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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

DESAPEGO E A TRANSFORMAÇÃO - Da Intolerância Saudável - Prof. Renato Dia...


APRENDIZADO

 

Numa mente saudável, as transformações são sempre importantes, porque por pior que seja a situação, esta situação, dentro de uma configuração saudável da mente, de uma mente integrada, serve na pior das hipóteses como aprendizado. Por mais nociva que seja, por mais dolorosa que seja, a tendência da transformação, se o sujeito estiver integrado. Se o sujeito estiver saudável emocionalmente e afetivamente, ele vai conseguir tirar alguma coisa de aprendizado dessa experiência de transformação.

 

DESCONFORTO

 

Toda transformação tem um início e este início é o desconforto. O desconforto é o que inaugura a transformação. O sujeito sente um desconforto e a partir da possibilidade da percepção desse desconforto e da condição de tolerar esse desconforto, ele começa um processo de aprendizado que vai se desdobrar na transformação. Se ele não consegue perceber esse desconforto, nada feito. Se ele percebe esse desconforto e não consegue tolerar esse desconforto, nada feito. Então, precisa haver a possibilidade de perceber, reconhecer e tolerar isto que foi reconhecido.

 

CONFORMADO

 

Muitas vezes o sujeito percebe, ele pode até perceber um desconforto. Muitas vezes o sujeito até reconhece esse desconforto que ele percebeu, mas ele não mobiliza qualquer atitude para que a transformação possa acontecer, porque muitas vezes ele acredita que ele não seja capaz de transpor este obstáculo e muitas vezes ele se conforma mesmo se sentindo desconfortável naquela posição.

 

LENTAMENTE

 

A transformação saudável vai ocorrer lentamente. Muitas vezes pode acontecer algum advento, algum fato que possa trazer uma mudança catastrófica, mas esta mudança catastrófica já estava sendo preparada há muito tempo. Algo já estava acontecendo lentamente e um fator fez com que desencadeasse a mudança catastrófica, que pode parecer para o sujeito que aconteceu de uma hora para outra, mas aquilo já estava sendo preparado há muito tempo. Assim como a gente vê uma flor desabrochando. A gente acha que foi de um dia para noite que a flor desabrochou. Não, um processo já estava acontecendo ali sem que a gente pudesse perceber.

 

TOLERÂNCIA TEM LIMITE

 

Tolerância tem limite. Quando a tolerância não tem limite, ela não é saudável. Para que a tolerância seja saudável, ela tem um limite. Quando passa desse limite, a tolerância passa a ser nociva, prejudicial. Ou seja, então nós estamos falando aqui de uma possível intolerância saudável. Quando esta tolerância passa da medida, ela precisa se desdobrar em intolerância, porque este fator está agredindo o eu.

 

INSTINTO DE AUTOPRESERVAÇÃO

 

O instinto de autopreservação é a base do funcionamento emocional. É o primeiro elemento que eu preciso entrar num acordo. Eu preciso estar de acordo com meu instinto de autopreservação para que os outros desdobramentos do funcionamento emocional possam ser bem-sucedidos. Uma equação iniciada com um equívoco jamais poderá chegar a um resultado coerente. E eu não estou falando de matemática. Quando a equação, por assim dizer, do funcionamento emocional começa num desacordo com o instinto de autopreservação, qualquer desdobramento disso não vai ser bem-sucedido, não vai ter coerência.

 

 INTOLERÂNCIA SAUDÁVEL

 

A intolerância passa a ser saudável quando ela está ligada a um fator que está obstruindo a transformação. Ser tolerante com fatores que obstruem a transformação é nocivo. Se configura naquilo que a gente chama de conformismo ou permissividade. Ou ainda numa zona de conforto onde o sujeito está ali estagnado. Se conformou com o estado cristalizado e a partir dali ele fica fixado. E aí, esta tolerância se converte em permissividade em todos os âmbitos, mas fundamentalmente no âmbito emocional que vai se desdobrar no âmbito afetivo.

 

ONIPOTÊNCIA

 

Muitas vezes o sujeito vive um contrassenso. Ele pode se julgar incapaz de viver a transformação e se conformar com certa situação. E por se julgar incapaz de viver esta transformação, ele acaba assumindo onipotência. Ele acredita que ele dá conta de se manter daquela forma. Ele acredita que ele dá conta de aguentar tudo aquilo que está acontecendo. Uma experiência de se julgar incapaz se desdobra numa experiência de sensação de onipotência, de que ele aguenta tudo.

 

SENTIMENTO DE CULPA

 

Muitas vezes o sujeito carrega um sentimento de culpa porque ele não acredita que é capaz de se responsabilizar por aquilo. Mas carregar o sentimento de culpa é muito mais pesado do que a atitude de se responsabilizar, porque a responsabilização liberta e a culpa é uma prisão, o sentimento de culpa, porque culpa não existe.

 

MORAL OU ÉTICA

 

Quando eu sou o meu melhor amigo, quando eu estou de bem comigo mesmo, quando eu estou de acordo comigo mesmo, qualquer pessoa que não esteja de acordo comigo, eu passo a me desinteressar pela relação. E aí, se essa relação for nociva ainda, quando essa pessoa estiver desrespeitando, sendo hostil, tanto menos, porque eu prefiro a minha companhia, porque eu prefiro a minha presença do que a presença de alguém que não seja capaz de me respeitar, porque eu estou me respeitando. Na moral, eu respeito o outro porque eu quero que ele me respeite. Na ética, eu respeito o outro porque antes eu já estava me respeitando e este respeito se desdobrou no respeito pelo outro.

 

O AMOR DO OUTRO

 

Ninguém dá conta de amar a si mesmo se não estiver sendo amado pelo outro. Amor-próprio tem a sua manutenção a partir do amor do outro. Ninguém é uma ilha. Ninguém consegue se manter sozinho sem que o outro esteja nos irrigando de amor e de verdade. Nós precisamos de um fluxo constante de amor e verdade. Muitas vezes a gente acredita que amor-próprio é algo que a gente consegue, sabe lá onde. Numa leitura de um livro de autoajuda, numa instituição religiosa, sei lá onde. Não. O amor-próprio só pode se desenvolver e se manter através da irrigação do amor que venha do outro, para que eu possa aprender a amar a mim mesmo e aí então desdobrar esse amor no amor pelo outro.

 

INTUIÇÃO

 

O sujeito entra num acordo com o seu instinto de autopreservação e a intolerância passa a ser um fator da intuição que está emanando do instinto de autopreservação. O instinto de autopreservação está mandando um recado através da intolerância por intuição. E muitas vezes você não consegue explicar isso. Muitas vezes você não consegue saber sobre isso, mas ainda assim é importante que o sujeito seja capaz de respeitar isso e tomar uma atitude a partir deste sentimento, apesar de não conseguir entendê-lo. O que muitas vezes a vida na sociedade nos impede.

 

AGUENTAR

 

O sujeito insiste em se relacionar com alguém hostil, desrespeitoso, que agride ele o tempo inteiro. E por conta disso, ele fica de bem do outro, mas de mal dele mesmo. Quando ele deita a cabecinha no travesseiro, ele encara a si próprio. E quando ele encara a si próprio, ele está completamente descontente com ele, dizendo assim: "Por que você está permitindo isso?" E, normalmente ele argumenta: “Estou permitindo porque eu não acredito que eu seja capaz de tomar qualquer atitude para propiciar a transformação.” Eu consigo aguentar isso num ato de onipotência, porque não acredito que seja capaz de tolerar a transformação.

 

DESESTRUTURA DA FAMÍLIA

 

A desestruturação das famílias, a incapacidade das pessoas de cuidarem dos filhos que estão colocando no mundo, vai se desdobrando numa necessidade de criação de leis que possam doutrinar, que possam punir pessoas. O que está ruindo na realidade é a ética. O sujeito vai perdendo a ética. O sujeito vai perdendo a capacidade de respeitar a si mesmo. E aí, ele precisa ser punido, ele precisa viver com medo da punição. Então, leis são inventadas. Maria da Penha, feminicídio, isso, aquilo, aquilo outro, para tentar dar conta de algo que não vai dar conta. Não adianta! O ser humano não se transforma realmente por medo. A transformação se dá num processo irrigado de amor e sinceridade. Esta é a verdadeira transformação. A punição nunca trouxe a possibilidade de transformação real e não vai trazer.

 

PUNIÇÃO

 

Você acha que o cara que foi filmado dando 60 socos na cara da mulher, ele estava pensando em lei Maria da Penha? Ele se lembrou que existia alguma lei que pudesse vir a puni-lo? Nem passa na cabeça do sujeito violento que ele pode ser punido por aquilo. A questão vem bem antes disso. Essa pessoa não teve uma mãe que cuidou dele com carinho. E se teve essa mãe que cuidou dele com carinho, não teve um pai que pudesse mostrar o limite. Não tem a ver com leis, não tem a ver com punições, tem a ver com a estruturação da família. A família está falida. A família se tornou uma instituição onde o sujeito é obrigado a por conta da lei. Não é mais uma geração biológica espontânea, assim como todos os bichinhos da floresta no ser humano.

 

FAMÍLIA BEM ESTRUTURADA

 

A estruturação da personalidade que vai se dar através de uma família bem estruturada vai fazer com que o sujeito se aproxime daquilo que está escrito dentro do mistério da fé. Mas aquilo que está escrito ali no mistério da fé, nas Escrituras Sagradas, não podem de maneira alguma intervenção da personalidade do sujeito. Você não vai mudar a sua vida lendo a Bíblia. É o contrário. A tua vida transformada vai fazer com que você se aproxime da Bíblia. Não adianta ler Bíblia, ler livro de autoajuda, ler o Alcorão, ler o Bhagavad Gita, ler o Mahabharata. A mudança é interna. A sua mudança interna vai fazer com que você se aproxime espontaneamente de coisas saudáveis.

 

CORAGEM OU OUSADIA

 

Muitas vezes a gente confunde coragem com ousadia. Ousadia é algo que se faz a partir de uma atitude inconsequente. A ousadia é inconsequente. O sujeito não mede as consequências. Ele não consegue perceber qual o desdobramento daquela experiência que pode ser nociva. A coragem é agir com o coração. COR + AGEM. Quando o sujeito age com o coração, ele toma uma atitude que vai levá-lo a um desdobramento de uma transformação saudável. Então, ousadia não é coragem. Muitas vezes pode ser até o contrário.

 

AGIR COM O CORAÇÃO

 

Se a coragem é a base do bom funcionamento emocional, eu preciso estar sendo irrigado de amor, porque coragem é agir com o coração e o funcionamento emocional saudável só pode acontecer através da irrigação afetiva saudável. Preciso estar irrigado de amor para que eu possa funcionar bem no nível emocional. Como é um bom funcionamento emocional? Capacidade de se autoconter, de conter as suas emoções antes de despejar no outro, antes de evacuar. Ser capaz de, assim como o Bion nos sugeriu, fazer a digestão mental dos elementos antes que eu possa evacuar no outro. A evacuação a partir da ação não pensada. Isso é um bom funcionamento emocional.

 

 A DOR E O AMOR

 

A transformação vai ocorrer em duas fases. O sujeito vai cair um tombo e vai ser acolhido pelo outro. Primeiro a dor, depois o amor. Não é pela dor ou pelo amor, é pela dor e pelo amor. O sujeito cai o tombo, sente a dor e tem a mão do outro estendida para acolhê-lo. A partir deste acolhimento, está propício o caminho para que aconteça transformação. Não é garantia, porque muitas vezes o sujeito não está preparado, muitas vezes o sujeito caiu o tombo e ainda assim ele não está aberto a ser acolhido. Então ele precisa cair mais alguns tombos aí. E esta é a base daquilo que a gente chama em psicanálise de analisabilidade. Muitas vezes o sujeito caiu o tombo, mas ele ainda não desenvolveu a capacidade humilde de pedir ajuda para ser acolhido. E se ele não for humilde o suficiente para perceber que ele precisa de ajuda, ele não tem analisabilidade o suficiente.

 

PROPORCIONAR OU PROPICIAR

 

Ninguém proporciona a transformação de ninguém. Você pode, na melhor das hipóteses, propiciar para que essa transformação venha a acontecer. Quando o sujeito quer proporcionar a transformação do outro, isso se configura numa atitude narcisista de onipotência. Eu acredito que eu consigo mudar a vida dos outros. Não! Eu não mudo a vida de ninguém. Eu posso propiciar a possibilidade de transformação. Isso eu posso. Mas eu preciso contar com a atitude daquele que está sendo acolhido para transformação. Ele precisa estar preparado para isso. Não é proporcionar.

 

TOMBOS

 

Dentro do âmbito das transformações, a mãe precisa propiciar o desenvolvimento da criança. O “propiciar” está apoiado no instinto de autopreservação. A mãe cuida bem dela mesma, a mãe ama a si mesma e estende esse amor ao bebê que está no colo dela. Ela não sabe o que é melhor para o bebê. Ela sente o que é melhor para o bebê, porque é uma extensão do que é melhor para ela. E a independência deste bebê vai contar com o apoio dela. Ela deve apoiar esta independência, esse desenvolvimento. Muitas vezes esse desenvolvimento vai perpassar pela capacidade de ela tolerar ver a criança levar tombos para que ela possa aprender que cair dói.

 

MOMENTOS DIFÍCEIS

 

Quando o sujeito tem esta possibilidade de viver um vínculo saudável com o outro, quando ele cai, esta queda é uma oportunidade de reafirmar este vínculo saudável, de estreitar laços, de mostrar que aquela relação é realmente saudável. A relação saudável não se confirma em momentos agradáveis. As relações saudáveis se confirmam na crise, na situação catastrófica, no momento difícil. É ali que você vê se o vínculo é saudável mesmo ou não. 

 

CONJUNÇÃO CONSTANTE COM O UNIVERSO EM EXPANSÃO

 

Conjunção constante é quando duas partes ou mais estão, o tempo todo numa troca, ligação que alimenta as partes e é alimentado pelas partes. De conjunção constante, uma ação mútua de nutrição. Quando o sujeito está desobstruído ou está desobstruindo constantemente o seu caminho da transformação, ele está numa conjunção constante ou num acordo com o universo que está em expansão. Ele está se expandindo, está de acordo com o universo que está nesse mesmo movimento de expansão.

 

OBSTRUÇÃO

 

A ideia não é promover mudanças, mas é propiciar a possibilidade de a mudança acontecer. E como é que eu posso propiciar para que a mudança possa acontecer? Desobstruindo o meu caminho das ilusões. As ilusões obstruem o caminho e acabam represando o fluxo da vida que é transformação. Ninguém proporciona a transformação, mas você pode propiciar para que ela possa acontecer, porque ela vai acontecer, ela está acontecendo. O universo está em expansão, enquanto desobstruídos, nós estamos em acordo com este universo em expansão. Quando a gente está obstruído, a gente está em desacordo com o universo. Obstruídos, acabamos conseguindo expandir, assim como o universo.

 

MUDAR PARA PIOR

 

Não existe mudança para pior. A mudança é sempre para melhor. O sujeito que mudou para pior, ele não mudou, ele apenas se revelou. Ele estava fingindo, ele estava dissimulando e num momento propício ele se revelou. A mudança é sempre para melhor. Se houve uma real transformação, essa transformação é sempre para a melhor. Por mais catastrófica que ela possa ser, por mais dolorida que ela possa ser, por mais que ela tenha um aspecto doloroso, um aspecto que não seja muito confortável, ela é sempre para a melhor.

 

DEFESA

 

Muitas vezes o sujeito passa a apresentar características nocivas porque ela está configurada, ela está inserida num ambiente ameaçador. Mas enquanto ela está apresentando essas características, essas características são características defensivas, não são características dela. Ela está se defendendo deste ambiente que hora está ameaçando. Assim que ela conseguir sair desse ambiente ameaçador, essas características vão deixar de se manifestar. Porque são defensivas, não são da essência, não são do verdadeiro eu. Ela está precisando agir daquela forma para se manter naquele lugar que a ameaça o tempo todo. Isso não é uma transformação, isso não é uma mudança.

 

INVARIANTE

 

A água pode estar em qualquer estado: sólido, líquido ou gasoso. Ainda assim continua sendo H2O. É água. A essência permanece a mesma, mas a forma pode transformar. A configuração pode estar diferente, mas a essência é a mesma. Nós estamos falando aí de transformações e invariâncias, mas não é só nessa perspectiva. Existe uma perspectiva patológica, existe uma perspectiva que também é invariante, mas não é saudável, como é o caso da essência. No período da vida do sujeito, muitas vezes ele pode viver uma perda muito significativa e por conta de não estar preparado para viver essa perda, ele cair num estado de melancolia e uma cota da sua personalidade morre, por assim dizer. Esta parte não vai mais se transformar. Na melhor das hipóteses, ele pode aprender a conviver com esta parte que morreu, esta parte melancólica, que hoje é uma característica dele e ele precisa aprender a viver com isso. Isso não vai se transformar no período da vida dele. Talvez na próxima geração venha se transformar neste pensamento que ficará para o próximo pensador, mas nele não. O que dá para fazer é aprender a conviver com aquilo, é reconhecer aquilo, respeitar aquilo e se responsabilizar por aquilo que não irá se transformar no período da vida desse sujeito.

 

PSICOSE

 

O Freud dizia que o paciente psicótico não poderia ser tratado. Ele não acreditava que a psicose pudesse ser tratada pela psicanálise. A partir de Melanie Klein, isso começa a se transformar, isso começa a mudar. E aí, em Bion, então isso ficou muito claro. Sim, pacientes, que na realidade o Bion chama de pacientes com uma parte psicótica proeminente e não um paciente psicótico, né? Porque psicóticos todos nós somos em alguma proporção. Mas esse paciente que tem uma proeminência psicótica também pode ser tratado pela psicanálise. E como ele pode ser tratado pela psicanálise? Sendo capaz de reconhecer esta parte, respeitar esta parte e se responsabilizar por essa parte. Essa parte não vai se transformar. Essa parte vai continuar sendo psicótica. Essa parte vai continuar sendo cindida da realidade, mas o sujeito vai aprender a conviver com esta parte psicótica.

 

PRISÃO

 

Muitas vezes o sujeito vive um vínculo que o obriga a continuar sendo o mesmo. Muitas vezes ele prometeu para o outro que ele continuaria sendo o mesmo. Mas ninguém é. Nós estamos sendo. E quando a gente promete para o outro que a gente vai continuar sendo o mesmo, a gente está se enfiando numa prisão. Numa prisão que, muitas vezes, o sujeito se conforma em estar ali. Muitas vezes ele sequer reconhece que seja realmente uma prisão. E quando o sujeito não reconhece que ele está numa prisão, ele não pode se libertar dessa prisão.

 

SER O MESMO

 

Vamos pensar num sujeito que está inseguro de si mesmo, que está perdido no seu caminho e ele encontra uma instituição, uma instituição religiosa, por exemplo. E aí, ele entra nessa instituição religiosa e ele começa a prometer que ele vai ser eternamente fiel àquela instituição, que ele vai servir aquilo, que ele vai dedicar a vida a aquilo, que ele vai continuar sendo o mesmo ali dentro. Mas a própria instituição traz para ele uma segurança que faz com que ele seja capaz de crescer, de expandir, se desenvolver. E aí, ele começa a olhar do muro para fora da instituição. Ele começa a ver que tem um monte de coisas lá fora que a instituição o proíbe. E aí ele já prometeu. Como ele faz agora? Ele prometeu que iria ser o mesmo e a instituição trouxe para ele justamente aquilo que ele precisava para crescer e que mostrou para ele que existe um mundo para além daquele muro. Como ele faz agora?

 

PERMISSIVIDADE

 

Muitas vezes o sujeito está inserido num vínculo onde ele permite desrespeitos, ele permite abusos, porque na realidade ele não reconhece a sua capacidade, o seu potencial, o seu valor, mas por exemplo, ele começa a fazer psicoterapia e dentro do processo psicoterapêutico, ele começa a reconhecer o seu próprio valor. Ele começa a reconhecer as suas capacidades e ele começa a questionar esse vínculo de abuso. Mas ele prometeu para o outro que ele iria permitir este abuso. Até aquele ponto, aquele vínculo fez sentido e foi até bom para ele crescer, mas chegou num limite onde ou ele se afasta ou ele vai ficar prisioneiro daquilo para o resto da vida.

 

MELANCÓLICO

 

A mãe, enquanto mulher, ela nunca acreditou em si mesmo. E aí ela tem um filho. E aí, esse filho traz para ela um olhar desejoso que ela nunca tinha experimentado de ninguém. Ela nunca tinha sido olhada assim como o filho olha para ela. E ela faz esse filho prometer que ele nunca vai deixar de ser aquela criança que olha para ela com aquele olhar desejoso. E nós estamos falando aí, justamente daquele vínculo que terá o desfecho da melancolia na perda do objeto. O filho perde a mãe por algum motivo e cai em melancolia. não consegue ver o motivo de continuar vivendo, porque ele prometeu para a mãe que ele viveria só para ela. Esse filho é uma extensão do desejo de ser desejada da mãe. Então, ele não existe, não é uma pessoa. E quando isso acontece, ele não consegue estruturar sua personalidade. Ele vive subordinado à personalidade da mãe. E quando a mãe por acaso não está ali, ele também deixa de existir.

 

EXCESSO E FALTA

 

O excesso de mãe é pior do que a falta da mãe. Então, o excesso de mãe também é falta de mãe. Quando existe o excesso da mãe, é porque esta mãe está ignorando o filho. Este filho é uma extensão do seu desejo e não é uma outra pessoa. Todo excesso também é falta.

 

REGISTRO E TRANSFORMAÇÃO

 

Se você escreve um livro e dali alguns anos você lê aquele livro, você vai ver que você já não concorda com muita coisa que está escrita naquele livro. Mas como é que faz? O livro está escrito. Como é que você vai fazer? Você continuou se transformando, mas o livro permaneceu escrito, está gravado lá no papel e você acaba sendo forçado, obrigado a permanecer com aquela ideia para o resto da sua vida. Não! Eu não posso fazer isso comigo. Eu estou em permanente crescimento. Estou em perpétua transformação. Aquilo que eu gravei lá atrás hoje já não é do mesmo jeito.

 

TRANSFORMAÇÃO EM ALUCINOSE

 

Três elementos obstrutores da transformação. A transformação em alucinose, assim como propôs Bion, aquilo que vai corromper essa transformação numa obstrução para que isso possa seguir o fluxo da vida. A mentira, a inveja e a arrogância são três fatores que vão propiciar uma obstrução na transformação, que é o fluxo natural da vida. O sujeito que mente, ele mente para si mesmo e acaba em desacordo com a realidade. O sujeito invejoso não é capaz de contemplar. Ele vê as coisas com maus olhos. E o sujeito arrogante acaba não admitindo a sua ignorância frente à realidade e agindo com estupidez.

 

HIPOCRISIA

 

A hipocrisia também é um desdobramento do desacordo com a realidade, porque eu prego alguma coisa e faço o contrário. Agora, quando eu reconheço que é algo que precisa ser um exercício constante, uma manutenção constante, porque cada um de nós faz isso, deixa de ser hipocrisia. Quando eu falo de mentira, por exemplo, eu minto também. Todos nós mentimos. O maior mentiroso é aquele que diz que nunca mente. A inveja também está dentro dessa perspectiva. Todos nós somos invejosos. Todos nós somos invejosos. Cada um de nós sente inveja. Todos nós somos arrogantes. Então a hipocrisia é dizer que isso não está em mim, só está no outro.

 

PULSÃO DE VIDA

 

O que define a saúde da manifestação é se ela está sendo irrigada de pulsão de vida ou se a pulsão de vida está ausente e o que está predominando é a pulsão de morte. A mentira pode ser saudável na medida em que ela esteja sendo irrigada da pulsão de vida. A inveja pode ser saudável se estiver irrigada da pulsão de vida. A arrogância pode ser saudável se estiver irrigada de pulsão de vida. O que é pulsão de vida? É fluxo, é transformação. Muitas vezes o sujeito está mentindo, mas aquela mentira está sendo pertinente naquele momento para que ele possa se defender para continuar o fluxo da transformação. Assim também é inveja. Muitas vezes o sujeito sente inveja de alguma coisa, mas aquela admiração que está na inveja vai fazer com que ele possa crescer. A arrogância da mesma forma, muitas vezes o sujeito precisa levantar uma carranca arrogante para que ele possa se defender naquele momento e prosseguir o seu caminho para lá na frente humildemente continuar caminhando. A saúde está no fluxo.

 

RECONHECIMENTO

 

A transformação está acontecendo. O que a gente pode fazer é deixar de reconhecer a transformação. E aí a gente tem a ilusão de que que está se mantendo sendo o mesmo. Para que eu possa ter coragem de reconhecer a transformação, eu preciso impreterivelmente de um vínculo saudável com o outro. Sem o vínculo saudável com o outro, eu não consigo reconhecer a transformação e tenho a impressão de continuar sendo o mesmo. A transformação só pode ser percebida e reconhecida, posteriormente também respeitada e passiva da nossa responsabilização a partir do referencial de um vínculo saudável com o outro, de outra maneira impossível.

 

VÍNCULO

 

Você pode não estar reconhecendo, mas a transformação está acontecendo. A mudança acontece o tempo todo. Você só percebe que você está em movimento quando você olha a paisagem passando. Se você não tiver um referencial das margens do rio, você não consegue perceber que a água está fluindo. Eu preciso da referência do outro para que eu possa perceber o meu movimento. A transformação só pode ser percebida dentro do vínculo afetivo.

 

JÁ ESTÁ SENDO

 

A transformação não carece de esforço. A transformação não carece da sua intervenção para que ela aconteça. Carece que você seja capaz de reconhecer que ela já está acontecendo. Ela carece da sua coragem para que o fluxo da vida possa ocorrer, possa correr o seu curso natural e saudável. Ninguém busca a transformação. A transformação vai acontecer por si só. A busca é uma ilusão. Quando você busca, você está agindo através do seu desejo e ninguém deseja se transformar.

 

DESEJO

 

O desenvolvimento não acontece porque o sujeito deseja. Ninguém deseja se desenvolver, ninguém deseja amadurecer, ninguém deseja se transformar. É muito bonito: “Eu desejo!” Não! Você não deseja. Você deseja ser o mesmo, você deseja continuar sendo criança, você deseja a imaturidade, porque isso tudo é muito confortável, é muito prazeroso. Porque quando você é irresponsável, é porque alguém está respondendo por você. Quando você é imaturo, é porque existe alguém com maturidade que está cuidando de você. Então, ninguém deseja isso. Isso vai acontecer na medida em que você for capaz de reconhecer que isso já está acontecendo. Você for capaz de respeitar este fluxo de desenvolvimento e se responsabilizar por isso.

 

DESAPEGO

 

A transformação depende da capacidade do desapego, mas ninguém se desapega definitivamente. Nós nos desapegamos de coisas e passamos a nos apegar a outras coisas. Mas a nobreza está em se desapegar das coisas materiais para se apegar naquilo que está para além do material. E aí, para além da crença de cada um, a Páscoa é isso. O domingo de Páscoa simboliza essa transcendência do corpo físico para algo que está para além do corpo físico.

 

PASSAGEM

 

A função da psicanálise é uma função de passagem. A sessão de psicanálise é uma passagem. Nós precisamos reconhecer o valor da passagem. A passagem é saúde, é o que permite o fluxo. Tudo que fica estagnado vai impedir a passagem. O mais importante é o caminho, não é o objetivo. Porque o objetivo é duvidoso e o caminho está acontecendo aqui e agora. Nós precisamos propiciar, desobstruir para que a passagem possa acontecer, independente de qual seja o objetivo. Eu não sei qual é o meu objetivo. Eu não tenho objetivo. Eu não sei onde eu vou parar. Eu não sei se eu vou parar, mas eu preciso continuar.

 

AMBIENTE SAUDÁVEL

 

Como propiciar um ambiente saudável para que a transformação possa se manifestar, por que ela já está acontecendo? Quando eu sou capaz de renunciar dos dados da memória. Quando eu sou capaz de renunciar das minhas expectativas e quando eu sou capaz de admitir a minha ignorância frente à realidade. Quando eu sou capaz de renunciar aquilo que eu já sei. Quando eu sou capaz de fazer essas três renúncias e aqui estou sendo orientado pelo Wilfred Bion, o caminho está propício para que a transformação possa se manifestar.

 









Prof. Renato Dias Martino

terça-feira, 26 de agosto de 2025

AMOR, DESAPEGO, SOCIEDADE E RELAÇÃO COM A DEIDADE- Prof. Renato Dias Mar...


CAPACIDADE DE AMAR

Tendo como claro que a capacidade de amar não é um fator inato do sujeito, ou seja, ninguém nasce sabendo amar, ele precisa desenvolver esta capacidade, o bebê não é capaz de amar, a criança não é capaz de amar, ela vai passar a se capacitar a amar na medida em que ela for amada. Ela precisa ser amada por alguém para que ela passe a amar a si mesma e estender este amor-próprio ao próximo, ao outro. Este é um processo que não tem como pular fases. Ela precisa, primeiro se sentir amada para que ela possa aprender a amar a si mesma. Depois que ela amou a si mesma, ela passa a estender este amor ao outro. Então, na formulação religiosa, onde Jesus diz assim: "Amar a Deus sobre todas as coisas e amar o outro como você ama a si mesmo". Então, você precisa ter um referencial da qualidade do amor que você tem por si mesmo para que você possa estender este amor ao outro. E o amor que eu tenho pelo outro tem um limite no amor-próprio. Eu preciso respeitar o amor-próprio para que eu possa amar o outro. Quando eu amo um outro e este outro não é capaz de retribuir, não é capaz de reconhecer este amor, é prudente que eu possa me afastar deste outro para que eu possa preservar o meu amor-próprio.

AMOR E DESAPEGO

A única forma que o sujeito pode encontrar para desenvolver a possibilidade de se desapegar é a partir do desenvolvimento da capacidade de amar. Quando o sujeito é capaz de amar, ele é capaz de se desapegar da confirmação sensorial. Ele não precisa mais compulsivamente confirmar com os órgãos dos sentidos.

AMOR VERDADEIRO 

Para que eu possa estabelecer um relacionamento de amor verdadeiro, eu preciso me tornar desnecessário. Enquanto eu for necessário, o vínculo de amor verdadeiro está ameaçado. Se encontra ameaçado. No entanto, este é um grande impasse, porque o sujeito que não é capaz de estabelecer um vínculo saudável, um vínculo de amor verdadeiro, pode prolongar a dependência que o outro tem dele. Ele tem medo de se tornar desnecessário e ser abandonado, porque não se sente capaz de cultivar um amor verdadeiro.

VÍNCULO DE QUALIDADE

Como é que a gente poderia definir um vínculo afetivo de qualidade, um vínculo afetivo saudável? Por dois fatores básicos: amor e verdade. Amor, na capacidade de se doar ao outro, de se dedicar ao outro e verdade na manifestação do limite da realidade, daquilo que é possível. Então, a capacidade de se dedicar e a capacidade de reconhecer o seu próprio limite em relação ao outro, nesses dois fatores vão constituir um vínculo saudável.

RECOMPENSA OU PUNIÇÃO

Esta coisa da recompensa e da punição começa dentro de casa. Os pais é que fazem isso. Os pais é que punem ou prometem recompensas para que os filhos façam as coisas. Eles não fazem as coisas mais pela coisa. Vai tomar banho que senão você “não sei o quê”. Se você não fizer isso eu tiro o teu joguinho. Se você passar de ano você ganha “não sei o que mais”. É dentro de casa que começa isso. Esse sujeito vai fazendo parte de uma sociedade que vai funcionar dessa forma. Uma sociedade que só funciona se ela tiver um ganho para além daquilo que ela está fazendo, ou se ela não fizer ela vai ser punida. Então, o sujeito não trabalha mais pela realização do trabalho que ele está fazendo, ele trabalha porque ele quer receber. “Ah! Então, receber não é importante?” É claro que é importante, mas, mais importante do que o dinheiro que você recebe pelo que você trabalha, é a realização que você tem no seu trabalho.

CONFIGURAÇÃO SOCIAL

A criança nasce sem ter espaço na vida dos pais. Sem ter espaço, no primeiro momento, emocional, afetivo, financeiro, de disponibilidade de atenção... A criança é jogada no mundo sem ter espaço para estar no mundo. Logo nos primeiros meses, ela já é terceirizada na mão de um desconhecido para cuidar dela e ela cresce sem autonomia, sem ser capaz de se responsabilizar por si mesmo. E aí as promessas de manutenção da sua vida são muito bem-vindas, seja pelo psiquiatra que vai dar para ela um psicodiagnóstico e ela não vai precisar mais se responsabilizar pelas suas características emocionais e afetivas, seja por um político que promete para ela programas sociais que vão trazer para ela benefícios financeiros sem ela precisar trabalhar, seja políticos que vão prometer para ela programas de saúde, de educação, ou prometer dar dinheiro para ela para ela ir para escola. Pagar para o sujeito ir pra escola. Você já parou para pensar nisso? O sujeito não quer ir para escola, mas agora ele vai ganhar um dinheiro para ele ir para escola. Tudo bem,  para vocês, gente? E ainda vamos fazer propaganda disso, porque isso é uma inovação do governo. Você não quer ir pra escola? Tó dinheiro, vai pra escola.

RELAÇÃO COM A DEIDADE 

E isso se estende em todo o campo religioso por exemplo. O Deus do sujeito é aquele Deus que ele só tem relação com esse Deus porque o esse Deus vai trazer aquilo que ele pede. E ele fica pedindo o tempo todo. Ele reza para pedir. Ai! Deus me dá isso! Ai! Deus me faz aquilo! Ai! Deus me faz “não sei o que mais”! Ai! Deus não deixa isso acontecer com a minha mãe! Ai! Deus não faz aquilo com o meu pai! Ou então, ele faz a coisa porque ele tem medo de que esse Deus vai puni-lo. “Ah! Se eu não fizer isso aí Deus vai me castigar.” A relação que o sujeito tem com Deus é uma relação completamente imatura e nociva. Porque Deus não vai te dar nada meu amiguinho. Deus já te deu! Acorda! Olha em volta de você, reconhece, agora é com você. Deus propiciou, Deus não proporciona nada. E a tua parte, não conta? Eu costumo brincar que o a Bíblia para o cara é igual um catálogo da Avon, ele só abre para fazer pedido. Ah! Eu estou rezando muito a Deus pedindo para Deus. Pedindo o que pedindo meu amigo? Deus sabe de tudo. Deus é onisciente. O que você precisa, ele já está te dando, é você que não está conseguindo trabalhar e administrar isso aí. Acorda!

RELAÇÃO DE CONVENIÊNCIA

O cara estava procurando vaga para o carro dele no estacionamento do shopping e ele não encontrava e aí ele parou o carro e falou assim: "Deus, se o senhor me arrumar uma vaga nesse estacionamento eu prometo que eu vou parar de beber por um ano". No momento que ele fez esse pedido, saiu um carro e abriu uma vaga. Aí ele olhou para cima e falou assim: "Deus pode deixar, pode deixar, já achei uma vaga. Deixa para lá.”

A VOSSA VONTADE

Lá no Pai Nosso diz a frase: "Seja feita a vossa vontade", mas o sujeito pensa que aquele momento que ele fala aquilo ali, ele está autorizando Deus que a vontade dele seja feita e só durante a oração. Acabou a oração acabou o direito de Deus exercer a sua vontade. Aí é ele que manda. Não, meu amiguinho! Quando você diz assim: "Seja feita a vossa vontade". Você simplesmente está reconhecendo que é a vontade dele que está sendo feita, meu amiguinho. Você pode até bater de frente com isso. Mas sabe o que que vai acontecer com você? Você vai quebrar a cara e isso está em direta sintonia com o que o Bion disse sem desejo. Sabe por que que ele falou sem desejo? Porque quando você renúncia do seu desejo, você entra num acordo com a realidade. Porque a realidade não está nem aí para o teu desejo, meu amiguinho. Quando você quer que o teu desejo aconteça, sabe o que que tá acontecendo? Você está se enfiando numa ilusão enorme que depois vai dar um trabalhão para você sair dela. Então, acorda! Reconhece a realidade e perceba que é a vontade dele, a vontade da realidade, a vontade da natureza, não é a tua.



terça-feira, 4 de março de 2025

CULPA, SENTIMENTO DE CULPA E PERDÃO - Prof. Renato Dias Martino


FATOR OBSTRUTOR

A culpa é uma das questões fundamentais, ou o cerne da disfunção emocional. A culpa é um elemento fundamental para obstruir o fluxo do desenvolvimento emocional e do funcionamento emocional, comprometendo também o funcionamento afetivo. O sujeito fica obstruído de funcionar emocionalmente e obstruído de funcionar afetivamente, ou seja, nos vínculos com os outros por conta do sentimento de culpa. 

CULPA

A dúvida é, qual é a diferença entre o sentimento de culpa e a culpa? Primeiro vamos falar sobre a culpa e logo de início eu vou já colocar aqui um pressuposto: a culpa é questionável. Todas as vezes que a gente falar sobre culpa nós precisamos olhar para isso atentamente, cuidadosamente porque a culpa sempre é questionável. Se o sujeito realmente tem culpa. O sujeito no trânsito atropela uma pessoa. Ele passa passou no sinal vermelho, por exemplo, atropelou essa pessoa e essa pessoa morre. Ele é culpado pela morte dessa pessoa. É culpa dele que esta pessoa morreu. Quando a gente afirma que é culpa dele, a gente está negando todo o contexto que configurou a situação que levou esse sujeito passar no sinal vermelho e atropelar esta pessoa que veio a óbito. Se a gente negar tudo isso, realmente a culpa dele, mas pode ter havido uma contingência muito maior que levou ele fazer isso sem que ele pudesse ter outra opção, ter outra escolha. Então, existe uma contingência, existe uma configuração maior que é responsável por esta morte. Esta culpa é questionável. No entanto, se ele for julgado, se ele for na justiça, nada disso vai ser considerado. O considerado é que ele atropelou uma pessoa porque passou no semáforo vermelho e esta pessoa veio a óbito. Ele é culpado. Doloso ou culposo, o juiz vai avaliar para ver se é isso, mas de qualquer forma, ele é culpado por isso. Mas isso tudo é questionável, se a gente tiver um olhar mais cuidadoso.

CULPA QUESTIONÁVEL 

A expressão culpa é aplicável quando o sujeito realmente cometeu algum delito, ou algum mal, ou alguma atitude que venha a lesar alguém. Então, isto é culpa. O sujeito tem culpa. Isso dentro da linguagem coloquial, ignorando todo esse olhar atento e cuidadoso que vai no final das contas, questionar a própria culpa.

SENTIMENTO DE CULPA

Nós estamos falando assim, o sujeito é culpado por algum fato que aconteceu, porque a atitude dele levou a isso a acontecer. Agora, nós vamos falar de sentimento de culpa, que é completamente diferente. Tem um abismo entre o sujeito ser culpado e o sujeito se sentir culpado. O sentimento de culpa existe independente da culpa efetivamente. Um sujeito pode carregar um sentimento de culpa sem ter culpa alguma. Um sujeito, por exemplo, ele pode se sentir culpado de sentir alegrias, de realizar alguma coisa, de ter algum sucesso, enquanto um irmão não consegue fazer o mesmo. Enquanto um irmão não consegue ser bem-sucedido o outro pode se sentir culpado por desfrutar de alegrias e sucessos na sua vida. Este é um sentimento de culpa Ele não tem culpa que o irmão não seja capaz de realizar assim como ele e ser bem-sucedido como ele, mas ele pode se sentir culpado por isso. Então, este é um sentimento de culpa. Ele tem culpa? De maneira alguma, mas ainda assim cada sucesso que ele tem cada alegria que ele tem vem junto com um sentimento de culpa.

AUTOPUNIÇÃO 

O sentimento de culpa vai se desdobrar, vai ter uma cadeia de desdobramentos extremamente perigosa. O sujeito se sente culpado, ele se julga, se condena e passa então a se autopunir. E esta autopunição, muitas vezes, vai se manifestar naquilo que a gente, muitas vezes chama de autossabotagem. Ele vai sabotar todas as suas conquistas, todos os seus sucessos, muitas vezes desenvolve uma doença crônica. Ele desenvolve uma doença grave, ele não consegue se curar dessa doença porque esta doença, muitas vezes vem como uma autopunição. Então, ele cultiva essa doença, ele se autopune a partir dessa doença física, dessa doença somática e por mais que essa doença possa ser penosa, por mais que o fracasso possa ser penoso, não se compara com o desconforto que o sentimento de culpa pode trazer. Então, é como se ele dissesse assim: “Estou me sentindo culpado, mas veja como eu estou padecendo! Mas veja como eu sou fracassado!” E este fracasso ameniza o sentimento de culpa, porque serve como uma autopunição. Nenhum fracasso pode ser tão desconfortável quanto o sentimento de culpa. Então, ele carrega o sentimento de culpa e se autossabota como autopunição para amenizar o seu sentimento de culpa.

CONSCIÊNCIA 

A culpa não pode ser inconsciente porque a culpa só acontece a partir de uma relação com o mundo externo. A partir da relação que eu tenho com o mundo externo, eu vou desenvolver um sentimento de culpa. Me sinto culpado por conta de uma relação com o outro e se existe o outro não posso chamar de inconsciente, porque no inconsciente não existe o outro. Este sentimento de culpa por ser muito desconfortável, pode ser mergulhado no inconsciente em algum momento, quando esse sujeito viver uma situação muito difícil ele pode reprimir este sentimento de culpa temporariamente de uma maneira tão drástica que ele pode fugir da consciência do sujeito quase que completamente. Mas isso não quer dizer que ele esteja no inconsciente, quer dizer que ele em algum momento esteve ali. Não quer dizer que o sentimento de culpa permaneça no inconsciente, porque nada permanece no inconsciente. Se foi registrado a partir das noções de tempo e espaço, não pode mais caber no inconsciente.

A CULPA É MINHA 

Tem a expressão jocosa de que “se a culpa é minha eu coloco em quem eu quiser”. Normalmente o sujeito que carrega um sentimento de culpa, em alguns momentos, ele atribui essa culpa ao outro para dar uma amenizada nesse sentimento que ele está carregando.

ONIPOTÊNCIA

Muitas vezes, o sujeito carrega um sentimento de culpa, porque antes ele desenvolveu uma certa onipotência. Ele acredita que tudo que acontece de ruim foi por causa dele e não é isso, as coisas acontecem na vida, muitas vezes sem a minha intervenção.

VÍCIO NO FRACASSO 

Existe uma um uma configuração onde o sujeito acaba por assim dizer, viciando no sentimento de culpa e isso pode acontecer, muitas vezes, porque ele se sentiu culpado, se autojulgou, se autocondenou e agora passa se autossabotar, destruindo o seu sucesso, sendo um fracassado. E isso é muito confortável. É uma zona de conforto muito grande ser o fracassado. Você não precisa dar manutenção para nada e isso é viciante. Uma vez que o sujeito passa a encontrar neste lugar do fracassado, e aí o sentimento de culpa retroalimenta este fracasso.

INTERVENÇÃO CLÍNICA

 A intervenção que pode ser feita com o paciente em relação a esse sentimento de culpa é refletir com o paciente o absurdo que é carregar um sentimento de culpa. Seja ele porque o sujeito realmente teve uma atitude que causou um mal a alguma outra pessoa, ou por qualquer outro motivo que ele carrega o sentimento de culpa. Qualquer energia investida em carregar um sentimento de culpa é um desperdício, porque já passou, porque agora a gente precisa viver o hoje, porque tudo isso é uma grande ilusão, porque este sentimento de culpa é um grande absurdo.

3 Rs

O único antídoto para dissolver o sentimento de culpa é a responsabilização. E a responsabilização só pode acontecer a partir de dois outros fatores anteriores. três Rs. Ele precisa reconhecer aquilo que está gerando o sentimento de culpa, ele precisa aprender a respeitar isso que aconteceu e que gerou o sentimento de culpa e a partir daí, se responsabilizar por isso. quando eu me responsabilizo por alguma coisa não tem mais culpa.

MATURIDADE 

Eu respondo por isso, logo me responsabilizo. Vamos voltar ao sujeito que passou no sinal vermelho. Sim, eu me responsabilizo por isso, mas não é culpa minha. Existiu uma configuração muito maior por trás disso. A capacidade de se responsabilizar é um desdobramento da maturidade emocional. Não existe como se responsabilizar sem que possa se desenvolver a maturidade emocional. É um desdobramento, é um fator da maturidade emocional.

FRACASSADOS

O sujeito, muitas vezes, se sente culpado, ele se autocondena, ele se autopune, se torna um grande fracassado para se autopunir desta culpa que ele carrega e aí, ele encontra um grupo ideológico que também tem esta mesma configuração. O grupo dos fracassados! O grupo dos fracassados que estão ali tentando apontar um culpado externo. Grupos ideológicos funcionam desta forma. Eu me identifico como um fracassado, me junto com outros fracassados e agora nós vamos levantar a bandeira para reclamar. 

CÍRCULO VICIOSO

Um irmão fracassado inveja um irmão bem-sucedido e a partir desse sentimento de inveja do irmão fracassado ele passa a depreciar este irmão bem-sucedido. Essa depreciação, a partir do reconhecimento que o irmão é fracassado, passa a agir nesse sujeito bem-sucedido como um agente que deteriora o seu sucesso. E aí, o que acontece? Ele passa a se sentir culpado porque o irmão não foi bem-sucedido assim como ele. Ele passa a não se sentir merecedor desse sucesso. Passa a se autossabotar e a partir desta autossabotagem ele também fracassa e passa a invejar aquele que consegue ser bem-sucedido sem se sentir culpado. Um círculo vicioso extremamente nocivo na vida do sujeito.

CULPA LATENTE 

O sentimento de culpa, muitas vezes pode fazer parte do conteúdo latente, mas o conteúdo latente não é inconsciente. Estar latente não quer dizer que esteja inconsciente. O conteúdo latente está pré-consciente, porque ele uma vez viveu experiências no mundo externo. Não cabe no inconsciente qualquer noção do mundo externo. Se tem noção do mundo externo, não cabe mais no inconsciente, logo o sentimento de culpa não é inconsciente, não pode ser inconsciente. 

CULPA REPRIMIDA  

O sentimento de culpa, por se extremamente desconfortável, passa a ser reprimido e uma vez reprimido ele está condenado a flutuar no sistema pré-consciente. Ele é arremessado de volta em direção ao inconsciente, mas no inconsciente ele não consegue permanecer. Ele teve uma ação externa, ele teve um impulso e esse impulso não encontrou representação adequada no mundo externo. Ele foi pressionado de volta, em direção ao inconsciente, mas no inconsciente ele não permanece e também não permanece no pré-consciente, porque o pré-consciente é volátil. O pré-consciente não é um lugar fixo. As coisas, no pré-consciente, ora estão mais inconscientes e ora estão mais conscientes. Então, elas ficam flutuando ali. Ora elas pressionam em direção à ação, ao acting out, a atuação, a ação não pensada e ora elas estão sendo pressionadas para o inconsciente, para que o sujeito possa negá-la. 

NÃO SE ENCAIXA

O reprimido não se encaixa em lugar nenhum. Ele não consegue mais se encaixar em nada. Ele não contra lugar algum para ele existir. O sentimento de culpa não tem lugar, ele não consegue encontrar lugar. Por mais que o sujeito coloque a culpa no outro, não não é culpa do outro. Por mais que ele traga para si mesmo, também não é culpa dele. Ele vai ficar se questionando o tempo inteiro e por isso é tão desconfortável. Porque traz uma sensação de insegurança. Ora eu estou me sentindo angustiado, ora eu estou me sentindo ansioso.

DESCULPAR
 
Se a culpa é questionável e o sentimento de culpa é um absurdo, a atitude de desculpar o outro também é absurda. Então, eu te culpo e eu tenho o poder de te desculpar. Se aquilo realmente aconteceu por conta de uma configuração muito maior não há o que se desculpar. É claro que a gente tem essa expressão de pedir desculpa para o outro, de pedir perdão para o outro, como uma expressão de atenção ao outro, de importar-se com o outro, mas é uma mera formalidade.

DESOBSTRUIR

Desculpar é um poder daquele que atribuiu culpa. Se eu atribui culpa, eu tenho o poder de desculpar. Logo de início já se mostra um absurdo. Se a culpa é questionável, por conta de toda uma contingência por trás daquilo que aconteceu e se o sentimento de culpa é um absurdo, desculpar também é. Quem sou eu para desculpar alguém? Esta pessoa fez aquilo que ela deu conta de fazer. Eu preciso ser capaz de desobstruir o caminho, tirando todas essas ilusões, essas alucinações de culpa, seja minha, seja do outro e continuar o fluxo da minha vida. Porque o sujeito que ainda está apegado ao sentimento de culpa é porque ele tem um benefício muito grande naquilo. Porque se ele não tiver um benefício naquele sentimento de culpa, aquilo fica para trás e nunca mais vai ser tocado. 

SENTIMENTO DE CULPA INFANTIL

O primeiro sentimento de culpa que comete o sujeito é dentro da entrada da posição depressiva, segundo o Melanie Klein. Quando ele percebe que a mãe que ele odiava é a mesma que ele idealizava. Que a mãe que ele odiava por privá-lo do conforto, ou do seio é a mesma mãe que vinha e cuidava dele. Quando ele percebe que é uma mãe só e não são duas mães, não é um seio bom e não é um seio mau, ele passa a se sentir culpado. Este sentimento de culpa precisa ser tolerado até que ele possa se transformar em responsabilização. Depois o Freud vai falar de um sentimento de culpa associado ao complexo de Édipo, na fase fálica. Também vai haver ali, um sentimento de culpa de desejar a mãe só para ele e desejar que o pai morra.

AUTO-PERDÃO 

O sujeito vem ali, com uma questão mal elaborada e muitas vezes, o psicanalista diz para ele assim: “É, você está com dificuldade de se perdoar”. Não! Eu não tenho o que me perdoar. Eu fiz aquilo que eu dei conta de fazer. Eu não fiz por intenção de fazer e se fiz por intenção de fazer, fiz num momento de grande imaturidade, onde não estava sendo capaz de avaliar a realidade como um todo.

CULPA GARANTIDORA

O sujeito, quando não está sendo capaz de amar, ele pode usar a culpa para garantir que o outro não vai abandoná-lo. Muitas vezes, ele incita a culpa no outro para que o outro permaneça ali, porque ele não está sendo capaz de amar e não está sendo capaz de dar manutenção para um vínculo saudável. Então, ele incita culpa no outro, o outro se sente culpado e por se sentir culpado ele não toma qualquer atitude para se afastar daquela pessoa. Então, eu, por exemplo, posso estar acamado, posso estar doente e dar manutenção para esta patologia para permanecer daquela forma e garantir que as pessoas não vão me abandonar.

ESCOLHA

Não existe escolha. Ninguém escolhe se sentir culpado. Ninguém escolhe fazer alguma coisa que possa vir a ser atribuído como culpa. Não existe escolha! A escolha é uma grande ilusão. Ninguém escolhe nada. Nós estamos configurados num sistema muito maior que aquilo que a gente quer ou deixa de querer irrelevante. O que a gente pode é entrar num acordo com a realidade e a gente só vai conseguir isso a partir de vínculos afetivos saudáveis.