sábado, 16 de julho de 2016

A VONTADE DO CORPO E A LIBERDADE DA ALMA

O sonho da liberdade é algo que povoa a mente humana. A busca pelo poder de escolha permeia a vida do ser humano que em suas tentativas de se tornarem livres, muitas vezes provocam situações desastrosas. O sujeito destrói lares, desfaz famílias e abandona incapazes (filhos e pais idosos) por conta de sentir-se preso à alguém do qual não deseja estar ligado. Destrói a natureza com o intuito de desobstruir seu caminho e assim se sentir liberto. O humano chega a cometer crimes e faz tudo isso em nome da busca pela libertação do que se julga estar aprisionado. Me lembro de um caso sobre um jovem que foi veiculado na imprensa local, que tentando libertar-se de si mesmo se entregou à polícia pois não suportava mais ter que roubar para satisfazer seu vício em drogas. De uma maneira ou de outra, das formas mais simples às mais complexas a busca pela liberdade está presente nos esforços do ser humano. No entanto, até que ponto podemos ser realmente livres?
Todo fenômeno tem seu motivo, sendo que cada manifestação natural ocorre por conta de uma linha de causalidade. Um fenômeno da origem a outro e assim forma-se um sistema de causa e efeito constituindo a dimensão dos fenômenos.  

O termo fenômeno tem sua origem no Latim PHAENOMENON, ou ainda no Grego PHAINOMENON que significa "o que pode ser visto, ou o que aparece aos olhos". Assim sendo, aquilo que é dependente de suas causas não pode ser livre, pois está subordinado ao que causou.
Não existe liberdade na dimensão dos fenômenos da natureza, sendo que no funcionamento de um ecossistema os fenômenos se sucedem de uma maneira sistemática, onde a conexão natural não permite liberdade para que sobrevenha de forma diferente. As ciências ocupam-se de maneira incansável nos estudos das causas que atestam essa impossibilidade de liberdade. Com isso poderíamos afirmar que aquilo que está na ordem da natureza não se discute, apenas se respeita. A natureza trabalha por meio da necessidade, não existindo nessa extensão da realidade, espaço para a liberdade de escolha. Assim funcionam as articulações na dimensão do mundo material. Então, isso nos leva a propor que se existir uma chance para que o homem possa se tornar de alguma forma livre, isso deve ocorrer através do rompimento com a cadeia dos fenômenos, transcendendo de algum modo o nível da materialidade.

Arthur Schopenhauer (1788 —1860) que foi fortemente influenciado pela leitura das Upanishads, comentários sobre os Vedas, que se tornaram conhecidas no mundo ocidental, pela primeira vez, no início do século XIX, através de uma tradução feita do Persa para o Latim, introduziu o pensamento indiano e alguns dos conceitos budistas na filosofia, trata desse tema com grande propriedade em sua obra O Livre Arbítrio onde propõe que:

"Considerado exatamente, o conceito de liberdade é negativo. Com isso não fazemos mais do que formular a ausência de qualquer impedimento e de qualquer obstáculo, dado que o obstáculo, sendo manifestação da força, deve indicar uma noção positiva". (Schopenhauer , 1950/1836)

No seu Livre Arbítrio Schopenhauer sugere três tipos de liberdade, com suas respectivas barreiras que por mais que pareçam diversas apresentam sempre um elemento em comum, a 'vontade' que é tratada como conceito central na filosofia de Schopenhauer e que é elemento fundador de grande ambiguidade. A primeira modalidade de liberdade proposta por Schopenhauer é a do agir. Sendo as causas físicas que podem impedir a liberdade, nessa perspectiva o ser humano é livre quando não existem empecilhos materiais que o impeçam suas ações, tendo ele poder de desobstrução de obstáculos da ordem do carnal ou corporal. Configura-se como o modelo mais primitivo de liberdade. Assim, habitualmente dizemos que o sujeito é livre quando age segundo sua vontade.
Na segunda forma de liberdade proposta por Schopenhauer o que se leva em conta é o aspecto intelectual ou do saber. Dentro desse modelo o que ocorre é que só pode ser possível conhecer ou saber dentro de certo limite. Pode-se saber e até mesmo pensar, apenas dentro de uma proporção limitadora. Aqui, mais uma vez a vontade pode interferir naquilo que poderíamos realmente saber. Somente saberemos sobre algo até o ponto em que esse saber possa coincidir com nossa vontade. De outra maneira encontrar-se-á uma resistência que impedirá o reconhecimento desta verdade e limitará o que se poderia saber. Dessa maneira a capacidade de pensar, que tem sua origem do Latim, significando pesar, também deverá ser comprometida já que a vontade pode corromper as medidas tomadas como referências utilizadas nas formulações do pensar.
A terceira modalidade da qual propõe Schopenhauer é aquela que denomina liberdade moral ou ainda a liberdade de 'querer o que se quer'. Essa modalidade me parece ser a mais complexa, já que esbarra na dimensão das necessidades. Isso pois estamos aprisionados em nossas necessidades que se não forem satisfeitas teremos severos prejuízos. Além disso, essa classe de liberdade é afetada pelo fato de o desejo do sujeito estar sempre, indiretamente, impregnado do desejo do outro.
Ora, por mais que reconheçamos certa vontade como sendo genuinamente nossa, ainda assim ela estará impreterivelmente carregada do desejo do outro.

Em seu ensaio de 1917, UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE, Sigmund Freud (1856 - 1939) correlaciona as pulsões inconscientes da psicanálise ao conceito de ‘Vontade’ proposto por Schopenhauer e expande essa ideia.

"Essas duas descobertas – a de que a vida dos nossos instintos sexuais não pode ser inteiramente domada, e a de que os processos mentais são, em si, inconscientes, e só atingem o ego e se submetem ao seu controle por meio de percepções incompletas e de pouca confiança -, essas duas descobertas equivalem, contudo, à afirmação de que o ego não é o senhor da sua própria casa." (Freud, 1917).


Pois bem, a liberdade deve ser uma qualidade da ação e sendo então um atributo não pode ser configurado como substancia. Se pudermos nos utilizar do modelo da gramática diríamos que um adjetivo não pode ser um substantivo. Assim, ação constitui substancia enquanto a liberdade consiste em predicado. Agir com liberdade seria então agir segundo o que se deseja, sendo necessário um desejo precedendo a ação. A liberdade pode ser um adjetivo do agir, mas não pode ser aplicada da mesma forma ao ser. Isso pois o ser é dinâmico e se estrutura a partir do desejo e não podemos escolher o que desejar. Assim, toda ação que é impreterivelmente subordinada à um desejo, como vimos anteriormente, não pode ser livre. Desse modo, somos escravos do nosso desejo. Por mais que apresentemos razões para sermos livres a razão está sempre subordinada à vontade, que por sua vez é o principio universal da natureza, responsável pelos movimentos e transformações no mundo.
Enquanto seres humanos somos formados por um complexo somático, configurado num organismo material considerado fisicamente, sendo essa a parte inferiormente nobre do ser. Isso pois está sujeito à deterioração estando em constante impermanência (conceito muito utilizado no Budismo). Fazendo parte dos fenômenos, está na ordem da transitoriedade, existindo nessa configuração dentro de um tempo determinado. Essa parte do nosso ser pela qual percebemos o mundo exterior, através dos sentidos, é responsável pela função básica do corpo no contato com o mundo físico. O corpo somático sofre transformações constantes nunca permanecendo muito tempo da mesma forma e essa característica gera grande dificuldade para o ser humano que tem muito medo dessas mudanças. O corpo nasce, permanece por algum tempo, crescendo e se desenvolvendo, assim passa a produzir efeitos nos fenômenos e então passa a definhar gradativamente até a morte. Nosso corpo material está sujeito ao que na cultura Védica é denominado samsara, no ciclo do mundo objetivo de nascimento, permanência temporária e morte.
Ainda segundo as escrituras dos Vedas, essa dimensão da existência é comandada pela trimûrti, formada pelas divindades Brahma o criador, Vishnu o mantenedor e Shiva o destruidor. A trimûrti configura guna-avataras, as personalidades destinadas a controlar o mundo material. Os três gunas são modos de configuração das energias materiais. O guna sattva ou da paixão fica sob os cuidados de Brahma, o guna rajas ou da bondade é encarregado à Vishnu e o guna tamas ou da ignorância, por sua vez, fica confiado à Shiva. A trimûrti está diretamente ligada ao véu de Maya que configura-se como ilusão mundana, confundindo o transitório com a realidade ultima, que não está disponível aos órgãos dos sentidos, estando então na dimensão do estar sendo. Maya ata o sujeito a este mundo ilusório e não pode existir sem os três gunas, sendo então inerente a eles, operam no nível físico, mental e emocional.
No entanto, além da forma material configurada no corpo físico, também somos alma. Enquanto humanos somos constituídos também por uma parte do ser que não se presta aos atributos materiais como de espaço ou temporariedade. Não está aqui ou lá. Não tem passado, por conta disso não têm memória. A noção de futuro também não se aplica a alma, por conta disso o desejo não é um atributo dessa parte do ser. Sendo que alterações ocorrentes no corpo não podem afetar a alma. Enquanto o corpo se presta às funções carnais e às empregos físicos, a alma tem funções num nível superior que incluem o pensar, o amar, o intuir... 
Essa parte do ser nunca nasceu e nunca morre. Em sânscrito o atma é a alma individual o verdadeiro eu, traduzido como "Eu" em maiúsculo, como características divina da alma individual. Segundo o Advaita Vedanta, uma das três escolas de Vedanta do pensamento monista , o atma é idêntico ao Absoluto, ou Brahman e está além da existência corpórea, livre do samsara e não sujeita à Maya. Vedanta que é a doutrina do não-dualismo puro, isto é, a identidade de Brahman e do Atma.

No Capítulo dois do Bhagavad-Gita, intitulado O Conhecimento Transcendental, Senhor Krsna, a Personalidade Suprema de Deus revela ao guerreiro Arjuna que:

"Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre-existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre."

na jāyate mriyate vā kadācin nāyaṁ bhūtvā bhavitā vā na bhūyaḥ ajo nityaḥ śāśvato ’yaṁ purāṇo na hanyate hanyamāne śarīre.

Segundo o Kaṭha Upaniṣad existe duas naturezas de almas, a saber, a alma sob a forma de partícula diminuta (aṇu-ātmā) e a Superalma (vibhu-ātmā).

 “Tanto a Superalma [Paramātmā] quanto a alma atômica [jīvātmā], situadas na mesma árvore do corpo, estão dentro do mesmo coração da entidade viva, e somente alguém que esteja livre de todos os desejos e lamentações materiais pode, pela graça do Supremo, compreender as glórias da alma.” (Kaṭha Upaniṣad , 1.2.20).
aṇor aṇīyān mahato mahīyān ātmāsya jantor nihito guhāyām tam akratuḥ paśyati vīta-śoko dhātuḥ prasādān mahimānam ātmanaḥ.

Entre o corpo e a alma encontra-se uma parte intermediária do qual aqui chamaremos de mente. Concordando assim com Wilfred R. Bion (1897-1979) em sua ideia de pensamento em busca de pensador. Assim como disse Bion em sua palestra dada em Nova Iorque em 1977, transcrita e publicada no Brasil em 1992 pela Editora Imago com o título de Conversando com Bion. "È um pensamento errante em busca de algum pensador para se alojar nele." (Bion, 1992/ 1977)

Enquanto o pensador morre o pensamento continua. Bion tem grande influência da cultura oriental, sobretudo na filosofia indiana, pois nasceu na cidade de Muttra, quando seus pais britânicos, se mudaram para lá à serviço do estado inglês que prestava serviços na Índia. Na teoria assim como na prática psicanalítica de Bion ele propôs estar de acordo com ‘O’, na Realidade Última ou ainda o OM que só pode ser vivido e nunca conhecido. Em Bion encontramos a ideia da relação entre continente e contido onde "O pensar passa a existir para dar conta dos pensamentos" (BION, 1994/1962). Com isso fica claro que nada pode ser realmente criado,  porque  a  ideia  já  existe,  sempre existiu sendo necessário que nasça um pensador para pensá-la.

A partir desse vértice de reflexão configura-se um quadro onde a alma parece vagar livre até ser cativa por um certo corpo, forçando então a criação de uma mente. Dai por diante deve haver uma constante peleja, pois aquilo que o corpo busca para se satisfazer não interessa à alma e na realidade só faz por desvaloriza-la. A busca pela nutrição da alma está justamente na renuncia dos prazeres do corpo. Ora, não há maior desventura que uma alma aprisionada pelos anseios do corpo. Enquanto para o corpo parece não haver liberdade, já que se encontra cativo da sua vontade, a alma se dispõe livre em seu desempenho.
No entanto, a realidade não é definida pela vontade do humano. A disposição para a expansão dos níveis do ser estaria então na capacitação para desprendimento daquilo que se encontra na dimensão do real concreto num exercício do desapego da materialidade numa renúncia do que satisfaz o corpo, mas empobrece e nos distancia da alma. Numa relação afetiva a confirmação sensorial deve, dentro dessa perspectiva ser substituída pelo vínculo simbólico.


Enquanto uns buscam obter cada vez mais, outros procuram aprender a viver com menos.






BION, W. R. [1962]. “Uma teoria sobre o pensar.” In: BION, W. R. Estudos psicanalíticos revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1994. 
_____(1992).Conversando com Bion. Quatro discussões com W. R. Bion (1978). Bion em Nova York e em São Paulo(1980). Rio de janeiro: Imago Editora.
S. Freud, UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE (1917)
Prabhupada, A. C. Bhaktivedanta Swami. O BHAGAVAD-GITA - Como Ele É. Editora: The Bhaktivedanta Book Trust. 1976.
SCHOPENHAUER, A. O Mundo como Vontade e Representação. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2001/1818. (Tradução de M. F. Sá Correia).
_______________ O Livre arbítrio. São Paulo: Edições e publicações Brasil, 1950/1836. (Tradução de Lohengrin de Oliveira).







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