segunda-feira, 4 de maio de 2026

CULPA DO INANIMADO - Prof. Renato Dias Martino

O humano tem uma dificuldade, ou até mesmo a incapacidade comum, de se responsabilizar por suas atitudes — atitudes essas que são desdobramentos da qualidade do seu funcionamento emocional. Na impossibilidade de responsabilização, o sujeito tende a projetar a culpa em pessoas e até em objetos inanimados do mundo externo. Porém, se projetar a culpa de suas falhas em outra pessoa já é uma incoerência, é um absurdo maior ainda atribuir às tecnologias ou às "coisas" aquilo que, na verdade, vem da dificuldade do próprio sujeito. 

Atualmente, enfrentamos o desafio do uso abusivo de celulares e telas em geral. Essa tem sido uma queixa usual entre pais em relação aos filhos. Ainda assim, por mais que exista um discurso comum entre inúmeros especialistas condenando o aparelho como se fosse o culpado pelos prejuízos na formação dos jovens, a situação é muito mais complexa. Mesmo que os celulares e as telas tenham vários atrativos que realmente podem hipnotizar o espectador, tratamos aqui da saúde emocional do usuário. No caso das crianças, tratamos, antes de tudo, da saúde emocional daqueles que teriam a função de fornecer um modelo de bom funcionamento emocional. Quando abordamos o tema do abuso, seja ele qual for, falamos fundamentalmente da dificuldade de reconhecer e respeitar limites.

Temos aqui o abismo que existe entre a inteligência na habilidade de usar o instrumento e a maturidade emocional, que orienta o intuito que motiva o uso. A capacidade emocional daquele que utiliza o instrumento é o que orienta seu bom uso. Se não fosse assim, o sujeito que foi esfaqueado deveria processar a Tramontina. O instrumento é inanimado, portanto, neutro; o caráter e a intenção de quem o maneja é que orientam o desfecho.

Wilfred Bion (1897 - 1979) tratou desse assunto recordando a infância, quando os professores usavam uma régua para bater na palma da mão do aluno que não tivesse cumprido regras. Embora a régua não tenha sido feita para punir — mas sim para medir em polegadas e centímetros —, ela "funcionava" para esse propósito secundário e violento. Bion aplica adequadamente esse modelo à psicanálise: um analista pode usar teorias (assim como a régua) não para propiciar ao paciente experiências emocionais reparadoras, mas para infligir dor, menosprezar ou se colocar em uma posição de superioridade.

A teoria é um mero instrumento nas mãos de um sujeito que definirá seu bom uso conforme permitir sua saúde emocional. “A quantidade de teoria não garante a capacidade do psicanalista. A eficiência psicanalítica não está na quantidade de teorias que o psicanalista detém, mas no menor número delas com que atende à eventualidade que se lhe depara.” (Bion, 1962). Numa metáfora simples, um mecânico habilidoso que possua duas ou três ferramentas vale mais do que outro com uma oficina repleta de ferramentas sofisticadas, mas que não é capaz de utilizá-las.


BION, Wilfred R. Aprender da experiência. Tradução de Paulo Dias Corrêa. São Paulo: Blucher, 2021. (Obra original: 1962)

BION, Wilfred R. Seminários de Brasília. Tradução de Elias Mallet da Rocha Barros. Rio de Janeiro: Imago, 1975.









Prof. Renato Dias Martino