sexta-feira, 5 de março de 2010

A MÃE E O BEBÊ

É a mãe quem diz ao bebê o porquê de seu choro. Em sua experiência vivêncial com a criança a mãe suficientemente boa – usando o termo introduzido por Donald Woods Winnicott (1896 - 1971) pediatra e psicanalista inglês, dedicado ao estudo da relação do bebe e sua mãe - percebe e aprende a diferenciar cada choro e como o bebê o expressa. Logo nas primeiras semanas passa a reconhecer a diferença do choro por estar sentindo frio, do choro que possa indicar fome, por exemplo. Isso para o bebê é sentido simplesmente como um intenso desconforto que na medida em que se prolonga por não ser percebido pela mãe e contido pelos cuidados maternos, se intensifica e pode tomar proporções assustadoras para um ser tão despreparado para enfrentar tal privação.
Wilfred R. Bion (1897-1979) – um dos mais importantes autores da psicanálise contemporânea - propõe o termo rêverie para designar esta capacidade da mãe de receber com muito afeto esta manifestação confusa que brota do interior do bebê e desta forma conter e devolver a ele de uma forma organizada e emocionalmente inteligível, em outras palavras, em formas de cuidado e acolhimento. Para Bion desta forma também deve partir a conduta clinica do terapeuta ao receber a dor de seu paciente em analise. Esta ação de maternagem proporciona a essa nova vida que surge, um ambiente seguro que desenvolve a capacidade de pensamento onde permite que o bebê simbolize os impulsos que surgem de dentro (vontade ou necessidade) e vincule com uma força externa acolhedora, protetora e nutridora. A mãe, primeira pessoa que ele conhecerá nesse mundo.

Assim surge a pergunta: Como proporcionar um ambiente seguro se vivemos constantemente sujeitos a desequilíbrios e inseguranças? A resposta não é de forma alguma simples, mas por outro lado está nas simples e pequenas ações cotidianas da vida entre mãe e bebê, assim como as que precedem a chegada do mesmo. Talvez a união feliz e segura do casal possa ser o primeiro passo. Proporcionar um ambiente seguro e amoroso que conte com a presença e a ação da função paterna. É Disso que dependerá o quanto ela (a mãe) será acolhida, protegida e amada enquanto tiver que dar tudo isso sem esperar nada em troca (pelo menos no inicio da vida do bebê).
Uma união infeliz não poderá gerar frutos sadios. É ruim se sentir o motivo da desunião, mas é igualmente negativo sentir-se como a condição para que o casal esteja junto. Wilhelm Stekel (1868 –1940) foi um dicipulo austríaco de Sigmund Freud (1856 –1939) e escreveu brilhantemente em 1963, nas paginas de “Cartas Para Uma Mãe” sobre os fatores que estão presentes na formação e desenvolvimento da personalidade infantil e que ao receber uma criança, os pais revivem o próprio nascimento com todas as alegrias e dificuldades. È prudente que estejam preparados para essa revivência para que não confundam-se com os filhos. Quem nunca olhou para suas falhas pode tentar enxerga-las em seus filhos.

Contudo, assim como a falta o excesso também prejudica. No desejo de compensar falhas pode se cair no erro de mimar e superproteger alguém que crescerá insatisfeito com a realidade que por vezes é repleta de frustrações e que viverá sonhando com sua infância maravilhosa, cheia de satisfações e livre de frustrações. Desta forma a habilidade para lidar com a mesma estará limitada. De qualquer forma a chegada de um filho certamente é uma oportunidade para a mãe, de pensar sobre si mesmo e reconstruir a forma como cuida de si mesma. Coloco em forma de verso algumas reflexões:


Quando instinto que protege, ou razão de controlar
Quando nutre o seio bom, ou o mau vai devorar
Quando aprova o que produz, ou se fez arte apanhar
Quando sente o passo firme a hora é do horizonte indicar
Mas se sente abandonada não se deve sufocar
Quem vive aqui a tão pouco pra se culpabilizar
Cuida sempre bem sincera do que tem pra se cuidar
Pois se quer uma certeza; ame, que irá te amar.




Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
renatodmartino@ig.com.br
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/
Fone: 17-30113866 

Um comentário:

Jacqueline disse...

Esse é um tema que gosto muito. E seu texto esta maravilhoso!
Quem não se reconhece nos filhos é porque não se conhece, não é mesmo?
Outra coisa que me chama atenção foi a analogia feita da maternagem com relação a conduta terapêutica, talvez seja por isso que é ‘meio’ (se não totalmente) sofrido fazer análise.