sábado, 6 de maio de 2023

O OUTRO NÃO EXISTE

A psicanálise nos ensinou sobre o fato de que no início da vida o sujeito não admite a presença do outro naquilo que Sigmund Freud (1856 - 1939), chamou de princípio do prazer.  A satisfação imediata, assim como a evitação de desconfortos é o que rege essa ordem do funcionamento mental. “Nesta época o mundo externo não é investido com interesse e é indiferente à satisfação. Portanto, durante este período o eu coincide com o que é prazeroso, e o mundo externo com o que é indiferente.” (Freud, 1915). Por mais que possamos evoluir na maturação emocional e também no âmbito afetivo, grande parte do nosso funcionamento ainda segue trabalhando assim, mesmo na vida adulta. A forma como nos vinculamos com o outro é uma extensão da maneira como nos relacionamos com nós mesmos.

Portanto, quando tratamos do vértice emocional, não seria absurdo levantar a hipótese de que o outro não existe.  A questão essencial é a relação do sujeito com ele mesmo. Tudo aquilo que possa acontecer na relação com o outro, passa sempre por uma modulação a partir do que acontece em relação a si mesmo. O outro parece representar uma extensão da relação que se possa ter consigo mesmo. Não há como estar bem com o outro, estando mal consigo mesmo. Na realidade, ninguém se importa realmente com o que os outros dizem, a não ser que aquilo que seja dito coincida com o que predomine no seu diálogo interno. Ou seja, que os outros confirmem o que o sujeito já dizia para si mesmo.

Quando alguém, por acaso esteja requisitando a aprovação de qualquer outra pessoa, na realidade isso parece ser uma falha na capacidade do sujeito em confiar em si próprio. Quando o sujeito não está confiando em si mesmo, ele tende a requisitar a aprovação alheia. Aquele que se importa em demasia com certa crítica do outro, na realidade já vinha se criticando anteriormente. Quando a atitude de autocritica se estende num modelo constante o sujeito tende a reunir em seu entorno, pessoas que o criticam constantemente.
Além disso, pode até ficar obstruído de conseguir se interessar por alguém que, por ventura venha reconhecer qualquer característica virtuosa nele. Por outro lado, quando ele desenvolve o autorrespeito e passa a tratar a si mesmo com consideração e carinho, tende então a reunir em seu convívio, pessoas que também o fazem. Na verdade, não permitirá que o tratem de outra maneira que não seja com respeito.

Freud, S. (1996m). OS INSTINTOS E SUAS VICISSITUDES (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 14). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1915).






Prof. Renato Dias Martino

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sábado, 8 de abril de 2023

O CAMINHO PARA SE TORNAR UM PSICANALISTA - Prof. Renato Dias Martino


Uma pergunta frequente que eu recebo: Qual é o caminho que o sujeito precisa percorrer para se tornar um psicanalista? O caminho é um só. Ele precisa ser percorrido a partir da sua análise pessoal. O sujeito mais propenso a ser um psicanalista bem sucedido é justamente aquele que partiu daí. Aquele sujeito que percebeu uma dor interna, uma dor psíquica, no âmbito emocional e a partir daí procurou uma psicoterapia. Este sujeito é um sujeito propenso a se tornar um bom psicanalista. Aquele que percebeu uma dor psíquica e procurou a psicanálise. Viu na psicanálise um sentido para isso. Dificilmente o sujeito vai conseguir oferecer alguma coisa da qual não se sentiu beneficiado por ela. Então, se o sujeito conseguiu encontrar na psicanálise um sentido para sua dor, muito provavelmente ele conseguirá oferecer isso para o outro, assim que se qualificar para tal. Um psicanalista bem sucedido é aquele que fundamentou a sua formação na sua análise pessoal. Impossível um psicanalista aplicar a psicanálise em qualquer outra pessoa, sem antes ter sido analisado. O que faz o sujeito se tornar um bom psicanalista é ter sido bem psicanalizado. Antes de procurar um instituto, antes de procurar um curso de formação, antes de procurar qualquer tipo de formação no nível intelectual, ou no nível do saber é importante que ele possa se qualificar emocional e afetivamente e isso só poderá acontecer através da sua análise pessoal. A partir daí ele começa a se preparar para receber o conhecimento teórico sobre a psicanálise. O grupo de estudo constante e não simplesmente um curso de formação será necessário para que ele possa se informar dentro dos conceitos, dentro das formulações, dentro dos elementos de psicanálise. Para que ele possa ir nomeando as experiências que ele viveu na sua análise pessoal e a partir daí, ir criando uma relação experiência conceito. Nomeação e experiência vivida. Concomitante com isso, a partir dos casos que ele foi recebendo, dos pacientes que ele foi atendendo, ele carece de um colega, psicanalista mais experiente, para que possa orientá-lo dentro das questões operacionais do processo psicoterapêutico. Questões de honorários de horários e outras questões operacionais é a experiência de supervisão passa a ser necessária. Só a partir deste tripé, do qual o Freud nos orienta lá em 1919, em SOBRE O ESTUDO DA PSICANALISE NAS UNIVERSIDADES, ele nos orienta sobre esse tripé da análise pessoal, da supervisão e do estudo teórico. Este estudo teórico, a saber, seria importante que fosse feito um grupo, porque a partir desse pensamento em grupo esse pensamento é além desta leitura individual, vai trazer para ele enriquecimento de outros olhares sobre aquilo que ele esteja estudando.





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domingo, 26 de março de 2023

PERCEBER, RECONHECER, RESPEITAR, RESPONSABILIZAR-SE, TRANSFORMAR

A maturação emocional-afetiva parece seguir certo encadeamento, dentro de um processo de desenvolvimento que merece um olhar cuidadoso. Essa atenção cuidadosa passa a ser necessária na medida em que a dinâmica nesse processo garante a saúde na ordem desse funcionamento, já que a obstrução do fluxo nesse processo leva ao adoecimento.  Esse processo inclui etapas que não podem ser sobrepostas, obedecendo uma ordem numa certa sequência de evolução. No entanto, pode ser obstruído, através de experiências malsucedidas, nocivas, ou ainda, que tenham sido traumáticas.

Parece que esse processo inicia com a sensação de desconforto, onde o sujeito passa a perceber algo que o incomoda, em seu funcionamento emocional. Isso ocorre através de sentimentos como insegurança, tristeza, medo, que devem se desdobrar em raiva, hostilidade, inveja, assim como outras manifestações da influência de elementos desconfortáveis que possam ser perceptíveis no funcionamento mental. 

A partir da percepção do elemento desconfortante, abre-se a possibilidade de reconhecimento disso que ora o desconforta e tenha sido percebido. Quando se percebe algo, passa a ser possível considerá-lo, através do reconhecimento. A experiência de perceber é sutil, é algo que não requer empenho, muitas vezes, acontece concomitante com o próprio desconforto. Já o reconhecimento é uma atitude, sendo assim, demanda de capacidade em tolerar desconfortos. Só reconhece algo aquele que é capaz de tolerar as características disso que esteja sendo reconhecido. 

Reconhecer não tem a ver com saber sobre, mas se refere a admitir que realmente existe. Isso se dá através da possibilidade de se viver recorrentes experiências de reencontro com esse elemento, na possibilidade de conhecer novamente a cada novo contato com isso que se percebe. A origem da palavra nos orienta nesse sentido, quando o vocábulo reconhecer, vem do latim, RECOGNOSCERE, RE-, que significa “outra vez”, mais COGNOSCERE, que diz respeito a “saber juntos”, formado, por sua vez, por COM, “junto”, mais GNOSCERE, “saber”.

Sendo realizável a firmação do vínculo do reconhecimento, passa então, a ser possível aprender a respeitar isso que se admitiu a existência. No entanto, além de se aprender a respeitar isso que se reconheceu, abre-se a possibilidade de se aprender a respeitar a si mesmo em relação ao que foi reconhecido. A experiência do respeito aqui conceitualizada é aquela que leva o sujeito a dirigir nova atenção a aquilo que se respeita, a cada vez que se depara com isso. Assim como nos norteia a semântica. A palavra respeito tem origem no latim RESPECTUS, que é particípio passado de RESPICERE, “olhar outra vez”. RE-, “de novo”, mais SPECERE, “olhar”. Quando respeitamos alguma coisa é porque estamos sendo capazes de prestar atenção novamente a isso. Sendo assim, reconhecer e respeitar estão intimamente ligados, já que a origem da palavra reconhecer é conhecer novamente e a palavra respeito, por sua vez, significa prestar atenção mais uma vez. 

Bem, quando foi possível conseguir chegar nesse nível do processo, inicia-se uma experiência de expansão. Nesse ponto do processo, o elemento que tenha sido percebido, reconhecido e então respeitado, já não é mais sentido como um intruso, ou um estranho no funcionamento mental. Esse elemento passa a ser um integrante da personalidade. Esse processo aqui descrito, deve adequadamente, levar o nome de acolhimento. Quando passa a ser possível acolher esse elemento alcançado no funcionamento emocional, abre-se a possibilidade de transformação, numa crescente de amadurecimento da consciência sobre isso e em consequência, da consciência de tudo mais em relação a isso. 

Um bom exemplo do que tento propor é o medo, que de início pode ser um fator de potencial obstrução às possibilidades, impedidor das experiências e que dificulta a expansão, quando acolhido nesse processo descrito aqui, pode vir a se transformar num importante integrante da prudência. Aquilo que até então, obstruía, agora orienta com a cautela, para que se tome maior cuidado, trazendo assim, maior chance de uma experiência bem sucedida. Abre-se a possibilidade de transformação de elementos que até então mantiveram-se num modelo enrijecido, cristalizado numa forma obstrutora.

Por outro lado, quanto mais se resiste, quanto maior for a rejeição a integração deste elemento, mais ele irá se potencializar em sua forma enrijecida, mais irá ganhar força obstrutora e por conta disso, dificultará a possibilidade de se fluir a vida naturalmente, de maneira saudável. 

Tratamos aqui do processo fundamental na maturação emocional e afetiva, sendo que o desenvolvimento desse processo carece essencialmente do outro para que seja realizado. Não há como aprender a reconhecer, respeitar e se responsabilizar por si mesmo sem que se possa contar com um vínculo afetivo saudável, que é constituído justamente por reconhecimento, respeito e responsabilização. Estes elementos só podem ser desenvolvidos a partir de um modelo externo, ou seja, somente tendo o outro como referência. Quando se está sendo acolhido pelo outro, não se trata de simplesmente receber passivamente um benefício, mas se tem a oportunidade de se aprender a acolher a si mesmo e posteriormente acolher o próximo.







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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A CONSCIÊNCIA E O VÍNCULO

Antes de discorrer essas breves linhas sobre relacionamento amoroso, seria prudente alertar para o fato de que não existe aqui, qualquer tentativa de se romantizar experiências emocionais-afetivas, já que é possível reconhecer com grande clareza, a real dificuldade do ser humano, no que se refere a renúncia, que possa levar à cooperação, assim como a capacidade de se dedicar ao outro. Inclui-se nessa reflexão o reconhecimento do caráter narcisista, inato no humano.
É bem sabido por esse que aqui escreve, sobre a terrível índole do animal humano e que essa espécie não carrega a capacidade de amar como fator congênito em sua personalidade. Também é de nosso conhecimento o fato de que, se o animal humano não for muito bem nutrido de amor, não conseguirá desenvolver a capacidade de amar a si mesmo e muito menos amará o outro. Inclui-se aqui também, o fato de que toda a dedicação que se possa ter para com o outro é, antes de tudo, um favorecimento para si próprio.
Cada atitude que se tenha de caridade, cuidado e consideração, ao outro, corresponde em essência um crescimento nas esferas mais nobres naquele que se doa. Quando o sujeito se importa com o outro, o maior beneficiado é ele mesmo. No entanto, a dimensão que se expande, quando se dedica ao outro, está muito distante daquelas que se pode compreender por meio do intelecto.
De qualquer maneira, quando tratamos aqui da dedicação ao outro, não estamos nos referindo a atitudes doutrinadas, ou ainda, de tentativas de se fazer algo para conseguir aprovação. Tratamos aqui de certa consequência do desenvolvimento da maturação emocional e afetiva.
Não estamos propondo aqui ser generoso com o outro para que assim, possamos crescer emocionalmente, afetivamente e espiritualmente, mas justamente o contrário; quando evoluímos é que passamos a sermos capazes de renunciar do “eu”, para então, nos doarmos ao outro.
Amadurecemos afetivamente, quando somos capazes de trocar o “eu” pelo “nós”. Nos tornamos pessoas melhores conforme amadurecemos emocionalmente. Entretanto, não se amadurece por se escolher amadurecer. Ninguém decide, ou escolhe se tornar alguém melhor. Essa ordem de amadurecimento ocorre conforme a configuração do ambiente emocional possa favorecê-lo e isso parece estar diretamente ligado ao nível de consciência. O termo consciência, quando submetido às experiências emocionais e afetivas, parecem se aproximar muito de conceitos como os de compaixão e de amor. No entanto, imperiosamente dentro da possibilidade de se viver um amor verdadeiro, ou seja, o amor que esteja irrigado de sinceridade. Aquele amor que possa nutrir o outro sem que empobreça o eu. Aprender a amar parece ser a única forma de se expandir a real consciência. Por mais que possamos encontrar propostas de leitura de textos, exercícios mentais, experiências espirituais e até mesmo o uso de substâncias retiradas da natureza, ou ainda que sejam fabricadas em laboratório, que prometam a ampliação da capacidade de consciência, não me parece possível qualquer outra forma dessa ordem de expansão, que não seja realizada através de um vínculo afetivo saudável.
O acordo que se possa firmar com a realidade só pode ser realizado a partir do vínculo saudável. A vida se propaga através dos vínculos. É somente pelo vínculo que passa a ser possível nutrir o processo de reconhecimento, respeito e responsabilização quanto a realidade. Esse processo do acordo com a realidade deve ocorrer a partir da capacidade de amá-la apesar do desconforto que ela possa gerar no seu reconhecimento. A maior manifestação do acordo com a realidade é a compaixão. Somente a partir de um vínculo saudável que seja estabelecido com o outro, que se aprende a amar esta realidade, que existe independente das expectativas. Ora, é justamente a partir deste envolvimento com a realidade, que ocorre independente do que se gostaria que ela fosse, é que se vai ampliando a consciência. Não tratamos aqui simplesmente de se ter ciência dos fatos, naquilo que se pode saber, mas da consciência, naquilo que é possível compartilhar com o outro: a com – ciência. 



segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

IDENTIFICAÇÃO OU AFINIDADE

Dentre os fatores que propiciam a ligação e também são responsáveis por manter vínculos afetivos, dois deles carecem de atenção cuidadosa, já que correm o risco de serem confundidos e até mesmo tratados como unívocos. Popularmente, o termo identificação é frequentemente usado como um sinônimo de afinidade, no entanto, quando são submetidos a experiência afetiva é então possível reconhecer grande diferença entre os dois conceitos.

Dentro das formulações psicanalíticas, a ligação por identificação é a forma mais primitiva de relação com o outro além do eu. O conceito de identificação vem do idem, que quer dizer “o mesmo” e que também é a origem da palavra “idêntico”. Sigmund Freud (1856 - 1939) nos orientou sobre isso em 1921, no seu célebre texto PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANÁLISE DO EGO. "A identificação é conhecida pela psicanálise como sendo a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa." (Freud, 1921) Parece ser a única maneira que o bebê encontra para lidar com a quebra da ilusão de onipotência, na introdução da realidade de que existe alguém além dele. 

A ligação por identificação deve ser uma forma transitória de se relacionar com o outro, durante o período do desenvolvimento psíquico denominado narcisismo primário e que sucede o autoerotismo.  No autoerotismo, o bebê não é capaz de reconhecer a existência do outro, por mais que seja justamente o outro que provê e da manutenção à sua vida. Durante o período do autoerotismo, o bebê se auto satisfaz nas demandas libidinais, mesmo que seja através da mãe, da qual não é capaz de reconhecer como sendo outra pessoa. “Mostramos em outro ponto que a identificação é uma etapa preliminar da escolha objetal, que é a primeira forma - e uma forma expressa de maneira ambivalente - pela qual o ego escolhe um objeto.” (Freud, 1917) O narcisismo primário ocorre numa etapa que antecede a capacitação para a ligação objetal, que carece de maior tolerância às frustrações. Na ligação objetal é possível reconhecer o outro, efetivamente como sendo realmente outro, independente da expectativa do bebê. 

Em SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, Freud traz a proposta de que: "As pulsões autoeróticas, contudo, estão ali desde o início, sendo, portanto, necessário que algo seja adicionado ao autoerotismo – uma nova ação psíquica – a fim de provocar o narcisismo”. (Freud, 1914) Sendo assim, ao perceber com maior acuidade a presença da mãe, o autoerotismo vai se dissolvendo e dando lugar ao narcisismo primário, contudo, ainda reconhecendo o outro sem conseguir diferenciá-lo de si mesmo com tanta clareza. Aí se dá a ligação por identificação. Uma fase caótica, onde o ‘eu’ se confunde com o outro. Em conformidade com a semântica da palavra, essa é uma etapa do desenvolvimento emocional-afetivo que predomina a confusão. O termo confusão tem origem no latim, CONFUNDERE, “misturar”, formada por COM-, “junto”, mais FUNDERE, “derramar, fazer fluir”. Sendo assim, na ligação por identificação, o sujeito se mistura com o outro, onde uma personalidade tende a anular a outra, em detrimento da noção de limite.

Quando o sujeito, por algum motivo, é forçado a se afastar e ficar privado da presença sensorial do objeto do qual mantinha uma ligação por identificação, ocorre um quadro de empobrecimento da suposta autoestima, que se mantivera até então. Ocorre assim uma fragmentação na personalidade, que sem o objeto, não consegue se sustentar em sua integração. Isso acontece, pois o sujeito ainda não teve oportunidades favoráveis para que pudesse aprender a viver sem o objeto ora perdido. Em 1917, Freud denominou esse modelo de melancolia, que ocorre na impossibilidade de se viver o processo do luto. Esse estado mental ocorre quando não houve tempo e condições que propiciassem o desenvolvimento da relação por identificação para o modelo da ligação objetal. Nesse segundo modelo, existe maior capacidade para reconhecimento do outro em suas particularidades e maior desenvolvimento na autonomia do sujeito.

A partir das propostas de Freud, quanto à ligação por identificação, associada ao mecanismo de projeção, também proposto pelo pai da psicanálise, Melanie Klein (1882 - 1960), propõe, em seu texto NOTAS SOBRE ALGUNS MECANISMOS ESQUIZÓIDES, o mecanismo de identificação por projeção. Para Freud, com o mecanismo de defesa da projeção, busca-se a origem do desprazer, no mundo exterior, já que o sujeito não suporta reconhecer como próprio. “Uma percepção interna é suprimida e, ao invés, seu conteúdo, após sofrer certo tipo de deformação, ingressa na consciência sob a forma de percepção externa.”  (Freud, 1911) Freud propõe que a projeção é uma defesa de origem primitiva, peculiar dos casos de paranoia, porém, também está presente no funcionamento saudável, assim como ocorre com a ligação por identificação. A partir daí, Klein expande a ideia para desenvolver o conceito de identificação projetiva. “Consiste na fantasia primitiva de expulsão de substâncias perigosas do self para dentro da mãe.” (Klein, 1946)  

Junto com as evacuações, partes escindidas do ego são também projetadas na mãe ou, para dentro da mãe. Isso implica num empobrecimento do eu. 

No texto SOBRE A IDENTIFICAÇÃO, Klein expande sua proposta. "Identificação por projeção implica uma combinação de excisão de partes do self e da projeção dessas em (ou melhor, para dentro de) outra pessoa.” (Klein, 1955) Com isso, o outro adquire características do sujeito, potencializando a fusão. "O objeto torna-se em alguma medida um representante do ego e esses processos são, a meu ver, a base para a identificação por projeção ou 'identificação projetiva'." (Klein, 1952).

Enquanto que para Melanie Klein, a identificação projetiva incidi num mecanismo evacuatório defensivo, para Wilfred Bion (1897 – 1979) em APRENDENDO DA EXPERIÊNCIA, identificação projetiva é a forma mais primitiva de comunicação do bebê na relação com a mãe. Bion chamou de rêverie, uma característica da função-alfa da maternágem que deve dar conta de conter e transformar os conteúdos projetados pelo bebê. 

“Rêverie, usado nessa estrita acepção, é aquele estado de mente que está aberto à recepção de quaisquer “objetos” provenientes do objeto amado e que, portanto, é capaz de receber as identificações projetivas da criança, independentemente de a criança senti-las como boas ou más.” (Bion, 1962)

A mãe, quando continente, é capaz de rêverie, convertendo elementos-beta (caóticos, desordenados, desconectados) em elementos-alfa (digeríveis, integráveis, pensáveis) pela função-alfa. “Em suma, rêverie é um fator da função-alfa da mãe.” (Bion, 1962) Para a mãe, propiciar função-alfa para o bebê, ou ainda, para um psicoterapeuta se dispor a esse modelo com seus pacientes é provavelmente possível, no entanto, nas relações corriqueiras do cotidiano, entre adultos, passa a ser inviável. 

Hanna Segal (1918 - 2011), psicanalista seguidora de Melanie Klein, chama a atenção para a tentativa de controle ocorrente na experiência da fusão com o objeto. “Na identificação projetiva, partes do eu (self) e objetos internos são expelidos (split off) e projetados no objeto externo, o qual então, se torna possuído e controlado pelas partes projetadas, identificando-se com elas.” (Segal, 1964) Portanto, metaforicamente, nesse modelo de vínculo, é como se uma só alma habitasse dois corpos. Um prolongamento da configuração da fusão umbilical, ocorrente na vida intrauterina. 

Na incapacidade de elaborar o luto, fica impossibilitado o processo de simbolização do objeto perdido. Assim, predomina o que Hanna Segal chama de equação simbólica, onde o símbolo se iguala ao objeto original, que despertou a carga afetiva. O símbolo (interno) se confunde, equalizando-se com o objeto no nível sensorial (externo) e são percebidos idênticos a ele. A distinção entre o eu e o outro, fica obscurecida. “Então, já que uma parte do ego é confundida com o objeto, o símbolo – que é uma criação e função do ego – torna-se, por sua vez, confundido com o objeto que é simbolizado.” (Segal, 1983).

Mesmo na vida adulta, cada início de relação, com algo, ou alguém novo, estará, inevitavelmente, repleta de características de identificação. Nos aproximamos das pessoas e coisas do mundo, muito mais pelo que projetamos nelas, do que por características delas próprias. No entanto, para que se configure num vínculo saudável é imperioso que as características de identificação possam ir se dissolvendo, dando lugar para formas mais nobres e amadurecidas de relação. Quando a ligação por identificação se estende para além de uma configuração transitória, se instalando como fixação, passa então a manifestar características ambivalentes, gerando confusão, fusão com o outro, logo arma-se um ambiente de inveja, rivalidade e disputa. Portanto, aquilo que até então seria fator de ligação, torna-se em elemento de conflito.

Diferente da ligação por identificação, onde ocorre a equação simbólica, num vínculo por afinidade, ocorre o que poderíamos chamar de analogia simbólica, que abrange igualdades, mas também inclui diferenciações. Contudo, para que possa haver um vínculo por afinidade é necessário que se respeite o limite das partes. Assim como na semântica, a palavra afinidade vem do latim AFFINIS, “vizinho, contíguo”, de FINIS, “fronteira, limite, fim”. Para que haja afinidade é imperioso que as partes sejam capazes de reconhecer e respeitar seus limites, já que o limite é o que permite que duas coisas existam sem que uma anule a outra, numa fusão (confusão) com ela. 

Quando a ligação por identificação não está na ordem do transitório e se instala como fixação, não há possibilidade de crescimento, pois dois iguais não acrescentam nada. O ambiente de crescimento passa a existir quando, num clima de concórdia, as diferenças se perfazem, enriquecendo cada parte. Assim como o músico, quando afina as diferentes cordas do seu instrumento, colocando-as num acordo, mesmo cada uma soando notas diferentes, juntas promovem harmonia. Quanto maior for a fidedignidade de uma corda em relação sua própria nota, mais integrada ela estará com a outra, numa harmonização do todo. A saber, a palavra acordo vem do latim accordare, “estar em harmonia”, a junção ad, que significa “a, para”, mais cor, “coração”. Sendo assim, estar de acordo é, literalmente, dar ao coração. Tratamos de amor verdadeiro, que assim como na afinidade, inclui semelhanças, mas também abrange diferenças.

A partir da analogia da afinação do instrumento, passa ser possível nos aprofundarmos e expandirmos nas formulações religiosas, onde, no evangelho segundo Mateus, Jesus propõe: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o teu entendimento. Este é maior e o primeiro mandamento. O Segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os profetas dependem destes dois mandamentos.” (Mt. 22, 37-30). Ora, as cordas do instrumento devem manter um acordo, afinadas conforme certa tonalidade em comum, que assim, passa a manter a harmonia entre elas. 

Fica enriquecido o que quer que seja a realizado na relação por afinidade, assim como o próprio vínculo que se enriquece a cada realização. Num vínculo de afinidade, se mantém a identidade das partes, que assim podem se complementar, já que uma traz aquilo que não há na outra. Isso aponta para um modelo mais amadurecido de relação. No vínculo por afinidade não existe espaço para rivalidade, já que as diferenças evidentes nas partes se complementam, num modelo de casamento, que de forma profícua, tende a gerar o novo. 

Por outro vértice, o convívio em ambientes de vínculos pobres ou ausentes de afinidade, quando se estende por longos períodos, pode se tornar nocivo ao ponto de se adoecer no âmbito emocional. Quando se é submetido a coexistência por tempo prolongado num formato de vínculo que não exista afinidade, pode haver desgaste emocional e empobrecimento afetivo. Isso ocorre, pois nessa situação, o aparelho psíquico carece de muita energia para gerar defesas. Passa a haver grande demanda para alimentar o falso eu, que se ergue, tentando proteger o eu verdadeiro. O sujeito se vê obrigado a dissimular para evitar conflitos, já que, sem afinidade o ambiente de concórdia fica sempre ameaçado. A energia psíquica que, em uma situação favorável, poderia ser investida em realizações e no cultivo de vínculos saudáveis, fica então comprometida com defesas. Isso empobrece o funcionamento psíquico, desestrutura a possibilidade de um pensar profícuo e obstrui o funcionamento emocional e afetivo saudável.

BION, W. R. O APRENDER COM A EXPERIÊNCIA. 1962 - Rio de Janeiro: Imago, 1991.

FREUD, S. (1911). O CASO SCHREBER: NOTAS PSICANALÍTICAS SOBRE UM RELATO AUTOBIOGRÁFICO DE UM CASO DE PARANÓIA (dementia paranoides). Rio de Janeiro: Imago, 1998.

______. (1914). SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO. In Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

______. (1917). LUTO E MELANCOLIA. In Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

________. (1921). PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANÁLISE DO EGO. In Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

KLEIN, M. (1946). NOTAS SOBRE ALGUNS MECANISMOS ESQUIZÓIDES. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) / Melanie Klein: tradução da 4 ed. inglesa; Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores. — Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.

_______. (1955). SOBRE A IDENTIFICAÇÃO. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) / Melanie Klein: tradução da 4 ed. inglesa; Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores. — Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.

_______. (1952). ALGUMAS CONCLUSÕES TEÓRICAS RELATIVAS À VIDA EMOCIONAL DO BEBÊ. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) / Melanie Klein: tradução da 4 ed. inglesa; Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores. — Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.

SEGAL, H. (1964) INTRODUÇÃO À OBRA DE MELANIE KLEIN, Rio de Janeiro: Imago,1975.

_________. (1982). Notas a respeito da formação de símbolos. In H. Segal. A obra de Hanna Segal: uma abordagem kleiniana à prática clínica (E. Nick, trad.). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1957).