segunda-feira, 21 de junho de 2010

A melancolia de Norman Bates

Se partirmos de um pressuposto onde a cogitação criativa é de onde geram os pensamentos, talvez por seu inicial dês compromisso imediato para com a realização efetiva. O lúdico, tão valorizado nas teorias iniciadas por Melanie Klein (1882 – 1960). Não seria absurdo dizer que a saúde do aparelho mental então, é “poder ter certo conhecimento da real dimensão do que diz respeito ao objeto externo” e mais precisamente conhecer esse objeto enquanto representante do interno. Isso corresponde à proporção da falta interna relacionada a esse objeto. De uma forma mais objetiva, o saber sobre o vazio que fica no eu, na ausência do outro.

Falo aqui de um modelo semelhante ao usado por Sigmund Freud (1856 -1939) em 1917, quando relaciona a melancolia com a invasão do eu pelo objeto perdido. Então “a sombra do objeto recai sobre o ego”, diz o velho pai da psicanálise. Condição que rege o sujeito ameaçando a capacidade de viver o processo de luto. Freud descreve um modelo de luto que se dispõe como processo de tomada de consciência da perda real do objeto amado. Em 1917 o pai da psicanálise publica “Luto e Melancolia” que expõe justamente a disputa desses dois funcionamentos mentais pela regência do eu. Antes de tudo certo embate inexorável nos processos internos de cada um de nós.
Muito boa ilustração da manifestação melancólica está na obra do cineasta inglês Alfred Hitchcock (1899 – 1980), o clássico Psicose de 1960. No filme, o personagem Norman Bates, interpretado por Anthony Perkins (1932 – 1992) é um gentil cicerone em um motel a beira da estrada. Prestativo rapaz que reserva grande mistério por traz de sua simpática e bondosa figura externa. Travestido de sua velha mãe, já falecida, mata com facadas a personagem Marion Crane, que no filme original é interpretada por Janet Leigh (1927 – 2004). Uma bela moça que chega ao motel solicitando um quarto, depois de ter roubado uma boa quantia de dinheiro e decidido fugir. Sem saber do roubo praticado pela moça, Norman mata aquela da qual cortejava anteriormente. Muito provavelmente herdeiro da perversão da mãe, hoje ele disputa seu próprio corpo com a alma daquela que um dia o invadiu. Nesse caso, de cunho melancólico, o sujeito torna-se o objeto. Esse fenômeno acontece através do funcionamento do qual Freud denomina mecanismo de identificação. Essa talvez seja a única forma encontrada pelo melancólico, para suportar viver a perda daquele objeto do qual o sujeito dependia e que hoje sente a ausência. O caso toma proporções imensuráveis na medida em que essa dependência se da justamente na capacidade de desempenhar o próprio pensar.

O funcionamento mental do estado de melancolia, se da no ataque ao vínculo com a realidade externa. A projeção do ódio no mundo externo. A odiosidade investida a qualquer que seja o objeto externo que dispute lugar com o fantasma da mãe. A perseguição inunda qualquer que seja a figura do rival no que diz respeito à dedicação de interesse, ou como colocaríamos em psicanálise, qualquer que seja o investimento da libido.

Estamos aqui conjeturando sobre certa relação narcisista, que na situação de perda do objeto amado tem seu desfecho no estado de melancolia. Isso é na trama da película, o gerador do crime. A lembrança atormentadora da mãe, constantemente alimentada de culpas, obriga que Norman viva uma clausura em seu mundo interno. Assim, ele fica impedido de se dedicar a qualquer nova exploração no mundo emocional. A incapacidade de sonhar com a separação da mãe coage Norman a viver num pesadelo real. A exclusividade afetiva que sempre inundara o vínculo narcisista (logo de cunho perverso), entre Norman e sua mãe, resultariam agora, num buraco negro na alma. Qualquer outra relação que se proponha e que não seja entre Norman e sua mãe traz também uma carga enorme de idéias persecutórias sobre o objeto. Idéias sempre geradas a partir de um ambiente repleto de culpa e incredulidade quanto ao mundo real, ou seja, aquele mundo externo ao vínculo simbiótico. A experiência de dois corpos disputando uma alma tem como conseqüência agora num modelo onde duas almas disputam um só corpo. O estado de melancolia nos parece então, certa falha na difícil tarefa de continuar vivendo mesmo conscientes de tudo que perdemos e percebermos que perderemos tanto mais.

A incapacidade simbólica obriga o melancólico materializar o objeto que se foi no nível real sensório, mas isso ocorre em detrimento do próprio eu. Se for verdade que o símbolo é aquilo que fica no eu, enquanto não se pode confirmar no mundo real, com os órgãos dos sentidos, então assim como coloca Melanie Klein em 1930, o ego é formado de símbolos, e cada falta da qual o ego toma consciência, expande-se e evolui a capacidade emocional. Esse processo de expansão poderia apresentar-se numa escala do pensamento que se dispõe como que em uma espiral progressiva. E assim como sugere Wilfred R. Bion (1897-1979) outro grande psicanalista contemporâneo e discípulo de Melanie Klein somos: “pensamento em busca de um pensador”. Cada pensador que encarna esse pensamento, também tem a chance de evoluí-lo por meio do seu próprio aprendizado adquirido em sua experiência.
A maior dor compreendida na psicose talvez esteja justamente no breve contato com a realidade. Curto mas doloroso momento em que se toma consciência de que não se suporta a ausência concreta do objeto. E isso coincide com a incapacidade de criação de símbolos, que é aquilo que sustenta a falta da realidade externa.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor

Fone: 17-30113866 

renatodmartino@ig.com.br 
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/

Um comentário:

Wilson disse...

Gostei muito da abordagem do filme! Parabéns foi mais um ótimo curso de extensão.