segunda-feira, 20 de junho de 2011

“Pensamento negativo” e a vida mental

Esse ensaio tem a intenção de cogitar sobre a formação e permanência de “pensamentos negativos” nas ideias constituídas nos processos mentais. Falo sobre as vezes que somos acometidos por períodos onde o pensamento se encontra povoado por sentimentos referentes a fracassos e perdas. Quando cada ideia que surge na mente é sempre referente a algo que se manifesta por expressões verbais como, “não tem jeito mesmo” ou mesmo “não adianta, pois não dará certo”. Desânimo ou incapacidade de cultivar esperanças.

De inicio, se pudermos analisar os dois termos formadores dessa ordem de ideias, veremos que, o pensar faz parte do processo de construção do espaço interno para conter os conteúdos da realidade, ou seja, o pensamento é a capacitação do eu (compreendendo o mundo interno) na ligação afetiva com o mundo (externo). Então, quando usamos a palavra negativo, nesse contexto, buscamos a conotação de algo prejudicial ou tóxico (o que não é sempre assim). Assim, falamos do “pensamento negativo” como a construção de um espaço interno repleto de ideias destrutivas.

Para a psicanálise só podemos aceitar no mundo real aquilo que já existe no mundo interno, ou seja, criamos espaço em nossa mente e só depois podemos conhecer na realidade.  Dessa forma, aquele em que na mente predominam “pensamentos negativos” (ou mais especificamente pensamento destrutivo), está fatalmente exposto a construir um mundo externo para viver, nesse mesmo molde.

Segundo as teorias do pensar, nós percebemos o mundo externo como reflexo de nossas mais profundas ideias. Quero dizer que, para aquele que nunca soube muito bem o que é ser amado, muito provavelmente terá grande dificuldade em perceber-se amando ou mesmo amar alguém. Aquele que nunca foi amado na realidade, não terá dentro de si a ideia do amor, assim, como irá encontrar amor no "mundo de fora"?

A atração de “coisas ruins”
A psicanálise nos ensinou que a criança liga-se às pessoas e coisas do mundo que conhece, por meio de um vínculo especial denominado identificação. A criança funciona dessa forma. Ela só se aproxima das coisas por identificar-se com elas, resistido fortemente, através de uma “choradeira compulsiva”, tudo aquilo que lhe é estranho ou dessemelhante. Já adultos, porém quando emocionalmente fragilizados, tendemos a recorrer a esse tipo infantil de funcionamento. Se a mente está povoada de pensamentos destrutivos, tenderemos a nos identificar com coisas destrutivas, logo, olha a “coisa ruim” aí!

Essa forma de funcionamento mental encontra facilitadores com frequência no mundo. Isso por que, o mundo externo ou a realidade nos oferece muito mais “coisas ruins” (que se encontram em cada esquina). Também não é novidade alguma que as “coisas boas da vida”, são raras e só ocorrem através de um custoso garimpo no mundo externo, em concordância com a mesma proporção para as experiências internas.

Fazer as pazes com o mundo
Pois bem, se concordamos com as cogitações acima colocadas, então podemos dizer que, se livrar de certos pensamentos ruins, é antes de tudo um esforço para “fazer as pazes” com o mundo. Por mais que vivamos num mundo cheio de promessas de caminhos rápidos em direção à felicidade, fazer as pazes com o mundo é um processo lento e dispendioso, um caminho cheio de curvas que esta distante de reduzir-se a uma “receita para recomeçar”.

A proposta levanta a necessidade de buscar viver experiências que ensinem a combinar amor e verdade. Os componentes afetivos, aliados a informações claras da realidade, são a base do modelo de vínculo que é capaz de desintoxicar uma mente envenenada de desesperanças e entulhada de pensamentos destrutivos.

As psicoterapias são, sem dúvida, certa via razoavelmente segura para a proposta de mudança interna, porém, a oportunidade pode muito bem, iniciar-se na espiritualidade. A espiritualidade é um veiculo maravilhoso na busca da mudança do pensar. O conceito de esperança é o que move a espiritualidade, onde esse conceito é cultivada com muito cuidado. Logo, se estamos falando de expectativas negativas, então a fé é crucial para neutralizar essa tendência das ideias.

Porém, a dificuldade se encontra no fato de que, dependendo da severidade na fragilidade do funcionamento mental, sugerir a espiritualidade a alguém da qual se vê inundado de desesperanças, pode servir contra si mesmo e transformar algo belo em instrumento de autopunição. Aquele que se encontra ignorante dos seus processos mentais sem dúvida estará mais vulnerável quanto aos conflitos dessa ordem.

A busca pelo auto-reconhecimento
De qualquer forma, sou forçado a depositar meu descrédito em qualquer processo que não compreenda o outro, o encontro com o outro. Isso por que me parece claro que só se aprende a amar, amando alguém. A cogitação é sobre tentar uma vinculação segura entre o mundo de fora e o de dentro. Depois disso, todo pensamento negativo tem grande chance de converte-se em prudência nas relações. É o que servirá de referencia do limite entre o eu e o outro.

Não podemos esquecer que o “pensamento negativo” que também podemos chamar aqui de expectativa de destruição, é uma categoria de ideia originaria de certo desamparo num tempo (muito provavelmente da mais tenra infância) onde realmente houve risco, ou pelo menos um medo muito grande de destruição. Assim, para que se possa superar tal ideia, é necessário o exercício do conhecer e reconhecer esse momento da vida, que hoje é representado por uma “dor na alma”. Nesse plano está a magoa com tudo que vem da realidade. Certa realidade que por si só, pelo menos a priori, é sempre dura.

A partir da concepção de conexões saudáveis com a realidade externa (e consequentemente com a realidade interna) inicia-se o processo de desenvolvimento da capacidade de auto-reconhecimento.  Auto-reconhecer-se é olhar para o mundo interno e isso calha com o encontro e o reconhecimento de fantasias, medos, desejos apaixonados, ódios furiosos e tudo mais que habita nosso mundo interno. É só reconhecendo nosso interior que podemos distingui-lo do que esta fora. Logo, o estado emocional do eu (dentro) tem menor chance de se abalar com um clima de negativismo (fora).





Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866 

3 comentários:

Telma da Luz disse...

Magnífico texto!

Prof. Renato Dias Martino disse...

Te agradeço de coração, querida Telma da Luz!

Ana Raquel disse...

Excelente reflexão!