domingo, 6 de junho de 2010

DEPRESSÃO PÓS-PARTO


DEPRESSÃO PÓS-PARTO
(Na mãe e no pai)

O ser humano necessita criar nomes, conceitos, para descrever os processos internos que percebe. Manifestações interiores que trazem consigo sentimentos e emoções manifestados nas relações interpessoais e, é claro, do eu para o eu mesmo. 
 Immanuel Kant (1724-1804)
Isso esta em concordância com as Críticas às Razões, Pura e Prática de Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, quando propõe que, para haver real experiência com a realidade das coisas, deve ter havido a possibilidade de nomear essa vivência, caso não, a experiência se coloca cega e inconsequente.
Quanto maior a capacidade de transformação dos processos internos em palavras comunicáveis ao outro, melhor a adaptação desse sujeito no mundo. É um sinal de bom funcionamento no que se refere ao convívio entre as pessoas.
No entanto, a nomeação indiscriminada de certos fenômenos da mente humana, pode confundir e limitar o desenvolvimento psíquico e emocional, assim como o resultado disso na capacidade de criação e manutenção dos vínculos. As dificuldades em se lidar com sentimentos que surgem do interior da mente e se pronunciam como comportamento, é o que nos impede de amar. O uso da expressão 'depressão pós-parto' ou  depressão puerperal (diagnostico da psicopatologia psiquiátrica muito usado hoje), é algo que poderia ilustrar o que tento expor.
Quanto maior a capacidade de troca afetiva entre um casal, melhor é a possibilidade de ultrapassar crises. Normalmente a crise implica na perda de algo, ou alguém importante, se não, pelo menos a iminência de perda. Assim como a perda ou a morte de alguém, implica em um período de luto, uma fase de características depressivas, onde o sujeito se desinteressa das coisas do mundo. Um experiência onde não se tem escolha quanto à realidade de ter que viver sem alguém. 
Bem, o desequilíbrio emocional sentido quando uma vida nasce é de certa forma análoga, se percebermos o fato de que, agora não se pode escolher viver sem alguém. Ou seja, fica claro que, também sugere a morte de algo. A morte de aspectos da personalidade daquele que concebeu uma vida e tem a missão de cuidar desse alguém que nasce. Uma forma de luto sem dúvida, também se instala.

“Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho.
Se hoje eu canto essa canção, o que cantarei depois”.
Dias de Luta, Edgard Scandurra (Ira!)


Agora alguém depende de mim, ou seja, já não sou mais dono da totalidade do meu eu, em função de uma vida que sucumbe sem meus cuidados.

Na casa de um recém-nascido, é comum que se encontre uma mãe “louca”, e me parece importante que ela possa encontrar espaço para “enlouquecer”. É como se ela se atirasse em um ‘abismo’(chamado bebê) que, só deseja e não possui sequer a capacidade ou qualquer que seja o recurso para comunicar aquilo que deseja tanto. Um modelo extremamente unilateral de relação, onde no bebê, a capacidade de pensamento é embrionária (muito limitada) e não existe possibilidade de gratidão.
 Nessa fase inicial é a mãe que deve pensar por ele. Até aqui já temos motivos bastante razoáveis para justificar a experiência de se viver certo estado de depressão, isso depois de tomar consciência dessa realidade.
Wilfred R. Bion (1897-1979)
A capacidade de Rêveri na mãe, segundo Wilfred R. Bion (1897-1979) – um dos mais importantes autores da psicanálise contemporânea, é que transforma cada choro ansioso do bebê em referencias reais que então é devolvido a ele em forma de contenção e acolhimento ou maternagem. 
A ação de maternagem proporciona ao bebê um modelo para que se construa a representação de coisa, assim como descreveu Sigmund Freud (1856 – 1939), ou em outras palavras, um símbolo de algo que apazigua a angústia na falta da possibilidade da constatação sensorial. 
Donald Woods
Winnicott (1896 - 1971)
mãe suficientemente boa para o psicanalista e pediatra inglês Donald Woods Winnicott (1896 - 1971), é aquela que proporciona ao bebê a possibilidade de reconhecer-se a si mesmo antes de se preocupar com o mundo externo. Essa mãe é que será o ambiente deste bebê até que este possa capacitar-se a perceber o ambiente real que o cerca.
Concomitantemente e contando com esse processo, a partir do contato com o real, se desenvolve a capacidade de imaginação e então o pensamento simbólico. É necessário que o bebê sinta-se acolhido e contido, em sua realidade, para que possa passar do processo imaginativo para o processo de pensamento simbólico, criando o que Bion (1953) chama de aparelho para pensar.
Mas, voltando à mãe “enlouquecida” em perceber uma vida que depende exclusivamente dos seus cuidados; é de extrema importância que, ao se arriscar nesse abismo chamado bebê, a mãe conte com um alguém (marido/pai) que mantenha a mão seguramente dada. É daí que ela buscará a resposta para o viver, ou a confirmação da existência: “sou amada!”, já que o bebê não pode fazê-lo. 
O pai será o “outro” que dividirá com o “eu” esse período de conflitos entre a realidade e as emoções que são demandas internas, que é chamado de depressão pós-puerperal. É bom que uma mãe tenha como retaguarda, um marido (pai) que possa suprir a necessidade de afeto, que no início não pode ser respondida pelo bebê. Ele agora, só quer, necessita, precisa...
O vínculo com o companheiro corresponde pelo menos nesse período, à possibilidade de vínculo com a própria realidade que existe além do desempenho da maternidade. Algo que existe do lado de fora daquele mundo simbiótico entre mãe e bebê. É a partir daí que, depois dos filhos crescidos, a mãe pode retomar seu papel de mulher. De outra forma, é comum que se perca no papel de mãe e não consiga mais se encontrar como “mulher”.
 Na verdade o nascimento de um bebê mexe profundamente na estrutura, funcionamento e dinâmica emocional do sujeito, assim como do casal e por que não, da família. A chegada do bebê trás angústias que a mãe, mesmo abalada pela situação, deve ser dedicada em cuidar. Entretanto, o pai suficientemente bom, por sua vez, também sofre com o processo. Muitas vezes isso fica encoberto por uma série de conceitos e preconceitos, porém, o pai, quando dedicado, também sofre todo o processo. Ele deve sentir e participar da mesma dor, que inunda as emoções da mãe, em meio a esse complexo processo.
Seu maior desafio quem sabe, seja a tarefa de elaborar em si mesmo, sentimentos invejosos naturalmente gerados pela atenção da companheira que, se desloca dele, para a criança.
O fato é que todos nós passamos por “depressões pós-parto” ao longo de nossa vida, contudo, daquilo que criamos e que, como realização, passa a ser algo que representa o eu de alguma forma, não sendo necessariamente um filho. 
Mas, no âmbito onde toda escolha efetiva, implica na renuncia de algo que não foi escolhido. Penso que a oportunidade de “brincar” com o sentimento antes que realmente aconteça é fundamental na criação desses recursos para lidar com a vida. Aquele que pôde um dia imaginar e sonhar com aquilo que hoje acontece, tem sempre maior chance de viver o presente, respeitando seu tempo, pois se torna mais responsável pela própria realidade.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866 
renatodmartino@ig.com.br

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