A
triangulação é uma configuração que propõe a intersecção de dois pontos, e a
proposta de Sigmund Freud (1856–1939) quanto ao complexo de Édipo não é
diferente. Freud propôs as bases do Complexo de Édipo pela primeira vez em
1897, em uma carta enviada ao seu amigo Wilhelm Fliess (1858–1928). Freud se
utiliza da obra Rei Édipo, do grego Sófocles (c. 496 a.C.–406 a.C.). Contudo,
horrorizou a classe científica da época quando, em 1899, em sua A Interpretação
dos Sonhos, apresentou a ideia publicamente como um fenômeno que ocorre na vida
emocional e afetiva de cada um de nós.
Freud traz à baila a experiência da
criança de desejar a mãe só para si e, para isso, eliminar o pai. Foi só em
1910, em Um Tipo Especial de Escolha de Objeto Feita pelos Homens, que Freud
veio a utilizar formalmente a expressão “complexo de Édipo” pela primeira vez.
O superego, que é a instância moral e legisladora no modelo estrutural da
personalidade, é o herdeiro do complexo de Édipo, como propõe Freud.
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Mais
tarde, Melanie Klein (1882–1960), muito provavelmente por ter vivido a
experiência de ser mãe, propõe precocidade para o complexo de Édipo,
coincidindo com a fase oral e a posição esquizoparanóide. Klein propõe, pela
primeira vez, no artigo Estágios Iniciais do Conflito Edipiano, de 1928, que,
diferente da proposta freudiana (que coincide com a fase fálica, apenas após os
3 anos de idade), o complexo surge bem mais cedo. A proposta de Klein se
fundamenta na fantasia sádica do bebê na relação com o seio. Portanto, segundo
Klein, o superego infantil é concebido muito mais cedo e, primeiramente, de
forma persecutória. Nessa proposta, a superação do complexo de Édipo precoce
está subordinada à elaboração da posição depressiva. Com isso, o bebê começa um
processo de integração, desenvolvendo a capacidade de amar e reparar. Só então
o superego perseguidor se transforma em superego legislador.
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Em
1958, Wilfred Ruprecht Bion (1897–1979) publica o artigo “Sobre a Arrogância”,
que posteriormente seria incluído no livro Second Thoughts (no Brasil publicado
com o título Estudos Psicanalíticos Revisados), de 1967. Nessa obra, Bion traz
uma mudança de vértice quanto à história de Édipo. Diferente da proposta que
destaca os crimes do incesto e do parricídio, Bion enfatiza a atitude arrogante
de Édipo num ataque ao vínculo de conhecimento. Para Bion, o verdadeiro crime
de Édipo é sua insistência em buscar a verdade a qualquer custo.

No
clássico de Sófocles, Tirésias, o adivinho cego, acusa diretamente o rei Édipo
de ser o assassino de Laio depois de ser pressionado por ele para lhe dizer a
verdade. Tirésias revela que é o próprio Édipo o culpado pela degradação de
Tebas, que padecia pela peste que afligia a cidade. Uma grande ironia: aquele
que tem visão física saudável está cego para a verdade, enquanto o vidente, que
é cego fisicamente, é capaz de enxergar a realidade. Tirésias, irritado com a
insistência e as ofensas, por fim desvela a verdade para o rei Édipo. Édipo
acusa Tirésias: “Fica sabendo que, em minha opinião, articulaste o crime e até
o consumaste! Apenas tua mão não o matou. E se enxergasses, eu diria que foste
o criminoso sem qualquer ajuda!” E então o vidente responde com o desvelamento
da verdade: “É assim que pensas? Então eu te digo: tu és o homem que procuras,
o assassino de Laio. Tu és o poluidor desta terra.” Édipo reage com fúria, mas,
numa mudança catastrófica da obra, começa a duvidar de si próprio, mesmo
continuando a negar impetuosamente.

Nesse ponto da reflexão
me parece importante destacar que a verdade não carece de ser buscada. Ela está
bem clara à nossa frente. O que impede de reconhecê-la é a limitação de nossa
capacidade. É necessário desobstruir-nos do Véu de Maya das ilusões que nos
impedem de reconhecer, aprender a respeitar e nos responsabilizarmos pela
verdade reconhecida. “Entulhado de memórias,
saturado de expectativas e preso a um pressuposto de verdade que espera
encontrar, o sujeito permanece obstruído para reconhecer a verdade, muitas
vezes óbvia, que está bem à sua frente.” (Martino, 2025) No entanto, para isso
é necessário renunciar aos benefícios proporcionados pela ilusão.

Bion
ainda propõe que o orgulho não é um sentimento nocivo, mas depende de qual
pulsão predomina na experiência. Quando pode ser irrigado pela pulsão de vida,
converte-se em autoestima, num ato de reconhecimento e respeito por si mesmo.
Ora, essa experiência se desdobrará nas relações afetivas, expandindo-se em
compaixão. No entanto, quando a pulsão de morte prevalece, o orgulho se
transforma em arrogância. Desintegrado, o sujeito torna-se vulnerável e busca
apoiar-se na prepotência para tentar aplacar sua insegurança. A arrogância é,
para Bion, uma manifestação da parte psicótica da personalidade que se nega a
aprender com a experiência, gerando a ilusão da onisciência defensiva com o
intuito de evitar a dor do crescimento mental.
Referências:
BION, Wilfred R. [1958]. Sobre
a arrogância. In: BION, Wilfred R. Estudos psicanalíticos revisados (Second
thoughts). Rio de Janeiro: Imago, 1994. p. 80-89.
BION, Wilfred R. [1967].
Estudos psicanalíticos revisados (Second thoughts). 3. ed. rev. Rio de Janeiro:
Imago, 1994.
FREUD, Sigmund. [1897]. A
correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess: 1887-1904.
Edição de Jeffrey Moussaieff Masson. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Imago, 1986.
FREUD, Sigmund. [1899] 1900. A
interpretação dos sonhos. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das
obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio
de Janeiro: Imago, 1996. v. 4 e 5.
FREUD, Sigmund. [1910]. Um
tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (Contribuições à
psicologia do amor I). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 11.
KLEIN, Melanie. [1928].
Estágios iniciais do conflito edipiano. In: KLEIN, Melanie. Amor, culpa e
reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 1.
(Obras completas de Melanie Klein).
Martino, Renato Dias. Esboço de expansão: escolhas,
vontade e desejo / - Rio de Janeiro: Paula
Editorações,
2025.
SÓFOCLES. Rei Édipo. Tradução
de João Baptista de Mello e Souza. Rio de Janeiro: Edições de Ouro.
Prof. Renato Dias Martino
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