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quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

IMATURIDADE, SIMBOLIZAÇÃO, VÍNCULO E ESPERANÇA - Prof. Renato Dias Martino




IMATURIDADE

Nós vivemos numa sociedade de adultos imaturos, adultos imaturos e perigosamente inteligentes. Sujeitos que têm uma inteligência grande, o sujeito que tem um conhecimento muito vasto, mas que são extremamente imaturos emocionalmente e um sujeito imaturo emocionalmente condiz com um sujeito incapaz afetivamente, ou seja, incapaz de amar. Ele não é capaz de se dedicar ao outro, ele não é capaz de considerar o outro, ele não é capaz de respeitar o outro. Porque, apesar de inteligente é imaturo e sendo guardando, fixado uma criança ou inúmeras crianças dentro dele, ele vai priorizar aquilo que o interessa e não aquilo que seja bom para todos.

PRINCÍPIO DO PRAZER 

O Freud propôs que nós funcionamos de duas formas diferentes. No processo primário e no processo secundário. O processo primário é regido pelo princípio do prazer, ou seja, eu busco satisfação imediata o tempo todo e evito desconfortos o tempo todo. Esta é a função do processo primário, no princípio do prazer. Na medida em que o sujeito vai desenvolvendo a sua capacidade de tolerância, ele começa a funcionar também por um outro processo chamado processo secundário, que então é regido pelo princípio da realidade. Ele começa admitir, considerar alguma coisa que já não é só o seu prazer, não é só a sua satisfação, não é só evitar desconfortos, mas é também considerar o mundo externo e a realidade como um todo. Nós estamos falando então, de uma sociedade onde um adulto não é capaz de considerar a realidade como um todo, mas ele simplesmente e tão somente busca a sua satisfação e muitas vezes usando, de maneira inteligente, narrativas dizendo que aquilo ali é para o bem do outro também.

NO ADULTO

Nós funcionamos, mesmo depois de adulto a maioria do tempo, pelo processo primário. Não deixamos de funcionar, no entanto, nós aprendemos a conter os desdobramentos do processo primário e a partir de então, somos capazes de funcionarmos também pelo processo secundário. Na maioria do tempo a gente está buscando afastar desconfortos e buscando satisfação imediata, no entanto, somos capazes, a partir da maturação emocional, de conter este processo para que ele não se manifeste o tempo todo e nesta continência a gente passa a ser capaz de considerar o mundo externo também. Ou seja, o processo primário e o processo secundário vão funcionar concomitantemente. Um não anula o outro. Existe uma cota do sujeito funcionando por um processo e outra cota funcionando por outro processo, mas a maior parte do tempo nós estamos funcionando pelo processo primário, por mais maduro, por assim dize,r que nós possamos ser.

SIMBOLIZAÇÃO 

Como é que o processo psicoterapêutico entra nessa tarefa de transformação da forma que o sujeito funciona? Através da simbolização. Como é que se dá esse trabalho de simbolização? Se dá de uma maneira muito bonita, muito bela, porque o sujeito, a partir do vínculo bem-sucedido com o psicoterapeuta, com o psicanalista, o sujeito, enquanto paciente, ele vai internalizando a relação que ele tem com o analista e a partir dali esta relação que ele tem com analista vai se tornando um modelo que ele vai aos pouquinhos trazendo para a relação com ele mesmo. Então, a forma como ele se relaciona consigo mesmo vai ganhar um novo modelo a partir da relação que ele tem com o analista. Então, em primeiro momento ele vai levar a figura do analista internalizada e na medida em que ele se encontra em algum conflito na sua vida cotidiana, ele provavelmente vai pensar: “o que seria que o meu psicoterapeuta, o meu psicanalista me diria agora, nessa situação?” E na medida em que ele vai conseguindo internalizar e essa simbolização vai se efetivando e vai se consolidando, ele passa a levar esse diálogo na relação com ele próprio, ou seja, ele não pensa mais o que o psicanalista dele diria para ele, mas hoje ele já tem essa forma de funcionar e ele mesmo passa a lidar com seus conflitos de uma forma própria, que leva em conta as experiências que ele teve com o analista.

SUPORTAR 

Esse processo de simbolização faz com que o sujeito seja cada vez mais capaz de tolerar desconfortos e menos capaz de aguentar desconfortos. Porque o sujeito quando ele aguenta é porque ele não aprendeu a tolerar. O desdobramento bem-sucedido é na capacidade de tolerar na esperança de que aquilo vai passar. O sujeito que aguenta ele aguenta porque não tem esperança de passar. Ele suporta. Ele carrega o peso o sujeito que tolera, tolera até que passe. 

ESPERANÇA 

O processo de tolerância está diretamente subordinado à esperança. Sem esperança, sem tolerância. Precisa haver a esperança de que algo acontecerá e que possa trazer o alívio daquela situação, senão é aguentar e aguentar não é saudável por quê porque é acumulativo, porque é estressante, porque traz para o sujeito um adoecimento, mesmo que ele não esteja percebendo.


VÍNCULO E ESPERANÇA 

A esperança é algo desenvolvido, impreterivelmente a partir de um vínculo bem-sucedido. Não existe o desenvolvimento de esperança sem que anteriormente possa ter havido um vínculo afetivo saudável.

SIM E DIA

Símbolo é juntar, diábolos é separar. SIM é juntar, DIA é separar. Quando eu sou capaz de simbolizar, eu estou integrando. A partir da minha integração com o outro eu tenho um modelo de integração comigo mesmo. O processo de diabolização, por assim dizer, é o processo de separação de fragmentação. Então, enquanto eu, a partir do processo psicoterapêutico consigo simbolizar, a sociedade me propõe diabolizar por várias vias. Seja pelas ideologias que separam negros de brancos, homossexuais de heterossexuais, de homens de mulheres e outras coisas parecidas, vão separando as coisas e dentro do processo psicoterapêutico, a gente tem a chance de juntar as coisas e a partir de um processo extremamente desconfortável, reconhecer a realidade como um todo.

ESTAR SENDO

A diferenciação básica do ato de fé e da esperança é que o ato de fé diz respeito a algo que está acontecendo naquele momento, no aqui e agora, apesar de eu não conseguir constatar pelos meus órgãos dos sentidos, apesar de não estar dentro da perspectiva do sensorial, ainda sim está acontecendo. Então, isso carece o ato de fé para que eu possa, a partir da minha intuição, perceber isso, reconhecer isso aprender a respeitar isso e me responsabilizar por isso. A esperança diz respeito àquilo que há de vir. Então, por mais que agora a situação esteja me frustrando, ainda assim eu vou tolerar com a esperança de que isso vai se transformar e essa esperança diz respeito à percepção do “estar sendo”, do fluxo da vida e não de um estado cristalizado, engessado que, a partir do “eu sou”, não me permite perceber que a vida é um fluxo.

SOBRE O SABER

Intuição sem que eu possa dar um nome, ela é cega. Um nome que não esteja preenchido de intuição é vazio. No entanto, a partir da nossa vivência psicoterapêutica, a gente percebe que muitas vezes, a intuição não precisa sequer levar um nome para que ela possa ser considerada. Muitas vezes eu não vou encontrar nome para uma experiência vivida e a ainda assim, essa experiência que não foi nomeada é nutridora, é passiva de aprendizado, nos ensina, mesmo sem nome. Priorizar o conhecimento, ainda ficar ligado ao saber, ao conhecer, é limitar a nossa experiência como um todo. Porque o saber é limitado, é limitado e limitante em qualquer esfera, seja numa ciência extremamente rebuscada e tecnológica, ainda assim, esse saber é limitante, porque o saber não inclui o amor. O saber é frio, o saber é racional, o sujeito só vai desenvolver a sua capacidade afetiva a partir do seu desenvolvimento emocional, da sua qualificação afetiva, que venha de um preparo, de uma maturação emocional, que tem a ver com simbolizações e tolerância.

EQUAÇÃO OU ANALOGIA 


O termo “equação simbólica” foi criada pela Hanna Segal, inspirada na Melanie Klein. Equação simbólica é quando o objeto coincide com o símbolo, equaciona com o símbolo. Aquilo que está dentro é aquilo que está fora. Quando aquilo que está fora não está presente, aquilo o que tá dentro também não fica presente. Não traz a possibilidade de desenvolver tolerância, porque a ausência de um equaciona a ausência do outro e isso vai para além, num exemplo dentro da clínica. O analista é meu pai! Isto é uma equação simbólica. O analista se torna o pai do sujeito. A analista se torna a mãe do sujeito. Na analogia simbólica é assim: isto que está dentro é como se fosse aquilo que está fora, então não é aquilo que está fora, mas é como se fosse. O analista é como se fosse meu pai. Isso é analogia. O analista é análogo ao meu pai, ele não está numa equação com o meu pai. A analista é como se fosse a minha mãe, ela não é minha mãe equacionada. A parte psicótica da mente funciona por ação simbólica e não por analogia simbólica. A equação simbólica só tem igualdades, a analogia simbólica tem igualdades e também admite diferenças.

BEZERRO DE OURO 

Um exemplo muito interessante de equação simbólica, nas formulações religiosas é a passagem do bezerro de ouro. Quando Moisés sobe a montanha para ter com Deus e o povo fica ali esperando, quando ele volta o povo juntou todo o ouro que tinha, derreteu e fez um bezerro de ouro. Para o povo, Deus tinha que ser materializado em algo valoroso, porque senão eles não conseguiam adorar Deus. Então, existe a necessidade de concretizar alguma coisa para que este elemento concreto e físico possa coincidir com o símbolo interno.



terça-feira, 25 de junho de 2024

TOLERAR OU SUPORTAR - Prof. Renato Dias Martino



Suportar é carregar um peso. Suportar é aguentar um peso. Tolerar quer dizer ser capaz de sustentar a situação até que passe. Tolerar é ser capaz de sustentar aquilo que está acontecendo com a esperança de passar. Suportar é carregar aquele peso sem a esperança de que aquilo passe. Tolerância inclui o respeito. Então, eu tolero até que isso passe e se isso não passar eu me afasto. Suportar é permitir e eu não permito.

MELANCOLIA 

O processo do luto inclui a tolerância. Aprender a tolerar. O suportar tem a ver com o estado de melancolia. O melancólico carrega um peso, ele suporta o peso do objeto que foi perdido, do objeto morto. O processo do luto, está fundamentado na capacidade de tolerar frustrações. O que é tolerar frustrações? Tolerar frustrações é ser capaz de sustentar a situação até que a situação se transforme. Então, é necessário que se tenha esperança de que aquilo está em transformação e não só esperança, mas está disponível à transformação da experiência. Esta é a tolerância quem tolera, tolera com a proposta de que aquilo está se transformando. O luto é isso. Então, o sujeito perdeu alguma coisa no mundo externo, tolera até que o processo possa se dar e ele aprenda a conviver com a perda daquilo que se foi e passa a tolerar a ausência disso que se foi. Passou então, a tolerância está configurada num fluxo. O fluxo do processo. Sofrer o processo do luto depende da capacidade de tolerar. Cada luto que você é capaz de sofrer o processo, você amplia mais um pouco a sua capacidade de tolerância. Na melancolia é o contrário. Melancolia não é um processo que se sofre, a melancolia é um estado que se entra e se cristaliza. Um estado estático. E nesse estado estático, o sujeito, ele não tolera, ele suporta o peso daquilo que morreu e na realidade, ele não dá conta de tolerar, por isso suporta. E suportar isso, aguentar isso, traz o prejuízo de desgaste, traz o prejuízo de desperdiçar energia carregando o peso morto. Por isso, ele não consegue fazer mais nada, porque ele está suportando aquele peso morto. O melancólico, ele carrega nas costas aquilo que foi perdido e com este peso, esse sobrepeso, por assim dizer, ele não consegue caminhar. Ele não consegue fazer as coisas básicas da vida dele, porque a energia dele está sendo desperdiçada todinha em carregar aquele peso morto.

CONCEITO E EXPERIÊNCIA 

Que que tem falar suportar ou tolerar? Não! Não teria problema nenhum, se você não fosse psicanalista. Não teria problema nenhum se você tivesse falando, por exemplo, de uma caneca, ou chamando essa caneca de copo. Não tem problema, mas nós estamos aqui tratando da relação entre experiência e conceito. A nomeação de experiências. É necessário que a gente possa nomear adequadamente à experiências. Porque, muitas vezes, o seu paciente pode chegar dizendo assim: “olha, fulano me deu um tapa na cara, mas ele fez isso por amor”. Aí, você pergunta: “o que que você está chamando de amor?”. “Que conceito você está atribuindo para experiência de amor?” Isso, dentro da clínica, não é importante, é fundamental, porque senão, as palavras vão se desconectando do pensamento e das experiências.

TOLERÂNCIA E MATURIDADE

Uma coisa é a mãe tolerar a imaturidade da criança até que ela se desenvolva, outra coisa é uma mãe suportar a criança. Quando ela suporta esta criança, ela acaba obstruindo o desenvolvimento desta criança. Porque suportar diz respeito a aceitar assim como é. Tolerar, diz respeito a respeitar o processo que está em desenvolvimento. Quanto mais maduro emocionalmente o sujeito estiver, mais ele é capaz de tolerar e menos ele é capaz de suportar.

TOLERÂNCIA OU PERMISSIVIDADE 

Tolerância tem limite. Tolerar é a partir do reconhecimento do limite. Quando o sujeito reconhece o seu limite, ele tolera. Quando a situação passa do limite, ele tolera para se retirar, quando a situação está dentro do limite, ele tolera até que a situação se desenvolva e se transforme. A incapacidade de reconhecimento do limite invalida a tolerância. Se o sujeito não reconhecer o limite, a tolerância dele não é tolerância, é permissividade.