segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A Memória e o Recordar


Já tivemos em outro momento, oportunidade de discutir sobre a importância da memória dentro dos processos mentais. Nessa ocasião foi possível perceber como os conteúdos da memória influenciam na capacidade da mente em funcionar de maneira saudável. Entendemos que uma mente que funciona predominantemente apoiada no conteúdo da memória, dificilmente pode ter uma visão clara da realidade. O funcionamento mental fundamentado essencialmente na memória tem grande dificuldade no reconhecimento do ambiente externo (onde se encontra o outro) e consequentemente acaba ocorrendo num empobrecimento dos referenciais quanto ao mundo interno (emoções e elementos psíquicos).

Com esse texto gostaria de expandir a ideia da memória e suas funções e também trazer o conceito de recordação em suas ocorrências no funcionamento mental. A tentativa nesse texto presente, é o de percebermos a diferença entre estes dois termos. A memória e o recordar se encontram na mesma categoria gramatical, muitas vezes com sentido idêntico. Apesar disso, certa distinção parece útil, na medida em que o funcionamento da mente está fortemente vinculado aos conteúdos da memória de uma forma e de maneira diversa se relaciona com à capacidade de recordar.

A memória
deusa grega 
Mnemosine
Qualquer que seja a maneira cuidadosa de analise ou pensamento sobre qualquer que seja o conceito importante, deve perpassar pela origem semântica do termo, ou seja, a origem do vocábulo ou ainda, a compreensão da demanda pela qual foi criado. A palavra memória é de origem grega e está relacionado à deusa Mnemosine, que junto de Zeus teve nove filhas; as chamadas Musas. Mnemosine á a deusa da história e da arte, é a protetora contra a ameaça do esquecimento. Pelo vértice mitológico já é possível perceber onde a memória se faz útil. Ela vem como defesa contra a iminência de se esquecer ou de ser esquecido. Quero propor que somos forçados a nos lembrar por medo de esquecer. Poderíamos dizer que se “temos” algo na memória sempre tememos perde-lo. É caracteristica do ‘ter’, o medo de perder. Então reza-se para ser protegido pela deusa Mnemosine. Sob esse ponto de vista revela-se certa fragilidade no dado armazenado na memória. Aquilo que se tem na memória é vulnerável ao ponto de estar sujeito aos caprichos dos habitantes do Olimpo.
John Lock (1632 – 1704)
John Lock (1632 – 1704), filósofo empirista inglês, propoe em seus “Ensaios Sobre o Entendimento Humano” (1690), que a memória seria como um armazem de ideias. Pela perspectiva de Lock, armazenamos os dados sensoriais num departamento mental chamado memória. Em nossas experiências, vamos recolhendo sensações no contacto com o mundo externo e isso vai ficando registrado como dados de memória. No entanto, conteúdos da memória devem ser formatados de acordo com certos critérios. Normas que permitam certa organização de algo que se buscará acessar em momento oportuno. Essa organização deve existir a favor da utilização desse dado armazenado. Quando necessário for a busca por esse elemento da memória, isso deve ser viavel e feito de maneira mais prática possível. Certa padronização de ideias em nome de facilitar o acesso e resgate dos dado de realidade armazenado.
Logo, dados da memória não podem ser questionados, ao contrario, devem ser saturados, acabados e devidamente padronizados. Ainda na perspectiva de Lock, nesse ‘armazem de ideias’, emoções não são bem vindas.

Emoções sempre colocam a organização em risco. Emoções ameaçam padrões definidos. Assim, conteúdos da memória, não devem guardar caracteristicas de transformação (Bion, 1965). Devem estar de certa forma cristalizados para que possam se manter nos compartimentos da memoria. Como invariantes, devem se encontrar cristalizados em forma de certezas ou ‘verdades’, classificadas e ordenadas. Isso define o que poderíamos chamar de boa memória.


Wilfred Bion (1897-1979)
Wilfred Bion (1897-1979), importante psicanálista indiano, naturalizado inglês já havia nos alertado para certo ponto de vista, quando propõe em sua obra publicada no Brasil em 1991, com o nome de “As Transformações, a mudança do aprender para o crescer”, sobre os conteúdos invariantes em contra ponto com as transformações dentro daquilo que é psíquico. Ideias que partem das propostas filosóficas feitas por Immanuel Kant (1724 – 1804) em suas críticas as razões; pura e prática e que Bion expande para o âmbito psicológico. As transformações e os invariantes se articulam no desenvolvimento mental. Bion usa do modelo artístico e propõe que quando um pintor vislumbra uma paisagem e trasfoma essa paisagem num quadro, alguns elementos permanecem inalterados. Invariantes são aspectos que se mantém inalterados nesse processo de transformação. O questionamento (proposta para a transformação) quando ocorre na memória (que conta com sua inalterancia por ser invariante) é percebido como falha. A falha na memória é justamente um questionamento quanto ao valor ou ordem daquilo que se deseja lembrar. Logo, a emoção interfere diretamente no resgate do dado na memória.
Lembro-me de um paciente que inundado de culpa, amiúde tentava buscar na memória situações vividas com seu pai, já falecido. Tentativas que pudessem justificar a imagem idealizada do pai que tentava manter. Isso revela certa caracteristica importante dos conteúdos da memória. Fazem parte de uma classe especial de impressão sensorial do real, que na medida em que se distancia da próxima confirmação na realidade, tende a se desintegrar. A memória exige certa frequência na constatação da existência no nível do real sensório, ou seja, na constatação pelos órgãos do sentido. A impossibilidade de certa frequência nessa ordem de constatação, as emoções (elemento básico da saúde mental) vão gradualmente dificultando a definição dos dados armazenados na memória. Poderíamos propor que a frequência na confirmação do dado é necessária para que não se ‘perca na memória’.


O recordar


Já o conceito do recordar me parece ser uma construção que reúne qualidades mais nobres do que poderia reunir a memória. Talvez parta do mesmo princípio, já que a conotação de trazer o fato passado para o presente é coincidente em ambos os termos. Apesar disso, a recordação guarda certas características que estão ausentes no conceito de memória. Recordar é uma unidade verbal que agrupa três vocábulos e que logo nesse encontro verbal já revelam certa capacidade sublime do funcionamento mental. Na palavra “re-cor-dar”, encontramos o prefixo ‘re’ que denota a repetição, ou algo que se reproduz, ‘cor’ refere-se à palavra coração, derivada do grego e também do latim cordis. Ambas têm origem na palavra kurd do sânscrito, que significa saltar, e finalmente ‘dar’, que nos sugere doação.


A partir dessa definição semântica, podemos perceber que o termo recordar vem repleto de afeto, quando nos diz sobre certa obra de dar novamente ao coração. Logo, o recordar é uma espécie da memória afetiva. É talvez, amar aquilo do qual se lembra. Estar vinculado afetivamente com o fato passado. A recordação não é um simples armazenamento nos compartimentos da memória, mas a capacidade de reviver a fato passado trazendo para o presente e até o imortalizando. Nessa ordem a capacidade de recordar deve contar com a formação de símbolos e se mantém sempre conforme disposição para simbolização. Importante nos lembrarmos que ser capaz de simbolizar coincide com ser capaz de tolerar a falta. Recordar carece admitir e ser capaz de viver a perda. Isso implica na possibilidade de acreditar na ‘coisa’, mesmo sem podermos confirmar sua existência pelos órgãos dos sentidos. Através de certa experiência afetiva com a realidade, passa a ser possível desapega se do real concreto ou material. Assim, podemos arriscar uma frase que se não utilizada de maneira cautelosa, pode se tornar banal: “só o amor liberta”. Mas, liberta do que? Liberta da urgência e recorrência compulsiva da confirmação no real sensório, onde se não se pode ver, não existe. No recordar é permitido intuir e a intuição está desvinculada do ver, do tocar, do cheirar...

Antoine-Jean 
de Saint-Exupéry
(1900 - 1944)
Na medida em que foi possível, através da dedicação a analise, que o paciente referido à cima, diminuísse a culpa quanto a seu pai e assim não necessitasse com tanta freqüência solicitá-lo através da busca em sua memória, pode-se fazer as pazes com a figura interna do pai. Em certo estagio de sua analise, me contou que numa manhã acordara com uma sensação muito boa, através da recordação de uma simples fala, mesmo que rara, mas afetuosa de seu pai.

Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry filho do conde e condessa de Foscolombe (1900 - 1944) foi escritor, ilustrador e piloto da Segunda Guerra Mundial. Saint-Exupéry nos presenteou com a obra “O Pequeno Príncipe”, publicado originalmente em 1943. Esse livro é a terceira obra literária mais traduzida no mundo, publicado em mais de 160 línguas ou dialetos, sendo a primeira a Bíblia e a segunda o livro o peregrino. Nesse livro a raposa se despede do principezinho dizendo a ele: "Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." (Saint-Exupéry – 1943, p. 74)


A recordação é sinal de que certa experiência emocional foi bem sucedida, enquanto a memória não passa de dados registrados e armazenados sobre uma realidade que ficou no passado e que pouco se confirma no hoje. Não seria nem um absurdo propormos então que, a recordação é estar ligado ao passado pelo amor (sinal de gratidão), enquanto a memória é mantida pelo medo de errar ou a culpa por ter errado (gerador de inveja). A habilidade com a memória pode fazer do sujeito uma pessoa muito inteligente, mas a sabedoria só ocorre naquele que cultiva boas recordações.



Bion, Wilfred R. 1965 As Transformações, a mudança do aprender para o crescer Rio de Janeiro: Imago Ed.
Saint-Exupéry, A 1963 O Pequeno Príncipe, Rio de Janeiro: AGIR Ed.






Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor








Fone: 17-30113866

4 comentários:

REGINA disse...

Parabéns pelo texto.Ao iniciar minha leitura, achei que seria impossível separar o conceito de memoria e recordação. Mas recordar é tirar da memória o que se quer sentir ou dar sentido a um sentimento presente. Obrigada. Marcia

Prof. Renato Dias Martino disse...

Muito obrigado pela atenção, querida Marcia Regina!

Jacqueline disse...

Adorei o texto! Como sempre, ma-ra-vi-lho-so!
Gostaria de saber se cabe aqui relacionar, no caso da memória, com pessoas obsessivas? Fiz essa associação quando você fala que a memória se remete ao medo de perder, ao citar sua etimologia.

Prof. Renato Dias Martino disse...

Muito obrigado querida Jacqueline!