sábado, 17 de dezembro de 2016

SOBRE AS DIFICULDADES NA REALIZAÇÃO

A questão que determina se um sujeito está sendo bem sucedido ou não, está ligada à obstrução do fluxo de realizações. O termo realização aqui referido diz respeito ao ato de realizar, ou seja, tornar real. E é justamente através das realizações que é possível a alguém fazer parte da realidade. Um sujeito que não realiza estará sempre inseguro quanto à sua própria realidade. Logo de início é importante lembrar que para que seja efetivada a realização é imperativa a inclusão do outro, isso, pois será ele que confirmará se isso é mesmo real. “Realizamos um sonho, impreterivelmente, no encontro com o outro.” (Martino. 2015).
E ainda, quando menciono aqui realizações, não estou alocando o conceito no nível material, mas cogito sobre as realizações que estão num plano da constituição emocional e afetiva. Até por que o autor que aqui escreve não acredita no valor daquilo que possa existir no plano material sem guardar um significado afetivo que o preencha de sentido e possa dar-lhe vida.
Num primeiro momento poderíamos levantar a questão de que o sujeito que não é capaz de tolerar perder pode escolher não realizar nada. Aquele que teme perder, pode não querer arriscar e quem não arrisca não pode ser bem sucedido. Isso deve configurar-se como consequência da incapacidade no desenvolvimento do autorreconhecimento. A capacidade de autorreconhecimento só pode ser desenvolvida a partir do reconhecimento vindo do outro. Somos o resultado de elementos inatos transformados pelo contato externo. 

Se uma criança não arrisca seus primeiros passos nunca aprenderá andar. Nesse caso o olhar crítico do outro é um elemento fundamental para o fracasso da experiência. Uma criança que se desenvolve sob os cuidados de um adulto que a critica frequentemente, terá grande dificuldade em desenvolver sua autoconfiança. O reconhecimento de cada passo, por mais imperfeito que possa parecer, é o que servirá de esteio para o próximo passo. Por outro lado, o olhar crítico, é tóxico nas fases tenras do desenvolvimento de qualquer que seja a capacidade.
No entanto, a questão é bem mais profunda e demanda de uma análise mais cuidadosa, já que na realidade o maior impedimento para a realização parece estar dentro de nós mesmos, ainda que seja a partir do resultado de um vínculo nocivo com o outro. Na impossibilidade de receber a continência suficientemente boa, através de um ambiente acolhedor, a predominância da tendência desitegrativa pode proporcionar a severa fragmentação do eu. Na desintegração da personalidade, uma parte se volta contra a outra impedindo a possibilidade de realização.
Isso acontece quando uma parte consegue algum sucesso; a partir daí logo a outra passa a depreciar desvalorizando a realização e impedindo que se possa alegrar-se como sucesso. O grande problema encontra-se no fato de que é possível proteger-se de um oponente externo, mas nada pode se fazer quanto ao inimigo interno. A pior prisão é dentro de si mesmo.
O complexo de sintomas que formam o transtorno alimentar classificado pela psiquiatria como bulimia, funciona dessa maneira. Essa desordem do funcionamento mental é caracterizada por períodos de compulsão alimentar seguidos por indução de vômito. Uma parte do eu busca satisfação de intenso prazer, obtido pela grande ingestão de comida e outra parte se opõe a essa satisfação, forçando o vomito numa tentativa de desfazer o estado de satisfação no prazer alcançado. Uma condição interna de destrutividade contra si mesmo, como se uma parte invejasse o sucesso da outra. Sigmund Freud (1856 - 1939) em seu texto ALGUNS TIPOS DE CARÁTER ENCONTRADOS NO TRABALHO PSICANALÍTICO, descreve uma ordem de pessoas neuróticas que parecem se sentirem fracassadas justamente quando são bem sucedidas.

“É como se elas não aguentassem a sua felicidade, pois não há como questionar a relação causal entre o sucesso e a doença.” (Freud, 1916). Por conte disso o sujeito envolve-se com futilidades deixando o essencial de lado, até por que a futilidade é mais atraente do que o essencial.
Esse funcionamento parece ter sido gerado a partir de um tipo de vínculo onde a culpa permeava a relação.
O sujeito não consegue ser bem sucedido, pois se culpa pelo seu contentamento enquanto o outro esteja sofrendo. Por um dia ter sido oprimido pelo outro e então dirigido sentimentos de ódio a ele, agora não se sente merecedor de alegrias num mecanismo de autopunição, por se sentir culpado.
A autopunição pode chegar ao seu nível máximo no suicídio e sobre isso Freud escreve em seu texto A PSICOGÊNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER, que: “é provável que ninguém encontre a energia mental necessária para matar-se, a menos que, em primeiro lugar, agindo assim, esteja ao mesmo tempo matando um objeto com quem se identificou e, em segundo lugar, voltando contra si próprio um desejo de morte antes dirigido contra outrem.” (Freud, 1920).
Através das reflexões conseguidas até aqui, fica claro que a busca pelo estabelecimento de vínculos que sejam ricos em sinceridade e amor é o que pode trazer a possibilidade de reparação do funcionamento que tenha sido perturbado por relações toxicas. Sem a possibilidade de se estabelecer um bom vínculo de confiança as ilusões podem passar a ser percebidas como fatos da realidade.



FREUD, S. 1920, A PSICOGÊNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER. In: Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, vol.XI. Rio de Janeiro, Imago, 1996.
________1916, ALGUNS TIPOS DE CARÁTER ENCONTRADOS NO TRABALHO PSICANALÍTICO. In: Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, vol.XI. Rio de Janeiro, Imago, 1996.]
MARTINO, R. D. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.





Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
prof.renatodiasmartino@gmail.com 

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br 

Um comentário:

Roberta disse...

Muito bom ! Amei !