A
triangulação é uma configuração que propõe a intersecção de dois pontos, e a
proposta de Sigmund Freud (1856–1939) quanto ao complexo de Édipo não é
diferente. Freud propôs as bases do Complexo de Édipo pela primeira vez em
1897, em uma carta enviada ao seu amigo Wilhelm Fliess (1858–1928). Freud se
utiliza da obra Rei Édipo, do grego Sófocles (c. 496 a.C.–406 a.C.). Contudo,
horrorizou a classe científica da época quando, em 1899, em sua A Interpretação
dos Sonhos, apresentou a ideia publicamente como um fenômeno que ocorre na vida
emocional e afetiva de cada um de nós.
Freud traz à baila a experiência da
criança de desejar a mãe só para si e, para isso, eliminar o pai. Foi só em
1910, em Um Tipo Especial de Escolha de Objeto Feita pelos Homens, que Freud
veio a utilizar formalmente a expressão “complexo de Édipo” pela primeira vez.
O superego, que é a instância moral e legisladora no modelo estrutural da
personalidade, é o herdeiro do complexo de Édipo, como propõe Freud.
Mais
tarde, Melanie Klein (1882–1960), muito provavelmente por ter vivido a
experiência de ser mãe, propõe precocidade para o complexo de Édipo,
coincidindo com a fase oral e a posição esquizoparanóide. Klein propõe, pela
primeira vez, no artigo Estágios Iniciais do Conflito Edipiano, de 1928, que,
diferente da proposta freudiana (que coincide com a fase fálica, apenas após os
3 anos de idade), o complexo surge bem mais cedo. A proposta de Klein se
fundamenta na fantasia sádica do bebê na relação com o seio. Portanto, segundo
Klein, o superego infantil é concebido muito mais cedo e, primeiramente, de
forma persecutória. Nessa proposta, a superação do complexo de Édipo precoce
está subordinada à elaboração da posição depressiva. Com isso, o bebê começa um
processo de integração, desenvolvendo a capacidade de amar e reparar. Só então
o superego perseguidor se transforma em superego legislador.
Em
1958, Wilfred Ruprecht Bion (1897–1979) publica o artigo “Sobre a Arrogância”,
que posteriormente seria incluído no livro Second Thoughts (no Brasil publicado
com o título Estudos Psicanalíticos Revisados), de 1967. Nessa obra, Bion traz
uma mudança de vértice quanto à história de Édipo. Diferente da proposta que
destaca os crimes do incesto e do parricídio, Bion enfatiza a atitude arrogante
de Édipo num ataque ao vínculo de conhecimento. Para Bion, o verdadeiro crime
de Édipo é sua insistência em buscar a verdade a qualquer custo.
No
clássico de Sófocles, Tirésias, o adivinho cego, acusa diretamente o rei Édipo
de ser o assassino de Laio depois de ser pressionado por ele para lhe dizer a
verdade. Tirésias revela que é o próprio Édipo o culpado pela degradação de
Tebas, que padecia pela peste que afligia a cidade. Uma grande ironia: aquele
que tem visão física saudável está cego para a verdade, enquanto o vidente, que
é cego fisicamente, é capaz de enxergar a realidade. Tirésias, irritado com a
insistência e as ofensas, por fim desvela a verdade para o rei Édipo. Édipo
acusa Tirésias: “Fica sabendo que, em minha opinião, articulaste o crime e até
o consumaste! Apenas tua mão não o matou. E se enxergasses, eu diria que foste
o criminoso sem qualquer ajuda!” E então o vidente responde com o desvelamento
da verdade: “É assim que pensas? Então eu te digo: tu és o homem que procuras,
o assassino de Laio. Tu és o poluidor desta terra.” Édipo reage com fúria, mas,
numa mudança catastrófica da obra, começa a duvidar de si próprio, mesmo
continuando a negar impetuosamente.
Nesse ponto da reflexão
me parece importante destacar que a verdade não carece de ser buscada. Ela está
bem clara à nossa frente. O que impede de reconhecê-la é a limitação de nossa
capacidade. É necessário desobstruir-nos do Véu de Maya das ilusões que nos
impedem de reconhecer, aprender a respeitar e nos responsabilizarmos pela
verdade reconhecida. “Entulhado de memórias,
saturado de expectativas e preso a um pressuposto de verdade que espera
encontrar, o sujeito permanece obstruído para reconhecer a verdade, muitas
vezes óbvia, que está bem à sua frente.” (Martino, 2025) No entanto, para isso
é necessário renunciar aos benefícios proporcionados pela ilusão.
Bion
ainda propõe que o orgulho não é um sentimento nocivo, mas depende de qual
pulsão predomina na experiência. Quando pode ser irrigado pela pulsão de vida,
converte-se em autoestima, num ato de reconhecimento e respeito por si mesmo.
Ora, essa experiência se desdobrará nas relações afetivas, expandindo-se em
compaixão. No entanto, quando a pulsão de morte prevalece, o orgulho se
transforma em arrogância. Desintegrado, o sujeito torna-se vulnerável e busca
apoiar-se na prepotência para tentar aplacar sua insegurança. A arrogância é,
para Bion, uma manifestação da parte psicótica da personalidade que se nega a
aprender com a experiência, gerando a ilusão da onisciência defensiva com o
intuito de evitar a dor do crescimento mental.
Referências:
BION, Wilfred R. [1958]. Sobre
a arrogância. In: BION, Wilfred R. Estudos psicanalíticos revisados (Second
thoughts). Rio de Janeiro: Imago, 1994. p. 80-89.
BION, Wilfred R. [1967].
Estudos psicanalíticos revisados (Second thoughts). 3. ed. rev. Rio de Janeiro:
Imago, 1994.
FREUD, Sigmund. [1897]. A
correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess: 1887-1904.
Edição de Jeffrey Moussaieff Masson. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Imago, 1986.
FREUD, Sigmund. [1899] 1900. A
interpretação dos sonhos. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das
obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio
de Janeiro: Imago, 1996. v. 4 e 5.
FREUD, Sigmund. [1910]. Um
tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (Contribuições à
psicologia do amor I). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 11.
KLEIN, Melanie. [1928].
Estágios iniciais do conflito edipiano. In: KLEIN, Melanie. Amor, culpa e
reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 1.
(Obras completas de Melanie Klein).
Martino, Renato Dias. Esboço de expansão: escolhas,
vontade e desejo / - Rio de Janeiro: Paula
Editorações,
2025.
SÓFOCLES. Rei Édipo. Tradução
de João Baptista de Mello e Souza. Rio de Janeiro: Edições de Ouro.
A
princípio, serve como mais um modelo na prática clínica. É mais do que uma
tentativa de teoria ou qualquer coisa nesse sentido, mas está dentro da
perspectiva de um modelo na prática clínica, um modelo que auxilia a reflexão
dentro da prática clínica. De início, onde é que me pareceu interessante ou
começou a me fazer sentido esse modelo? Na minha vivência particular, na
vivência no meu funcionamento emocional. Dentro do meu funcionamento emocional,
começou a fazer sentido esse tipo de modelo. E aí, a partir de algumas
leituras, de alguns estudos, eu comecei a perceber que outros pensadores também
estavam usando este modelo. Então, o que a gente estuda bastante é Bion. E o Bion
trata bem a muito sutilmente dessa alegoria, desse modelo. E aí, começou a me
surgir a vontade de escrever, de estudar, de dissertar um pouco sobre isso. E
aí, escrevi um capítulo, do ACOLHIDA. Eu não trouxe aqui impresso porque está
no livro. Acho que todo mundo aqui tem o livro. Se não tiver, tem vários
exemplares aí, podem pegar se quiser. Está na página 173, o texto que trata
desse assunto. Mas a proposta aqui é ir para além desse texto. Então o Bion
traz ali a ideia lá do movimento helicoidal. Ele chamou o movimento helicoidal.
E ele chamou atenção para esse movimento, para essa, para esse modelo aplicado
à proposta da grade, onde ali existem alguns pressupostos, onde as experiências
iriam sendo encaixadas ali nos níveis dessa grade. E ele vai dizer que esta
grade evoluiria num movimento helicoidal. O que é um movimento helicoidal? De
rotação, assim como no helicóptero. A partir desta ideia, foi me surgindo
outras manifestações desta configuração. E não ficou só dentro dessa
perspectiva helicoidal, mas ela ficou, ela começou a expandir num movimento
progressivo, num movimento espiral progressivo. Que que é um movimento espiral
progressivo? É um movimento onde existem voltas, ciclos que são dados e que
cada ciclo desse vai expandindo um tanto, vai expandindo um grau. Eu vou para além
dessa ideia helicoidal e vamos começar a chamar de movimento espiralado. Então,
este movimento espiralado, ele está presente dentro da materialidade das
coisas, desde uma da configuração maior, né, da configuração macro, da dimensão
mais gigantesca possível que o ser humano possa reconhecer até as partículas
mais ínfimas. A gente tem, por exemplo, o movimento espiralado nas galáxias.
Então, a galáxia, né, o a formação de uma galáxia, a formação de uma
configuração espacial, ela se dá em movimentos espiralados. Fotos aí dos
satélites da NASA, Hubble, mostram isso com clareza. Se você procurar, por
exemplo, uma imagem de uma galáxia no Google, você vai encontrar um movimento
espiralado. E na partícula mínima, no micro, por exemplo, o DNA é configurado
com uma espiral dupla. Mas não só dentro dessas configurações, caracóis, a
gente tem um movimento, por exemplo, de uma ave de rapina. Quando ela está
tentando caçar, ela está fazendo um movimento espiralado. O ciclone é um
movimento espiralado. Quando você tira o ralinho da pia, vai formar uma
espiral. E a gente pode ir para além, porque existe um pensador chamado
Fibonacci, italiano, que ele propõe a curva de Fibonacci, que é um uma
configuração geométrica que é aplicável a toda figura ou toda construção
coerente, ou uma forma que traz um uma beleza harmônica, uma harmonia, ou
dentro da geometria ou dentro da um prédio ou de um quadro. Você vai conseguir
aplicar a curva de Fibonacci ali. Então, o que que é a curva de Fibonacci?
Rapidamente, a curva de Fibonacci é dois primeiros números somados vão gerar um
terceiro número e aí os dois próximos números somados vão gerar mais um número
e aí vai se construindo quadros num formato espiralado. Então você tem o um e o
dois. Você soma o mais o do vai dar o três. E agora você tem então o dois e o
três. Somando o dois e o três, você vai ter o cinco. E aí você vai nessa mesma
proporção, você vai ter aquilo que a gente vai chamar de proporção áurea, que é
uma simetria que traz uma harmonia na estrutura. Mas nós estamos falando de
psicanálise, nós não estamos falando de estrutura da natureza, nós não estamos
falando de geometria, nós estamos falando do desenvolvimento emocional que vai
se desdobrar na capacitação afetiva. Então, me parece que este modelo também
está presente no desenvolvimento emocional. Mas de que forma ele está presente?
Ele está presente numa dimensão onde até então havia uma impressão de que a
vida ela se dava através de uma repetição. A vida ia acontecendo e aquilo ia se
repetindo, ia se repetindo, se repetindo. Tanto me parece que esta repetição
ela acontece, mas cada vez que se repete tem a chance de evoluir, tem a chance
de crescer. Então, na minha experiência emocional, na minha análise pessoal, eu
fui percebendo isso e também fui percebendo isso na análise dos meus pacientes
e aí fui tentando ajeitar esse modelo para aplicar nessa experiência. E aí
começou a me fazer muito sentido resgatar a proposta Kleiniana do que a gente
aprendeu a chamar de teoria das posições. Então a gente vai precisar ter a
teoria das posições para que a gente possa entender o movimento espiralado.
Então vou aqui me prestar fazer um resuminho do que o que a gente aprendeu a
chamar de teoria das posições da Melanie Klein. Vamos imaginar uma espiral, um
modelo espiral progressivo, mas não como um modelo afunilado, não sendo uma
progressão horizontal, mas uma progressão vertical. Imagine então esta espiral
que vai crescendo deitada. O eixo é horizontal, mas as voltas são verticais.
como na capa do livro ali um como na capa do livro aí se vocês tiverem o livro
aí no texto que eu mandei aí digitalizado, eu fiz um modelinho bem explicativo
do que eu estou tentando dizer. Existe um eixo e existem voltas que vão
contornando este eixo. Então, imagine que esse lápis é um eixo. Então o lápis
está na forma horizontal e as voltas vão acontecendo nessa proporção vertical.
Esse eixo horizontal vai ter voltas verticais. Estas voltas verticais vão ter
uma peculiaridade. A cada volta vai passar por um ponto mais alto e um ponto
mais baixo. Este ponto mais alto vai ser caracterizado por fatores descritos
por Melanie Klein como características do que ela chamou de esquizoparanóide. Então,
quando a experiência, quando a experiência do sujeito está passando pela volta
no ponto superior, ele vai experimentar características do que a Melanie Klein
chamou de posição esquizoparanóide. Então, eu vou falar um pouquinho para vocês
agora o que é que a Melanie Klein chamou de posição esquizoparanóide. A
princípio, Melanie Klein disse assim: "Olha, o bebê vai viver, vai
interpolar entre duas posições.” Ora, ele vai experimentar uma posição chamada esquizoparanóide,
ora ele vai experimentar uma posição depressiva. Então, vamos reservar a
posição depressiva, que é o ponto inferior. Vamos falar então da posição esquizoparanóide,
que é a posição que é o ponto superior. Só o bebê vive isso. Não, todos nós
vamos viver para o resto da vida. Ora, vamos estar experimentando
características esquizoparanóide, ora vamos estar experimentando
características depressivas. ESQUIZO quer dizer cindido, cortado, separado e PARANOIDE
quer dizer persecutório, perseguidor. Então a posição esquizoparanóide é uma
posição onde existe uma cisão do mundo e esta cisão provoca uma sensação de
perseguição. Quando estamos no ponto superior da espiral, estamos
experimentando características esquizoparanóides. Esta posição superior, ela
vai trazer uma sensação de mania, uma sensação de extroversão para fora. A
gente vai viver as coisas no mundo externo. A gente vai atribuir as
responsabilidades das coisas que a gente vive às coisas do mundo externo. é
tudo culpa do outro. Então, características esquizoparanóide estão ligadas à
projeção, está no outro. Então, o bebê, tudo que acontece com o bebê, ele
atribui a mãe. Mas não é só a mãe, é a mãe dividida em duas, por isso que é
esquizo. Então, ele tem uma mãe boa, que é aquela mãe que vem, dá o leite, dá o
carinho, afaga. E a mãe ruim, que é aquela que não está, que priva, que não tá
ali quando ele quer. Sei o bom e sei o mau. Para o bebê não existe uma mãe só.
Existem mães, uma boa e uma ruim. E o trabalho, a função desta posição é
separar o que é bom do que é ruim. Então, quando nós estamos no ponto alto da
espiral, nós separamos o que é bom do que é ruim, o que é certo do que é
errado. Nós criamos critérios para julgar. Então, se alguma coisa deu errado na
minha vida, é por causa de fulano. Mas se alguma coisa deu certo, eu atribuo a
cicrano. Por mais que a gente chame essa posição de esquizo paranoide, né? E
esquizo é sentido, né? Essa palavra esquizo é meio estranha e paranoide, uma
coisa persecutória, mas esta posição é muito prazerosa, porque eu tenho a
chance de me livrar de tudo que é ruim. Eu não tenho responsabilidade com nada,
é tudo outro. E por isso eu tenho um comportamento eloquente, muito, eu faço
tudo, eu posso tudo, existe uma onipotência, existe uma onisciência, eu sei
tudo, eu consigo tudo. Por quê? Porque se eu não consigo é culpa do outro.
Então este ponto superior é o ponto da ilusão. O sujeito está impreterivelmente
iludido quando ele está no ponto superior da espiral. Na cultura oriental a
gente tem a ideia do véu de Maia. Materialidade. Materialidade. A vida social
nos obriga ao ponto superior esquizoparanóide da experiência da espiral. Não é
nem questão de ser bom ou ruim, é questão de ser necessário, né? Caio colocou,
trouxe uma ideia aqui muito importante, gente. Não existe bom ou ruim, porque
se a gente tiver aqui elegendo bom e ruim, a gente está na esquizoparanóide.
Não tem bom ou ruim, pode ter prazeroso e desprazeroso. E a esquizoparanóide é
muito prazerosa. Lá embaixo a gente experimenta outra posição. Nós estamos
falando de posição, ou seja, nós estamos experimentando o tempo todo lá em cima
e lá embaixo. Lá embaixo a gente vai experimentar o que a Melanie Klein chamou
de posição depressiva. Se lá em cima a gente tinha uma característica muito
nítida de fragmentação, de divisão, de decomposição, de desintegração, lá
embaixo a gente vai ter a integração. Lá embaixo a gente vai começar a enxergar
o mundo e o eu como um todo. Não estamos separados. Não existe separação. Existe
limite, mas não existe separação. Existe um limite entre uma coisa e outra, mas
essa coisa não está separada da outra. Ela tá junta com a outra. Então, o que
um faz implica no que o outro vai fazer. Então, a posição esquizoparanóide é
confortável, é prazerosa. A posição depressiva é desconfortável, é incômoda, é
frustrante e na posição depressiva cai o peso da culpa. Culpa do quê? de ter
atribuído ao outro a responsabilidade pelas coisas que na verdade é de minha
responsabilidade. Então o bebê, por exemplo, vai começar a perceber que aquela
mãe que ele odiava tanto é a mesma mãe que ele tanto idealizava. E aí ele se
sente culpado e ele precisa tolerar essa culpa para poder elaborar esta posição
depressiva e começar um novo ciclo de subida. A responsabilização é a evolução
do sentimento de culpa. Para que eu possa me responsabilizar, eu preciso ter
tolerado o sentimento de culpa até que ele possa ser elaborado e expandir para
a responsabilização. Se eu não tolero me sentir culpado, eu não vou conseguir
aprender a me responsabilizar. A evolução te leva ao Dharma e cada volta,
impreterivelmente é um Karma. Então, cada volta tem uma característica de
repetição. E o Karma é isso, vai e volta. É uma repetição. Na medida em que eu
tomo consciência desta repetição, eu tenho a chance de no próximo, na próxima
volta ser diferente. E cada vez que é diferente, eu me aproximo, eu estou no
caminho do Dharma, que é o caminho da iluminação, do ponto superior como sendo
a posição esquizoparanóide que carece ser elaborada. E quando a gente fala do
ponto inferior, que é a posição depressiva, esta posição também carece ser
elaborada. A posição depressiva não é o ponto final da história, ela também
carece de ser e elaborada, porque quando o sujeito chega no ponto inferior, ele
se sente culpado e se ele se mantiver culpado, ele não elaborou. E aí vai fazer
com que o sujeito viva uma experiência de volta em falso, porque ele não deu
conta de elaborar e ele vai dar uma volta que vai ser uma circunferência que
rodou sem evolução. E o que que vai determinar isso? O acolhimento do outro. Eu
só consigo elaborar uma volta da espiral se eu puder contar com o acolhimento
do outro. Isso define, não tem como viver experiências de expansão na espiral
sem contar com o outro. A pulsão de vida e pulsão de morte vão estar presente
nas duas posições. A pulsão de morte na posição esquizoparanóide projetada no
mundo externo. E aí aí o Freud vai chamar de pulsão de destruição. Eu me sinto
angustiado, eu me sinto ansioso e eu arrumo alguém para culpar. Eu estou
angustiado e a culpa é dela. A pulsão de morte estava aqui dentro. A pulsão de
morte estava fazendo eu me dividir. Eros liga, tatos desliga. E simboliza,
tânatos diaboliza. Então, quando eu sinto esta desintegração interna, isso cria
dentro de mim um desconforto tremendo. O medicamento psiquiátrico faz com que o
sujeito dê uma volta em falso, literalmente. O que que configura uma volta
bem-sucedida na espiral? Aprender com a experiência. Eu aprendi com a
experiência. Eu vivi uma experiência completa. E no final desse ciclo eu
aprendi alguma coisa. Eu já não sou mais o mesmo. E o medicamento não ensina
nada. Você não aprende tomando o Rivotril. Ele te anestesia. Comfortably Numb é
a música do Pink Floyd que chama. É verdade. Confortavelmente entorpecido. É
isso. Ninguém aprende assim. Quem aprende assim? Você aprende pelo desconforto.
Tudo. Droga, álcool, compulsões. Nós estamos condenando isso aqui. Não, não,
não, não, não, não. De jeito nenhum. Por quê? Porque aquele, naquele momento o
sujeito precisa daquela muleta, então ele vai usar aquilo, tudo bem, cada um
tem a sua. Se você tira a muleta, o sujeito cai e não consegue continuar
andando. Então vamos usar a muleta, principalmente se ele está em análise,
principalmente se ele está caminhando. Criticar a muleta do outro é muito
bacana, não é? Mas é esquizoparanóide. O remédio não ensina nada, o álcool não
ensina nada, a compulsão por jogos, o tigrinho não ensina nada. Então, para que
a volta seja bem-sucedida, ela precisa culminar ou desdobrar-se em aprendizado.
Aprendizado teórico, aprendizado do conhecimento, não. Aprendizado emocional e
afetivo. Emocional interno, afetivo, vinculação com o outro. A posição
depressiva, quando o sujeito não tem a capacidade de tolerar a culpa, pode ser
um motivo ideação suicida, porque eu sou culpado, eu não dou conta de me sentir
culpado, então vou tirar minha vida como punição desta culpa. Não só suicídio,
autossabotagem em qualquer nível. me julgo, me sinto culpado, me condeno e
agora passo a me autopunir. E assim como o tribunal, eu posso tanto prisão
perpétua como pena capital aí, como a pena de morte. Alguns mecanismos mantém o
sujeito na esquizoparanóide, ou seja, no ponto superior. Quais mecanismos? Eu
tenho um desencadeamento, costumo dizer. O primeiro é a cisão. Esquizo não é
cisão? Esquizo é cisão. Então o primeiro mecanismo de defesa é a cisão. Divide
o mundo em dois, em bom e mau, em certo e errado. Negação é porque assim, ó,
tem uma parte ali, divide em duas, uma parte não é minha. E normalmente a parte
boa é minha, a parte ruim é do outro. Então essa parte ruim não é minha. E aí,
se é do outro, tem mais um mecanismo. O próximo mecanismo, projeção, cisão,
negação, projeção. Quando eu projeto a coisa ruim no outro, aí eu me sinto o
santo, o anjo de candura. O outro que é o pedófilo, o outro que é o perverso, o
outro que é o maconheiro, o outro que é o bêbado, o outro que é o louco. E aí,
se é tudo outro, eu me sinto purificado. Aí existe uma idealização. Eu começo
me auto-idealizar. E a idealização é tanto para o bom quanto para o mau. Eu me
auto-idealizo como o cara purificado na frente da televisão vendo o Datena
chamar o pedófilo de monstro. Eu sou o bom, ele é o ruim. Vamos dar uma
cadeirada nele. E a partir daí um novo mecanismo que se divide em dois,
onipotência e onisciência. Porque tudo isso aqui é ilusão, é mentira. Foi eu
que criei tudo isso aqui. E se eu criei tudo isso, eu posso qualquer coisa e eu
sei qualquer coisa. Eu controlo tudo isso aqui, foi eu que criei. E aí,
abafamento das emoções. Vamos abafar todas as emoções que isso aqui possa tá
gerando. E aí se consolida a posição esquizoparanóide. Quando o sujeito chega
em análise, ele chega com uma demanda quase que unânime quando o paciente
chega. Qual que é? Eu quero, eu preciso desabafar, não é isso? Quando ele
começa a desabafar, ele começa a quebrar este ciclo de mecanismos de defesa. O
último mecanismo não era o abafamento das emoções. Quando ele começa a
desabafar, ele começa a desfazer o quê? Onipotência e onisciência são os
primeiros. Porque ele começa a partir do seu desabafo no diálogo com o
analista, perceber que ele não pode tudo, perceber que ele não sabe tudo. Eu
não falei aquilo porque se eu falasse eu sei que ele ia fazer não sei o quê.
Oi, você sabe? Mas como você sabe? Não, porque ele sempre fez. Não, pera aí.
Ele sempre fez, mas isso não te dá o a faculdade de saber que agora ele vai
fazer igual. E aí quando ele começa a ver que ele não sabe tudo e que ele não
pode tudo, a idealização começa a se desfazer. Quando a idealização começa a
desfazer, a projeção retorna. Quando a projeção retorna, a negação deixa de
fazer sentido. Quando a negação deixa de fazer sentido, pum, integra, desfez-se
o ciclo dos mecanismos de defesa que mantinham a posição do esquizoparanóide.
Aí ele cai na depressiva. Aí ele começa a sentir culpado. Nossa, caramba,
velho. Fui eu. Então, aí se ele puder contar com o acolhimento do outro junto
com o outro, aos pouquinhos ele vai elaborando esta culpa e vai se capacitando
para se responsabilizar por isso. Várias espirais vão formando uma grande
espiral, que é a espiral da vida. Não existe volta em falso se o sujeito
estiver se dedicando ao seu trabalho analítico. Por mais que pareça que o
sujeito está repetindo, por mais que pareça que ele está fazendo a mesma coisa,
existe uma mudança, por mais sutil que possa parecer, por mais irrisória que
seja, existe ali uma transformação. Se o sujeito está se dedicando ao trabalho
de análise, só ao trabalho de análise, não, se dedicando aos vínculos afetivos
saudáveis. E o trabalho de análise é um lugar favorecido para tal. Cada volta
da espiral que traz a possibilidade da ampliação da rede de vínculos saudáveis
faz com que o sujeito tenha coragem de se afastar de vínculos. tóxicos de
vínculos que possam ser nocivos. afastar fisicamente não. Muitas vezes eu não
posso. Muitas vezes eu trabalho com o cara tóxico ali. Muitas vezes o cara
tóxico é consanguíneo, mora na mesma casa, mas é um afastamento emocional, é um
afastamento afetivo. Ele pode ter as mesmas falas, ele pode ter o mesmo
comportamento, mas está se transformando o funcionamento. A mudança de
comportamento não quer dizer mudança de funcionamento. E a mudança de
funcionamento não está subordinada à mudança de comportamento. Você pode mudar
o seu comportamento, teu funcionamento continuar o mesmo e você pode mudar o
seu funcionamento e o seu comportamento continua o mesmo. Muitas vezes o meu
funcionamento emocional é um funcionamento de vitimismo, por exemplo. E o meu
comportamento é um comportamento vitimista. Eu posso ter mudado o meu
funcionamento vitimista. Eu começo a perceber, eu começo a reconhecer que eu
não sou vítima, mas eu ainda estou configurado num vínculo que me faz me
comportar como vítima. Por quê? porque o outro está implicado neste
comportamento. Eu não tenho como mudar de hoje para amanhã, porque existe ali
um contrato social de comportamento e mudar aquele comportamento drasticamente
vai afetar todo um sistema. Então, prudentemente eu continuo me comportando
como vítima, mas eu já não funciono mais como vítima. Eu já não estou mais
projetando na pessoa. Eu já percebi que eu não sou vítima de ninguém. eu já me
responsabilizei, mas o outro continua funcionando do mesmo jeito. Prudentemente
eu continuo funcionando daquele jeito, porque existe um sistema social que me
obriga a me comportar daquela forma, mas funcionando de maneira diferente, eu
começo a configurar uma nova estratégia afetiva e logo, logo eu vou me afastar
daquele campo que me obriga a continuar funcionando daquele jeito. Mudança de
comportamento não garante a mudança de funcionamento. A mudança de
funcionamento impreterivelmente vai se desdobrar na mudança de comportamento.
Uma volta bem-sucedida da espiral implica em mudança de funcionamento, por mais
que o comportamento não tenha mudado. Então o sujeito ainda está fazendo do
mesmo jeito, mas ele já não está funcionando mais daquele jeito. Cada ciclo
bem-sucedido da espiral implica em aprender com a experiência, implica em
vínculo afetivo saudável, implica em transformação ou mudança de funcionamento
que não tem a ver com mudança de comportamento. A volta da espiral completa num
ciclo pressupõe reconhecer, aprender a respeitar e se responsabilizar. os três
Rs. Se eu reconheci, eu vou aprender a respeitar isto que eu admiti que existe.
Reconhecer não é conhecer, é admitir que existe, admitir que acontece. E a
partir desse admitir que acontece, eu aprendo a respeitar isso que acontece.
Depois que eu aprendi a respeitar, eu me responsabilizo por isso. E o ciclo,
cada volta da espiral provoca aquilo que o Bion chama de mudança catastrófica.
deu uma volta na espiral, nunca mais vai ser igual. Não existe retrocesso nos
processos emocionais e afetivos. Não tem volta. A espiral é progressiva. Não
existe regresso. Por quê? Porque a espiral, as voltas da espiral, o
funcionamento espiralado é um funcionamento de maturação. Cada volta
bem-sucedida da espiral resulta em maturidade e não existe “desamadurecer”. Ah,
mas o paciente um comportamento regressivo. Pois é, foi o comportamento, não
foi o funcionamento. Ele precisou se comportar dessa forma. Isso não quer dizer
que ele não está funcionando de outro jeito. Ele pode ter manifestar um
comportamento infantilizado, por exemplo, que foi o que ele conseguiu fazer
naquele momento. Isso não quer dizer que ele está funcionando assim ainda. E
até nessa perspectiva também, professor, eh vivendo em sociedade, né? A
sociedade nos obriga muitas vezes a desintegrar, né, a se defender. E há uma
diferença entre ali você estar sendo falso e você está sendo um falso
consciente justamente para você precisar se defender, porque não tem outra
alternativa. Cai, nós precisamos ser falsos em sociedade. É necessário. Não tem,
por que a sociedade é uma falsidade. Pois é. Vínculos sociais são constituídos
em falsidade. O que você onde você manifesta a verdade é num vínculo afetivo
que é diferente no social. No vínculo afetivo você manifesta a verdade. No
vínculo social não seja besta de ser verdadeiro, porque você vai se danar. Se
quando se manifesta isso no processo psicoterapêutico, abriu uma possibilidade
de evolução. Como é que essa possibilidade de evolução? É conseguir que aquela
experiência evolua, não que eu seja capaz de me responsabilizar por aquela
parte que nunca evoluiu. Não tem como evoluir uma parte que ficou fixado. Ficou
fixado, ficou fixado, acabou, cicatrizou e eu vou a partir de então reconhecer
que eu tenho essa fixação, aprender a me respeitar por essa fixação e me
responsabilizar por essa fixação. Pois é, eu tenho essa parte infantilizada
mesmo que não cresceu e agora eu vou aprender a a cuidar daquela parte, me
responsabilizar por essa parte e adequar essa parte, proteger essa parte para
que essa parte não influencie na minha vida e no fluxo da minha do meu
desenvolvimento. Não esgotei o assunto. Tem muita coisa mais para falar sobre
isso. Mas a espiral continua. A espiral continua. Parte dois a parte 23, né?
A
origem semântica da palavra “humano” está no latim humanus, relacionado
a humus, “terra”. Isso traz a noção das “coisas terrestres”, em oposição
ao que é da ordem do “divino”. O termo “humanidade” guarda enorme ambiguidade,
chegando a se tornar ambivalente. Manifesta valores duvidosos, hesitantes e até
opostos quando nos propomos a refletir atentamente. Muitas vezes, usamos esse
conceito para denotar uma atividade benevolente, compadecida e até caridosa ao
próximo — e por que não, a nós mesmos? No entanto, a realidade nos revela que o
ser humano é uma criatura cruel, se não a criatura mais nociva do planeta. “Na
realidade, o ser humano vem se revelando uma espécie de criatura muito danosa
para a natureza, já que, à medida que ganha espaço, coloca em risco inúmeras
espécies, assim como destrói ecossistemas, incluindo sua própria espécie.”
(Martino, 2025) Sendo assim, quando agimos com benevolência e compaixão, parece
ser justamente quando renunciamos à humanidade para transcender a um plano mais
nobre da existência. Reservado ao meu raso conhecimento das escrituras
sagradas, me parece que a frase “Meu reino não é deste mundo”, declarada por
Jesus a Pôncio Pilatos (João 18:36), tinha a ver com isso. Ora, me parece que o
ser humano tem extrema dificuldade em lidar com atitudes que incluam amor, paz
e verdade, evitando-as até as últimas consequências. Os humanos são
extremamente apegados à materialidade das coisas, logo, inábeis em lidar com a
impermanência das coisas terrenas. Portanto, se concordamos com essa breve
explanação, a expressão “se tornar mais humano” está distante — ou mesmo é o
avesso — de tudo o que concebemos de mais nobre nessa vida.
Martino. R. D. ESBOÇO DE EXPANSÃO: Escolhas, Vontade e Desejo, 2025.