sábado, 6 de novembro de 2010

Violência e sociedade

Violência e sociedade
Renato Dias Martino


Quantas vezes não perguntamos a nós mesmos, se não em voz alta (talvez indiretamente procurando uma resposta do outro): “De onde vem essa onda de violência, corrupção, destruição da natureza?”

A perplexidade é certa ao se assistir cenas cruéis na TV. Somos espectadores (ou melhor, participarmos efetivamente) de um filme violento, onde não parece existir qualquer intenção na direção de uma diminuição da bestialidade, mas sim, em obter o monopólio desta forma perversa de vínculo com o outro. 
Thomas Hobbes (1588 — 1679)

É muito clara a realidade de que somos muito pouco capazes de nos responsabilizar pela violência que nasce em nós. Dificilmente nos propomos a dirigir atenção para o violento que habita o eu. Nos percebemos numa combinação muito próxima  da descrição deThomas Hobbes (1588 — 1679) no seu Leviatã  de 1651, onde propõe que o humano pode ser mais fortes ou mais inteligentes do que outros, mas isso não o livrará do medo de que o outro lhe possa fazer mal. Para Hobbes, existe uma constante guerra de todos contra todos (Bellum omnia omnes). 
No bíblico Sermão da Montanha, que pode ser lido no Evangelho de Mateus, mais precisamente do capítulo 4, versículo 23, ao capítulo 7, lê-se: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.”
Assim, a religião propõe um ideal de conduta que pouco leva em conta a capacidade do sujeito em cumpri-la. Isso, sem dúvida contribui, de forma importante para incapacidade de perceber o ódio no eu e estimula a percepção em notar o ódio no outro. O ódio é um eficaz agregador de massa. Quando odiamos funcionamos por identificação. Quando se tem algum outro para se odiar nos tornamos irmãos. 

Enquanto é muito difícil experimentar a situação de amarmos em comum, o ódio é quase que espontâneo. Isso pelo fato de que amar requer abnegação, enquanto odiar é prazeroso. Num mundo onde a insatisfação é algo muito pouco experimentado, a derrota do outro é sempre mais prazerosa que a minha vitória. Nos apressamos em retribuir um soco e refletimos antes de retribuir um carinho. A gratidão exige manutenção enquanto a vingança é geradora de prazer.

Cria-se um jogo de pressão e repressão que só faz aquecer o caldeirão. O crime, a falta de sinceridade, a violência atuada, seja perversamente escancarada, entre pessoas sem relações formais, ou mesmo, silenciosa, traiçoeira, acontecendo sem que percebamos, dentro dos lares.


De qualquer forma, está espalhada por todas as camadas sociais e econômicas. Da favela até o Palácio do Planalto. Apesar disso, mesmo sendo uma forma de tal abrangência, a violência ativa, assim como seu correspondente negativo, a submissão...




“... de homens e mulheres a quaisquer relações sociais de dominação e exploração não é de modo algum espontânea. Depende, em maiores ou menores doses, da coerção direta, da necessidade material ou da interiorização de tais idéias como necessárias, justas ou inevitáveis, e normalmente de alguma combinação dos três fatores.” Enguita, 1993. p. 208



Nas palavras de Mariano Enguita escritor espanhol, catedrático de Sociologia na Universidade de Salamanca, tentando cogitar sobre formas de aprendizagem das relações sociais e de que maneira a violência está ai implicada. Poderíamos entender a violência como certa forma primitiva, de relação interpessoal. Um padrão grosseiro de vincular-se às pessoas e coisas que como característica peculiar carrega a tendência a se repetir até que encontre no mundo, alguma oportunidade de conhecer formas mais aprimoradas de vinculação. Disso talvez sejam gerados os fatores ligados à necessidade material ou da interiorização de tais idéias como necessárias (assim como propõe Enguita), já que o “ter” é também um estagio primitivo do vínculo com o mundo, que busca evoluir até a condição do “ser”, isso quem sabe.
É importante compreender que esse tipo de relação perversa sempre esteve entre nós. Isso não me parece tão difícil constatar se nos arriscarmos em uma breve pesquisa histórica da humanidade. Num passeio pela filogênese humana, perceberemos que a violência é um elemento inerente ao encontro entre seres humanos e que amiúde se confunde com a forma como nos relacionamos com nós mesmos. Talvez seja a primeira forma de se relacionar com o outro, com aquilo que faz parte do não-eu, com aquilo que é diferente, o desconhecido. O pré-conceito é um exemplo muito claro de como o ser humano funciona ante a diferença. Uma forma de se precaver frente aquilo que o deixa inseguro e temeroso. No entanto, sem o pré-conceito é impossível se criar um conceito.


Poderíamos fazer uma menção à violência presente no ato do parto, onde o bebê se vê frente a uma seqüência de tarefas, que por mais cauteloso que possa ser aquele que cuida, terá sempre uma considerável cota de violência. O bebê está diante de uma seqüência de frustrações que terá que tolerar no caminho em direção ao reconhecimento da realidade. O caminho da independência, que se inicia biologicamente na substituição do mundo aquático, confortável do útero, por um mundo aéreo, onde experimentará uma cadeia de desconfortos e perceberá gradualmente que, para continuar vivo, dependerá exclusivamente de sua mãe. Ela é quem tem a tarefa de apresentar um modelo de realidade que seja interessante enquanto substituto das fantasias e ilusões criadas pelo bebê, na pesquisa e descoberta do mundo. A incumbência de sugerir um ambiente que retrate um mundo bom o bastante para ser trocado pela fantasia de mundo do bebê, ou aquilo que ele imagina sobre o mundo. Dessa forma, se o mundo externo não parece um lugar suficientemente seguro, a ilusão ainda será mais atrativa.


A ilusão é regida por uma forma mágica de realização, onde o desejo é realizado de uma maneira ou de outra, mesmo que para isso tenha que se passar por cima da realidade (lugar onde se encontra o outro). Um sujeito que funciona predominantemente regido por suas ilusões, nisso que em psicanálise chamamos de principio do prazer (Freud 1920), inevitavelmente, adota um modelo violento de se relacionar com as coisas do mundo (interno e externo). O resultado é que em sua vida, ou adota um modelo hostil para com o mundo que o rodeia, ou se comporta agredindo-se a si mesmo, se tornando um alvo dessa violência, a submissão.
De qualquer forma, me parece que diagnosticamos claramente o estado de caos e o ódio pairando sobre o ser humano, e sua organização social. A humanidade passa por uma fase histórica, onde o modelo familiar se encontra em desuso, porém, sem outro modelo adequado que possa substituí-lo. Assim, com a ameaça de extinção do modelo da família (mãe, pai e filho) como lugar seguro para que sejam vividas ás experiências que partem da violência e conduzem á humanização, a escola (despreparada para isso) tem recebido certa demanda que nem de longe corresponde somente à função didática ou a de ensino das confirmações cientificas do saber, mas que se estende ás necessidades básicas no nível da formação da personalidade, justamente o ponto onde se dá a elaboração dos impulsos violentos.

Se até aqui pudemos estar de acordo, poderíamos tentar avançar em direção a analise das ações tomadas para tornar mínimo o efeito dessa que poderíamos chamar de “forma grotesca de linguagem”, ou justamente a “incapacidade da linguagem”. Quando nos propomos avaliar de forma mais atida os aspectos das técnicas usadas frente a esse estado de funcionamento social, o que constatamos, a cada dia parece revelar-se além de bárbaro, ineficaz. Se percebermos de uma forma mais próxima da realidade, entenderemos um movimento muito mais regido pela vingança, do que por um intuito de penalização e ressocialização. Nesse ponto a educação social não encontra espaço. Até por que, não parece haver muito interesse que sociabilizemo-nos.
Esse texto não tem o intuito de causar desconforto, mas de revelar algo desconfortável que já existe. Talvez propor a responsabilização pela criação de novos modos de trabalhar esse estado de violência que conduz o funcionamento do ser humano em sua tarefa de se relacionar com as pessoas e as coisas. Porém, é uma incumbência não só da sociologia, mas, de cada um de nós.



Num ambiente emocionalmente saudável, a troca de ilusões por realidade se da de uma forma sutil. Nessa “desilusão a conta gota”, o bebê aprende com o amor entre os pais um modelo de companheirismo, respeito e afeto. Modelo que fará parte de seu objetivo de futuro. Um modelo interessante para que possamos refletir e aplicar em nossa sociedade e nosso ambiente educacional e social.


O exercício parece ser o de abrir um espaço para o afeto positivo. Um filho gerado com amor e pelo amor, ou seja, por duas pessoas que se amam, ganha a herança deste modelo de vínculo para próximas gerações. E definirá qual o nível de respeito permearão suas futuras relações. Isso indicará o quão violentas são e serão suas aproximações e ligações com pessoas e coisas, assim como a si mesmo e inevitavelmente a direção que tomará a sociedade.


Prof. Renato Dias Martino








segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Busca pelo sucesso

José de Sousa Saramago
(Azinhaga, Golegã, 16 de Novembro de 1922 -
Tías, Lanzarote, 18 de Junho de 2010)
De certa forma, o ser humano sempre buscou o sucesso (e ainda hoje o faz), porém, me parece que o objetivo obter sucesso, tem deslocado seu foco, ou seu objeto. Não seria um absurdo dizermos que a busca do “ser” vem sendo substituída pelo “ter”. Tem uma frase muito linda de José de Sousa Saramago (1922 — 2010)  (Nobel de literatura) que diz assim: “Ter é a pior forma de amar e amar talvez seja a melhor forma de ter”. Podemos pensar, por exemplo, o sucesso na busca pelo concreto, o dinheiro, por exemplo, a maior expressão disso, “vale um por um”, não é?
O sujeito busca mais e mais, pois na verdade não é isso o que realmente busca.
Assim como o obeso busca na comida (seio) o substituto do amor (mãe) perdido. No outro extremo, a busca do sucesso naquilo que talvez, tivesse importância crucial, e digo isso pesando naquilo que está implicado em todas as outras buscas, inclusive na busca do próprio dinheiro. Estou tentando falar sobre o sucesso na busca por si mesmo, onde realmente está nosso desejo e não aquilo que me faz maior em comparação ao outro. Penso que o sucesso sem limite me sugere uma busca do triunfo sobe o outro. O que destoa completamente de uma busca sadia pela expansão mental e o crescimento espiritual, onde se encontra a capacidade de amar.
Quem é capaz de “ser” certamente achará um jeito de “ter”, entretanto o “ter” nunca garantira o “ser”. Isso só se consegue na busca pelo reconhecimento do eu. Quando estamos mais próximos de nossas verdades (desejos e medos), estamos mais próximos também de nossas possibilidades e somos menos atormentados por um “ideal de eu” (Freud 1934) exigente e impiedoso, que nos cobra o tempo todo.




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Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Escritor
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sábado, 9 de outubro de 2010

A Caridade e o Ato de Amor



A proposta de pensarmos certos conceitos dos quais nos baseamos para viver como padrões já estabelecidos e que são muito mais derivados de conceitos herdados do que de experiências que levaram à compreensão da própria realidade, esbarra num incômodo. Incômodo esse gerado ao colocarmos em jogo o conforto que se pode desfrutar estando sob certas doutrinas e leis das quais se encontram saturadas de certeza. O conceito de caridade é um bom exemplo de uma ideia que só se faz integral enquanto pensada e repensada constantemente. O sentido de certo conceito de tamanha importância, só se faz possível, se submetido a um constante questionamento quanto a sua autenticidade e base ética. Para esse exercício é imprescindível a pergunta: ‘por que estamos sendo caridosos?’ e seu extremo oposto, ‘por que desejamos receber caridade?’ Porém, antes disso seria útil pensarmos a origem do conceito, ou com que intuito ele foi criado.
A terminação

O nome ‘caridade’ é um derivado de carência, que por sua vez, significa falta ou até uma necessidade que clama por ser suprida. Sendo assim, implica em uma relação entre uma parte carente e outra que possa suprir. A caridade é um gesto muito poderoso, contudo, requer capacidade de perceber certos limites, caso contrário, existe o perigo de se instalar uma vínculo doente, entre as partes.

A caridade e o gesto afetuoso

Penso não ser adequado atribuir à caridade o sinônimo de sentir prazer ou o ato de proporcionar prazer. Se não com limites, o ato de caridade pode se transformar no mal que aprisiona e não deixa crescer. Digo isso, pois, muitas vezes o gesto de amor pode ser justamente representado por um ‘não’. Isso se tratarmos aqui, de certa intenção afetiva, ou seja, cunhada no amor. É muito importante estabelecer relações caridosas quando realmente se pode perceber que ocorre a incapacidade de produção ou realização daquele que é ajudado, do contrario o que se faz é prejudicar e desvalorizar a capacidade do outro. Assim, é bom que o caridoso seja capaz de perceber que a caridade deve perder seu efeito afetivo (positivo) assim que o ‘carente’ desenvolva a capacidade de fazer por si. Contudo, para tanto, é necessária certa capacitação emocional, no intuito de exercer isso que poderíamos chamar de “caridade ética”. Essa modalidade de caridade é algo que parte de uma experiência interna e se projeta no mundo em direção ao outro. Do contrario estaríamos falando de uma forma de demagogia. O que poderíamos chamar de palavras vazias.

Caridade negativa


A caridade pode partir de uma experiência da qual o sujeito possa ajudar alguém num momento difícil da vida, porém, pode ser também oriunda de culpa, onde o sujeito doa ao outro e assim reduz a carga da culpa que possa carregar por algum motivo. No segundo caso, pela ‘vista grossa’, o que pode parecer caridade revela-se, pensado de forma mais cuidadosa, como um ato extremamente narcisista. Nesse modelo de relação o outro é simplesmente um instrumento de satisfação ou afastamento de desconforto. Usado, em muitos casos, para reafirmar uma posição de poder.
Se estivermos falando então de um modelo ético de caridade, logo, isso partirá de experiências da bondade que a criança possa ter, em sua relação primaria, com os pais ou aqueles que ocuparam essa função. Sendo assim, a caridade (assim como outras ações éticas) deve ser incorporada pela criança através de identificação no vínculo com os pais, nunca ensinada como algo moralmente imposto.

Caridade com o si-mesmo


A capacidade de caridade é uma extensão da capacidade de amar que se pode ter por si mesmo. Quero propor que, aquele que pode criar uma relação afetiva com o si mesmo, através de suas realizações já prepara assim, o lugar do outro em sua vida. A ideia ficaria mais ou menos assim: Só pode ser caridoso com o outro aquele que cuida (é caridoso) de si mesmo. 
A construção de conceitos dessa importância, assim como repensá-los, é tarefa para dedicação constante e até de manutenção incessante.
Isso ocorre na medida em que se possa ser capaz de empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro e posteriormente retornar ao seu lugar de origem.






Prof. Renato Dias Martino
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Encontro Filosófico


MECANISMOS DE FORMAÇAO DA INVEJA
O OBJETIVO É CONHECER PERSPECTIVAS PSICOLÓGICAS SOBRE O SENTIMENTO DE INVEJA E COM AUXÍLIO DO PENSAMENTO PSICANALÍTICO CRIA ESPAÇO PARA COGITAR A POSIÇÃO DESSA ORDEM DE SENTIMENTOS DENTRO DOS PROCESSOS PSÍQUICOS.
ESTÃO CONVIDADOS ALUNOS DO CURSO DE PSICOLOGIA E À COMUNIDADE EM GERAL.
O ENCONTRO SERÁ COORDENADO PELO Professor: RENATO DIAS MARTINO
Data: 02 DE OUTUBRO DE 2010
Horário: 14:00 ÀS 16:00 HORAS
Local: UNILAGO
Participação sem custo
Vagas limitadas
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domingo, 5 de setembro de 2010

CIGARRO E LIBERDADE


É interessante observar um adolescente, hoje cada vez mais jovem, se arriscando na solitária e perigosa experiência com cigarros. Quando toma em sua a mão e traga do cilindro de tabaco, o faz experimentando de uma sensação de liberdade que o arremessa para o lado oposto ao das amarras que o envolviam até ali, em sua vida infantil, onde era submetido aos cuidados e à autoridade dos pais.


O cigarro pode se tornar, naquele momento um símbolo de uma nova proposta de ‘vida’, que o emancipa da condição onde recebia certa proteção, assim como provisões para sobreviver, contudo também responsável por um sentimento crescente de submissão e até mesmo de impotência, sob o domínio da autoridade dos pais. A liberdade é então, cultuada pelo fumante novato em uma nuvem de fumaça que se forma em desenhos psicodélicos no ar, na medida em que a brasa corre pelo cilindro branco até atingir o filtro.


Durante esse ritual solitário, poderosas substancias químicas, corroboram com todo valor simbólico de algo que se coloca na boca para se acalmar – se pudermos aqui usar da subjetividade e nos arriscarmos em uma analogia, poderemos perceber grande semelhança com a relação que o bebê pode ter com o seio (ou mamadeira).


O orgulhoso mancebo enche seus pulmões de fumaça e assim sente-se no topo de sua liberdade e independência. Gesticula trejeitos que em certos momentos até pode convencer, pelo ar de maturidade, que a liberdade de fato se estabelece naquela nuvem de carbono.


O mais curioso nessa relação é que estamos tratando de um modelo de vínculo que em primeiro momento parece ser a solução para certo problema, mas que gradualmente se revela como problema maior. Falo de um representante da liberdade que se tornou prisão.


O cigarro é um bom exemplo dessa qualidade de vínculo, porém, esse formato de relação transcende o exemplo aqui proposto, já que é um modelo de vínculo ocorrente em relação a coisas e também entre pessoas.


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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Filho Não É

O filho não é o desejo dos pais, mas depende disso na empreitada de ser ele mesmo. Quero dizer que é muito importante para um desenvolvimento emocional saudável que antes do filho, tenha vindo o desejo de concebê-lo. 

Parece-me que isso é um fator preponderante no desenvolvimento da vida mental. Assim, quando não foi possível, resulta num grande vazio na alma. Profunda dor em alguém, que assim, dependerá de forma especial, das experiências de vinculação primitivas para resistir e persistir nessa tarefa tão difícil que é o reconhecimento da realidade do mundo e de si mesmo. Quero propor que aquele que não foi amado por seus pais enfrentará naturalmente a dificuldade de aceitar o amor de qualquer outra pessoa.

O filho e o desejo se confundem no inicio, mas essa ideia precisa expandir-se constantemente na direção da diferenciação do filho ideal e o filho real. Não é uma proposta a minha de escrever textos com “receitas de como educar os filhos”, antes disso tento focar o desenvolvimento emocional e a construção da capacidade de vínculo com o mundo, ou seja, a saúde mental.

Proponho assim, que o desejo evolua na medida em que o filho ganhe maturidade e passe a reconhecer seu próprio desejo. A vida emocional desse filho estará vulnerável na medida em que o desejo dos pais não pode evoluir. Falo da ‘con-fusão’ entre o real e aquilo que se deseja que o real seja. Agora falamos sobre o conceito de “ideal”.
Da mesma forma, muito da capacidade de ser pai-mãe, vem da qualidade que se pôde ter na experiência de ter sido filho. Quero propor que as experiências infantis das quais viveram faltas severas, tendem a se transformarem em impulsos narcísicos que buscarão incessantemente um espelho no real, para serem projetados e vividos no outro. Veja que, por esse vértice, percebemos uma forma de desejo cristalizado dos pais projetados no filho. São resquícios de impossibilidades na história do desenvolvimento emocional do progenitor.


sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Tédio

Filosoficamente poderíamos descrever o tédio como um estado de espírito onde o fato futuro não tem representante na expectativa. É talvez, estar ‘nem aí’, na linguagem coloquial.
Assim como uma espécie de aborrecimento onde vemos as coisas do mundo com certo desinteresse. Certo funcionamento da mente onde elementos como fervor, entusiasmo ou impetuosidade, se encontram inoperantes.

O tédio parece ser algo que é vivido tão introvertidamente, que muitas vezes torna-se um estado emocional extremamente sutil, distante dos olhos alheios. Por conta desta falta de veemência, o tédio acaba por não encontrar lugar significativo na literatura psicanalítica, ou nos estudos feitos pela psicologia, seja ela qual for a abordagem que utilize. Porém, o fato da manifestação psíquica muitas vezes não se revelar externamente e não se encontrar veemente, não reduz sua importância no funcionamento mental do sujeito e na influencia que ocupa nas escolhas da vida de cada um de nós.
Uma criança, possivelmente ilustraria esse estado como “nada pra fazer”. E a partir desta teoria infantil (na minha visão, a mais próxima de um estado desprovido de defesas, logo mais próximo da realidade), e pela ausência de uma teoria mais bem elaborada, podemos arriscar criar alguma tentativa de unir alguns pontos desse assunto. Isso no intuito de gerar um símbolo do que seria tédio. Criar a partir de um olhar mais atento, um sentido para compreendermos o porquê e como nos ocorre o tédio.

A criança pode fazer uso do tédio como um ensaio da separação da mãe, ainda na presença dela. Uma tentativa de pensar-se a si mesmo sem aquilo que mais se valoriza na vida. Estar ‘nem aí’, talvez seja estar mais ‘aqui’, no agora, onde o real acontece. Dessa maneira, se pensarmos na maturidade como missão humana do desenvolvimento, a capacidade de entediar-se pode ser uma conquista na independência da criança. Um ensaio da perda, inevitável. Um momento na vida que nos propomos a sentir o vazio interior, um sentimento que pode sugerir certa angústia e que assim, gera esse estado de quietude e marasmo interior. Na verdade é o resultado da percepção interior de algo que habita a alma. Alguma coisa que faz parte dela, mas que, normalmente (até prudentemente, em certos momentos) evitamos senti-la ou sofrê-la. Quando digo “sofrê-la”, penso na ambiguidade do termo, pois a vida é um processo e sendo assim, não o sofrer caracteriza certa ação (não-ação) patológica. Um obstáculo no viver.
Steven Tyler
O roqueiro Steven Tyler, vocalista da banda Aerosmith, em uma entrevista sobre as dificuldades que enfrentou na busca por livrar-se de sua relação compulsiva com as drogas diz: “A única forma da coisa passar é passando pela coisa”. Se pensarmos o tédio como um momento da vida emocional, perceberemos um tempo mental onde a pressa não parece encontrar lugar. Passamos então, a olharmos o termo que denomina essa experiência com outros olhos, diferente daquele da colocação popular sobre o tédio.
Donald Woods 
Winnicott (1896 - 1971)
Dessa forma, é muito interessante percebermos aspectos internos e externos. Isso quando a exigência social entra em contraste com nosso estado de espírito. Perceba como alguém sem pressa incomoda o homem moderno, que corre desesperado atrás de “sabe-se lá o que”. Por essa decorrência, amiúde criamos um “falso eu”, como coloca Donald Woods Winnicott (1896 - 1971) pediatra e psicanalista inglês, ou como o psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) denomina o arquétipo da “Persona” (parte do eu que existe para satisfazer o outro), de tal modo, que nunca se entendia. Algo que é criado para satisfazer o outro, ou melhor dizendo, um eu criado para satisfazer a necessidade de sermos desejados pelo outro. Na predominância desse recurso, porém, abandonamos nosso eu real no quarto dos fundos de nosso interior, muitas vezes sem dar-nos conta disso. Pensemos na utilidade de através do tédio, repensar nossos objetos de desejo.



Prof. Renato Dias Martino
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