domingo, 15 de novembro de 2015

Do Medo à Arrogância

Segundo nos ensina a etimologia, a palavra arrogância tem em sua raiz o ato de arrogar-se. Certo movimento de atribuir a si mesmo direitos, poderes ou privilégios. Com isso o sujeito assume certa característica prepotente de menosprezo quanto ao outro. O vocábulo vem do latim arrogans, que quer dizer “o que exige”.
A exigência, por sua vez, é um ato que encontra-se num nível primitivo de imaturidade, no curso do desenvolvimento no exercício do pensar. Num ímpeto desesperado, exige-se aquilo que se deseja, sem considerar a própria realidade dos fatos. O bebê exige a presença da mãe sem ser capaz de se importar com o bem estar desta que ora cuida dele. Aquele que exige revela assim, a incapacidade de autonomia. Quando se exige algo, revela-se o fato de que, sem isto que esta sendo exigido, o sujeito se vê vulnerável. Bem como um bebê a chorar compulsivamente exigindo a presença da mãe. Nesse nível do funcionamento mental, o agir deve ser a forma fundamental de lidar com a descarga desconfortável gerada pela insegurança.
Do modo como nos orienta a psicanálise, e também outras das mais nobres vertentes do pensamento humano comungam dessa mesma ideia, nascemos na mais densa ignorância, necessitando portanto, de apoio de qualidade para conseguirmos desenvolver a consciência de nossa natureza. 
A natureza humana é afetada constantemente pela péssima qualidade de cuidado emocional nas fases iniciais do desenvolvimento,  assim como é comprometida pela privação de ambientação saudável o bastante para propiciar sucesso no processo de maturação. 


"Se sentindo ameaçado cria um falso eu que parece superior, mas que na verdade não vai além das aparências. Um ego quando bem estruturado traz características de humildade, compaixão e capacidade para o acolhimento, diferente de um ego inflado que, sem substância ou conteúdo, arma-se sempre de arrogâncias e exclusivismos." Martino (2015)

Melanie Klein (1882 —1960)
Assim, quando se está exigindo, atesta-se o distanciamento que existe da realidade dos fatos, numa incapacidade de reconhecer o limite do outro, do qual se exige algo. Dessa maneira o desejo de um sobrepõe a realidade do outro, na expressão da voracidade. Melanie Klein (1882 —1960), em “Inveja e Gratidão”, de 1957 descreve a voracidade como sendo uma ânsia impetuosa que ignora o limite do outro no exclusivo objetivo de saciar o desejo. Melanie Klein relaciona a voracidade à inveja, que segundo a autora, amiúde andam juntas. Para Klein a voracidade é uma tentativa de controlar,  por meio da total possessão. "Isto é utilizado para neutralizar a inveja." Klein (1957). Incorporando o objeto ele passa a fazer parte do eu, logo, não há do que sentir inveja.
Artur Schopenhauer ( 1788 — 1860) 
Um desejo sem a menor capacidade é gerador de inveja. O mesmo desejo do qual Artur Schopenhauer ( 1788 — 1860) em "O Mundo Como Vontade e Representação" de 1818, já havia alertado quanto ao perigo. Vontade que se estendendo desde o desejo mais superficial de obter algo material, até a ânsia por viver. Seja como for, o convite para se perder num desejo estará sempre à espreita. Quando perdidos no desejo, a arrogância pode ser um conveniente recurso de manutenção desse estado.
Bem, a ignorância quando vivida num clima de insegurança, numa assustadora incerteza de sobrevivência, gera medo aterrorizante de aniquilamento.
Eros e Tânatos
O arrogante, na realidade é alguém com muito medo, que então, usa da hostilidade para tentar amedrontar o outro. Uma tentativa de aplacar esse temor que o aterroriza. O medo que é representante da pulsão de morte, na ilustração freudiana de Tânatos.
Sigmund Freud (1856 - 1939)
Sigmund Freud (1856 - 1939) em "Além do Princípio do Prazer" de 1920, introduz o conceito de pulsão de morte em sua obra; como certa tendência, constituinte da natureza, que leva à segregação de tudo o que é vivo. A manifestação do instinto de autopreservação num desprendimento e no recolhimento do interesse no mundo externo.
No artigo "Sobre Arrogância" (1958), Wilfred Bion (1897 — 1979) propõe certo momento em que a arrogância pode emergir e instituindo com isso um clima caótico na qual paciente e analista conformam-se numa dupla frustrada.


Wilfred Bion (1897 — 1979)
“É possível ter uma indicação do significado que desejo conferir ao termo ‘arrogância’, se recorrermos à hipótese de que, na personalidade em que predominam os instintos de vida, o orgulho se converte em respeito a si mesmo; predominando os instintos de morte, o orgulho se transforma em arrogância.” (Bion, 1994/1985)

Sob a regência da pulsão de morte armam-se defesas em forma de arrogância para lidar com a ansiedade. Numa tentativa de reequilibrar o funcionamento que foi abalado pela insegurança, geradora de ansiedade. Para Bion, quando a tendência que nos retrai, num movimento de desligamento das relações, sobrepõe a disposição que nos abre para a vida e para os vínculos, o que seria autoestima então se converteria em arrogância. 
Através da hostilidade arma-se o ataque que se articula como barreira e a violência convida à estupidez, num agir como se conhecesse a verdade, sem de fato conhecê-la. Quando as palavras se encontram vazias de experiência e são projetadas para ferir. O arrogante aferra-se à racionalidade dos fatos descartando qualquer possibilidade de nova experiência. 


"O grande prejuízo nesse ponto da razão é que, quanto mais enriquecidos de saberes inquestionáveis, ainda mais empobrecidos das faculdades do pensar nos tornamos. Dessa maneira, quando em ocasião da crise e percebendo-se inseguro, alguma força só pode ser gerada da imposição desse saber inquestionável e isso, então, logo se manifesta como arrogância". Martino (2013)

A prática psicanalítica deve ser totalmente prejudicada quando inundada pela experiência da arrogância. A proposição de que 'se não for capaz de dizer com amor, não diga' é uma condição fundamental para a prática da psicanálise e não uma simples frase romântica. Ora, o que poderiamos esperar de certa experiência emocional onde existe a falha no amor? Um analista arrogante é um analista amedrontado dentro do ambiente da dupla, assim como a arrogância do paciente denuncia a insegurança vivida frente a dupla.


"Muitas vezes, pronunciamos “eu sei” antes mesmo do outro concluir o que quer dizer. É uma maneira de não dar muita atenção ou de ignorar alguém." Martino (2011)

No Congresso do IPA em Edimburgo realizado em 1962, Bion apresentou a teoria que vinha desenvolvendo sobre sua releitura do mito de Édipo. Nessa releitura da alegoria iniciada em seu artigo "Sobre Arrogância" (1958), Bion adverte não sobre o crime sexual, mas a propósito da formas arrogante que Édipo conduz a busca pela verdade. 
Quando resolve o charada da Esfinge, Édipo acredita ter desatado Tebas de sua moléstias e isso é confirmado quando valeu à ele, como recompensa, a mão da rainha Jocasta e o trono real. No entanto, ele resolveu o 'complicado' da história no enigma, mas ficava sem solução aquilo que é 'complexo' e que está representado pelo mistério. O ponto complexo era mesmo a questão da verdade, da qual Édipo permanecia desconhecendo, ainda que agisse como se a conhecesse.
Agride Tirésias, o velho cego adivinho do qual a pouco havia enaltecido e colocado a verdade nas mãos. Tirésias, amedrontado pela possível reação de Édipo ao saber da verdade diz: "Fica certo de que a verdade, ainda que eu a encubra com meu silêncio, chegará a seu tempo". Assim sendo, mesmo que a ilusão seja prazerosa, a verdade, mesmo que dolorosa, prevalecerá.
Pois bem, as questões referentes ao complexo edípico são fundamentais e a psicanálise nos orientou sobre o fato de ser o Édipo, em sua elaboração, estruturante da personalidade. O Édipo é então, de onde as relações entre as personalidades estão sobremaneira subordinadas. A elaboração dessa ordem de experiências propicia o reconhecimento verdadeiro que permite o estabelecimento do respeito para com os vínculos afetivos. Assim a personalidade passa a assumir o caráter de estrutura nas relações que sendo de natureza afetiva e emocional, gera comunicação mais verdadeira entre as personalidades vinculadas.
Reconhecer o conflito edípico promove a capacidade do desapego, questão de fundamental importância quanto ao tema da arrogância. Sempre que apegados ao saber corremos o risco de nos seduzir pela arrogância. De sorte que a arrogância traz a sensação de força e poder à aquele que na realidade se sente inferiorizado. No entanto, a realidade não é definida pela vontade do humano.

BION, W. R. [1952]. Uma teoria sobre o pensar. In: Estudos psicanalíticos revisados – Second thoughts. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
KLEIN. M. Inveja e Gratidão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1957.
MARTINO, Renato Dias. Para Além da Clínica.Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011. 
_____ . Primeiros passos rumo à psicanálise,  1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
 _____ . O amor e a expansão do pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva , 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.
_____ . O Livro do Desapego,  1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2015.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação (III parte); Crítica da filosofia kantiana, Parerga e Paralipomena (capítulos V, VIII, XII, XIV), In: Coleção Os pensadores, trad. de Wolfgang Leo Maar e Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola, São Paulo, Nova Cultural, 1997.







Prof. Renato Dias Martino 
renatodiasmartino@hotmail.com 
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br

Um comentário:

Ana Raquel disse...

Gostei na narração!