sábado, 4 de março de 2017

SOBRE A HISTÓRIA E AS ESTÓRIAS

Cada sujeito que tenha vivido uma experiência em comum com outras pessoas deve guardar na memória elementos dessa ocasião dos quais mais se identificou e isso deve se diferenciar do que outra pessoa que vivera a mesma experiência possa ter arquivado em suas lembranças. Uma pessoa relata um ocorrido de forma bem diferente do que outra pessoa que esteve no mesmo local e momento do ocorrido. Isso, pois a descrição do acontecido depende muito mais da interpretação daquele que vive a experiência do que daquilo que realmente aconteceu.

A memória é falha por selecionar elementos e nunca conseguir registrar o todo da experiência. Por vezes deixando escapar partes cruciais para que pudesse ser possível se perceber a situação de maneira razoavelmente autêntica. Mesmo que a situação tenha sido registrada por aparelhos de alta tecnologia, que consigam grande poder de apreensão e que apresentem grande potencial de definição, ainda assim, inúmeros aspectos, se não, a maior parte deles, ficarão ausente do registro e impossíveis de serem revelados. 

“A fotografia da fonte da verdade talvez seja muito boa, mas, da fonte após turvada pelo fotógrafo e sua máquina; mesmo assim, continua o problema de interpretar a fotografia. A falsificação do registro é maior, por emprestar verossimilhança ao já falsificado.”. (Bion, 1962). 

Ainda que esse fato tenha sido relatado por uma grande quantidade de pessoas, que concordem com a mesma versão, ainda assim temos inúmeros motivos para acreditar que possa existir um pretexto que esteja guiando esse grupo para uma falsa interpretação do que realmente ocorreu e que ainda assim a maior parte dos aspectos legítimos do ocorrido estará ausente da conclusão. Além disso, conforme o tempo passa o relato do que ocorreu pode sofrer modificações, tanto por suscitar novas lembranças, quanto por estar suscetível ao esquecimento de partes do ocorrido. Por conta disso, o registro de fatos ocorridos é sempre duvidoso. No dito popular “quem conta um conto aumenta um ponto” encontramos um representante dessa ordem de reflexões da qual proponho aqui. O que tem de verdadeiramente real num fato relatado, ou mesmo registrado é a questão de ordem.

O tema do registro dos fatos ocorridos é um tema de grande importância para a prática clínica da psicanálise. “O que aconteceu só se mantém através da memória, e a memória é seletiva, traiçoeira em potencial, por fundir-se ao conteúdo impensado da mente, invalidando assim sua fidedignidade com a realidade dos fatos.”. (Martino, 2015).

Aquele que tenha feito uma pequena pesquisa na obra de Wilfred Bion (1897 – 1979), deve ter percebido a característica nociva da memória para o analista em seu trabalho na prática clínica. Na procura pelo fato psíquico em questão no processo psicoterapêutico, aquilo que já passou não deve ser mais objeto de atenção, se tornando então um obstrutor da possibilidade da apreensão do fato presente. Assim como a expectativa do que acontecerá no futuro se configura num elemento danoso para a apreensão do fato presente. Bion propõe que quanto maior for a capacidade de armazenamento de dados na memória, menos o psicoterapeuta será capaz de perceber aquilo que se apresenta no tempo presente; justamente onde se manifesta a realidade.
“Um analista cuja mente for desse tipo é alguém incapaz de aprender, porque está satisfeito.”. (Bion, 1970). Só pode aprender aquele que tem a consciência de sua ignorância e aquilo que supostamente se imagina saber está armazenado na memória. “A tentativa de lembrar ou registrar destrói a capacidade para a observação dos eventos psicanaliticamente significantes e a interrompe.”. (Bion, 1970). Aquilo que foi registrado está distante do que realmente aconteceu.

Na língua portuguesa a palavra estória é muito antiga, servindo para referirem-se às narrativas populares, ficções folclóricas ou ainda às tradições não verdadeiras. A palavra estória aparece em dicionários e no vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras, entretanto esse termo não é unanimemente aceito. Guimarães Rosa (1938 - 1967) é um escritor que se utiliza bastante desse termo em suas obras, como uma tentativa de ilustrar invenções e concepções imaginativas da criatividade. 
Guimarães Rosa
(1938 - 1967)
“Precisávamos de imaginar, depressa, alguma outra estória, mais inventada, que íamos falsamente contar, embaindo os demais no engano.”. (Rosa, em Pirlimpsiquice, 1962). Ainda assim, esta expressão tem seu uso condenado por muitos estudiosos, por ser considerada invenção brasileira e sem necessidade de existir. Diferentemente, a palavra história é utilizada quando a intenção é se referir sobre a ciência, como registro factual com base em acontecimentos reais.

Mas, se concordamos aqui, com a ideia de que todo registro do passado sempre guarda uma grande cota de contaminação da visão daquele que relata o ocorrido e ainda, que o relato do que ocorreu no passado sofre inúmeros reveses até que possa chegar numa conclusão, que de fato nunca será realmente conclusiva, então o termo mais inadequado é justamente “história”. Já que o relato do passado só pode ser considerado uma aproximação do que realmente ocorreu e que a maior parte dos elementos que definiriam a fidedignidade do ocorrido fica encoberta pela limitada capacidade de registro. Então, o relato dos eventos factuais está sempre subordinado à interpretação daquele que registra e então tenta relatar.

BION, W.R.(1962). APRENDENDO COM A EXPERIÊNCIA. Rio de Janeiro: Imago,1962.
________ (1970). ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO. Rio de Janeiro, Imago, 2007.
MARTINO, Renato Dias. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
ROSA. J. G. Pirlimpsiquice, in PRIMEIRAS ESTÓRIAS - Texto integral, Editora Nova Fronteira, Rio de janeiro, 2005/1962.



Prof. Renato Dias Martino 
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/ 

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