domingo, 5 de janeiro de 2014

Desventura Inesperada

No desenvolvimento da criança, cada troca de ilusão pelo reconhecimento da realidade é também um teste para sua capacidade de suportar adversidades. Tarefa que pode ser menos penosa quando resguardada pelo amor dos pais, ou daqueles que estiverem dedicadamente desempenhando essa função. Um modelo que servirá para a vida toda permeando cada situação de enfrentamento de situações desagradáveis. A capacidade de enfrentar e superar adversidades é a base de um bom funcionamento mental. Tendo como condição o fato de que o restabelecimento deve ocorrer num processo lento, se estivermos falando de um procedimento saudável. 
Sigmund Freud (1856 – 1939) escreve sobre essa experiência em seu texto Luto e Melancolia de 1917, onde observa que o sujeito que não é capaz de viver o processo do luto daquilo que foi perdido, cai então num estado de melancolia, onde o mundo perde a graça e ele então, não consegue ver motivos para continuar vivendo.
A desventura é por si só uma experiência de difícil superação e quando isso vem sem previsão, passa a ser muito mais complexa de se ultrapassar. 
Não existe uma receita previa ou qualquer que seja a medida preventiva para que isso não abale o curso da vida, entretanto o cultivo de relações saudáveis em vínculos profícuos, pode trazer o amparo necessário para geração da coragem necessária nessa experiência.
Através da genealogia da palavra coragem parece ficar claro o imperativo dessa expressão. Esse vocábulo é o resultado da junção de ‘cor’, que significa coração, mais ‘agem’ que alude a ação, literalmente articulamos o agir com o coração. Um coração empobrecido não é adequado para agir. Agir pelo coração é ser capaz de amar e a capacidade de suplantar a mudança inesperada só pode surgir do amor. 
Ao contrário disso, essa crise nunca poderá trazer alguma expansão mental e maturidade, que é o que se pode extrair de positivo de situações como essa. Nessa configuração só pode ser possível suplantar uma infortúnio severo que venha de forma abrupta, se o sujeito estiver nutrindo, de alguma forma, de amor. 
Na ausência dos vínculos afetivos saudáveis o sujeito, muito provavelmente ficará presos nesse espaço tempo do qual ocorrera a desventura, impossibilitado de seguir em frente, nas experiências da vida. Frente ao mal repentino, o autoacolhimento é fundamental. A saber, só aprenderemos a nos acolher através do acolhimento do outro.


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com

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