel como se fosse um carro. O que ele fazia era segurar o carretel pelo cordão e com muita perícia arremessá-lo por sobre a borda de sua caminha encortinada, de maneira que aquele desaparecia por entre as cortinas, ao mesmo tempo em que o menino proferia seu expressivo ‘o-o-ó’. Puxava então o carretel para fora da cama novamente, por meio do cordão, e saudava o seu reaparecimento com um alegre ‘da‘ (‘ali’). Essa, então, era a brincadeira completa: desaparecimento e retorno”. (Freud em ALÉM DO PRINCÍPIO DE PRAZER, 1920)

Isso quer dizer que quanto maior for a preparação para esse momento de separação, mais viva estará a imagem simbolizada da mãe no mundo interno do bebê; consequentemente e posteriormente esse modelo de experiência se aplicará com amigos e outras pessoas amadas.

Wilfred Ruprecht Bion
(1897-1979)
Bion (1897-1979), (1962/91) descreve a capacidade de rêverie como sendo “um estado mental aberto à recepção de quaisquer objectos do objecto amado, capaz de receber as identificações projectivas do bebé, sejam elas sentidas como boas ou más” (p. 36). Este estado se inicia no sonho e nas brincadeiras das menininhas que um dia serão mães.
Com a rêverie a mãe realiza um processo mental comparável ao procedimento digestivo no nível fisiológico/orgânico.  A mãe se encontra na função de sonhar o sonho do bebê. No significado da palavra rêve = sonho. Através do processo de rêverie o bebé adquire uma sensação de continuidade existencial que servirá ao seu próprio processo de pensar. O conceito de rêverie proposto por Bion encontra-se relacionado com a imaginação, os devaneios, num estado particular de consciência receptiva. Receptiva à transformação que ocorre no bebê. A mãe reencontra o bebê e em cada reencontro ele cresceu um pouquinho. Com a capacidade de rêverie que ficou não foi somente o ‘saber’ armazenado na memória, mas o ‘ser’ que brota na recordação. A necessidade do reencontro é inerente ao desenvolvimento e o funcionamento saudável da mente.
        
Homero
A necessidade natural do reencontro tem no nível dos sonhos uma chance de elaboração. É possível o reencontrar aquilo que desejávamos, mas que por algum motivo é impossível reencontrar na realidade, assim o fazemos através dos sonhos. Reencontramos nossos afetos no sonho, entretanto de forma mais sincera e nem sempre muito compreensível. O que define o conteúdo dos sonhos é justamente a necessidade do reencontro. Um reencontro consigo mesmo, mas que sob a influência onírica configura-se num funcionamento de características infantis. Desprovido das mentiras e dissimulações que os adultos aprenderam e aperfeiçoam para conviver bem em sociedade.
“O que um dia dominou a vida de vigília, quando a psique era ainda jovem e incompetente, parece agora ter sido banido para a noite – tal como as armas primitivas abandonadas pelos homens adultos, os arcos e flechas, ressurgem no quarto de brinquedos. O sonho é um ressurgimento da vida anímica infantil já suplantada. Esses métodos de funcionamento do aparelho psíquico, que são normalmente suprimidos nas horas de vigília, voltam a tornar-se atuais na psicose e então revelam sua incapacidade de satisfazer nossas necessidades em relação ao mundo exterior.”  (Freud, em A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS, 1900).

Antoine de Saint-Exupéry
( 1900 - 1944)
Essa inocência é o que povoa o mundo dos sonhos num reencontro com a criança em cada um de nós. Muitas vezes me questionei se não foi disso que Antoine de Saint-Exupéry (1900 - 1944)  tratava em seu magnífico “Pequeno Príncipe”.

A recordação funciona como um reencontro onde a experiência é oferecida mais uma vez ao coração. Mas no reencontro parte dos elementos se mantêm invariantes como algo que permanece para promover a identificação no reconhecimento, entretanto uma outra parte dos componentes compartilhados se transforma. O reencontro dos discípulos com Jesus Cristo no terceiro dia, a Páscoa. Assim como nos lembra S. Lucas: “Assim está escrito que o Messias havia de morrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia” (Lc 24,46).

São Lucas
O reencontro pode ainda estar configurado sob emoções negativas e impossibilidade de simbolização.  Isso se dá por conta de experiências mal sucedidas onde o afastamento foi povoado de raiva (ódio) e incapacidade de afeto na tolerância quanto ao afastamento. O reencontro então possibilita reviver tanto momentos saudáveis de desenvolvimento, quanto as faltas e falhas, que talvez não tenham tido chances de serem melhor elaboradas. Assim surgem defesas ou o que chamamos em psicanálise de resistência. O reencontro com pessoas não tão queridas, ou com aquelas que não podem contribuir com afeto, sinceridade, e que muitas vezes contaminam e intoxicam, também propõe um novo olhar para um relacionamento que clama por nova chance de serem repensados, certificando a necessidade da distância.

Uma oportunidade de elaborar a imagem do outro que fica no eu. É uma chance então de se revelar o verdadeiro amigo: aquele que tivera chance de ser conhecido e reconhecido como uma imagem boa. A capacidade de se manter relacionado com alguém onde a combinação de afeto e sinceridade é o que permeia a comunicação e define a saúde da experiência. O momento internalizado ou do simbolizar faz com que possamos passar anos longe de alguém sem que esta imagem seja destruída em nós. Insisto no símbolo que permite conservar algo no coração mesmo na impossibilidade de confirmação com os órgãos dos sentidos. A confiança, mesmo depois de muito tempo, pode se manter.

“A con-fiança que significa fiança compartilhada, mantida pelas partes, nutrida pela fé e assim geradora da fidelidade. O fio que permite, depois do conhecer, ausentar-se para que assim no regresso seja possível o re¬conhecer.” (Martino, 2014)

Penélope
Na “Odisséia de Homero”, o mito de Ulisses viaja por vinte anos e sua esposa Penélope passa a fiar, e a permanência deste fio (vínculo) é o que permitiu a espera e trouxe seu amado de volta. Durante os vinte anos, tanto um como outro estiveram expostos a vários ataques que ameaçavam este vínculo. A experiência que reúne amor e verdade, é onde se sedimenta um relacionamento de confiança, e isso é alcançado sempre com a boa convivência à demanda de anos.




Bion, W. R. Aprender com a Experiência. Imago, Rio de Ja¬neiro, 1991 (1962).
Freud. S. ALÉM DO PRINCÍPIO DE PRAZER, Imago - 1920.
Freud. S. INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS, 1900.
HOMERO - Odisséia, Tradução, Carlos Alberto Nunes. 2. ed. São Paulo: Ediouro, 2009.
Martino, R. D. O amor e a expansão do pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva / 1. ed. - São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.






Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
prof.renatodiasmartino@gmail.com

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br

terça-feira, 26 de abril de 2011

O SONHAR (ENQUANTO RECURSO NA EXPANSÃO MENTAL)

Pintura Pierre-Cécile Puvis de Chavannes-
O Sonho, 1883


            Do ponto de vista das religiões vem representado por um aviso de Deus, como aparece no trecho bíblico onde o anjo Gabriel avisa São José, em sonho que sua esposa está grávida de uma criança divina. É também num sonho que um anjo o avisa para fugir para o Egito assim como quando seria seguro retornar à Israel.
Nos contos de fada sugere a transposição para outro mundo, como no Mágico de Oz, onde Dorothy dorme e é remetida para “outro mundo” e partir daí, pessoas do seu convívio das quais ela amava muito, criaram qualidades mágicas e bem específicas assim como um desejo particular muito claro em cada personagem. Depois de saber que com sua chegada uma casa havia caído sobre a Bruxa do Leste, a garotinha calçando os sapatinhos vermelhos da bruxa e com seu cachorrinho Totó, deve agora seguir a estrada de tijolinhos dourados até o Mágico de Oz. Ele trará a salvação realizando o desejo de cada companheiro de Dorothy e será ele também que proverá o veiculo para que ela volte para casa. Contudo no desfecho, o mágico revela-se um homem comum por traz de um aparato tecnológico que ampliava a visão quanto a seu poder.
No conto de Alice no País das Maravilhas ela adormece lendo um livro no jardim de casa e assim inicia uma viagem ao seu interior onde a noção de tempo é sempre interrompida pelo Chapeleiro Maluco que propõe o chá das quatro o tempo todo. A noção de espaço também é algo extremamente inconstante quando Alice aumenta e diminui de tamanho. Nos contos de fadas, assim como nos sonhos, inúmeras são as situações inusitadas que só ganham sentido se submetidas a analise e certa interpretação.
 René Descartes  1596 - 1650
em pintura de Frans Hals
Grandes pensadores como Thomas Edison (1847 – 1931) que inventou e desenvolveu muitos dispositivos de grande importancia para civilização, entre eles a lâmpada incandescente, Francis Crick (1916 – 2004) físico responsável por desenvolver a estrutura da molécula do DNA e René Descartes (1596 – 1650) pai da filosofia moderna, entre outros, tiveram importantes sonhos que antecederam suas grandes idéias que serviram de considerável avanço na cultura e na ciência.
'O Sonho' de Salvador Dalí
Nas artes o sonho também é ricamente ilustrado por nomes importantes. O artista plástico espanhol Salvador Dalí (1904 – 1989) desenvolveu um estilo dentro do movimento surrealista bem proximo da figuração dos sonhos. Suas telas transmitem intensa emoção sem que seja necessario uma coerencia na posição e disposição dos elemento. O movimento do Surrealismo revelou grandes nomes da arte que seguiram essa mesma tendencia.
O musico inglês Paul MacCartney integrante dos Beatles, relata que compões a canção “Yesterday” assim que acordou depois de um sonho. Numa manhã em maio de 1965, Paul despertou com uma melodia na cabeça. Imediatamente ele foi para o piano que havia no seu quarto em Wimpole Street, em Londres, e tocou a música toda, completa, com primeira e segunda parte.
Hypnos - Greek God Hypnos
Igualmente na filosofia o sonho serve de ferramenta importante na cogitação da vida. Filosoficamente a disposição para sonhar pode representar a capacidade de projetar uma possibilidade de futuro. Em um vértice mitologico o sonhar depende de Hipnos, o deus do sono, irmão gêmeo de Thânatos o deus da morte. São filhos de Nyx, deusa da noite e filha do Caos, uma das primeiras criaturas a emergir do vazio, na mitologia grega.
A experiência do sonhar está espalhada pelas culturas e em cada uma dessas dimensões recebe certo sentido. Sendo assim, ignorar ou mesmo desvaloriza essa experiência corresponde ao desprezar de uma dimensão importante da alma humana.
O Pesadelo,
de Henry Fuseli, 1802
Frankfurter Goethe-Museum,
Frankfurt
Apesar dos sonhos serem, em geral, lembrados por elementos que em primeiro momento são vistos como indiferentes no desempenho da vida, num olhar mais atento e cuidadoso, percebe-se o valor que essa experiência pode adquirir no que diz respeito ao domínio do desenvolvimento da personalidade.
A psicanálise atribui ao sonhar um valor imprescindível nos processos psíquicos e do pensar, há muito tempo e até os dias de hoje. Mais do que nunca o sonho é um referencial de desenvolvimento da expansão do pensamento.

Janela para o profundo

No estudo da psicologia humana, o sonho talvez seja a representação mais fiel daquilo que chamamos de mundo interno. Em suas interpretações revelam-se instrumentos que permitem acesso a um lugar interior, onde estão os maiores desejos e também os maiores medos do ser humano.


Sigmund Freud (1856-1939)


Em 1900, Sigmund Freud (1856-1939) publica um dos maiores livros da literatura mundial, ‘A Interpretação dos Sonhos’, dando assim início ao estudo cientifico dessa ordem de fenômenos ocorrentes na mente humana. Nessa obra ele propõe que o conteúdo do sonho seja um modo de “realização de desejos”. É regido pelo que Freud chamou de processo primário onde o eu equivale a noção do todo no mundo, e por funcionar atravez do que denominou principio do prazer o objetivo exclusivo é o de afastar desconfortos, sem levar em conta a realidade. Esse foi o primeiro olhar para uma idéia que se espandiu e evoluiu para um pensamento rico em instrumentos para o pensamento psicanalitico.
Freud chamava o sonho de ‘via regia’ para o inconsciente. É através do sonho que se pode obter certo referencial do inconsciente de forma mais clara. Por conta disso, no sonho, aspectos ligados a tempo e espaço, são sempre de difícil definição, já que essas são características particulares dos fenômenos do consciente. Dessa forma, o lado nobre das ruas de Viena propõe uma bela metáfora para pensarmos o sonho. O mais sublime dos instrumentos na tarefa de se perceber o movimento interno naquilo que chamamos espaço mental.

Obstáculos da interpretação

Na tarefa de se interpretar o sonho encontram-se inúmeros obstáculos e forças contrarias que confundem a compreensão e dificultam o trabalho de reconhecimento dos conteúdos oníricos (o aspecto onírico será mais bem estudado mais a frente, nos próximos tópicos). Em psicanálise, essa classe de fenômenos de impedimento recebe o nome de resistência. Contudo a resistência não ocorre só na interpretação dos sonhos, mas em qualquer que seja a tentativa de se introduzir a interpretação psicanalítica. Podemos ponderar que a resistência está presente em qualquer que seja a experiência de confronto entre aspectos das realidades interna e realidade externa.
Isso por conta do despreparo natural do aparelho mental de nós, seres humanos, na capacidade de tolerar desconfortos emocionais. Frustrações são recorrentes na empreitada de se perceber e se conhecer a si mesmo. Dessa forma, o próprio aparelho psíquico cria certos mecanismos de defesa que fazem com que nos esqueçamos do sonho ou de parte dele. Isso ocorre assim que se desperta, ou seja, assim que retomamos a consciência da vida em vigília. Proponho que isso ocorra, pois muito provavelmente se perceba nesse sonho, ou nesse trecho de sonho esquecido, alguma verdade muito dolorida sobre si-mesmo.
Por isso muitas vezes os sonhos parecem tão desconexos. Por ocasiões, nem nos lembramos de partes significativas o bastante para que formemos o mínimo de sentido para relatarmos. Mesmo assim, sentimos que esse sonho nos trouxe certa sensação de prazer ou desprazer. Mesmo sem muita compreensão, apenas acordamos angustiados ou então bem dispostos sem nos lembrar do que sonhamos.
Proponho então que, se isso é fato, na medida em que podemos nos perceber e nos reconhecer melhor em nossos medos e desejos, naturalmente poderemos ter maior acesso aos conteúdos dos sonhos. E o contrario também é verdade, aquele que tem medo de si mesmo terá maior dificuldade no desempenho do sonhar. Como coloca Freud em, “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”, publicado em 1912, o sonho também é um caminho para o auto-conhecimento :


“Há alguns anos, dei como resposta à pergunta de como alguém se pode tornar analista: ‘Pela análise dos próprios sonhos’ Esta preparação, fora de dúvida, é suficiente para muitas pessoas, mas não para todos que desejam aprender análise. Nem pode todo mundo conseguir interpretar seus próprios sonhos sem auxílio externo”. Freud (1912-p.55-56)

 Um exemplo muito claro disso é o que nos ocorre enquanto estamos em análise. É muito comum nos lembrarmos de nossos sonhos quando estamos no divã, talvez por sentirmo-nos mais seguros para recordá-los na presença do analista.

Ponte entre consciente e inconsciente

Um impulso (inconsciente) que clama por ser compreendido (tornar-se consciente) é uma chance sem igual para que se inicie um autoconhecimento. O sonho é em si uma mistura dos conteúdos conscientes e inconscientes. São impulsos que ainda não puderam ser efetivamente pensados, impregnados de resquícios da vida em vigília, ou seja, fatos acontecidos no nosso dia a dia. Muito do que vivemos durante nosso dia não pode ser pensado e simplesmente vivemos, agimos. Isso muito provavelmente surgirá no sonho tentando mais uma vez emergir para ser relembrado e agora talvez, pensado. Sendo assim, poderíamos dizer que nos sonhos encontramos experiências, sobre tudo emocionais, ocorridos sem que tivesse chance de preparação. Falo de uma situação de perigo e surpresa onde não houve oportunidade de ansiedade (que vem anterior ao perigo) e que agora é recorrente no sonho.
Apesar de o sonho ser normalmente relacionado ao sono, na verdade sonhamos o tempo todo, mesmo quando acordados, ou em estado de vigília. Porém, a realidade nos cobra atenção e nos desvia do nosso mundo dos sonhos. É quando confrontamos seu conteúdo com aquilo que é real e possível.
Uma ponte que liga o consciente e inconsciente. Um contato com o inconsciente, conceito que juntamente com o da transferência, do reprimido e da sexualidade infantil, é um dos elementos pilares da teoria psicanalítica. O inconsciente é esse mundo caótico onde conceitos racionais como tempo e lugar, não fazem o menor sentido. No sonho condensamos e deslocamos imagens e sentimentos. Todos os personagens dos nossos sonhos na realidade são partes do eu e condensam-se e deslocam-se conforme as leis do principio do prazer. Partes de nós mesmos projetadas em figuras da realidade e articuladas no enredo do sonho. Certa vulnerabilidade que não esteja podendo ser reconhecida pelo ‘eu’ pode ser representada no sonho, por um animalzinho indefeso, por exemplo.

Além de um simples caminho

C. Gustav Jung (1875 – 1961)
C. Gustav Jung (1875 – 1961), medico suíço e um dos discípulos mais importantes de Freud escreve em PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE publicado no Brasil em 1971 a transcendência do conceito do sonho. “Considero o sonho não só como uma fonte preciosa de informações, mas também como um instrumento educativo e terapêutico eficientíssimo” pg. 97. Se utilizarmos um modelo onde compreendam continente e contudo, o sonho não é simplesmente a forma mais nobre de se chegar ao inconsciente e revelar os elementos ali contidos, ele tem fundamental importância nos processos internos, e isso vai mais além do que essa função.


Wilfred Ruprecht Bion ( 1897 – 1979)


Assim como certos processos de digestão têm sua importância por fazerem parte do funcionamento biológico do corpo físico, na alma ou no aparelho psíquico, o sonho tem análoga função. Wilfred Ruprecht Bion ( 1897 – 1979), importante psicanalista contemporaneo, deixa em seus manuscritos um valioso material de reflexão sobre os sonhos. Nessa reunião de textos que teve sua publicação póstuma em 1992, numa coletania de manuscritos entitulada “Cogitações”, Bion escreve propondo um modelo parecido. Bion expande o pensamento freudiano e enriquece a valorização do sonhar que em 1900 Freud iniciara a pesquisa. Ele escreve que os sonhos são “ continentes de uma massa amorfa de elementos não conectados e indiferenciados” (p. 58).  Está ai uma chance de se “digerir” certas idéias e nutrir-se delas.
Existe ai a oportunidade da percepção de conflitos internos propondo assim, uma ocasião de elaboração e evolução do pensamento. No sonho ocorre a acomodação e harmonização dos dados recolhidos pelos órgãos dos sentidos, com os conteúdos mentais. Isto é aquilo que em psicanálise denominamos “capacidade para o trabalho onírico”. Bion propõe em sua obra “Estudos Psicanalíticos Revisados” ou no inglês original Scond Thought publicado no Brasil em 1967, a função alfa como, “um instrumento de trabalho na analise dos distúrbios do pensamento” (pg. 133), essa capacidade é o que converteria os dados sensoriais em elementos alfa, fornecendo assim para o aparelho psíquico material para o pensamento onírico. Esse processo para Bion é o que propicia a capacidade de dormir e acordar, de estar consciente ou inconsciente. Segundo Bion:

“O malogro no estabelecimento de uma relação mãe/bebê em que seja possível a identificação projetiva normal impedirá, entretanto, o desenvolvimento de uma função alfa e, consequentemente a diferenciação dos elementos conscientes e inconscientes”. (pg. 133)

O 'Om' símbolo das religiões indianas
O símbolo e o trabalho onírico

Estamos cogitando, sobretudo, a propósito do trabalho onírico, o responsável pela conversão dos pensamentos inaceitáveis para o ego, em pensamentos oníricos. Esse processo compreende alguns mecanismos conhecidos da psicanálise, como: condensação, deslocamento, representação, até chegarmos ao simbolismo propriamente dito. O símbolo é o resultado bem sucedido do trabalho onírico. A falha na capacidade do processo onírico gera um estado característico do funcionamento psicótico. Um funcionamento onde até existe certo contato com a realidade, mas isso é feito com muito pouca freqüência e com uma dificuldade grande. O psicótico tem muito pouca habilidade em distinguir o que é sonho e o que é real.


Se estivermos de acordo até esse ponto, então podemos dizer que o sonho é certa produção mental a partir de uma experiência fracassada no vínculo com a realidade.  Um sinal de que isso ocorreu. Assim, a conjectura freudiana de que o sonho é uma realização de desejos inconscientes, ganham novo ponto de vista e passamos a perceber uma questão ligada ao ideal de eu, que diz respeito a aquilo que se pretende ser. A rigidez dessa parte da estrutura mental do qual também Freud chamou de superego é a responsável pelo insucesso do desenvolvimento do sonho em sua função mental. Isso porque, aquilo que o “eu” pode ser entra em conflito com aquilo que o “eu” deve (ria) ser. Forma-se então, um ambiente extremamente delicado para o funcionamento mental. A partir da ação cruel do superego, a auto-depreciação ocorre onde o que se tem obrigação de ser fica valorizado em detrimento do que realmente se pode ser.
Muito interessante podermos nos lembrar do que sonhamos. Isso é muito sério, na medida em que somos aquilo que um dia sonhamos. Se não se sonha, ou não se tem consciência do que se sonha, como poderá se realizar?

Referencias:
Freud, S. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
Jung, Carl Gustav. (1971) PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE – Editora Vozes.

Bion, Wilfred Ruprecht. (1992). Cogitations. (Edited by F.Bion). London: Karnac Books.

Bion, Wilfred Ruprecht. (1967). Estudos Psicanalíticos Revisados (Scond Thought). Rio de Janeiro, IMAGO Editora.





Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
renatodiasmartino@hotmail.com
Fone – 17 3011 3866