Pelo
menos dentro do âmbito emocional-afetivo num adulto, a disputa é sempre
insalubre. Não pode haver saúde nos vínculos enquanto
houver disputa. O embate é uma manifestação natural, que deve surgir muito
cedo, no funcionamento da criança e por conta disso, é importante que haja a
possibilidade de desenvolvimento de recursos propiciadores de elaboração dessa
ordem de impulsos opositores.

A
disputa é uma característica do período do desenvolvimento da criança, da qual
Sigmund Freud (1856 - 1939), denominou fase fálica. Em sua obra A ORGANIZAÇÃO GENITAL INFANTIL (1923), Freud destaca o fato de que nessa fase o formato fálico do pênis chama a atenção das crianças e passa a ser alvo tanto de inveja (dos que “têm” ou dos que têm um maior do que o dos outros) quanto da angústia de que pode ser castrado assim como se suspeita que tenha ocorrido com as meninas (que supostamente não “têm”). Quando o menino que tem grande orgulho da posse de um pênis, vê o
genital da menina e percebe a ausência, inunda sua mente de conflitos. “Com
isso a perda de seu próprio pênis fica imaginável e a ameaça de castração ganha
efeito adiado [Nachtraglichkeit]” (Freud, 1924). Nessa época da vida da criança
não existe a capacidade de entender a diferenciação dos órgãos genitais e por
conta da característica interna dos órgãos femininos, cria se um atalho no
entendimento, por assim dizer, onde uns tem pênis e outros não tem. “O
que está presente, portanto, não é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma
primazia do falo” (FREUD, 1923) Isso configura um ambiente propicio para
disputa de quem é mais poderoso. Nessa fase a criança ainda rivaliza com o pai a exclusividade da atenção materna no que Freud denomina de complexo de Édipo.

Um
ambiente que possibilite atividades lúdicas, práticas esportivas, assim como
jogos, podem trazer a chance de elaboração e gradual dissolução da tendência
natural ao confronto. No entanto, a saúde no vínculo com os pais parece ser a
base dessa possibilidade de elaboração. Numa relação saudável, o confronto deve
ser dissolvido por conta do respeito desenvolvido em relação ao outro. Respeito
que tem seu alicerce no amor, que por sua vez é o desdobramento da capacidade
de tolerância as frustrações, o que possibilitará a renúncia desse impulso.
Isso é diferente da relação que seja construída sobre o medo.

A
saber, medo não é respeito. O que chamo aqui de respeito tem sua origem na
semântica da palavra. “Do Latim respectus,
particípio passado de respicere, “olhar outra vez”. Do re, “de
novo”, mais specere, “olhar”: a ideia é de que algo que merece um segundo olhar
em geral merece respeito.” (Martino, 2013) Numa relação onde os pais sejam capazes
de respeitar os filhos, questões referentes a disputa e rivalidades vão
gradualmente se dissolvendo e dando lugar para o desenvolvimento da compaixão.
A criança que tenha sido respeitada, conseguirá aprender a respeitar a si mesma
e será capaz de estender esse respeito aos outros. Para que os
pais possam proporcionar essa configuração é imperioso que no casal haja o
cumprimento adequado das funções de cada um. Com isso a harmonia gera a
integração na união. Num casal onde haja espaço para disputa entre marido e
esposa, não pode haver integração e os filhos carregarão as consequências dessa
dificuldade da dupla.

No
entanto, lares que podem contar com ambientes de integração parecem ser cada
dia mais raros. Isso pelo motivo de que o modelo de mulher admirada (pelo
menos, por grande parte das mulheres) na configuração atual da sociedade parece
ser aquela que se mostra independente, financeira e emocionalmente. A mulher
admirada pelas outras mulheres, em sua maioria, na contemporaneidade parece ser aquela que busca
a concretização de seus sonhos individuais, que se engaja em conquistas em sua
carreira, de bens materiais procurando cada vez mais sua autonomia. Mesmo que
isso custe estar distante dos filhos (quando os tem) a maior parte do tempo.
Filhos que são deixando-os aos cuidados de terceiros, como babas ou
instituições de cuidado de crianças, que se propõe fazê-lo com infantes de
poucos dias de vida. Além disso, parece-me que, quanto mais o sucesso dessa
mulher acontecer independente de um homem, tanto mais admirada será, pelas
outras mulheres que comunguem desse senso comum dos dias de hoje. Nos atributos
passíveis de admiração, não parece estar incluído o da dedicação à família.

Por
outro lado, quando o objeto de avaliação é o modelo de homem admirado por esse
mesmo público que compartilha desse senso comum, os critérios parecem ser
avessos aos atribuídos à mulher alvo de admiração. O homem, para ser admirado
dentro desse critério mencionado, deve ser aquele que renuncia a si e aos seus
desejos individuais por seus filhos e sua família. Aquele que se revele um
provedor por excelência. Parece que o trabalho externo, que não dentro do lar,
passou a ser um dos representantes do falo. Um falo que traz o poder de
proporcionar o sentimento de independência e a sensação de autonomia para não
precisar do outro. Disputam-se quem possui esse poderoso falo, troféu
narcisista e desestruturante de lares. O prejuízo seria menor se não houvessem
filhos envolvidos na trama de competição de quem é mais independente. No
entanto, essa desestruturação vai provocando patologias emocionais nos
pequenos, que são impelidos a repetir esse modelo nas novas gerações.

Parece-me
que a sociedade contemporânea sofre de uma fixação no desenvolvimento emocional.
Certa ancoragem na fase fálica, onde a menina que hoje é a mãe de família, experimenta
a triste constatação de que não possui o órgão genital como o dos meninos. Parece
fixada na fantasia infantil de que “ele tem e ela não tem”. Presa no “susto” de
que, nela o pênis não se desenvolveu, ou ainda, que foi cortado. Numa
configuração saudável do desenvolvimento, onde haja uma integração na relação
com os pais, a menina vai tomando consciência da importância do genital
feminino e sua posição como mulher. Isso leva a dissolução da inveja geradora
de rivalidade. No entanto, na situação atual das famílias das quais os
pacientes chegam na clínica psicanalítica isso é cada dia mais raro. A menina
permanece ligada a modelos primitivos de funcionamento, onde o outro parece
sempre ser ou ter algo melhor que o dela, gerando um clima sempre propicia à
rivalidade, onde a disputa é a configuração das relações. Ora, num clima de
rivalidade não existe lugar para elementos nobres como amor e verdade, imprescindíveis
para um funcionamento profícuo da mente. Num clima de disputa, não se ama, o
objetivo é ganhar, independente da verdade.

A
grande maioria dos casos que chegam à clínica psicanalítica tem um histórico de
mães e pais que não conseguiram desempenhar suas funções de forma suficiente.
Pai que tentou suprir aquilo que a mãe não deu conta e vice-versa. A
incapacidade dos pais em reconhecer e tolerar limites geram severas
consequências nos filhos. A criança não pode se responsabilizar pelas
incapacidades de seus pais. As experiências mais importantes do desenvolvimento
emocional ocorrem nos primeiros anos de vida. Falhas nesse período podem causar
marcas profundas e muitas vezes indeléveis.
Freud, S. (1996). A ORGANIZAÇÃO GENITAL
INFANTIL: umainterpolação na teoria da sexualidade. In J. Strachey(Ed. e
Trad.). Edição Standard Brasileira das ObrasPsicológicas Completas de Sigmund
Freud(Vol. XIV). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho originalpublicado em 1923).
______. (1924/1976). A
DISSOLUÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO. In: Strachey (Ed.), ESB XIX). Rio de
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______.(1940/1976). A DIVISÃO DO EGO NO PROCESSO DE DEFESA. In: Strachey (Ed.),
ESB XXIII). Rio de Janeiro: Imago. (Vol.XXIII). Rio de Janeiro: Imago.
MARTINO, Renato Dias. O
AMOR E A EXPANSÃO DO PENSAR: das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento
da capacidade reflexiva – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária
Editora, 2013.
Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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São José Do Rio Preto – SP
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