segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Do Desmame Nosso de Cada Dia

A experiência da frustração, por não poder “ter” o seio é um dos pontos altos no processo que conduz o ser humano à dura tarefa de se libertar da exclusiva relação com o amor materno (ou daquele que ocupa o lugar de cuidador). Essa experiência dolorosa de desligamento, quando vivida de uma forma serena, pode servir como modelo útil pela vida toda. E também é o que definirá grande parte dos padrões de funcionamento mental que se pode adotar durante a vida, isso enquanto forma de relacionar-se com as pessoas e as coisas do mundo, sobretudo aquelas que nos são ligadas mais profundamente.


“Quando vem a época do desmame, a mãe se entristece refletindo que ela e o filho terão de se separar; que o infante, no princípio sob o seu coração e depois embalado ao seio, nunca mais estará tão próximo dela. E juntos sofrerão esta curta pena. Venturoso aquele que manteve o filho tão próximo de seu coração e não teve outro
motivo de desventura!” Soren Aabye Kierkegaard (1813-1855), Temor e Tremor, 1843


Kierkegaard , filósofo dinamarquês, sob o pseudônimo de Johannes de Silento, descreve brilhantemente em sua obra, publicada em 1843, sobre essa dolorosa experiência que aqui proponho cogitação. Tentemos ser, também aqui, serenos nas tentativas de refletir. Podemos pensar em um curso natural onde a saúde mental e o desenvolvimento emocional são presentes, cada experiência dolorosa vivida desde o início da vida do bebê, nessa série de encontros com a frustração, o forçará a busca de experiências no mundo externo. Experiências num lugar que fica além do eu, numa esfera de relacionamento mais ampla do que aquela, antes vivida.
Agora o bebê, movido por Eros, é impulsionado em direção a relações com o mundo que existe além da relação íntima mãe-bebê, onde o eu e o outro têm limites tão tênues que já não servem de referências seguras no tocante à discriminação da realidade.
Tarefa difícil, já que falamos de uma separação daqueles, que um dia, estiveram fisicamente “grudados”. 
Para o bebê a perspectiva parte de quem realmente viveu “dentro” do outro e dali foi tirado. Ele dependeu do outro para respirar, se alimentar, na verdade dependeu “dela” para existir. E, ainda, se não foi “dela” (mãe) que dependeu, foi de alguém que ocupou esse lugar, falamos aqui muito mais da função, do que de quem a ocupa. Para a mãe é separar-se daquele que é, efetivamente, algo que saiu de seu interior, e agora se afasta buscando o mundo externo.
Em alguns momentos, tratar desse tema parece “chover no molhado” como diz o ditado popular, ou seja, falarmos dos óbvios da vida. Não obstante, isso talvez ganhe um sentido, se percebermos o quanto a civilização anda nos forçando a desvalorizar nossas experiências emocionais, quem sabe, a troco de uma vida mais prática e mecânica e supostamente sem sustos. Esquecemos a dolorosa e penosa tarefa que enfrentamos no caminho que percorremos rumo à maturidade emocional.
A elaboração de recursos para se desligar de modelos de vínculo onde o que rege a relação é a fantasia da exclusividade. Isso, de uma forma afetiva ou mais livre possível de ressentimentos. Da saúde mental depende a capacidade para esse tipo de experiência e, concomitantemente, é desse tipo de ensaio que se mantém a mente saudável. Certo tipo de relação, tão profundamente ligada como a que descrevo, é sempre tendente a confusões. Confusão entre aquilo que “é” o outro e aquilo que se “imagina ser” o outro. Conflitos não elaborados, que se originam dessa relação buscarão, naturalmente, uma nova chance de serem novamente vividos e, assim, abrindo uma nova oportunidade de apreensão e vinculação com real. Mas conflitos dessa ordem são especialmente delicados quando se foi arremessado de encontro à própria realidade, sem que se pudesse viver um desligamento “suave’ da relação primária. Cria-se um ambiente de desordem emocional inundado de ódio pela experiência do contato com o real, dificultando ou interrompendo o encontro afetivo com aquilo que vem de fora, ou seja, com aquilo que é do não / eu. A situação passa a ser de fundamental importância já que esse encontro é o que permite o desenvolvimento da função do pensamento. É o que nutre de recursos o aparelho mental e aprimora o funcionamento mental. É com o encontro com o não / eu que se tem a chance de “realizar o pensamento”, aquilo que vem depois da imaginação.
Sem esse encontro, a ideia ainda existe, contudo, simplesmente no imaginário, na fantasia e não conta com o outro para que se mantenha real. Isso, nos mundos, externo e interno. Algo caótico que procura se organizar e, com certeza, conta com o outro para isso. Certa dependência afetiva que, novamente se pronunciam para o mundo, com a ajuda de Eros.
O desmame é algo penoso não só para o bebê, mas, sem dúvidas para a mãe (na realidade bem mais difícil para ela). Porém, a única forma de criar espaço para si é libertando-se do (o) outro. Aos poucos a mãe perceberá que não se pode trabalhar enquanto se tem alguém no colo, e esse modelo que proponho aqui pretende transcender o nível concreto ou perceptível pelos sentidos, onde cada quilo que o bebê ganha é também um sinal de que se inicia o tempo de andar com suas próprias pernas.
Quero propor que a capacidade de pensamento é algo que se encontra numa esfera que guarda certa individualidade e que, quando alguém pensa pelo outro normalmente o faz em detrimento de si mesmo. Certo tipo de fantasia de onipotência que possa ter uma mãe referente a possuir um seio inesgotável, pode estar sacrificando uma parte importante de sua saúde e também impedindo que o outro (filho, marido) descubra sua função e desenvolva suas capacidades para exercê-la, sobretudo a capacidade de pensar em si mesmo, ou pensar por si mesmo. Capacidades que só podem surgir através do desmame. 
Aquela que nunca se sentiu realmente desejada pode encontrar na maternidade uma chance disso e talvez se perder aí. Quando olhar para os olhos do bebê durante
a mamada perceberá a experiência magnífica de receber alguém que realmente a deseja e necessita dela para viver. É como um ópio propondo o vício de ser mãe.
Assim, em alguns casos ocorre o risco de odiar e lutar contra tudo que aparecer e perceber no filho, que possa capacitá-lo para algo mais do que ser simplesmente filho. Ocorrendo até mesmo na articulação de sabotagens quanto ao processo de desmame. Movida por inseguranças, ela cria um movimento em prol de impedir que o outro aprenda a viver independente dela.
Atacando qualquer outro tipo de vínculo que não o de ser mãe, sob a imaginação (construída antes da maternidade) de que, de outra forma, nunca será valorizada. Ela, a mãe, faz de tudo para o outro e, se nutre da dependência desenvolvendo uma sensação de poder. 
Crescer sem um bom desenvolvimento desses vínculos, cria no outro, que se aproveita dessa situação prazerosa, uma impressão de um ser impotente e dependente em suas realizações. Entretanto, a “evitação do autoconhecimento”, é um processo doloroso, e pode, muitas vezes, ser recoberto pela tarefa de ser mãe. Pode se desenvolver uma forma perversa de vínculo com si próprio e, logo, com o outro.


“Quando vem a época do desmame, a mãe enegrece o seio, pois manter o seu atrativo será maléfico ao filho que o deve deixar. Desse modo ele crê que a mãe mudou, ainda que o coração dela continue firme e o olhar seja da mesma ternura e do mesmo amor. Venturoso aquele que não precise recorrer a meios ainda mais terríveis para o desmame de seu filho!” Kierkegaard, Temor e Tremor, 1843, pp.27, 32

A questão toma proporções importantes quando se percebe que escolhas afetivas de um adulto estarão o tempo todo permeadas destes impulsos conflituosos enraizados na origem da vida. O que nos faz escolher alguém para nos ligar está intimamente associado com fatos arcaicos na gênese do desenvolvimento emocional, e que hoje, nos aparece como paixão. Aquele modelo de relação do qual não se sabe muito bem por que se sente tão fascinado pelo outro. No entanto e, mesmo assim, sente-se extremamente atraído. São impulsos infantis que, hoje, mascarados pela moral e normas sociais, tentam ganhar lugar na personalidade de cada um de nós.
Lembro-me de um paciente em análise, frustrado por uma separação e tentando me dizer, muito bravo, sobre esses tipos de escolhas inconscientes, xinga seu cupido de cego.
A fase da amamentação, talvez seja o símbolo maior, do período onde se esteve totalmente dependente do outro. Se for isso um fato, a fase que se sucede e tem o desmame como divisor de águas sugere o medo, a insegurança e a incerteza que caminham lado a lado com a independência.

Enquanto adultos, tendemos a pensar que isso tudo, é algo muito simples e que a própria natureza da criança irá se encarregar de mostrar o melhor caminho. Entretanto, a dificuldade que se encontra no adulto em reconhecer a real dor presente nos entraves afetivos da criança está diretamente ligada à incapacidade de ter aprendido em sua vida, com a própria experiência infantil. Cada experiência malsucedida na vida emocional infantil está velada na história do adulto como um código de silencioso esquecimento. Isso, tanto dele para com ele mesmo, quanto daquele que esteve (está) com ele no momento da experiência.
O desmame, assim como cada percepção da realidade de que a mãe não é “sua”, ou que seu amor não é exclusivo, é uma encruzilhada no caminho deste pequenino ser que chegou há pouco tempo, nesse mundo. Ele irá experimenta sentimentos como raiva, inveja, ciúmes, que são gerados a partir da experiência da perda, daquilo que se vai. Uma sequência de perdas consecutivas que irão gradualmente forçando o eu a se responsabilizar-se e assumir o comando de suas próprias escolhas.
Podemos, então, a partir deste modelo, perceber que, na verdade, passamos nossa vida toda tentando (ou evitando) nos desmamar de substitutos do seio original.

Capítulo do livro: MARTINO, Renato Dias. Para Além da Clínica - 1. ed. São José do RioPreto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.





Prof. Renato Dias Martino 
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866 

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