segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Se tornar desnecessário

A proposta de tornar-se desnecessário para o outro merece aqui um olhar atento. Logo de inicio essa reflexão já deve causar algum desconforto, se não for pensada com muito cuidado pode facilmente ser confundida com certo movimento de desprezo, falta de cuidado, ou de ausência afetiva. No entanto, a proposta aqui é a de abrirmos um espaço para reavaliarmos a qualidade dos vínculos estabelecidos na ordem emocional. 
A situação da imaturidade emocional ou mesmo a ocasião de certa fragilidade psicológica, pode induzir a uma visão de descrédito quanto à capacidade de amar e isso, sem dúvida pode levar o sujeito a travar vínculos menos elaborados e de menor qualidade afetiva. Entretanto, através de que elemento poderia manter-se um vínculo que não contasse com afeto? Pois bem, se o vínculo não pode contar com o amor, para que se mantenha ligado deve cultivar então certa condição de dependência. A dependência é sem dúvida um elemento que mantém pessoas ligadas por muito tempo, se não pela vida toda.


O vínculo de dependência está compreendido na ordem das alienações. Traz a ilusão prazerosa da resposta, traz a sensação de garantia e saciedade que desmotivam o sujeito de questionar. A certeza é sedutora e envolve o sujeito num micro mundo de impossibilidades. Relações dessa ordem são limitadas de tal forma que não podem abranger características como a de consideração com o outro, ou respeito mutuo. O outro só existe para satisfazer e sendo assim não pode ser chamado de outro. A introdução do respeito na experiência do vínculo é o que pode possibilitar a reflexão, prejudicial aos estados de dependência. A reflexão coloca em xeque a situação de dependência. 
Ainda assim, o vínculo de dependência é inevitável e se dispõem como condição imprescindível para que haja a evolução em modelos mais bem elaborados e que possam contar com a capacidade afetiva. De inicio o bebê não é capaz de amar. Não pode retribuir o amor dedicado da mãe, ele simplesmente é dependente dela e necessita dela para viver. Só aos poucos e sendo irrigado de muito afeto, ele passa a desenvolver a capacidade de retribuir esse amor. 
Dediquemo-nos agora a refletir um pouco sobre necessidade. Aquilo que está na ordem das necessidades básicas, funda um vínculo de dependência. Depende-se daquilo e isso passa a configurar-se assim, como um ponto inquestionável. Não se encontrando nos domínios de nossas escolhas, distante de qualquer questionamento.  A palavra necessidade tem sua origem no Latim NECESSITAS, “compulsão, necessidade de atenção”, de NECESSE, “inevitável, indispensável”, originalmente denotando “sem volta”, composto por NEC, “não” e CEDERE, que quer dizer “recuar, ceder”. 
Assim como do oxigênio somos dependentes e se não inalarmos o suficiente desse elemento do ar, morreremos. Por conta desse modelo de relação, não cabe nessa experiência o gostar ou não gostar, simplesmente se necessita disso. Assim também o bebê não ama a mãe, simplesmente necessita dela e a partir disso pode aprender ou não a amá-la.
Quando aplicamos esse modelo na perspectiva emocional fica claro que, o estabelecimento de vínculos saudáveis é o que pode trazer recursos para esse desapego das satisfações sensoriais. Assim, abrem-se as possibilidades de ligações onde aquilo que une o eu ao outro não se encontra simplesmente, ou tão somente no nível da satisfação da necessidade. Se tornar desnecessário é uma chance de permitir que o outro estabeleça um amor verdadeiro e para isso essa experiência deve se encontrar para além do modelo primitivo de vínculo da dependência. 
Quando nos propomos a estudar as experiências emocionais percebemos que para que uma mente possa funcionar bem é fundamental que seja irrigada e muito bem nutrida por vínculos afetivos de qualidade. As relações afetivas saudáveis abrem a possibilidade de reconhecimento da verdade do mundo, da realidade tanto do eu quanto do outro, de forma segura. A partir dessa experiência o sujeito se vê mais capacitado para conviver com a dúvida e os questionamentos que são à base da consciência da realidade. Esse pressuposto aqui postulado é necessário para que possamos prosseguir no intuito reflexivo desse texto. Isso equivale dizer que sem essa premissa de que o afeto é fundamental para o bom funcionamento mental, todo o ensaio perde o sentido.
A ação de maternagem suficientemente boa é aquela em que a mãe, gradativamente, vai se fazendo desnecessária conforme o desenvolvimento da criança. Diante da missão realizada e tendo a maturidade do filho como sinal do resultado disso, agora a mãe e o pai, devem iniciar um doloroso processo de tornarem-se dispensáveis. Sendo então desnecessários, poderão agora desfrutar do verdadeiro amor, livre de dependências. O amor quando nutrido da verdade, liberta.
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Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com

Um comentário:

Sueli PEDAGOGA disse...

Texto muito bom, sobre a síndrome do ninho vazio....parabens Dr.
abs
sueli