quinta-feira, 7 de maio de 2015

Sobre humildade e submissão

Por mais que tentemos dar nomes às coisas, essa tarefa nunca poderá ser totalmente completa ou acabada, se concordarmos que vivemos num processo constante de reconhecimento da realidade. Desafortunado aquele que imagina conhecer plenamente seja lá o que for. Pode se perder em si mesmo e se tornar incapaz de aprender com as experiências da vida. Por conta disso, repensar as definições deve ser um exercício constante e nem um esforço pode ser em vão dentro dessa proposta. O trabalho psicoterapêutico consiste em grande parte, na tarefa de auxiliar a nomeação de sentimentos e experiências. Muitas vezes somos inundados por sentimentos dos quais não conseguimos sequer descrever com muita clareza e muito menos somos capazes de dar nome a isso que sentimos. Num outro vértice, frequentemente afirmamos verbalmente uma série de conceitos dos quais muito pouco vivenciamos.

Comumente encontramos a palavra humildade usada para descrever situação de pobreza e ainda encontra-se confundida com o termo submissão nas definições dos dicionários brasileiros. No entanto, se pensarmos melhor no que se tem teoricamente dificilmente seguirá a mesma direção na prática.

Existe um longo caminho entre os conceitos e esse caminho que difere um do outro parte da capacidade de reconhecimento de si mesmo. Enquanto o humilde tem larga percepção sobre si mesmo em relação ao outro e ao mundo, passando a ser capaz de responsabilizar-se por isso, o submisso não tem a mesma capacidade e não pode desenvolver o senso de responsabilização.

A atitude submissa é originária da incapacidade de lidar com incertezas, o que faz com que o submisso se sinta inferior diante dos demais que pelo menos aparentemente conseguem lidar bem com isso. Com medo ou indefesos diante da dúvida, desenvolve mecanismos de defesa como o de desistir logo das tentativas de superação, aderindo ao outro de forma subserviente. Ele não pode ser capaz de reconhecer o mundo e muito menos a si mesmo. Se sentindo incapaz, torna-se subserviente ao outro, buscando segurança na dependência exclusiva deste para viver, deixando que lhe digam como agir, como andar, como se vestir... De tal modo, é sempre o outro o responsável pelas conquistas ou fracassos. Por conta disso vive vezes bajulando, vezes criticando o outro.

A submissão é um estado mórbido de coisas que é mantido sem exigir esforço algum, além disso, é justamente esse o grande benefício da subserviência: o de não se esforçar por nada. De forma diversa a humildade depende de exercício, não podendo ser atingida e mantida sem grande dedicação. Quando existe a busca pela humildade é sinal de que se está sendo capaz de enxergar a si mesmo e ao mundo de uma forma menos narcisista, assim sendo, mais tolerantes nos vínculos. Sendo parte de um processo de maturação, quanto maior for o grau de humildade, tanto maior será a capacidade emocional e a disposição para a expansão afetiva, na capacidade de amar.

A partir da consciência de sua própria vulnerabilidade perante o mundo desenvolve-se a humildade e passa a ser possível se responsabilizar por criar recursos para lidar com essa descoberta sobre si. Pois bem, quanto mais consciente da sua própria ignorância maior amplitude a humilde terá. Enquanto o submisso ainda acredita que a submissão pode trazer a segurança, o humilde percebe que essa insegurança vem da condição frágil do ser humano. Fragilidade em relação à natureza, que pode nos exterminar em segundos, como num terremoto, ou ainda lentamente bem como fatalmente acontecerá, conforme os anos passam e a idade avançada chega. Fragilidade que se revela nas relações afetivas, quando nos propomos a amar de verdade. Essa fragilidade que se mostra condição fundamental para a humildade, não se encontra somente em relação ao outro e ao mundo, mas se revela na relação do ‘eu’ para com o ‘eu mesmo’. A psicanálise nos ensina com muita propriedade o quanto traímos a nós mesmos e o quanto somos paralisados por conta dos conflitos internos que nos leva, muitas vezes ao ponto de cometermos certas auto-sabotagens, impedindo o decurso natural de nossas vidas.

Sendo assim, a humildade revela o quanto somos frágeis e vulneráveis frente ao universo, constituindo antes de tudo a busca pela essência da criação. A origem da palavra vem do latim humus, “terra”, onde humilis quer dizer “aquilo que permanece no chão e que não se ergue”. Na religiosidade a busca pelo cultivo da humildade é tida como virtude fundamental. Assim como nas escrituras védicas na devoção à Krishna somos humildes servos da Suprema Manifestação. Quando Krishna apareceu como Shri Cheitanya Mahaprabhu (1486 - 1534) em sua mais recente encarnação, nos orienta com o ensinamento de que apenas o humilde, tolerante, capaz de tratar a si mesmo e a todos respeitosamente, nada esperando em troca, pode escapar das garras das ofensas e viver uma vida de paz.



A humildade dessa maneira demanda sempre de certo grau de desenvolvimento emocional, num processo de renúncia das ilusões de que supostamente somos detentores do saber, ou ainda da valorização material, se efetivando no ‘ser’. Ilusões que tornam o sujeito prisioneiros dos vínculos perversos de submissão que de maneira sedutora inevitavelmente serão oferecidos em cada esquina da nossa caminhada. A partir desse vértice de reflexão a conotação comum da palavra humildade empregada para descrever situação de pobreza ou submissão, se descaracteriza completamente revelando justamente a riqueza e a libertação em ser capaz de se cultivar a humildade que revela ser a via segura para se reconhecer a realidade.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
prof.renatodiasmartino@gmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br

Um comentário:

Tania Beatriz Pedrollo Lise disse...

Obrigada pela lembrança do real significado das palavras e a necessidade, muitas vezes, de desconstrução de outros significados que não o correto.
Valeu a pena a leitura do teu texto: tão simples, esclarecedor e merecedor de efetiva prática.
Abraço
Tânia