sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Nota aos Psicoterapeutas

Até que ponto um suposto psicoterapeuta poderia ajudar seu paciente com suas angústias e ansiedades, sem que antes, este que ora se dispõe como analista tenha reconhecido em si mesmo sua própria dor psíquica? A proposta de se pensar a ética na questão da manutenção emocional do candidato ou mesmo do profissional que atua na saúde mental é uma tarefa difícil, tanto mais é a expansão do questionamento no âmbito que abrange não só essa categoria profissional, mas a que compreende todo aquele que trabalhe diretamente com o publico e por que não aquele em que o contato não é tão direto, mas que ainda assim, de alguma forma, recebe e exerce alguma influência.
E logo de início formula-se uma questão: Quem escaparia dessa demanda?

Claro, que guardando aqui as proporções que mostra a ineficiência da psicanálise naquele que não se dispõe dedicar-se ao trabalho analítico. Isso pois, o autor que aqui escreve não apresenta crédito algum quanto à aplicabilidade da psicanálise em alguém que não apresente o mínimo de iniciativa própria para isso. Essa iniciativa, por sua vez, deve ter sido determinada pela percepção da dor e da desorganização interna que obstruem a capacidade de pensar.
Tendo compreendido aqui a dificuldade na abordagem desse assunto, seria prudente não nos pouparmos da paciência em analisarmos cada elemento que nos apareça pela frente, não nos privando de dedicarmos a cada um deles o cuidado necessário, assim como deve ocorrer no trabalho psicoterapêutico. 


Independente da profissão exercida, a tarefa de 'conhecer-se e reconhecer-se a si mesmo' é uma procura de cada um de nós no exercício da existência. Na busca por recursos que possam servira para cuidar da expansão maturidade emocional, dedicar-se à análise pessoal, constitui um interessante exercício dessa empreitada. Mas no caso daquele que se propõe estar na posição de profissional da saúde mental, ou seja, os da área “psi”, isso fica de certa forma muito mais sério, pois repousa aí questões inerentes a ética profissional na qualidade do serviço prestado. 


Através da pesquisa teórica, assim como nas experiências práticas dos temas que circundam o assunto abordado aqui, é possível perceber que por mais interessante aos olhos da alma, que possa parecer essa proposta de nos reconhecermos a nós mesmos, existem importantes opiniões contrárias ao assunto. Encontramos diferentes juízos sobre esse contexto, que vão desde uma atitude muito banal presente no cidadão comum, que apesar de extremamente arrogante, ainda assim amiúde ouvimos: “já me conheço o suficiente”, até pensamentos de importantes autores da literatura mundial, como é o caso de André Paul Guillaume Gide (1869 - 1951), escritor francês vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1947.
André Gide (1869 - 1951)
Em suas palavras:

"Conhece-te a ti mesmo. Máxima tão perniciosa quanto feia. Qualquer pessoa que se observe cessa o seu próprio desenvolvimento. A lagarta que tentasse 'conhecer-se bem' jamais se tornaria uma borboleta." GIDE (1984)


A grande coleção de opiniões é fator que agrava a dificuldade em tratarmos do assunto. Já que abre-se certa corrente de pensamento que descarta qualquer esforço no intuito de reconhecer a si mesmo para oferecer atendimento psicológico ao outro.


De qualquer forma, se aqui estamos nos propondo cogitar sobre a análise da personalidade daquele que escolheu essa difícil tarefa que é ser psicoterapeuta, devemos incluir a “dor psíquica” como condição para o aspirante dessa função. É muito pouco provável que aconteça uma dedicação a um processo de psicoterapia, que não seja guiado pela busca de reconhecer certa dor psíquica e como discutiremos à frente, um sofrimento reconhecido que esteja movendo a procura por partes de si mesmo por meio do encontro com o outro.
Portanto, a percepção do sofrimento psíquico em si mesmo, deve ser fator indispensável para aquele que pretende desempenhar a psicoterapia, tanto na posição de paciente quanto na posição de analista.
De outra forma, esse analista não poderá receber, se importar e assim, tentar conter a dor daquele que o procura solicitando ajuda. Uma vez que, quem nunca se viu desamparado não poderá acolher o outro em seu desamparo.
Bem, até esse ponto do ensaio já fica bem evidente a necessidade de certo preparo enquanto cuidado com o funcionamento emocional, já que aquilo que o psicoterapeuta se propõe procurar junto ao paciente é justamente o que ele (paciente) mais teme. Partes do eu que estão impedidas de serem reconhecidas como tal e então serem pensadas, mas que quando surgem o impele em direção à ação.


Sigmund Freud (1856-1939)
Por mais limitada e muitas vezes inviável a manutenção do funcionamento emocional da classe profissional "psi", a psicanálise, desde muito cedo cria essa condição e já em 1912, Sigmund Freud (1856-1939) publica suas “Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanálise” trazendo conteúdos dos quais ainda hoje são de extrema utilidade, não só para o psicanalista, mas para todo profissional que pretenda trabalhar com ética. 


Sigmund Freud (1856-1939)
“Há alguns anos, dei como resposta à pergunta de como alguém se pode tornar analista: ‘Pela análise dos próprios sonhos’ Esta preparação, fora de dúvida, é suficiente para muitas pessoas, mas não para todos que desejam aprender análise. Nem pode todo mundo conseguir interpretar seus próprios sonhos sem auxílio externo. Enumero como um dos muitos méritos da escola de análise de Zurique terem eles dado ênfase aumentada a este requisito, e terem-no corporificado na exigência de que todos que desejem efetuar análise em outras pessoas terão primeiramente de ser analisados por alguém com conhecimento técnico." Freud (1912-p.55-56).

Freud nos orienta com grande propriedade sobre a necessidade de dedicar-se a análise pessoal num encontro com a verdade do outro como fator fundamental na formação daquele que busca se tornar psicanalista. Na realidade, Freud reconhecia o valor da análise pessoal como requisito primordial, sendo qualquer outra preparação uma extensão desse processo.
"Todo aquele que tome o trabalho a sério deve escolher este curso, que oferece mais de uma vantagem; o sacrifício que implica revelar-se a outra pessoa, sem ser levado a isso pela doença, é amplamente recompensado. Não apenas o objetivo de aprender a saber o que se acha oculto na própria mente é muito mais rapidamente atingido, e com menos dispêndio de afeto, mas obter-se-ão, em relação a si próprio, impressões e convicções que em vão seriam buscadas no estudo de livro e na assistência a palestras. E, por fim, não devemos subestimar a vantagem que deriva do contato mental duradouro que, via de regra, se estabelece entre o estudioso e seu guia.
Uma análise como esta, de alguém praticamente sadio, permanecerá incompleta, como se pode imaginar. Todo aquele que possa apreciar o alto valor do autoconhecimento e aumento de autocontrole assim adquiridos continuará, quando ela terminar, o exame analítico de sua personalidade sob a forma de auto-análise, e ficará contente em compreender que, tanto dentro de si quanto no mundo externo, deve sempre esperar descobrir algo de novo. Mas quem não se tiver dignado tomar a precaução de ser analisado não só será punido por ser incapaz de aprender um pouco mais em relação a seus pacientes, mas correrá também perigo mais sério, que pode se tornar perigo também para os outros. Cairá facilmente na tentação de projetar para fora algumas das peculiaridades de sua própria personalidade, que indistintamente percebeu, no campo da ciência, como uma teoria de validade universal; levará o método psicanalítico ao descrédito e desencaminhará os inexperientes.” Freud (1912-p.55-56)


Paula Heimann (1899-1982)
Apesar de não ser intuito deste trabalho, o de aprofundar-se nos conceitos psicanalíticos, seria importante lembrarmos aqui de um dos pilares que sustentam a teoria da psicanálise. A transferência que um dia surgiu como obstáculo, mas que mais tarde se tornaria o principal instrumento no manejo da prática clínica. Estudar a transferência é a aprender sobre um fenômeno mental que ocorre em qualquer que seja a relação ou vínculo humano, mas que na situação da psicanálise, pronuncia-se de forma especial. Analisar a experiência da transferência é também envolver-se, mesmo sem que se perceba, com a contratransferência. Foi a partir dos estudos sobre a transferência que iniciou-se o desenvolvimento do termo contratransferência. Mesmo antes de atentar-se de forma atida para a ocorrência de certo fenômeno e assim estudá-los efetivamente, Freud já descrevia em 1912, sobre aquilo que posteriormente ganharia o nome de contratransferência. O termo seria mais bem estudado por pensadores da psicanálise posteriores ao Freud. 
Heinrich Racker (1910-1961)
Foi a partir de estudos de Paula Heimann (1899-1982) e Heinrich Racker (1910-1961), que o termo passou a ser visto com mais atenção e assim, ser descrito como conceito psicanalítico. Sob essa nova idéia, a posição fria que o analista pudesse ocupar era agora revista e sua disposição sofre uma mudança, da “neutralidade” que era a regra para o analista, confrontada agora pelo novo “lugar do analista real” como alguém real. 

 Assim como a transferência, a contratransferência também conta com dois modelos básicos, ou seja, a versão positiva e a negativa. Em sua forma positiva, o analista esta cuidando da “criança inconsciente” do paciente. Nesse modelo de contratransferência, o processo de projeção e introjeção estão fluindo de maneira harmônica. Já em sua forma negativa ou hostil, perturba a capacidade do analista e por isso necessita ser constantemente analisada e dissolvida. Como uma massa de elementos desordenados e incompreendidos do paciente despejadas no analista que se vê obrigado a digerir-los. A contratransferência acaba por ser algo que pode indicar algum impulso ou entrave na percepção analítica, que quando está dando manutenção ao seu funcionamento psíquico, tem maior chance de perceber quando ocorre e assim tentar elaborar.

“Uma pessoa que se tornou natural e livre da ação de impulsos instintuais reprimidos em sua relação com o médico, assim permanecerá em sua própria vida, após o médico haver-se retirado dela.” (Freud, 1917)


Wilfred Bion (1897 - 1979)
Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979), importante psicanalista contemporâneo, nascido na Índia e naturalizado inglês, propôs a suspensão de três fatores para guiar o psicanalista em sua prática. Memória, desejo e compreensão. Sendo assim, , apegar-se em dados da memória sobre as sessões passadas são tão prejudiciais quanto para um bom desenvolvimento da dupla analítica. Da mesma maneira um desejo excessivo em relação ao paciente (que ele reconheça o esforço do analista, por exemplo) é um importante contaminador de um bom trabalho psicoterapêutico. Assim como a memória e o desejo, um analista que tenta a qualquer custo entender seu paciente pode não conseguir acolher a dor daquele que solicita ajuda. No entanto um analista inseguro deverá se apegar justamente nesses três recursos (memória, desejo e compreensão) para manter-se na dupla analítica.
Através desse pequeno ensaio fica claro que a conquista do título de psicoterapeuta não pode garantir a capacidade de realmente ser um bom psicoterapeuta, o que demandaria da proposta de dedicação da manutenção emocional na proposta de expansão do seu campo de consciência de si mesmo e com isso, das relações afetivas.

Referencias bibliográficas:
W. R. Bion, Second Thoughts, Rio de Janeiro, Imago, 1967
_____.Atenção e Interpretação, Rio de Janeiro, Imago, 1973
Freud, S. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
Gide, A. Paul Guillaume. O tratado de Narciso in A volta do filho pródigo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1984.
Racker, H, Estudos sobre técnica psicanalítica, Artes medicas, Porto Alegre, 1986







Renato Dias Martino é psicoterapeuta e escritor.
Contato: 17 30113866 - renatodiasmartino@hotmail.com

Um comentário:

Luz13 disse...
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