segunda-feira, 20 de abril de 2026

TERCEIRIZANDO FILHOS - Prof. Renato Dias Martino

Antes de iniciarmos efetivamente a proposta reflexiva contida neste texto, penso ser importante esclarecer que não se trata de uma incitação ao sentimento de culpa ou algo parecido, mas de uma oportunidade de alerta para o reconhecimento e a responsabilização do que esteja ao alcance da atenção daquele que lê.
A proposta é pensarmos sobre algo que atualmente tem sido normalizado como se não houvesse consequências, enquanto, na minha avaliação, grande parte dos males que assolam a sociedade contemporânea decorre justamente disso.

Grande parte dos humanos tem filhos que são, na prática, criados por terceiros. Geram-nos e os entregam aos cuidados de alguém afetivamente estranho. Talvez seja o único animal na natureza que o faça. Ainda assim, para que haja um desenvolvimento saudável — ao menos no âmbito emocional —, a criança necessita de cuidados maternos atentos, resguardados pela função paterna, no mínimo até os 3 anos de idade. Após esse período, aumentam significativamente suas chances de enfrentar os desafios inerentes à vida social, que se fundamenta em dissimulação e falsidade.

Essa demanda de cuidado não é apenas de ordem física ou fisiológica, mas, antes de tudo, de ordem afetiva. Não se trata de algo que uma profissional possa oferecer, por mais qualificada que seja, mas da presença afetiva da genitora, bem resguardada pelo companheiro que esteja desempenhando bem a função paterna, capaz de acompanhar cada passo do desenvolvimento da criança. Um outro afetivamente estranho não pode ser capaz de vir a ocupar esse lugar.
No entanto, o que se observa na realidade contemporânea é que a criança passa mais tempo acordada com educadores, cuidadores remunerados ou instituições do que com os próprios pais: creches que recebem bebês desde os primeiros meses de vida, escolas em tempo integral, babás rotativas e, mais recentemente, telas ocupando o lugar de “cuidadoras”.

Há, nesse contexto, implicações psíquicas importantes. Em Sobre o narcisismo: uma introdução (1914), Freud descreve o chamado “narcisismo primário”, momento em que a criança necessita se sentir como a coisa mais importante no mundo para a mãe. É dessa experiência — quando bem-sucedida — que se desdobram a autoconfiança, o sentimento de valor próprio e elementos estruturantes da personalidade. Quando os pais projetam na criança seu próprio narcisismo — por meio de enunciados como “você é o mais lindo”, “o mais perfeito”, “o centro do meu mundo” —, não estão simplesmente exagerando: estão, na verdade, oferecendo as bases da autoestima. A criança aprende a amar-se a si mesma, pois foi amada, e, com isso, se qualificará para amar o próximo. Está aí a semente da capacidade futura de investir libido em objetos externos (pessoas, projetos, ideais) sem prejuízo do investimento em si mesma. Se constitui uma auto-importância saudável: não megalomaníaca, mas suficientemente sólida para sustentar o sujeito diante das inevitáveis frustrações da vida.

Freud também aborda as fases do desenvolvimento libidinal em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). As experiências próprias dessas etapas só podem ser devidamente elaboradas sob os cuidados de quem ama a criança. E aqui revela-se um ponto crucial: não existe “tempo de qualidade”. O desenvolvimento emocional não se organiza segundo recortes artificiais no tempo, mas demanda continuidade. As intercorrências psíquicas não respeitam agendas preestabelecidas. O sofrimento, a angústia de separação, a excitação, a frustração, a necessidade de ser visto — tudo isso emerge de forma imprevisível. O tempo do amadurecimento emocional não coincide com tempo do relógio produtivo.

Mais tarde, Winnicott introduz o conceito de “dependência absoluta”, especialmente em O brincar e a realidade (1971) e em Os processos de maturação e o ambiente facilitador (1965). Nos primeiros meses de vida, o bebê é totalmente dependente da mãe-ambiente para sua sobrevivência física e integração psíquica. Sendo assim, deixá-lo aos cuidados de terceiros afetivamente estranhos passa a ser uma experiência perigosa e de danos emocionais imensuráveis. Trata-se de uma experiência potencialmente disruptiva, cujos efeitos podem se prolongar por toda a vida, manifestando-se como fixações e imaturidades no funcionamento emocional do adulto, desdobrando-se em severas incapacidades afetivas.

Cabe aqui um reconhecimento: há um conflito real entre as necessidades psíquicas do desenvolvimento e as exigências da estrutura econômica contemporânea, que impõe o retorno precoce dos pais ao trabalho. Por outro lado, é muito comum mães que terceirizam os cuidados de seus filhos pequenos por não terem paciência, não tolerarem o desconforto que se inclui no cuidado com crianças ou por qualquer outro motivo que não seja a necessidade de trabalhar fora. Ainda assim, na natureza, quando não há condições mínimas para a preservação e o desenvolvimento da prole, a reprodução tende a não ocorrer. É como se, na natureza, os animais dissessem: “Se não posso oferecer o necessário para que essa vida prospere com integridade, melhor não trazê-la”. 

Tratamos aqui de uma perspectiva estrutural. Parece-me que o funcionamento social e econômico atual se orienta na direção oposta às necessidades do desenvolvimento psíquico saudável. Isso gera um círculo vicioso, no qual vão sendo gerados exemplares de péssima qualidade, que configurarão uma sociedade cada dia mais doente. Vivemos em uma cultura de gratificação imediata e uma criança é, por natureza, imprevisível e trabalhosa. Para muitos, o filho passou a ser um "projeto de autorrealização" que, quando começa a dar trabalho, é prontamente terceirizado aos cuidados de outro, para que a vida pessoal do adulto não sofra interrupções. Com isso o alicerce da personalidade é estruturado com falhas severas e o desdobramento é uma sociedade composta por adultos tecnicamente funcionais, contudo emocionalmente desintegrados. Sujeitos habilidosos tecnicamente, inteligentes, capazes de operar máquinas, softwares, planilhas, redes sociais, mercados, conquistar títulos de mestrado e doutorado, mas emocionalmente desintegrados.

Atualmente, os jovens são instruídos a buscar o ensino superior sob uma idealização de títulos acadêmicos, contudo não são preparados para serem mães e pais. No entanto, a probabilidade de seguirem a carreira e exercerem as profissões de seus cursos é significativamente menor do que a de gerarem filhos. Antigamente, as meninas cresciam observando mães cuidando de crianças. Hoje, muitas chegam à maternidade sem nunca terem segurado um bebê. O desconforto da rotina infantil torna-se insuportável porque não houve preparo emocional ou cultural para o sacrifício que a criação exige. 

Portanto, parece que estamos constituindo uma legião de indivíduos que operam no modo de falso eu. Um exército tentando preencher fixações infantis, desejando futilidades, consumindo banalidades, funcionando emocionalmente de maneira patológica, o que os leva a se comportar não por atitude própria, mas de forma reativa, já que a base narcísica nunca foi devidamente elaborada. Os pais confiam seus filhos aos cuidados de um outro, afetivamente estranho fazendo com que os próprios filhos se tornem estranhos, sem a menor afinidade com eles. Cria-se, assim, um abismo de conflitos onde deveria haver o aconchego do lar. A implicação disso é a imaturidade generalizada, com adultos instáveis nas relações afetivas. Humanos incapazes de amar.


Referências:

FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. 1914.

FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. 1971.

WINNICOTT, D. W. Os processos de maturação e o ambiente facilitador. 1965.





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