A estruturação da personalidade acontece nos
primeiros anos da vida. Está diretamente subordinada ao cumprimento bem
sucedido da função materna, que a saber, só pode ocorrer quando resguardada
pela função paterna suficientemente bem cumprida. Falhas no cumprimento bem
sucedido dessas funções básicas têm inúmeros desdobramentos, sendo que na
grande maioria dos casos acarretam consequências perturbadoras, turbulentas e
inclusive indeléveis.

A privação da função materna pode vir a gerar
formações neuróticas com desdobramentos, tanto em conversões no corpo, nas
doenças psicossomáticas, quanto na obstrução de ligações e manutenção de
vínculos saudáveis. Quando essa privação ocorre numa idade muito precoce, pode
vir a ter implicações ainda mais graves, num modelo psicótico e até mesmo
autista. No que se refere à falha da função paterna, as consequências estão
diretamente ligadas a dificuldade no reconhecimento dos limites, gerando tendências à delinquência, violência e hostilidade, tanto para consigo mesmo,
quanto para com o outro. A falha no cumprimento suficiente da função paterna na
vida da criança, ainda pode se desdobrar em incapacidades na autonomia
financeira, na autoconfiança, assim como conflitos na orientação sexual do
adulto.

Outra forma de manifestação dos desdobramentos
das falhas no cumprimento suficiente das funções básicas, são percebidas nos
movimentos sociais de cunho ideológico, assim como proposto pelo filósofo
francês Destutt de Tracy (1754 – 1836). Ou ainda como propõe Karl Marx (1818 –
1883), em seu livro A IDEOLOGIA ALEMÃ, de 1846. Para Marx, a ideologia é uma
falsa consciência da realidade, que oculta a realidade. Certa percepção da
realidade que toma uma parte como se fosse a totalidade.
Um discurso que dissimula a realidade, mostrando
apenas aparências, ocultando a essência, já que são construídas através de
percepções sensoriais do mundo externo. Ações coletivas que adotam preceitos
que segregam os seres humanos em classes, separando-os por cor, raça, sexo e
por aí a fora.
Movimentos sociais ideológicos são originados
das dificuldades na elaboração de complexos emocionais e afetivos no âmbito
pessoal. Essa dificuldade no desenvolvimento emocional tem um reflexo direto na
forma como esse sujeito vê o mundo e reconhece a realidade. Aquele que tenha
vivido uma grande privação e ainda assim, tenha sobrevivido, mas não tenha
conseguido elaborar essa falta, pode criar a convicção de que ninguém mais no
mundo precisa daquilo que lhe faltou. Quando inúmeros indivíduos que compactuam
com esse tipo de ideias se unem com outros surge os movimentos sociais
ideológicos.

Dificuldades que não tenham sido bem elaboradas
no âmbito privado acabam por transbordarem no âmbito público. Uma grande
dependência do governo e dos poderes públicos, pode se estabelecer como uma
tentativa de compensar uma falha na nutrição primitiva, no vínculo com a mãe,
assim como problemas com a polícia, ou mesmo com a justiça, podem derivarem de
falha no reconhecimento dos limites, que é fator da função paterna. O que um
dia foi o medo infantil da rejeição da mãe e depois do pai, hoje se tornou o
medo da rejeição social.
Nesse domínio, esforços são efetuados numa
tentativa infecunda de mudar o mundo, mas na realidade, não está sendo capaz de
tolerar algo que está dentro de si mesmo. Enquanto uns procuram mudar o mundo,
outros buscam aprender com o mundo, como se tornar alguém melhor.
EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: Unesp,
1997.
VINCENT, Andrew. Ideologias políticas modernas.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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São José Do Rio Preto – SP
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