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segunda-feira, 27 de abril de 2026

DA FORMAÇÃO DO PSICANALISTA - Prof. Renato Dias Martino



Hoje temos uma grande oferta de cursos de formação para psicanalistas, muitos deles em um período muito breve. Nesse ensaio, gostaria de trazer alguns aspectos fundamentais que envolvem esse tema. A vasta oferta de cursos de formação traz consigo grande probabilidade de baixa qualidade no que se oferece. No Brasil, a psicanálise é considerada uma ocupação de livre exercício. Não é uma profissão regulamentada por lei específica ou por conselho federal próprio. Segundo a lei brasileira, a prática da psicanálise não depende de um diploma universitário, nem de registro em conselhos como o de Medicina ou Psicologia para ser exercida. Por outro lado, no Brasil abriu-se a possibilidade de cursos superiores na área, como o “Bacharelado em Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais”, reforçando o caráter acadêmico e teórico e colocando a psicanálise numa posição mais distante da habilitação prática clínica. 


O QUE PENSAVA FREUD


Esse fato traz à baila o olhar questionador de Sigmund Freud (1856–1939) quanto ao modelo que via nas universidades da época: “ministradas de forma dogmática e puramente teórica”. E complementa: “... é claro que o psicanalista pode prescindir completamente da universidade sem qualquer prejuízo para si mesmo.” (Freud, 1919) Freud acreditava que deveria se ensinar “algo sobre” a psicanálise na universidade (teoria, conceitos, relações com outras ciências como biologia, mitologia, sociologia etc.), sendo isso útil e benéfico. No entanto, questionava a possibilidade de se aprender “algo da” psicanálise (no sentido profundo, experiencial) na universidade. A questão fundamental é a da institucionalização da psicanálise, seja ela acadêmica (na universidade) ou em qualquer outro formato de instituição. A palavra “instituição” tem na sua origem o significado de “definir, estabelecer”, que vem do latim instituere. Bem, se falamos de uma psicanálise real, esta deve, de maneira adequada, ser constituída e não meramente instituída. A palavra “constituir” vem do latim construere, “construir”, formada por com (“junto”) + struere (“empilhar, montar”). A verdadeira psicanálise é constituída (construída internamente), e não instituída por uma estrutura externa. Em 1919, Freud expressou que a formação do psicanalista não se adequa ao modelo acadêmico, já que a formação de um analista não tem um “começo, meio e fim” como uma graduação tradicional. Além disso, para que alguém se torne psicanalista, é imprescindível que seja, antes, dotado de coragem, responsabilidade e, fundamentalmente, de uma determinada atitude. Pressupõe-se, com isso, que o aspirante a psicanalista seja capaz, através de sua atitude, de corajosamente se responsabilizar pela organização de seus estudos teóricos, sem depender de uma exigência externa vinda de uma instituição que cobre sua produtividade e o teste sobre o que aprendeu nas aulas. 


MÉTODO SUPEREGÓICO 


O método de ensino acadêmico atual coincide com um modelo superegóico, que tende a levar o sujeito a decorar os conteúdos apenas para se livrar da reprovação. Um método fundamentado num ideal pretendido e preestabelecido num “deveria ser”. Aquele que criou a psicanálise, assim como grandes pensadores posteriores, nos orienta com muita clareza quanto ao tripé psicanalítico constituído pela análise pessoal, pelo estudo teórico constante e pela supervisão de um colega mais experiente. Um psicanalista nasce no divã e não numa sala de aulas. O primeiro passo para aquele que pretende vir a praticar a psicanálise é a dedicação à sua análise pessoal, pois, antes disso, tudo fica deveras obstruído. A teoria psicanalítica não é tão difícil de se compreender quanto é difícil de admitir em seu conteúdo. Isso esbarra diretamente em questões mal elaboradas do sujeito que pretende estudar psicanálise. Sendo assim, tentar estudar psicanálise sem antes ter se dedicado à sua análise pessoal, na melhor das hipóteses, não conseguirá apreender verdadeiramente o que estuda, muitas vezes se desmotivando e desistindo por conta das resistências. Ou, ainda, corre o grande risco de voltar o conteúdo do seu aprendizado contra si mesmo e contra os outros. As experiências vividas na análise pessoal encontrarão, nos estudos teóricos constantes, uma maneira de serem nomeadas. Dessa forma, os conceitos vão se associando às experiências vividas, constituindo um sistema teórico rico de vivências. Na constituição de uma verdadeira psicanálise, isso deve ocorrer respeitando o tempo de cada um, e não exigindo que se cumpra um currículo preestabelecido e institucionalizado. Diferentemente do que se faz numa universidade, que é justamente o oposto: ensina-se a teoria, cobra-se por meio de testes o que foi ensinado e, depois, tenta-se aplicar na prática. 


MODELO


Wilfred Bion (1897–1979) propõe, em 1962, a ideia da função alfa, na qual a mãe recebe os conteúdos caóticos e desconexos do bebê — aos quais denominou elementos beta —, os contém, os organiza, irriga-os de afeto e os devolve ao bebê em formato de elementos alfa, agora prontos a serem pensados e ligados aos outros elementos do mundo interno. Quando a mãe exerce a função alfa, ela não está simplesmente dando manutenção ao funcionamento emocional do bebê, mas fornecendo um modelo que será internalizado por ele, o qual aprenderá, com cada experiência afetiva junto da mãe continente, a exercer a função alfa com seus próprios elementos e, posteriormente, se qualificará a fazê-lo com o próximo. Esse mesmo modelo acontece na prática clínica da psicanálise, onde, através das experiências com seu analista, o paciente vai aprendendo com a experiência e, mesmo que não seja sua pretensão inicial, impreterivelmente se qualificará para vir a exercer essa prática, mesmo que não venha a fazê-lo profissionalmente. 


PRÓXIMO PASSO 


Depois de iniciar a análise pessoal com um psicanalista com quem consiga estabelecer um vínculo afetivo saudável e de iniciar a dedicação aos estudos teóricos semanais — de preferência em grupo, onde haja um colega mais experiente orientando o percurso —, o sujeito poderá avaliar o momento em que se sinta preparado para atender seus pacientes. Para tanto, é fundamental que possa contar com a supervisão de um colega psicanalista mais experiente, que possa orientá-lo nas questões operacionais do atendimento, como manejo de agenda, horários e honorários. O suposto psicanalista que imagine já ter se formado não está, ainda, sendo psicanalista.


Referências:

BION, Wilfred R. Aprender da experiência. Tradução de Paulo Dias Corrêa. São Paulo: Blucher, 2021. (Obra original: 1962)

FREUD, Sigmund. “Sobre o ensino da psicanálise nas universidades” (1918/1919). In: Obras Completas, v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1976.









Prof. Renato Dias Martino


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SOBRE O BENEFÍCIO DE SE ESTAR DOENTE - Prof. Renato Dias Martino


O que chamamos de personalidade parece ser o resultado de disposições inatas, mas fundamentalmente das configurações de relacionamentos estabelecidos. Nascemos com características peculiares, no entanto também vamos sofrendo influências que irão acentuando ou minimizando esses atributos. Quando Wilfred Bion (1897 – 1979) nos orienta sobre o fato de que "O pensar passa a existir para dar conta dos pensamentos." (BION, 1962), ele nos sugere que antes mesmo de o pensador ter nascido já havia um pensamento que o precedeu.

Quando nasce um bebê, de certa forma, já tem como incumbência suprir certas expectativas, que já existiam antes de seu nascimento. Portanto, fica claro que mesmo antes de o sujeito nascer, as configurações vinculares já definiam certas características de sua personalidade. Os vínculos significativos, que definem traços fundamentais na estruturação da personalidade, também continuam influenciando a configuração do funcionamento do sujeito. Por essa perspectiva a frase bíblica parece ganhar um grande sentido quando propõe: “diga com quem andas e eu te direi quem tu és.”. (Provérbios 13:20 e 1 Coríntios 15:33.) As relações influenciam na maneira como funcionamos, tanto de forma saudável quanto de maneira nociva. Uma vinculação saudável pode propiciar a expansão do pensar e com isso um bom desenvolvimento da personalidade. Por outro lado, um vínculo nocivo pode obstruir a ampliação do pensamento dificultando o desenvolvimento da maturidade emocional e consequentemente prejudicando a estruturação da personalidade. Isso deve ser tão comprometedor quanto mais tenra for a idade do sujeito em desenvolvimento.

 Sendo de uma maneira ou de outra, essa influência deve ocorrer essencialmente através de modelos. Quando somos amados com sinceridade, por exemplo, aprendemos a amar a nós mesmos e com isso nos qualificamos para amar o próximo. No entanto, enquanto a influência que combina amor e sinceridade é poderosa, proporcionando a expansão e o desenvolvimento, a influência que esteja permeada de ódio tem consequências desastrosas. Alguém que não esteja emocionalmente saudável pode ameaçar a saúde mental daquele que se encontra intimamente ligado. A desorganização na mente de um desorganiza a mente do outro. Sigmund Freud (1856 – 1939) alertou com propriedade sobre o que denominou “lucro secundário” nos pacientes. Para Freud lucro secundário consiste no benefício em continuar doente, ou ainda, as vantagens em sustentar uma suposta doença. Freud percebeu em inúmeros casos que o paciente percebera uma vantagem em continuar doente “e raramente deixa de haver ocasiões em que se comprova que a doença, repetidas vezes, se torna útil e adequada, e adquire, por assim dizer, uma função secundária que reforça novamente sua estabilidade.” (Freud, 1917).

 Enquanto o ganho primário estaria na possibilidade de descarga da libido reprimida, geradora de enorme desconforto e que é aliviado a cada manifestação do sintoma, numa “a fuga para a doença”, o benefício secundário se encontraria nas vantagens sociais e emocionais adquiridas pelo paciente em função de sua suposta doença que perduram mesmo depois das causas terem sido amenizadas, ou mesmo dissolvidas. “Eles se queixam da doença, mas a exploram com todas as suas forças; e se alguém tenta afastá-la deles, defendem-na como a proverbial leoa com seus filhotes.” (Freud em A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA, 1926). No entanto, não é só o paciente que deve lucrar com o estado de sua enfermidade, mas aquele que convive com ele também pode ter um benefício nisso.

Muitas vezes, aquele que se relaciona com um sujeito adoecido ou mesmo fragilizado, seja fisicamente ou emocionalmente, pode encontrar uma forma de se beneficiar dessa situação. Amiúde, o diagnóstico dado a uma pessoa é muito conveniente também a aquele que com ela está vinculado, trazendo certos benefícios ocultos. Esse benefício pode ser desde ordem financeira, até no âmbito emocional. A isso poderíamos chamar de “ganho terciário”. Isso pode se estender para além das patologias, mas deve também ser aplicável às características mais amplas de cada sujeito.

 Manter-se vinculado a alguém emocionalmente imaturo, por exemplo, pode trazer ao sujeito a impressão de ser muito amadurecido. Assim como, manter-se numa relação com alguém fracassado pode trazer a ilusão ao sujeito, de ser bem-sucedido. Nessa relação parasitária, o sujeito que se sente inferior obviamente também tem o ganho de se manter num estado confortável de comodismo. O fato de o sujeito se impor frente ao outro, infligindo uma forma dominadora de ser, não é um sinal de saúde emocional. Por mais que muitas vezes a arrogância seja idealizada por dar ares de superioridade, por detrás de um prepotente existe sempre um grande inseguro de si mesmo. Muitas vezes o sujeito demonstra uma suposta habilidade em comandar o outro, no entanto, mal consegue conduzir a si mesmo. Dessa maneira, muitas vezes o sujeito mais comprometido com incapacidades emocionais pode se esconder atrás de uma suposta sensatez, que na realidade é amparada por arrogância, dissimulando sua insegurança com prepotência. Esse sujeito dificilmente busca ajuda, até porque não acredita precisar. Muitas vezes aquele que busca psicoterapia é justamente o sujeito emocionalmente mais saudável da família.

 Quando é possível se realizar um bom trabalho no processo psicoterapêutico, o resultado se expande para além do próprio paciente. Para tanto, é fundamental que exista o encontro entre um sujeito que é capaz de perceber sua necessidade de ajuda e um psicoterapeuta que possa contar com um bom nível de maturidade emocional para acolhê-lo. Uma psicoterapia bem-sucedida não favorece exclusivamente o paciente, mas também àqueles que com ele se relacionam.

 

Referências:

BION, W. R. [1962]. “Uma teoria sobre o pensar.” In: BION, W. R. Estudos psicanalíticos revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1994. p. 127-137.

FREUD, S. A teoria geral das neuroses, estado neurótico comum, Conferência XXIV, Parte III. (1917 [1916-17]). Obras Completas, Vol. XVI.

____. A questão da análise leiga: conversações com uma pessoa imparcial. (1926). Obras Completas, Vol. XX.

 











Prof. Renato Dias Martino