quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Lugar do Pai


Édipo e a esfinge (Oedipus et Sphinx),
1808, pintura de Jean Auguste Dominique Ingres;
Paris, França.
O lugar do pai
Renato Dias Martino

O Afastamento da figura paterna na estrutura da família, traz certas conseqüências, que merecem aqui, um olhar mais atento. Tento aqui propor um pensamento que diz respeito muito mais a presença emocional da função paterna do que aquela presença de ordem física. Proponho isso pensando num modelo onde essa figura encontra-se presente fisicamente, contudo, ausente de alma.
Freud (1856-1939) utilizou-se do modelo triangular, baseado no mito de Édipo, para demonstrar o mecanismo de interrupção civilizatória na vida sexual da criança, onde os investimentos afetivos se deslocam em busca de melhor adequação quanto ao objeto de amor. A narrativa grega de Sófocles (496 – 406 a.C.) traz a história do herói que vive o terrível destino de se descobrir casado com a própria mãe, sendo ele assassino do próprio pai. Nesse ponto de vista entendemos os conteúdos do mundo interno de uma criança, repleto de fantasias, imaginações que governa a mente daquele que está iniciando-se no doloroso processo do conhecimento do mundo e da realidade.
         O menino descobre que tem um pai e não faz essa descoberta de forma simples e harmoniosa como tendemos pensar ao assistir um bebê no colo do progenitor. A figura do pai está carregada de certas verdades duras para criança. A criança conhece o pai e logo percebe que o amor da mãe não é só para ele. Ou seja, tem que dividir a atenção da mãe com seu pai. Essa experiência é por si só geradora de sentimentos como a raiva daquele que vem destruir um sonho de união exclusiva com a mãe. Esse é para Freud, o ápice do golpe da realidade no narcisismo. Ele descobre isso aos poucos e é interessante que comece o quanto antes, a desenvolver recursos para lidar com essa realidade. Através desse novo ponto de vista da realidade, terá que eleger outra pessoa para que possa viver certas experiências. Experiências das quais está impedido de viver com a mãe, mas que por outro lado, nutrira por muito tempo a fantasia de realizá-lo com ela.
                                                         
Isso que tento propor aqui, é um ensaio para pensarmos um modelo clássico do que Freud chamou de complexo de Édipo, até aqui, tendo a vida de um sujeito do sexo masculino como foco. Contudo e antes de prosseguirmos, seria prudente nos lembrarmos que, na verdade esse é um modelo que pode ter, e na realidade tem um desfecho diferente tomando-se em conta as experiências familiares de cada ser humano em particular, assim como o modelo familiar que se adota em cada diferente cultura e época.


No caso da menina, a história tem algumas modificações. Com a garotinha, o amor que era, até então, investido na mãe, em certo momento é deslocado para o pai, assim, proporcionando o que poderíamos chamar de melhor adequação do objeto de amor. Ela percebe algumas diferenças entre a mãe e pai, quanto à posição na família, assim como elementos relacionados a gênero. A sexualidade passa a ser percebida de forma mais clara e a menina desiste em certa medida do amor da mãe e passa a se interessar pelo pai. Entretanto, esse amor também lhe propõe certos impedimentos.


O obstáculo (rival) mãe, além do dogma civilizatória no tabu do incesto. Lugar emocional gerador do que Freud denominou superego. O superego ou ideal de ego é um introjetado de imagens e referenciais de interdição da satisfação do prazer. Ou seja, a parte da mente que tem função moral, nos fiscaliza e nos cobra certos pensamentos e condutas. Essa interdição, feita aqui pela mãe, assim como as normas culturais, são elementos provenientes da consciência que é adquirida através do contato com a realidade, mas, caminha lado a lado com elementos do mundo interno que se estruturam como fantasias. O desejo pelo amor do pai – aqui admitido como figura presente –, assim como toda fantasia que o acompanha. A possibilidade de que se viva num ambiente onde o que rege as relações é o amor, respeito e sinceridade, é o que definirá certas questões que influenciarão as escolhas amorosas dessa criança, pela vida toda.
Na medida em que esse interesse, investido no pai é correspondido em forma de afeto e carinho, tende a se desvincular de impulsos sexuais (mais adequadamente falando; impulsos genitais), que agora busca outro objeto mais adequado, fora do circulo familiar, socialmente aceito e sem a interrupção da figura da mãe.

Se estamos de acordo até aqui, a família (ainda) é então, o lugar mais seguro pra se viver experiências como a descoberta da sexualidade, que são por si só, assustadoras e repletas de ameaças e entraves. Penso que, no período onde a figura paterna pôde nutrir a menina de afeto e verdade, existe maior chance de desenvolvimento adequado de questões afetivas e emocionais referentes à vida erótica e consequentemente, o desenvolvimento físico e biológico pelo resto da vida. Isso se implicarmos aqui, um vértice onde o pensamento pode ser responsável por mudar tudo na vida e reverter até mesmo um quadro clínico de ordem fisiológica, ou em outras palavras, algo que se apresente como manifestação do corpo.
A experiência na psicologia clínica nos mostra, em sua pratica diária que, sujeitos que trazem queixas de impotência sexual, ou qualquer que sejam as questões que impedem um desenvolvimento saudável da vida sexual e até mesmo certos casos de homossexualidade, em sua maioria carregam certo histórico extremamente conturbado no que diz respeito à vivência de descoberta da vida sexual. Existe nesse sujeito certa insuficiência na criação de recursos para lidar com Eros, ou seja, aquilo que une os seres humanos e responde pela proliferação da nossa espécie. Recursos esses que tem sua origem no seio da família e na possibilidade das vivências edípicas.





Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta  e EscritorFone: 17-30113866

5 comentários:

Jacqueline disse...

Adorei seu texto, mas se me permite dizer: Quero mais!
Só há pouco tempo tive o prazer de conhecer o conto de Guimarães Rosa – A terceira margem do rio. Fiquei encantada! Há sempre alguém que diz com palavra extremamente precisas os nossos sentimentos. O que você diria de um pai que não está ausente (fisicamente) nem está presente (emocionalmente)?

Leila Viana disse...

Renato, texto muito, muito bom. Quem sabe assim as pessoas não e assustam tanto com as idéias freudianas e abraçam isso como algo tão real e vivo em nossa sociedade. A figura do pai é a LEI e fundamental na constituição da família. Sem ele não é impossível, mas com certeza mais difícil.

NANA disse...

renato estou separada a 5 anos e a 5 anos meu filho parou de viver hj ele tem 18 anos e desde a separaçao ele nao estuda(sempre ele era o malhor nas coisas q fazia)parou de praticar artes marciais onde ele tem varias medalhas de 1º lugar ate nacional.hj ele me fala q nao tem vontade de nada passa o dia todo em casa e quando sai e no final de semana e bebe e quando chega ele pede mamae vc levanta pra conversa comigo ai eu converso com ele mas a conversa e sempre a mesma ele fala q bebe pra pode consegui chora a ausencia do pai,ele auto mutila seus dedos da mao,ele nao come as unhas ele come a ponta dos dedos...o q eu queria dizer com isso e q concordo fielmente quando leio teus textos da necessidade da presença do pai e da mae. q deus o abençoe, sempre.um grande abraço e gostaria q me retornasse se for possivel me passando alguma informaçao q eu possa fazer pelo meu filho.

Renato D'Martino disse...

Muito obrigado pelo carinho!
Caras Jacqueline e Nana, por favor me enviem seus e-mails para que eu possa responde-las.
renatodmartino@ig.com.br
muito obrigado!

Rogério Xis Nhoato disse...

Também sou separado e sempre gera conflito essa relação, Pai e Filho. Antigamente havia um outro conceito sobre família, onde a separação sempre foi maquiada com traições e a preservação do núcleo familiar. Agora não sei se isso é puro egoísmo moderno ou a melhor solução para o que está dando errado realmente! Mesmo porque que mais sofre geralmente são os filhos. Difícil achar uma solução para isso, mas difícil viver longe dos filhos. Tento fazer tudo, mas sei que na realidade nossas crianças nunca aceitam essa realidade. Abraço Renato é sempre bom ler e pensar com o seu Blog.