
Não
é novidade o fato de que o grupo humano carece de um líder para manter-se unido. Essa
espécie de grupo tem a união muito breve no caso de não existir um integrante
que possa cumprir a função de líder. Pelo fato de que não se encontra na origem
da personalidade humana, um elemento instintivo de agregação é então necessário
um líder para juntar e manter unido o grupo dessa ordem de seres. Isso fica
muito claro na obra PSICOLOGIA DAS MASSAS E ANÁLISE DO EGO, de Sigmund Freud
(1856-1939), quando orientado por Gustave Le Bon (1841 — 1931), propõe que
quando um grupo de seres humanos se junta, logo colocam-se sob a influência de um
integrante que carrega algumas características peculiares. 
Freud afirma que o
grupo humano porta-se como se fosse um rebanho submisso e que não poderia manter-se
sem um dominador. “Possui tal anseio de obediência, que se submete
instintivamente a qualquer um que se indique a si próprio como chefe.” (Freud,
1921) Esse sujeito ora ocupando o lugar de líder deve receber um olhar de
prestigio e que amiúde converte-se em idolatria. A
questão da influencia do líder no grupo humano também é tratada por Wilfred R.
Bion (1897-1979), em EXPERIÊNCIAS
COMGRUPOS, onde propõe que o grupo humano guarda características do
processo primário do funcionamento mental, ou seja, opera impulsivamente, reagindo
defensivamente conforme as ansiedades geradas. Dentro dessa configuração, o
grupo deve manifestar o que Bion descreveu como três modalidades de suposições
básicas, que se estabelecem em relação ao líder. “Existe apenas uma espécie de
grupo e uma espécie de homem que se aproximam deste sonho, e são o grupo básico
o grupo dominado por uma das três suposições básicas: dependência, acasalamento
e fuga ou luta e o homem que é capaz de perder sua identidade no rebanho.”
(Bion,1961)
Uma forma de suposições básicas predomina a fim de evitar
experiências emocionais peculiares das outras duas suposições. “Assim, quando um
grupo é impregnado pelas emoções do grupo de dependência os estados emocionais
do grupo de luta-fuga e do grupo de acasalamento encontram-se em inatividade
temporária.” (Bion, 1961) O líder parece ter a função de movimentaras emoções relacionadas
as suposições básicas, no balanceamento das tensões que ocorrem entre a
mentalidade de grupo e a autonomia do indivíduo. O
suposto básico da “dependência” tem seu funcionamento primitivo, a partir da
necessidade de segurança, busca proteção num líder com características carismáticas
guiando-se por suas propostas. Nesse modelo a idolatria do líder pare ser
exacerbada. “Mas o grupo constituído para perpetuar o estado de dependência
significa, para o individuo, que ele está sendo ávido em exigir mais que sua
parte justa de atenção paterna.” (Bion, 1961) Certa voracidade gera um conflito
evidente entre essa forma de suposição básica e as necessidades e obrigações do
sujeito enquanto adulto. Ao mesmo tempo em que o grupo idolatra o líder, também
exige muito dele, assim como numa relação imatura de uma criança com seus pais.
“Nas outras duas culturas, o embate se dá entre a suposição básica do que é
exigido do individuo como adulto e aquilo que este, como adulto, sente-se
preparado para dar.” (Bion, 1961) Enquanto regido pelo suposto básico da
dependência, o líder ganha a função de salvar o grupo, antes de tudo da
possível desintegração, que sempre ronda essa espécie de organização. “De
qualquer modo, seu estado de ânimo contrasta com aquele que experimentam quando,
havendo jogado todas as suas preocupações sobre o líder, sentam-se e ficam
esperando que ele solucione todos os seus problemas.” (Bion, 1961) A grande
idolatria criada pelo grupo, quando regido por essa suposição, gera muitas
dificuldades e na verdade impede que qualquer membro possa manifestar sua
opinião, já que isso denota, aos olhos do grupo, oposição a o líder. Já
no pressuposto básico de “luta e fuga”, segundo Bion, o grupo manifesta certa
ansiedade paranoide. Sendo assim, nesse pressuposto, o líder deve também ter
características paranoides e tirânicas. O sentimento persecutório faz com que o
grupo se torne altamente defensivo, lutando ou fugindo das situações. “O tipo de
liderança que é reconhecido como apropriado é a liderança do homem que mobiliza
o grupo para atacar alguém, ou, alternativamente, para liderá-lo na fuga.”
(Bion, 1961) Normalmente cria um inimigo externo do qual se atribui todo o mal
e contra ele o grupo se mantém unido. Essa forma de suposição já se mostra um
tanto mais evoluída que a suposição de dependência. No
pressuposto básico do “acasalamento” o sentimento de esperança é a fundamentação,
onde o grupo anseia pela geração de um elemento salvador que virá socorrê-lo de
todas as dificuldades. Uma “esperança
messiânica”, onde um casal ou um par do grupo gerará um filho (elemento) que
salvará a todos de qualquer moléstia. “Para que os sentimentos de esperança
sejam sustentados, é essencial que o ‘líder’ do grupo, diferentemente dos
líderes do grupo de dependência e do grupo de luta-fuga, esteja por nascer.”
(Bion, 1961) Nascerá uma pessoa ou mesmo uma ideia que livrará o grupo do ódio,
da destrutividade e do desespero. A
partir dos modelos propostos até aqui, fica claro que a indispensável presença
de um sujeito do qual seja atribuído características diferenciadas e mais
evoluídas do que as dos outros membros para que um grupo humano possa existir.
Sendo assim, a idolatria passa a ser elemento inerente à imposição da vida na
sociedade. Do Grego, a palavra idolatria vem da junção de EIDOS = “forma”, mais
LATREIA = “adoração”. Um líder religioso, um dirigente político, um artista
famoso, uma celebridade, um professor, ou mesmo uma pessoa comum do convívio.
Todos são potenciais objetos de projeções de idolatria. Mas, temos aqui um
perigo. A tendência a idolatria pode levar o sujeito que ora idolatra a um
nível drástico de subserviência, muitas vezes até mesmo permitindo ser abusado
por aquele que seja objeto de idolatria. Quando ocorre uma admiração exagerada para com o outro, isso acontece por conta de uma autodesvalorização. A idolatria incide em detrimento do
amor próprio. É como se todas as virtudes, a nobreza, assim como todas as
características saudáveis e sublimes estivessem reunidas tão somente no objeto
de idolatria. No entanto, isso só pode acontecer com o esgotamento do valor de
si mesmo, numa auto apreciação desfavorável. É como se o eu se tornasse
insignificante perante o outro. Ainda assim, esse processo só deve ocorrer por
meio de alucinação. Nenhum ser humano é digno de idolatria. A partir da situação
de desvalorização de si mesmo, cria-se certa ambivalência. Por conta da auto
depreciação, é gerado um ódio latente em relação ao objeto ora idolatrado.
Quando se idolatra alguém, isso ocorre conscientemente, no entanto, gera-se um
ódio velado. Por tanto, parece não ser possível existir tamanho investimento no
outro sem que ocorra um empobrecimento no eu. Freud, descreve duas direções
possíveis para a libido(importância): “libido do ego”, importância de si mesmo
e “libido objetal” importância do outro. “Quanto mais uma é empregada, mais a
outra se esvazia.” (Freud, 1914)Em cada idolatria existe um ódio velado. “A
atitude da criança para com o pai é matizada por uma ambivalência peculiar. O
próprio pai constitui um perigo para a criança, talvez por causa do
relacionamento anterior dela com a mãe. Assim, ela o teme tanto quanto anseia
por ele e o admira.” (FREUD, 1927) A criança tem sentimentos de sentidos
opostos em relação a aquele que apresente características de autoridade, onde
odeia por ter o poder de dominá-la e admira pelo mesmo motivo. “O violento pai
primevo fora sem dúvida o temido e invejado modelo de cada um do grupo de
irmãos: e, pelo ato de devorá-lo, realizavam a identificação com ele, cada um
deles adquirindo uma parte de sua força.” (FREUD, 1913) Na realidade, aquele
que ora idealiza o outro com idolatria, o faz como uma consequência de certa
incapacidade de reconhecer virtudes em si mesmo. Ou seja, não é a idolatria que
consome o amor próprio, mas sim a falta de autoestima que gera a necessidade de
idolatrar a outrem. Um ideal de eu é projetado no outro por conta da
dificuldade de confiar no que se está sendo. Na formação de um grupo, esse
ideal é comungado entre os integrantes, que também compartilham da incapacidade
de acreditar em si mesmos. “Interpretamos esse prodígio com a significação de
que o indivíduo abandona seu ideal do ego e o substitui pelo ideal do grupo,
tal como é corporificado no líder.” (Freud, 1921). Tratamos da incapacidade de
pensar por si mesmo. O sucesso no domínio dos governantes está na incapacidade
de pensar da nação. Arthur Schopenhauer (1788-1860) trata desse tema em seus
escritos, onde descreve o nacionalismo como o resultado de um estado de
empobrecimento do amor próprio. "Nacionalismo -Todo pobre-diabo
que não tem nada no mundo do que possa se orgulhar escolhe a nação a que
pertence como último recurso para sentir orgulho: desse modo, ele se
restabelece, sente-se grato e pronto para defender (com unhas e dentes) todos
os erros e absurdos próprios dessa nação".(Schopenhauer, 1860) Assim sendo, a saúde
emocional que é nutrida pelos vínculos, fica ameaçada. Onde couber idolatria
não há espaço para vínculo saudável. Parece que quanto maior for a falha no
cumprimento de funções fundamentais como as maternas e paternas, tanto maior a
não integração da personalidade num sujeito coeso. Essa coesão consigo mesmo é
o que pode trazer autonomia tornando o sujeito capaz de liderar a si mesmo. Por
outro lado quanto maior a desintegração da personalidade, a fragmentação faz
com que o sujeito não funcione como um indivíduo, mas como um grupo incapaz de
concordância entre si.
Portanto, menor a capacidade de guiar-se por si mesmo e
maior será a tendência de o sujeito buscar líderes para idolatria.
Referências:
Bion, W. R. (1961). EXPERIÊNCIAS
COM GRUPOS. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
FREUD, S. (1913). O TOTEM E TABU,
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud,
Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1969.Vol. XIII
_________. (1914). SOBRE O
NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1969. Vol. XIV.
_________. (1921). PSICOLOGIA DE GRUPO E ANÁLISE DO EGO. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1969. Vol. XVIII.
SCHOPENHAUER, Arthur. (1860).
A ARTE DE INSULTAR, São Paulo: Martins Fontes, 2003.
_________. (1927). O FUTURO
DE UMA ILUSÃO, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1969. Vol. XXI