terça-feira, 13 de março de 2018

RECONHECENDO LIMITES

O conceito de limite serve para descrever certa linha no tempo ou no espaço que separam duas ou mais extensões. O limite ainda diz respeito à proporção de capacidades. Determinando o alcance onde começa e onde deve termina essa magnitude. Significa o ponto que revela até onde se pode ir, sem que se passe de certa fronteira. É o que impede uma coisa, mas ao mesmo tempo, admite outra. Sem o limite, uma coisa impediria a existência da outra. Portanto, é o que faz duas coisas conviverem lado a lado sem se anularem.
Na vida emocional o limite é questão fundamental no que se refere à capacidade. Fundamentalmente, aprender a reconhecer e então respeitar seus próprios limites é o que prepara o sujeito a não exigir do outro além do limite dele.
O bebe vive com a mãe, na primeira infância, uma relação fusional, tanto da forma física, no âmbito umbilical, quanto posteriormente, de maneira emocional. O mundo e ele coincidem. Sem saber disso, ele vive uma dependência absoluta ao ponto de sucumbir sem os cuidados desta que ocupa o cargo de maternagem.
Donald Woods Winnicott
(1896 - 1971)
Donald Woods Winnicott (1896 - 1971), psicanalista e pediatra inglês, numa reunião científica da British Psychoanalytical Association, realizada em 1941, propõe que, “Isso que chamam de bebê, não existe”. Winnicott apóia que o bebê não existe se não através dos cuidados da função materna. Viver de forma adequada essa relação de fusão é necessário e na realidade de importância fundamental na formação da personalidade do sujeito. Entre outros infindáveis motivos importantes o fato de ser essa experiência o registro fundamental para o futuro desenvolvimento da religação com o todo. 

No entanto, essa relação fusionada entre bebê e aquela que cumpre a função materna, deve sofrer uma transformação conforme a maturação do vínculo acontece e nisso a presença paterna é de caráter essencial. A função paterna é elemento de organização emocional e servirá de forma fundamental na experiência de percepção e reconhecimento do limite existente entre mãe e bebê. Sendo assim, a ausência da atuação efetiva desta função pode implicar em inúmeros prejuízos na formação emocional e estruturação da personalidade, como a saturação do papel da mãe. Essa saturação propicia a diminuição até o ponto de anular a personalidade da criança.
Na vida adulta isso abre um precedente para converter-se em subserviência, ou por outro lado, em arrogância, como tentame de compensação do sentimento de inferioridade.
Bem, na situação da presença afetiva e participativa da função paterna, o processo de percepção e reconhecimento do limite deve se desenvolver de maneira natural. Quando for possível estabelecer vínculo saudável, isso deve ocorrer de forma paulatina, num processo gradativo. Essa percepção deve seguir um fluxo progressivo, conforme a maturação emocional se desenvolve. Dessa maneira, deve se suceder sem tantos traumas ou revezes, já que se trata de um processo naturalmente delicado e conflituoso, que sempre convida à disputa de forças. Uma criança saudável deve naturalmente testar seus limites colocando a prova seu vigor frente ao mundo.
Por mais que, pelo menos de maneira coloquial, a palavra limite esteja muitas vezes acompanhada da palavra imposição, ou ainda esteja associada à menção de que se deva “colocar” limites, quando essas duas ordens de conceitos encontram-se juntas, isso revela que algo não pode ocorrer de maneira saudável. Se existe a necessidade de imposição é sinal de que algo falhou e precisa então ser repensado. Na dimensão emocional, o limite existe independente de ser colocado, o limite está lá e independe de imposição. O que se pode fazer, na realidade, é se tornar capaz de reconhecê-lo. Quanto ao limite não se discute só se pode respeitar. De outra forma, a realidade é abandonada se instalando uma produção alucinatória.
Se por um lado o limite separa, por outro lado une, já que os elementos dentro da realidade são configurados num todo, a partir dos vínculos. Assim como o entardecer separa o dia da noite, também é o que junta um período no outro. O processo de tomada de consciência, no acordo que se pode travar com a realidade, ocorre impreterivelmente, através dos vínculos. O vínculo é o que permite se estar junto, mesmo na ausência do elemento vinculado.  O vínculo saudável proporciona estar uno a si mesmo e, por conseguinte uno ao mundo e isso ocorre através da capacidade simbólica. 
Dentro da perspectiva material o reconhecimento dos limites é preponderante. Na cultura oriental temos o conceito de Maya, uma expressão que vem da raiz sânscrita “Mâ”, que significa “medir”, ou ainda “aquilo que se pode medir”. Esse termo também significa “ilusão”, ou “mundo de aparências”. A ilusão do mundo físico na materialidade das coisas. Nessa perspectiva o limite é fundamental. Quanto mais imatura a relação, mais necessário passa a ser o reconhecimento consciente dos limites. No entanto, a maturidade dos vínculos traz consigo a possibilidade de se desenvolver uma etapa evoluída o suficiente para promover a um reconhecimento da proximidade que desfaz o limite e une os elementos numa só realidade. Através do reconhecimento do limite é possível a percepção de que não se é o todo e nem o centro do todo, mas que cada um de nós é uma parte do todo. 




Prof. Renato Dias Martino
Fone: 17-30113866/17-991910375
prof.renatodiasmartino@gmail.com
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