quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SOBRE O BENEFÍCIO DE SE ESTAR DOENTE - Prof. Renato Dias Martino


O que chamamos de personalidade parece ser o resultado de disposições inatas, mas fundamentalmente das configurações de relacionamentos estabelecidos. Nascemos com características peculiares, no entanto também vamos sofrendo influências que irão acentuando ou minimizando esses atributos. Quando Wilfred Bion (1897 – 1979) nos orienta sobre o fato de que "O pensar passa a existir para dar conta dos pensamentos." (BION, 1962), ele nos sugere que antes mesmo de o pensador ter nascido já havia um pensamento que o precedeu.

Quando nasce um bebê, de certa forma, já tem como incumbência suprir certas expectativas, que já existiam antes de seu nascimento. Portanto, fica claro que mesmo antes de o sujeito nascer, as configurações vinculares já definiam certas características de sua personalidade. Os vínculos significativos, que definem traços fundamentais na estruturação da personalidade, também continuam influenciando a configuração do funcionamento do sujeito. Por essa perspectiva a frase bíblica parece ganhar um grande sentido quando propõe: “diga com quem andas e eu te direi quem tu és.”. (Provérbios 13:20 e 1 Coríntios 15:33.) As relações influenciam na maneira como funcionamos, tanto de forma saudável quanto de maneira nociva. Uma vinculação saudável pode propiciar a expansão do pensar e com isso um bom desenvolvimento da personalidade. Por outro lado, um vínculo nocivo pode obstruir a ampliação do pensamento dificultando o desenvolvimento da maturidade emocional e consequentemente prejudicando a estruturação da personalidade. Isso deve ser tão comprometedor quanto mais tenra for a idade do sujeito em desenvolvimento.

 Sendo de uma maneira ou de outra, essa influência deve ocorrer essencialmente através de modelos. Quando somos amados com sinceridade, por exemplo, aprendemos a amar a nós mesmos e com isso nos qualificamos para amar o próximo. No entanto, enquanto a influência que combina amor e sinceridade é poderosa, proporcionando a expansão e o desenvolvimento, a influência que esteja permeada de ódio tem consequências desastrosas. Alguém que não esteja emocionalmente saudável pode ameaçar a saúde mental daquele que se encontra intimamente ligado. A desorganização na mente de um desorganiza a mente do outro. Sigmund Freud (1856 – 1939) alertou com propriedade sobre o que denominou “lucro secundário” nos pacientes. Para Freud lucro secundário consiste no benefício em continuar doente, ou ainda, as vantagens em sustentar uma suposta doença. Freud percebeu em inúmeros casos que o paciente percebera uma vantagem em continuar doente “e raramente deixa de haver ocasiões em que se comprova que a doença, repetidas vezes, se torna útil e adequada, e adquire, por assim dizer, uma função secundária que reforça novamente sua estabilidade.” (Freud, 1917).

 Enquanto o ganho primário estaria na possibilidade de descarga da libido reprimida, geradora de enorme desconforto e que é aliviado a cada manifestação do sintoma, numa “a fuga para a doença”, o benefício secundário se encontraria nas vantagens sociais e emocionais adquiridas pelo paciente em função de sua suposta doença que perduram mesmo depois das causas terem sido amenizadas, ou mesmo dissolvidas. “Eles se queixam da doença, mas a exploram com todas as suas forças; e se alguém tenta afastá-la deles, defendem-na como a proverbial leoa com seus filhotes.” (Freud em A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA, 1926). No entanto, não é só o paciente que deve lucrar com o estado de sua enfermidade, mas aquele que convive com ele também pode ter um benefício nisso.

Muitas vezes, aquele que se relaciona com um sujeito adoecido ou mesmo fragilizado, seja fisicamente ou emocionalmente, pode encontrar uma forma de se beneficiar dessa situação. Amiúde, o diagnóstico dado a uma pessoa é muito conveniente também a aquele que com ela está vinculado, trazendo certos benefícios ocultos. Esse benefício pode ser desde ordem financeira, até no âmbito emocional. A isso poderíamos chamar de “ganho terciário”. Isso pode se estender para além das patologias, mas deve também ser aplicável às características mais amplas de cada sujeito.

 Manter-se vinculado a alguém emocionalmente imaturo, por exemplo, pode trazer ao sujeito a impressão de ser muito amadurecido. Assim como, manter-se numa relação com alguém fracassado pode trazer a ilusão ao sujeito, de ser bem-sucedido. Nessa relação parasitária, o sujeito que se sente inferior obviamente também tem o ganho de se manter num estado confortável de comodismo. O fato de o sujeito se impor frente ao outro, infligindo uma forma dominadora de ser, não é um sinal de saúde emocional. Por mais que muitas vezes a arrogância seja idealizada por dar ares de superioridade, por detrás de um prepotente existe sempre um grande inseguro de si mesmo. Muitas vezes o sujeito demonstra uma suposta habilidade em comandar o outro, no entanto, mal consegue conduzir a si mesmo. Dessa maneira, muitas vezes o sujeito mais comprometido com incapacidades emocionais pode se esconder atrás de uma suposta sensatez, que na realidade é amparada por arrogância, dissimulando sua insegurança com prepotência. Esse sujeito dificilmente busca ajuda, até porque não acredita precisar. Muitas vezes aquele que busca psicoterapia é justamente o sujeito emocionalmente mais saudável da família.

 Quando é possível se realizar um bom trabalho no processo psicoterapêutico, o resultado se expande para além do próprio paciente. Para tanto, é fundamental que exista o encontro entre um sujeito que é capaz de perceber sua necessidade de ajuda e um psicoterapeuta que possa contar com um bom nível de maturidade emocional para acolhê-lo. Uma psicoterapia bem-sucedida não favorece exclusivamente o paciente, mas também àqueles que com ele se relacionam.

 

Referências:

BION, W. R. [1962]. “Uma teoria sobre o pensar.” In: BION, W. R. Estudos psicanalíticos revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1994. p. 127-137.

FREUD, S. A teoria geral das neuroses, estado neurótico comum, Conferência XXIV, Parte III. (1917 [1916-17]). Obras Completas, Vol. XVI.

____. A questão da análise leiga: conversações com uma pessoa imparcial. (1926). Obras Completas, Vol. XX.

 











Prof. Renato Dias Martino

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

DO ESPECTRO POLÍTICO DA DIVISÃO - Prof. Renato Dias Martino


Logo de início, parece-me importante deixar claro que este texto não se trata de uma afirmação científica, mas de uma analogia que tenta aproximar uma formulação psicanalítica de uma configuração política.

 Sigmund Freud (1856–1939) propõe duas tendências dentro do âmbito do funcionamento mental: uma tende à união, à junção entre as partes num movimento de integração; a outra tende a separar, a dividir o todo em partes dissociadas. Essa ideia Freud desenvolveu especialmente em ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER (1920). Segundo Freud, essas duas tendências operam concomitantemente, sem que uma anule a outra. No entanto, pode haver a predominância de uma sobre a outra, causando certo desajuste no funcionamento da entidade em questão. À tendência que busca à união Freud chamou de pulsão de vida e à tendência que busca dividir chamou de pulsão de morte. A pulsão de vida tem a função de ligação. “Ocorrendo do interior para o exterior, eclodindo para fora, na ligação com o mundo, com outro (objeto), e também agindo no mundo interno, na integração das partes do eu” (Martino, 2024). A pulsão de morte se manifesta com a fragmentação da personalidade e da percepção do mundo como um todo. “Um movimento que tende à desvinculação das partes, por decorrência da insuficiência na irrigação da libido” (Martino, 2024).

 Esse modelo, que ocorre no âmbito do funcionamento emocional e passa a reger as relações no campo afetivo, também se manifesta na dimensão dos grupos humanos. Essas duas tendências ficam evidentes quando aplicadas aos espectros políticos do que se denominam direita e esquerda. A direita, no modelo do conservadorismo, defende valores como as tradições, a família, a propriedade privada e a ordem estabelecida. Admite mudanças, mas prudentes, graduais e cautelosas, opondo-se a revoluções ou propostas de reformas radicais. Na direita conservadora parece existir certa resistência a mudanças bruscas e revolucionárias e isso parece estar ligada à autopreservação da pulsão de vida. Para que possa haver um bom funcionamento é imperiosa a necessidade de estabilidade, sendo que as mudanças precisam ser cautelosas e ponderadas. Freud falava da pulsão de vida com a função de conservação e integração, e isso se alinha com a ideia de que estabilidade é essencial para o desenvolvimento sustentável e saudável. Isso pretende a coesão social através do cultivo de valores partilhados.

 A direita ainda defende o Estado mínimo, onde a intervenção do governo na economia e na vida dos cidadãos é mínima. Com isso, o Estado tem funções essenciais como segurança, justiça, defesa e relações exteriores, já que, com a estrutura familiar bem estruturada, a liberdade individual e a livre iniciativa geram mais eficiência e desenvolvimento. Um sujeito que pode crescer numa família bem estruturada terá sua personalidade bem estruturada por conta do modelo bem-sucedido. Essa integração faz com que o sujeito se sinta parte integrante do todo, reduzindo sua insegurança frente aos desafios, e isso coincide com as características da função da pulsão de vida. Aponta-se, portanto, que pelo menos esses preceitos destacados aqui estão de acordo com a predominância dessa tendência pulsional. Cada ser humano é único e deve ser respeitado independentemente da cor, raça ou gênero. Isso coincide com um princípio fundamental e universal dos direitos humanos. Quanto mais autonomia para cada cidadão, menor a carga do Estado, que deve cuidar do essencial.

 Já as pautas defendidas pela ideologia política da esquerda estão predominantemente orientadas pela divisão, onde os temas do racismo, feminismo e a causa do trabalhador sinalizam essa separação. A “luta de classes” é um termo central na proposta teórica de Karl Marx (1818–1883), nome mais importante na formulação da esquerda. No marxismo, a luta de classes é o conflito entre diferentes grupos sociais, especialmente burguesia e proletariado, que, segundo Marx, é gerado por conta de interesses econômicos antagônicos. Sendo assim, não me parece absurdo afirmar que o espectro da esquerda parece ser preponderantemente regido pela pulsão de morte. A justificativa para isso está na abordagem da esquerda, no progressismo, sobre a desigualdades estruturais, opressões e injustiças sociais. Ao erguer as bandeiras contra o racismo, o sexismo e a desigualdade de classes, mesmo quando alega apenas ‘denunciar’ divisões já existentes, a esquerda converte a diferença em antagonismo insolúvel e toda identidade em bandeira de combate permanente — produzindo, na prática, uma fragmentação social muito maior do que a integração que supostamente diz buscar. Ora, ao destacar diferenças entre grupos, a esquerda acaba por dividir a sociedade em campos opostos.

 Além disso, a esquerda ganha enorme força em sua militância, já que tem a aderência de pessoas que se sentem excluídas, rejeitadas e oprimidas, o que fortalece as pautas defendidas. Ou seja, um público que se sente dividido do todo, apartado da sociedade. Bem, aquele que não teve a menor condição de conseguir sua propriedade privada é um grande sugestionável a lutar contra esse direito. Alguém que não teve uma família tradicional ou bem estruturada e, ainda assim, conseguiu sobreviver, pode vir a ser convencido de que isso deve ser combatido.

 O movimento de esquerda usa a tática de “dividir para conquistar” (no latim, divide et impera) ao enfatizar divisões sociais, como classe, raça e gênero, para criar conflitos e, assim, alcançar apoio político e obter e manter o controle.

É uma estratégia antiga, não exclusiva do general chines Sun Tzu (544 a.C. – 496 a.C.) em sua obra A Arte da Guerra, mas usada por personalidades como o ditador romano Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.) e o estadista francês Napoleão Bonaparte (1769 – 1821). Envolve separar inimigos em grupos menores com o intuito de enfraquecê-los e então dominá-los.

 Diferente da direita conservadora, a esquerda defende um Estado forte e soberano que dá manutenção à vida do cidadão. Esse movimento consiste em quebrar concentrações de poder em entidades menores que não conseguem se opor efetivamente a quem as controla. “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”, assim como na célebre frase de Benito Mussolini (1883–1945). Essa proposta foi adotada, com variações de retórica, por grande parte dos regimes socialistas do século XX — o que revela a convergência prática entre extremos que se dizem opostos. O fascismo não é o oposto do socialismo, mas parece ser seu irmão invejoso que trocou o internacionalismo pela nação. A frase serve ainda para ilustrar a esquerda atual que insiste na narrativa de que o fascismo é uma característica da direita contemporânea.

 A psicanálise nos ensina que o ser humano é narcisista por natureza, portanto, não há como fundamentar realmente, um regime onde se pregue a igualdade social. A partilha saudável é aquela que é espontânea. A partilha, quando imposta, perde sua nobreza. Quando se obriga a partilhar frustra-se o próprio movimento libidinal que a tornaria possível. Converte o dom em mágoa e o receptor em dependente incapaz e raivoso. Pregar igualdade imposta ignora a natureza egoísta, levando a resistências e falhas. A partilha espontânea (como em caridades ou comunidades voluntárias) parece mais alinhada com a pulsão de vida, pois surge de vínculos reais, não de coerção. Isso explica por que tentativas de "igualdade forçada" muitas vezes geram novas desigualdades. Isso fica claro nas elites partidárias em regimes socialistas.

 “Os comunistas acreditam ter descoberto o caminho para nos livrar de nossos males. Segundo eles, o homem é inteiramente bom e bem disposto para com o seu próximo, mas a instituição da propriedade privada corrompeu-lhe a natureza.” (Freud, 1930) 

A esquerda propõe que a propriedade privada traz poder ao indivíduo o torna um opressor daquele que não conseguiu o mesmo. Ainda assim, a hostilidade não é gerada pela propriedade, mas sempre existiu bem pior do que é hoje desde os tempos primitivos, quando a propriedade ainda era insignificante.

 Em última instancia, como a personalidade, quando dominada pela pulsão de morte, caminha para a dissolução ou para o domínio tirânico de um supereu, que se manifesta num “deveria ser” sádico, um povo dividido tem sua autonomia drasticamente reduzida e, fragilizado, deve também padecer. O povo fragilizado e fragmentado tende à anarquia autodestrutiva ou a subordinação a um poder que prometa, falsamente, reunificá-lo.

 

Referência:

 FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1930.

MARTINO, Renato Dias. Pensando melhor a psicanálise: do saber ao estar sendo


sábado, 20 de dezembro de 2025

DA MATURIDADE À INTELIGÊNCIA - Prof. Renato Dias Martino

 

Há uma diferença enorme entre inteligência e maturidade emocional: uma capacidade não garante a outra. 
Existem ciladas das quais o inteligente consegue sair, mas o emocionalmente maduro jamais teria entrado. 
A inteligência sugere ousadia; a maturidade emocional traz prudência. 

Enquanto a inteligência te qualifica para debater com quem discorda, a maturidade emocional te orienta a não te envolver. 
A inteligência desenvolve o remédio, mas a maturidade previne a doença. 
O inteligente sabe o “que”; o emocionalmente maduro percebe o “como”.  A inteligência se desenvolve pela ampliação do aparato cognitivo; já a maturidade emocional está ligada à capacidade de amar sinceramente a si mesmo e ao outro. 
A maturidade emocional diz respeito à relação consigo mesmo, que se expande na relação com o outro.
Se ainda não aprendeu a amar-se verdadeiramente, não pode chamar de amor o que tem pelo outro.
 
A inteligência nos leva a conquistar aquilo que desejamos; amadurecemos emocionalmente na medida em que aprendemos a perder.
Quem não desenvolveu a capacidade de se tratar com respeito e compaixão, acaba projetando no outro expectativas e idealizações que não são amor, mas medo de abandono e busca por aprovação.













Prof. Renato Dias Martino



terça-feira, 16 de dezembro de 2025

SOBRE O PROCESSO DO LUTO - Prof. Renato Dias Martino

 

A angústia é o aperto no peito que rege o período do luto. Por vezes transforma-se em ansiedade, mas logo retorna à angústia. É como as ondas do mar: vêm e vão, alternando o estado de humor. 

Quando perdemos alguém que amamos — mesmo que de forma sutil e temporária —, sentimo-nos culpados, como se não tivéssemos cuidado o suficiente daquele vínculo. Mesmo tendo-nos dedicado, muitas vezes de forma integral, mesmo tendo cuidado da maneira mais amorosa e adequada possível, na hora da perda a tendência é ressaltar as possíveis falhas. Não raro, acreditamos que foram elas as responsáveis pelo desfecho. 

O sentimento de culpa divide o sujeito enlutado: uma parte julga e condena a outra. Quando uma parte do eu se volta contra si mesmo, há um enorme dispêndio de energia. A autocondenação deixa a pessoa exausta e, muitas vezes, incapaz de realizar as atividades mais simples do cotidiano. O pior julgamento e a pior prisão acontecem dentro de si mesmo. Ali, o juiz, o réu e o carcereiro são a mesma pessoa.

Ainda assim, a vida segue e se propaga na transformação. 

Alguém poderia propor, então, o ato de perdoar-se a si mesmo. Mas, se concordamos que só fazemos aquilo que, naquele momento, temos capacidade de fazer, perdoar o quê, afinal? Não há o que perdoar. Fizemos o que era possível. Ninguém escolhe falhar intencionalmente; quem falha, falha porque, naquela circunstância, não foi capaz. Se fosse capaz, não falharia — mesmo que, teoricamente, escolhesse fazê-lo. Se não fizemos mais ou diferente, é porque não conseguíamos.

Somos humanos e imperfeitos. É fundamental reconhecer nossa limitação, aprender a respeitá-la e assumir responsabilidade pelas consequências. Todos somos falhos; por isso, no cristianismo católico, pedimos a Nossa Senhora que “rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Somos todos pecadores que tentam, dia após dia, tornar-se pessoas melhores.

Quando exigimos de nós mesmos além do nosso limite real, a caminhada fica ainda mais pesada. Enquanto estivermos integrados — reconhecendo, respeitando e assumindo nossas limitações —, conseguimos seguir tentando fazer sempre o melhor possível. Não há como se tornar melhor nos exigindo do que não está sendo e, menos ainda, do que não foi possível. Pior do que se exigir sobre o que “deveríamos ser” é se culpar pelo que “deveríamos ter sido”. Exigir de nós além do humanamente possível é uma cruel ilusão.

Quando existe um vínculo saudável consigo mesmo e com aquele que já não está mais presente fisicamente, esse sentimento de culpa tende a ir se dissolvendo aos poucos. Só com o tempo vamos reconhecendo que fizemos o que era possível fazer. E há um ponto fundamental: só sentimos culpa em relação a alguém que verdadeiramente nos importa. 

Aos poucos, as lembranças tristes dão lugar às recordações que o coração guarda com carinho — registros de afeto, de presença, de amor. A tarefa maior é aprender a viver sem a presença física de quem tanto amamos.

No processo do luto, o mundo parece perder a cor e o sentido. Ondas de tristeza vêm e inundam o coração, quase nos afogando em angústia. Depois se amenizam, mas logo outra onda chega.

Nesse momento, são exatamente os vínculos afetivos saudáveis que cultivamos que nos devolvem, pouco a pouco, a ligação com a vida. É o cuidado do outro que apazigua o coração e nos despertar para voltarmos a nos interessar pela vida. Por mais paradoxal que pareça, a experiência nos ensina uma verdade profunda: cada perda significativa é também uma oportunidade de nos tornarmos pessoas melhores.


— Como você faria se soubesse que seria a última vez?

— Tenho tentado fazer tudo como se fosse a última vez.









sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

REALIDADE E FELICIDADE - Prof. Renato Dias Martino

O reconhecimento da realidade e a felicidade são incompatíveis.
Reconhecer a realidade — para estar em acordo com ela — parece coincidir com admitir que a vida é uma sequência de perdas.
Amadurecer emocionalmente é aprender a perder.
É triste perder, mas é somente admitindo a perda que amadurecemos.
Ninguém amadurece porque decidiu fazê-lo; amadurecemos emocionalmente apenas quando percebemos que não há escolha que não seja ilusão.
Aquele que não foi, aos poucos, aprendendo a renunciar às ilusões sofrerá um grande golpe quando reconhecer a realidade.
A felicidade parece depender da ilusão.
Quanto mais iludido o sujeito estiver, mais feliz ele será.
Feliz é o iludido, pois não reconhece a dor da realidade.
A vida é mais fácil enquanto estiver iludido.

Proteger o coração temporariamente, até se recompor para caminhar em acordo com a realidade, é saudável.
No entanto, viver permanentemente na mentira, por medo de sofrer — onde a verdade se torna inimiga —, vira prisão.

















Prof. Renato Dias Martino

sábado, 29 de novembro de 2025

AFIRMAÇÃO DE CERTEZAS - Prof. Renato Dias Martino

É espantoso observar afirmações veementes a respeito daquilo que é da ordem do mistério da fé, ou ainda nos estudos científicos em que as comprovações são hipotéticas. Naquilo que está no âmbito do mistério, não cabem certezas.
Ainda assim, é comum observar pessoas afirmando com grande certeza formulações que não passam de hipóteses fragilmente ligadas a indícios do que se afirma. Na maioria das vezes, aquele que afirma o faz por ter lido em algum lugar ou ainda porque ouviu alguém dizer.
Parece existir uma conveniência em afirmar com certeza aquilo que é da natureza do incerto. Essa conveniência pode estar desde o lucro financeiro até o status de superioridade intelectual daquele que afirma. Grande parte dos cientistas concorda com quem os financia.
Isso também acontece no que se refere ao universo mental. Estudiosos da mente humana e profissionais da área vêm desenvolvendo diagnósticos, técnicas, assim como medicamentos baseados em deduções e suposições. Dentro das formulações do que ocorre no campo emocional, é tudo possibilidade e nada pode ser afirmado com certeza.
Aquilo que ocorre no âmbito emocional não coincide com o que o aparato cognitivo pode abranger. Aquilo que o sujeito manifesta com seu comportamento está distante do que ocorre no seu funcionamento emocional.
Os comportamentos podem vir a ser doutrinados; no entanto, o funcionamento emocional pode ser reparado somente através de vínculos afetivos saudáveis.
Enquanto o comportamento está ligado ao cognitivo, o funcionamento emocional está subordinado ao afeto.