quinta-feira, 12 de junho de 2014

Da ilusão como recurso fundamental

Em 2009 escrevi sobre os motivos que levariam o sujeito a buscar um processo de psicoterapia. Na ocasião propus reflexão à dedicação que se pode ter “a momentos onde a concretude das coisas simplesmente perde o valor”. Levanto a hipótese de que “a humanidade parece enfrentar um período da historia onde a infertilidade (para não dizer esterilidade) na produção do pensamento é algo preocupante”.

 Pretendo novamente trazer a baila tal cogitação. Cinco anos se passaram e a realidade nos mostra que a capacidade de pensar sem dúvida continua sendo certa habilidade muito deficitária no ser humano contemporâneo, que parece agir mais e pensar muito pouco. Sendo assim, a ilusão passa a ser muito mais frequente que a tomada de consciência da realidade.
O ser humano se vê engajado de criar expedientes que possam mantê-lo dentro das ilusões. Vem se especializando cada dia mais na tarefa de criar mecanismos que permitam mantê-lo iludido a maior parte do tempo possível. Na impossibilidade de vinculação saudável, existe então uma tentativa que aposta na substituição de um real suprimento de necessidades básicas por artifícios vazios de experiências realmente nutridoras e escassas de qualidade profícuas, que ofuscam e adiam esse imperativo de satisfação fundamental que ora está impedido de suprir-se.
Ilusões são sedutoras por serem prazerosas e sugerirem um afastamento dos desconfortos, no entanto são pobres e não estão a serviço da nutrição da mente.

Pressupondo-se de certa demanda básica a ser suprida e diante da impossibilidade no suprimento adequado, cria-se então certa ilusão substitutiva dessa necessidade. Foi o caminho da qual a psicanálise nos ensinou.




Bem, é necessário nos lembrarmos de que as ilusões são componentes do ciclo de desenvolvimento mental, entretanto permanecer demasiadamente dentro delas passa a se revelar um risco para o mesmo processo de desenvolvimento. A situação torna-se realmente danosa quando o sujeito aferra-se a isso de maneira tão dependente que fica obrigado a construir um sistema de justificativas racionais para que possa explicar sua permanência nos domínios dessa fantasia. Um subterfúgio por substituição de algo que na realidade nunca poderia ser substituído efetivamente, torna então do sujeito um prisioneiro. Quando uma criança chora por que perdeu a chupeta, sua angústia não diz respeito aquele pedaço de borracha, mas à aquilo que a angustiava antes de conhecer a chupeta.
Contudo, ainda que o exercício do pensar seja recurso fundamental para a expansão de uma mente saudável, proporcionando maior capacidade afetiva, o direito de conservar sua ignorância é reservado a cada ser humano. Até porque o que o leva manter-se ignorante de certa verdade, é o fato de não ter encontrado algo que valesse a pena, na realidade externa, com o outro.







Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodmartino@ig.com.br

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com 

2 comentários:

Jacqueline Ferreira disse...

Suas considerações continuam atualizados!

carlos henrique disse...

Mais uma vez lhe agradeço Professor Renato por nos proporcionar esse momento de reflexão, peço licença também para alimentar essa questão com uma dúvida que me surge, como podemos "definir" oque é realidade se estamos o tempo todo sendo ludibriados por nossos sentidos, pois as vezes o próprio exercício do pensar nos leva a crer que essa prática é apenas mais uma ilusão.