terça-feira, 1 de março de 2022

DA COMUNICAÇÃO NUTRIDORA À EVACUAÇÃO QUE INTOXICA

Desenvolvemos a fala com o intuito de comunicarmos percepções ao outro. Porém, por outro lado, muitas vezes, por conta da dificuldade em tolerar frustrações, usamos também a fala, como forma de evacuarmos sensações de desconforto.
O que parece diferenciar uma maneira da outra é a capacidade de introdução do amor como elemento dessa tentativa de comunicação. Quando se evacua através da fala, isso deve gerar reações defensivas naquele que recebe o que foi expelido. A suposta verdade que seja colocada ausente de amor, irá provocar defesas no outro, ao invés de desdobrar-se numa apreensão disso que se tem como verdade e que se tenta comunicar.
No entanto, no caso daquele que receba a evacuação não conseguir se defender, o que ocorrerá é uma intoxicação, já que absorver evacuações é sempre tóxico. Quanto maior a capacidade intelectual do sujeito que ora evacua, mais bem formulada pode ser a evacuação. Portanto, maior a dificuldade de se defender, por conta da complexidade da evacuação verbal. Um sujeito muito inteligente deve usar teorias bem articuladas, assim como vocabulário rebuscado em suas evacuações.
Ainda assim, isso não serve de aval. A veracidade do conteúdo de uma teoria não pode ser garantida por um vocabulário requintado. Sendo assim, corremos um grande risco de nos intoxicarmos com discursos muito bem elaborados, mas que na realidade, não passam de evacuações. Porém, quando estamos integrados em nossa personalidade, desempenhando de forma saudável nosso verdadeiro eu, somos menos vulneráveis a essa forma de intoxicação. Mesmo que o discurso possa vir com palavras refinadas e com explicações detalhadas, quando na ausência de amor e verdade, algo muito primitivo do funcionamento mental, deve ativar defesas.
Quando existe a possibilidade da autoconfiança, numa integração consigo mesmo, o instinto de autopreservação deve alertar por meio da intuição, para possíveis perigos, sejam eles da ordem do material ou no âmbito emocional afetivo. E isso nada tem a ver com capacidade intelectual.





Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Escritor



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terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

SOBRE A BANALIZAÇÃO DO AMOR

Não é novidade alguma o fato de que a capacidade de amar não é inata no humano. Por mais que possa existir a essência do amor na concepção de cada um de nós, ainda assim, carecemos de desenvolvê-la para que ela se manifeste na vida.
Parece ser necessário que o sujeito tenha sido amado pelo outro para que possa aprender a amar a si mesmo. A partir da capacidade de amar a si próprio, passa a ser possível estender esse amor ao outro.

Diferente de como se usa de modo coloquial, o amor não é um sentimento, mas é uma nobre capacidade, que carece ser desenvolvida através do amor do outro. Através da cultura popular, aprendemos a chamar de amor inúmeras experiências que, nem de longe, podem preencher as condições que atendam à vivência de um amor verdadeiro.

Chamamos de amor a atração física, assim como o ato de se satisfazer sexualmente com o outro, por exemplo. Ainda, ousamos chamar de amor, relações de dependência, assim como nomeamos de amor relações que incluem desrespeito. No entanto, experiências sinceras de amor são extremamente atípicas. Relacionamentos de amor terno, sinceros e saudáveis são muito raros.

A psicanálise nos ensinou com muita propriedade que o narcisismo é uma característica inerente ao humano. Grande parte dos casais estão juntos, não por se amarem, mas por comodismo e garantias. A maior parte das pessoas se aproxima e se mantém perto do outro por conta de conseguirem tirar proveito disso, mas assim que não conseguirem mais isso, virarão as costas.

Contudo, quando aprendemos a nos amar e nos respeitar sinceramente, vínculos que não incluam amor e respeito, ficam evidentes, ainda que possam ser muito bem dissimulados em palavras doces e sedutoras.
Por outro lado, quando não se ama a si mesmo e não se está sendo capaz de confiar em si próprio, fica obstruída a capacidade de avaliar a qualidade daquilo que vem do outro.











sábado, 1 de janeiro de 2022

A REPETIÇÃO E A EXPANÇÃO NO MOVIMENTO EM ESPIRAL

 


A vida parece se realizar em ciclos. Sucessão de repetições, que em uma configuração saudável, torna-se possível, a cada volta, evoluir em transformações expansivas. Como no modelo da espiral, a vida da ares de evolução. “O modelo da espiral que povoa as formações materiais no âmbito sensorial pode também ser muito bem aplicado à expansão emocional, onde cada volta traria a possibilidade de ampliação no nível circular e de acréscimo no rosqueamento da espiral.” (Martino, 2018) Porém, sofrer o processo de transformações, no nível emocional é gerador de desconforto.
Por conta disso, podemos 
nos prender e nos perder em estereótipos de repetição e neles nos fixar. Incapazes de sofrer o processo natural da vida, tendemos a repetir modelos estereotipados de funcionamento mental, ações e comportamentos. O comportamento nocivo que se repete é uma forma de evitar o sofrimento. Ainda que o sujeito evite sofrer a dor, ela ocorrerá impreterivelmente, já que obstruir esse processo também gera dor. Wilfred R. Bion (1897 - 1979), levanta a questão em ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, sobre pessoas que apresentam intolerância a dor, “que elas sentem a dor, mas não a sofrem; assim, não é possível dizer que elas descobrem a dor.”. (Bion, 1970). 
Isso parece ocorrer por conta da dificuldade de tolerar a insegurança gerada pela transformação. “O termo ‘transformação’ desorienta, a menos que se reconheçam limitações da implicação de ‘forma’.” (Bion, 1965) Isso acontece naquele que esteja sendo incapaz de acreditar em si mesmo, muito machucado, fragilizado ou ainda, doente. 
Repetimos ações para não lembrarmos daquilo que dói. Assim como nos norteou Sigmund Freud (1856 – 1939), em sua obra RECORDAR, REPETIR E ELABORAR. “Freud alerta para o fato de que o paciente tende a repetir em forma de atuação (ação impensada) tudo aquilo que é desconfortável de se recordar.” (Martino, 2018) É a base do que Freud chamou de atuação (acts it out), onde o sujeito não consegue recordar o que esqueceu por ter reprimido, entretanto manifesta através da atuação, ou seja, atua-o.
“Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo.” (Freud,1914) A ação motora é o acesso direto de descarga de energia psíquica, diminuindo a tensão desconfortável gerada pelo elemento não elaborada. 
Ainda que se possa ter certa consciência de que se esteja conhecendo alguém novo, existe certa tendência a usar nessa nova situação, formas antigas de se vincular, das quais já se usava antes com outras pessoas.
Freud denominou esse fenômeno de transferência. “Ao aspecto transferencial importante, na transformação, Freud descreve, na tendência “a repetir, como experiência presente, o reprimido”, ao invés de recordá-la, como fragmento passado.” (Bion, 1965) É uma tentativa de controle e com isso um ato de desrespeito. Tentar controlar é uma forma de desrespeitar. Certa insegurança frente ao desconhecido. A prisão na repetição estereotipada causa grande fadiga mental.
Existe um grande dispêndio de energia a cada vez que se repete. Isso ocorre, pois a realidade se configura mutante, onde tudo se transforma o tempo todo. A ordem do universo é a expansão. “Aprendemos que o paciente repete ao invés de recordar e repete sob as condições da resistência.” (Freud,1914) E o sujeito insiste em fazer igual, enquanto cada novo dia é sempre diferente do anterior. Ninguém “é”; estamos “sendo”. 
No entanto, a repetição, por si só, não é necessariamente uma experiência que representa um desacordo com a realidade. A capacidade de se manter repetições saudáveis é de fundamental importância para a saúde mental. Certa rotina que orienta. Rotina, do francês ROUTINE, “caminho batido, sentido costumeiro”, ou ainda, de ROUTE, “rota”. A possibilidade de encontrar uma rota para o arranjo ou um reajuste na capacidade de pensar saudável. Uma bússola norteadora na organização do pensar.
Existe um motivo importante para se manter a regularidade do horário fixo das sessões. A repetição ocorrente nos horários fixos semanais é de cunho terapêutico. Muitas vezes, o paciente que nos procura na clínica psicanalítica, se encontra sem referências para que possa organizar sua vida e a rotina do horário fixo na análise é um dos fatores de organização mental.
  Assim como a proposta dos mantras orientais. Mantra, do sânscrito Man, mente e Tra, proteção, "instrumento para conduzir a mente". 
Além disso, mesmo a repetição de ações não pensadas (acts it out) nunca acontece totalmente em vão. A cada vez que repetimos certa ação impensada abre-se uma nova chance de tomarmos consciência daquilo que força a repetição. No movimento espiralado cada volta é uma nova oportunidade de se dar conta do que anteriormente não tenha sido possível. Uma forma de tomar consciência e conseguir ampliação à cada volta da espiral. Para conseguir fazer diferente é necessário reconhecer o que está se repetindo. Esse reconhecimento não pode acontecer sem a ajuda do outro.
Quando o sujeito que procura psicoterapia está realmente predisposto ao trabalho psicoterapêutico, ou seja, com um bom nível de analisabilidade é possível ao analista perceber, transformações, mesmo que mínimas. “Por mais que pareça não sair do lugar, por retornar sempre para algo muito próximo do ponto de partida, dando ares de não realizar transformações muito importantes.” (Martino, 2018) Através de um olhar tolerante e acolhedor, é provável perceber expansões, mesmo que sejam pequenas. A verdadeira transformação acontece espontaneamente, livre de expectativas. 
Aquilo que realmente motiva o sujeito está distante de seu próprio conhecimento. Dessa forma, não há modos de se intervir de maneira objetiva para promover mudanças no nível emocional. Quando se tenta intervir desta maneira o que se promove é a geração de defesas que podem até parecerem transformações, mas não passam de dissimulação para se obter um resultado que nada condiz com um acordo com a realidade. A verdadeira transformação não pode acontecer por meio de imposição. Ninguém escolhe mudar, isso ocorrerá na medida em que o sujeito esteja maduro o suficiente para tanto.
O que realmente determina nossas escolhas está distante do nosso conhecimento. A maturação emocional ocorrerá assim que for possível reparar o funcionamento mental e isso ocorrerá mediante à uma experiência de acolhimento. O despertar vem da dor, mas a expansão depende do acolhimento.


BION, Wilfred Ruprecht. AS TRANSFORMAÇÕES. Rio de Janeiro, Imago, 1965.

___________________. ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO. Imago, Rio de Janeiro, 1970.

FREUD, Sigmund. RECORDAR, REPETIR E ELA¬BORAR, 1914, EDIÇÃO BRASILEIRA DAS OBRAS PSICO-LÓGICAS COMPLETAS – Edição Standard Brasileira, Imago (1969-80)

MARTINO, Renato Dias. ACOLHIDA EM PSICOTERAPIA – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2018.

 


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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

VÍNCULO DE ADULAÇÃO

 


A dificuldade de acreditar em si mesmo pode se desdobrar de inúmeras formas. Enquanto não está sendo capaz de confiar em si próprio, encontra-se vulnerável e aberto para várias formas tóxicas de vinculação. O amor próprio, quando em proporções muito baixas acaba por gerar manifestações nocivas nos vínculos. Aquele que não está sendo capaz de confiar em si mesmo tende a procurar falhas nos outros.
Por outro lado, pode se desenvolver no sujeito que não confia em si mesmo, uma disposição para o enaltecimento e bajulação. A adulação tem sempre um intuito de se conseguir um benefício oculto, ou mesmo explicito. Quando definitivamente não consegue o que se pretendia, o bajulador passa a atacar aquele que antes adulava.
Quem bajula espera um benefício especial e quando não obtém, passa a criticar. A base do vínculo de bajulação parece estar na incapacidade de acreditar em si mesmo.

A bajulação não é uma característica excepcionalmente do indivíduo, mas atua como ocupação da relação. A bajulação depende de duas ou mais pessoas dispostas a isso.

O ditado popular “quando um não quer dois não brigam”, corresponde a realidade. Depende da ação de pelo menos duas pessoas e não necessariamente de uma só. O bajulador, por não acreditar que possa ser amado sendo sincero, e o bajulado, se satisfaz com as bajulações por não acreditar que possa reunir em si, virtudes admiráveis. No entanto, por se tratar de um modelo de vínculo parasítico, tanto o bajulador (parasita) quanto o bajulado (hospedeiro) tem enorme prejuízo.
Assim como propõe Wilfred Bion (1897 - 1979): “Por parasítica”, quero representar uma relação na qual um objeto depende do outro para produzir um terceiro, que é destrutivo para todos os três.” (Bion, 1970)
Um fica obstruído de desenvolver o reconhecimento de si mesmo, pois imaginar que o outro é sempre melhor que ele, e o outro se contentando com elogios sobre atributos falsos, fica impedido de reconhecer suas reais características, para então desenvolve-las.

Bion, Wilfred R. Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1970)





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quinta-feira, 11 de novembro de 2021

SOBRE COLHER OU ACOLHER


Dentro da psicanálise do acolhimento, existem alguns pressupostos fundamentais. Um deles é que os elementos carecem estar realmente prontos para serem acolhidos. Precisam brotar espontaneamente. Dessa forma, pensamentos que sejam desconfortáveis ou que sejam evitados pelo paciente, em que ele diga: “Isso eu não gosto de trazer, eu não gosto de lembrar...”, não devem ser tocados. São como fruto que não está pronto para ser colhido. Tentar colher (acolher) o que não está pronto para tal é um ato de violência. Insistir em mexer no que não está no tempo de ser tocado é ato de desrespeito. Na verdade, só gerará mais defesas, tornando o conteúdo cada vez mais inacessível. Se o paciente não trouxer o material de maneira espontânea, esse material não está pronto para ser trabalhado. Se ele, por acaso, sonhou com alguma coisa e esse sonho não puder ser recordado espontaneamente é porque estes elementos que foram esquecidos foram submetidos a uma censura, foram submetidos a defesas e não chegaram a serem acessíveis e se não chegaram até aqui é porque não estão prontos para serem acolhidos ou colhidos. A prática da psicanálise do acolhimento deve ser análoga à um terreno (continente) fértil, onde por trazer confiança, os elementos amadurecem em seu tempo e podem ser acolhidos de forma adequada.



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terça-feira, 2 de novembro de 2021

DISPUTA FÁLICA - Prof. Renato Dias Martino

Pelo menos dentro do âmbito emocional-afetivo num adulto, a disputa é sempre insalubre. Não pode haver saúde nos vínculos enquanto houver disputa. O embate é uma manifestação natural, que deve surgir muito cedo, no funcionamento da criança e por conta disso, é importante que haja a possibilidade de desenvolvimento de recursos propiciadores de elaboração dessa ordem de impulsos opositores.

A disputa é uma característica do período do desenvolvimento da criança, da qual Sigmund Freud (1856 - 1939), denominou fase fálica. Em sua obra A ORGANIZAÇÃO GENITAL INFANTIL (1923), Freud destaca o fato de que nessa fase o formato fálico do pênis chama a atenção das crianças e passa a ser alvo tanto de inveja (dos que “têm” ou dos que têm um maior do que o dos outros) quanto da angústia de que pode ser castrado assim como se suspeita que tenha ocorrido com as meninas (que supostamente não “têm”). Quando o menino que tem grande orgulho da posse de um pênis, vê o genital da menina e percebe a ausência, inunda sua mente de conflitos. “Com isso a perda de seu próprio pênis fica imaginável e a ameaça de castração ganha efeito adiado [Nachtraglichkeit]” (Freud, 1924). Nessa época da vida da criança não existe a capacidade de entender a diferenciação dos órgãos genitais e por conta da característica interna dos órgãos femininos, cria se um atalho no entendimento, por assim dizer, onde uns tem pênis e outros não tem.
“O que está presente, portanto, não é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma primazia do falo” (FREUD, 1923) Isso configura um ambiente propicio para disputa de quem é mais poderoso. Nessa fase a criança ainda rivaliza com o pai a exclusividade da atenção materna no que Freud denomina de complexo de Édipo.

Um ambiente que possibilite atividades lúdicas, práticas esportivas, assim como jogos, podem trazer a chance de elaboração e gradual dissolução da tendência natural ao confronto. No entanto, a saúde no vínculo com os pais parece ser a base dessa possibilidade de elaboração. Numa relação saudável, o confronto deve ser dissolvido por conta do respeito desenvolvido em relação ao outro. Respeito que tem seu alicerce no amor, que por sua vez é o desdobramento da capacidade de tolerância as frustrações, o que possibilitará a renúncia desse impulso. Isso é diferente da relação que seja construída sobre o medo.

A saber, medo não é respeito. O que chamo aqui de respeito tem sua origem na semântica da palavra. “Do Latim respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez”. Do re, “de novo”, mais specere, “olhar”: a ideia é de que algo que merece um segundo olhar em geral merece respeito.” (Martino, 2013) Numa relação onde os pais sejam capazes de respeitar os filhos, questões referentes a disputa e rivalidades vão gradualmente se dissolvendo e dando lugar para o desenvolvimento da compaixão. A criança que tenha sido respeitada, conseguirá aprender a respeitar a si mesma e será capaz de estender esse respeito aos outros.
Para que os pais possam propiciar essa configuração é imperioso que no casal haja o cumprimento adequado das funções de cada um. Com isso a harmonia gera a integração na união. Num casal onde haja espaço para disputa entre marido e esposa, não pode haver integração e os filhos carregarão as consequências dessa dificuldade da dupla.

No entanto, lares que podem contar com ambientes de integração parecem ser cada dia mais raros. Isso pelo motivo de que o modelo de mulher admirada (pelo menos, por grande parte das mulheres) na configuração atual da sociedade parece ser aquela que se mostra independente, financeira e emocionalmente. A mulher admirada pelas outras mulheres, em sua maioria, na contemporaneidade parece ser aquela que busca a concretização de seus sonhos individuais, que se engaja em conquistas em sua carreira, de bens materiais procurando cada vez mais sua autonomia. Mesmo que isso custe estar distante dos filhos (quando os tem) a maior parte do tempo. Filhos que são deixando-os aos cuidados de terceiros, como babas ou instituições de cuidado de crianças, que se propõe fazê-lo com infantes de poucos dias de vida. Além disso, parece-me que, quanto mais o sucesso dessa mulher acontecer independente de um homem, tanto mais admirada será, pelas outras mulheres que comunguem desse senso comum dos dias de hoje. Nos atributos passíveis de admiração, não parece estar incluído o da dedicação à família.

Por outro lado, quando o objeto de avaliação é o modelo de homem admirado por esse mesmo público que compartilha desse senso comum, os critérios parecem ser avessos aos atribuídos à mulher alvo de admiração. O homem, para ser admirado dentro desse critério mencionado, deve ser aquele que renuncia a si e aos seus desejos individuais por seus filhos e sua família. Aquele que se revele um provedor por excelência. Parece que o trabalho externo, que não dentro do lar, passou a ser um dos representantes do falo. Um falo que traz o poder de proporcionar o sentimento de independência e a sensação de autonomia para não precisar do outro. Disputam-se quem possui esse poderoso falo, troféu narcisista e desestruturante de lares. O prejuízo seria menor se não houvesse filhos envolvidos na trama de competição de quem é mais independente. No entanto, essa desestruturação vai provocando patologias emocionais nos pequenos, que são impelidos a repetir esse modelo nas novas gerações.

Parece-me que a sociedade contemporânea sofre de uma fixação no desenvolvimento emocional. Certa ancoragem na fase fálica, onde a menina que hoje é a mãe de família, experimenta a triste constatação de que não possui o órgão genital como o dos meninos. Parece fixada na fantasia infantil de que “ele tem e ela não tem”. Presa no “susto” de que, nela o pênis não se desenvolveu, ou ainda, que foi cortado. Numa configuração saudável do desenvolvimento, onde haja uma integração na relação com os pais, a menina vai tomando consciência da importância do genital feminino e sua posição como mulher. Isso leva a dissolução da inveja geradora de rivalidade. No entanto, na situação atual das famílias das quais os pacientes chegam na clínica psicanalítica isso é cada dia mais raro. A menina permanece ligada a modelos primitivos de funcionamento, onde o outro parece sempre ser ou ter algo melhor que o dela, gerando um clima sempre propicia à rivalidade, onde a disputa é a configuração das relações. Ora, num clima de rivalidade não existe lugar para elementos nobres como amor e verdade, imprescindíveis para um funcionamento profícuo da mente. Num clima de disputa, não se ama, o objetivo é ganhar, independente da verdade.

A grande maioria dos casos que chegam à clínica psicanalítica tem um histórico de mães e pais que não conseguiram desempenhar suas funções de forma suficiente. Pai que tentou suprir aquilo que a mãe não deu conta e vice-versa. A incapacidade dos pais em reconhecer e tolerar limites geram severas consequências nos filhos. A criança não pode se responsabilizar pelas incapacidades de seus pais. As experiências mais importantes do desenvolvimento emocional ocorrem nos primeiros anos de vida. Falhas nesse período podem causar marcas profundas e muitas vezes indeléveis.

 

Freud, S. (1996). A ORGANIZAÇÃO GENITAL INFANTIL: umainterpolação na teoria da sexualidade. In J. Strachey(Ed. e Trad.). Edição Standard Brasileira das ObrasPsicológicas Completas de Sigmund Freud(Vol. XIV). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho originalpublicado em 1923).

______. (1924/1976). A DISSOLUÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO. In: Strachey (Ed.), ESB XIX). Rio de Janeiro: Imago. (Vol.XIX). Rio de Janeiro: Imago.
______. (1933/1976). CONFERÊNCIA XXXIII, FEMINILIDADE. In: Strachey (Ed.), ESB XXII). Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1940/1976). A divisão (Vol.XXII). Rio de Janeiro: Imago.

______.(1937/1976). Análise terminável e interminável. In: Strachey (Ed.), ESB (Vol. XXIII). Rio de Janeiro: Imago.
______.(1940/1976). A DIVISÃO DO EGO NO PROCESSO DE DEFESA. In: Strachey (Ed.), ESB XXIII). Rio de Janeiro: Imago. (Vol.XXIII). Rio de Janeiro: Imago.

MARTINO, Renato Dias. O AMOR E A EXPANSÃO DO PENSAR: das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.




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