domingo, 2 de julho de 2023

REFLEXÕES SOBRE O EGO - Prof. Renato Dias Martino


É a ideia de ego segundo a psicanálise e perpassando por aquilo que eu consegui absorver da psicanálise. Dois pensadores me orientam enquanto ideia de ego. Primeiro é o Freud que é aquele que iniciou essa formulação chamada psicanálise, o segundo nome é Melanie Klein que trouxe uma possibilidade de expansão no entendimento do que a gente chama de ego. Vou tentar sintetizar, vou tentar ser sucinto, apesar de ser um tema extremamente expansivo. Cada coisa que você fala sobre o ego vai te suscitar mais algumas outras. Freud trouxe a ideia de ego como sendo o centro do aparelho psíquico estrutural. Ele tem uma visão estrutural do aparelho psíquico e o ego seria o centro disso, seria o núcleo disso e vai trazer duas outras instâncias estruturais para a gente pensar ele vai trazer o “id” que é fonte das necessidades, a fonte da libido, a fonte daquilo que é mais primitivo. E o superego, que seria um “ideal de eu”, ou seria alguma coisa que o sujeito deveria ser. No meio dessas duas coisas, estaria o ego. Para o Freud, o ego seria uma transformação do id. Cada experiência do id que pudesse ser passada pelo processo secundário, que ele vai chamar de “princípio da realidade”, ou seja, da possibilidade de filtrar esta necessidade, essa vontade do id, pela realidade, passaria ser ego, dentro da possibilidade do desenvolvimento da tolerância às frustrações, aquilo que um dia foi id, passou a ser ego. Para Freud, não existe ego no início da vida, já para Melanie Klein, existe um ego, por mais que seja um ego ínfimo, mais já existe ali um protótipo do que a gente vai chamar de ego. Para Melanie Klein, o ego seria alimentado por experiências do id que puderam ser passadas pelo teste da realidade. Então, existe essa diferença numa precocidade no que é ego. Para Melanie Klein, pelo fato da Melanie Klein ter sido mãe, ela teve experiências com o bebê de uma maneira que o Freud não teve. Então, talvez ela tenha maior propriedade para dizer sobre isso do que o Freud. Segundo um ponto de vista simplificado, ou do senso comum, do que é falado aí, de maneira coloquial, ego seria alguma coisa da qual nós precisaríamos evitar, para psicanálise não, para psicanálise ego é a parte organizada da mente e a parte organizadora da mente. Não se cria vínculos que não seja via ego. Ego é quase um sinônimo de autoestima, claro que salvo algumas características aí, que vão destoar de uma coisa para outra. No entanto, a base é assim, o quanto eu sou capaz de me amar a mim mesmo, reconhecer a mim mesmo, confiar em mim mesmo, acreditarem em mim mesmo. Se a gente pudesse acessar aí, as formulações religiosas, por exemplo, dentro do cristianismo, Cristo coloca dois grandes mandamentos, não é? “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao outro como a ti mesmo.” Se isso é verdade, eu preciso amar a mim mesmo, para que eu possa amar o outro, logo, eu preciso que meu ego esteja muito bem estruturado, para que eu possa estender esse amor ao outro. O sujeito que não tem um ego bem estruturado, não é capaz de amar o outro. E aí, o primeiro mandamento, segundo o grande filósofo Jesus Cristo, “Amar a Deus sobre todas as coisas”, a gente pode substituir a palavra Deus por realidade, realidade última, o todo, o todo poderoso, que é justamente a realidade da qual o ego terá que se submeter para que possa ser estruturado. quando ego está bem estruturado, é porque ele conseguiu passar de uma forma de ligação por identificação, onde o eu e o outro não se diferenciam, para uma outra forma de relacionamento que o Freud vai chamar de ligação objetal, onde o outro é reconhecido como outro, efetivamente e não como parte do meu desejo, ou parte de mim mesmo. Entender o ego, e isso sobretudo dentro da contribuição da Melanie Klein 1935, e ela traz um texto muito importante, que ela vai ela vai falar sobre a importância dos símbolos na estruturação do ego, o ego segundo a psicanálise é a parte do aparelho psíquico que é construído e se nutre a partir da possibilidade de simbolização. O que é simbolização? São experiências das quais você consegue internalizar a imagem do outro e a partir daí, tolerar a ausência física do outro. Então, o ego é constituído por experiências de desapego, por experiências de luto, por experiências bem sucedidas de perdas. Quanto maior for a capacidade do sujeito de se desapegar, maior será a estruturação do seu ego e vice-versa. O ego se nutre disso. Quanto mais bem estruturado ego for, mais o sujeito vai tolerar frustrações, vai ser capaz de viver lutos e vai ser capaz de se desapegar. Diferente do senso comum, que traz a ideia de que o ego é a central de alguma coisa extremamente possessiva e não é isso. O ego é uma parte constituinte da personalidade do sujeito. O ego passa a ser um problema quando ele está desintegrado, quando ele está desestruturado, ou quando ele é imaturo. Quando o ego está dentro dessas situações de desintegração, de desestruturação, ou de imaturidade, ele não consegue te responsabilizar por si mesmo e ele acaba sendo refém, tanto das vontades do id, quanto das ordens ou superego, do “ideal de eu”. Eu costumo chamar o ego de “estar sendo”. O teu ego é aquilo que você está sendo e quando você não confia naquilo que você está sendo, o que vai guiar a sua vida é o “deveria ser” que é justamente o “ideal de eu”, ou superego. O ego bem estruturado e nutrido é a base de um bom funcionamento. Eu só posso amar o outro se eu tiver amando a mim mesmo. Agora, é diferente de um ego inflado. O ego inflado, a gente já vai entrar numa outra perspectiva. Um outro pensador muito importante dentro da psicanálise que é o Winnicott, traz a ideia do falso-eu. Então, o ego inflado tem a predominância, preponderância de um falso-eu. Ele existe para impressionar o outro, para satisfazer o outro, para satisfazer o desejo do outro, para que eu possa ser desejado pelo outro. O sujeito que tem um ego muito bem estruturado é um sujeito que é capaz de amar, que é capaz de se doar, que é capaz de compaixão. O que é diferente de um ego inflado, onde o sujeito não tem essas capacidades desenvolvida. Sujeito por exemplo, que tem características egoístas, na realidade, quem comanda ele não é o ego é o super ego, é o “ideal de eu”, que exige que ele tenha isso, tenha aquilo, faça isso, faça aquilo, para que ele possa provar para ele e para os outros que ele é superior e isso não é ego isso é super ego, isso é “ideal de eu”. O egoísta não é regido pelo seu ego, o egoísta não é capaz de se responsabilizar pelo seu ego, mas um egoísta é guiado pelo seu “ideal de eu”. A questão não é se o ego é bom ou ruim, é ou não é isso ou aquilo, o ego é a cabeça, o ego é a cabeça do corpo. É a mesma coisa que você dizer assim: olha a cabeça é ruim? Não, a cabeça não é ruim. Se a cabeça estiver, por exemplo mal cuidada, ela vai apresentar características ruins, agora, o ego é uma parte da estrutura emocional-afetiva, é uma parte da personalidade. Ela não é ruim, nem boa, ela é uma parte daquilo. O problema é qual é qualidade desta parte. Se ela estiver sendo desestruturada o sujeito vai ter características egoístas, agora, se ela tiver bem estruturada esta parte vai ser muito boa. É importante a gente pensar na ordem natural das coisas. A cultura é criada por pessoas egoístas, que por sua vez, foram criadas dentro de lares desestruturados. A ordem natural da coisa é a seguinte: o sujeito não teve o amor necessário dos pais, não teve atenção necessária dos pais, não teve a função materna e a função paterna cumpridas suficientemente bem, ele se torna um sujeito egoísta e este sujeito egoísta vai criar uma cultura egoísta. Não é cultura que transforma o sujeito em um egoísta é o sujeito egoísta que cria uma cultura egoísta. A questão central é quando o sujeito tem uma estruturação desse ego deficitária. Quando essa estruturação foi comprometida muito precocemente, então ele passa a desenvolver uma personalidade egoísta. Passa a desenvolver uma personalidade onde o outro não importa para ele, o que importa é o eu, porque na realidade, na primeira infância era só o outro que importava e não ele. Então, se ele não teve na primeira infância, nos primeiros anos de vida, um olhar que pudesse nutrir o narcisismo primário. Um outro conceito freudiano. Que ele pudesse ser reconhecido nesse mundo como uma coisa mais importante para os pais. Se ele não pode ter isso, a estrutura do ego dele passa a ser comprometida e ele vai desenvolver uma característica egoísta e que dificilmente... Só dentro de uma possibilidade de experiências muito bem sucedidas, ele vai conseguir reparar isso daí. Ele vai conseguir trazer uma possibilidade de restauração no funcionamento saudável da mente. A estruturação do ego independe da capacidade cognitiva. Nós não estamos falando de intelectualidade, nós não estamos falando do nível do saber, nós não estamos falando do conhecimento, nós estamos falando aqui de ser capaz de lidar com as suas emoções e ser capaz de se ligar afetivamente ao outro. Isso não tem a ver com intelectualidade, não tem a ver com conhecimento, não tem a ver com saber, tem a ver com estar sendo. Esta sociedade contemporânea, de pessoas com egos desnutridos desestruturados, empobrecidos, tem o prejuízo de gerar exemplares da espécie humana, que vão estar esparramados, desde o sujeito que rouba o seu celular na rua, até o sujeito que ocupa um cargo muito alto, como por exemplo a presidência da república. Sujeito completamente desestruturado emocionalmente, afetivamente, mas que conseguiu um poder por conta de conhecimentos. Galgar uma posição, às vezes de doutor, ou qualquer outra coisa, mas que tem um ego extremamente desestruturado e não tem a menor capacidade de se doar ao outro, ou de compaixão. Uma sociedade formada por sujeitos que tem seus egos extremamente fragilizados, extremamente mal estruturados, desestruturado, torna uma sociedade de pessoas intolerantes a frustração e ele acaba se tornando um sujeito melindroso, o sujeito que qualquer coisa ofende. E hoje, nós vivemos numa sociedade onde o sujeito que manifesta estar sendo ofendido, ele ganha poder e ele se agrupa com pessoas que também se sentem ofendidas. E aí, o sujeito que supostamente possa ter ofendido vai ser cancelado socialmente, judicialmente prejudicado, ou o punido e por aí afora... O egoísta é um sujeito que tem o ego fragilizado. O egoísta é um sujeito que tem o ego ferido. Quando você tem uma parte do corpo físico ferido, machucado, esta parte passa a ser a parte mais importante na sua atenção. Então, se você tem a mão machucada, ninguém pode tocar nessa tua mão que você faz: Aí! Não mexe na minha mão! Então, o egoísta é da mesma forma. Ele tem o ego machucado, ele tem o ego fragilizado, ele tem o ego desestruturado e a partir daí, o ego para ele á a coisa mais importante e ninguém pode tocar nesse ego, porque ele vai ficar bravo. O ser humano funciona de maneira narcisista. O narcisismo é necessário. O sujeito precisa ter perpassado todas as experiências por si mesmo. Um sujeito precisa ser capaz de amar a si mesmo e respeitar a si mesmo, de confiar em si mesmo, para que ele possa estender isso ao outro. O narcisismo é a base do funcionamento do ser humano e não tem como fugir disso. Um sujeito que não está de bem consigo mesmo, ele não está de bem com ninguém mais. Estamos configurados numa sociedade de egos desestruturados. Porque a contemporaneidade tem a marca de egos empobrecidos, desestruturados, desnutridos? Qual é a causa disso? A causa disso é a incapacidade dos pais de se doarem aos filhos. A incapacidade dos pais de participarem da estruturação do ego desses filhos. A incapacidade desses pais de cuidarem dos seus filhos e por conta disso, terceirizarem o cuidado desse filho a desconhecidos. O ego não se estrutura e vai crescer um sujeito egoísta, um sujeito narcisista, um sujeito que não é capaz de se doar ao outro, porque nunca se doaram a ele. Esta sociedade contemporânea é marcada com pessoas que não tiveram os cuidados necessários na sua primeira infância e cresceram adultos extremamente incapazes de amar, de compaixão de doação. A partir do processo psicoterapêutico, a partir do processo psicanalítico, o sujeito vai viver experiências. E aí, a gente vai chamar isso de experiências emocionais-afetivas que possam promover, ou propiciar reparações no ego que esteja fragmentado, ou esteja desestruturado. Experiências emocionais-afetivas reparadoras vão trazer para o sujeito a possibilidade de restauração do ego, de nutrição do ego, para que ele possa restituir, ou muitas vezes até iniciar um processo de autoestima, de autoamor, de amor próprio, de autoconfiança, de possibilidade de acreditar em si mesmo. O processo psicoterapêutico é, por excelência, uma possibilidade de estruturação do ego, de reestruturação do ego. Quando a gente fala de uma psicanálise contemporânea, a gente está falando, muito mais de uma psicanálise dos vínculos, do que do sujeito. Não praticamos hoje a análise do sujeito, mas nós praticamos hoje a análise do vínculo estabelecido entre analista e paciente. A partir deste vínculo, vai ser criado um novo modelo de relacionamento, que o sujeito, primeiro estabelece com um analista, depois ele projeta isso como um vínculo dele para ele mesmo e a partir daí, ele vai poder estender este vínculo às outras pessoas do seu convívio. O modelo de vínculo que é pautado agora, pelo amor, pelo carinho, pelo acolhimento, pela compaixão, pelo que muitas vezes o paciente não conseguiu desenvolver. Não acredito em possibilidades de reparação, de experiências emocionais e afetivas reparadoras que não tenha o outro, que não incluam vínculo com o outro. A experiência emocional-afetiva reparadora é essencialmente feita através do acolhimento do outro. Eu só aprendo a me auto acolher, a partir da experiência de ter sido acolhido pelo outro e aí, entra uma necessidade enorme de humildade do sujeito de solicitar ajuda e se colocar à disposição de ser acolhido pelo outro. A psicanálise da qual estou dizendo aqui, o processo psicoterapêutico do qual estou tratando aqui, tem a base no acolhimento. Acolher o material trazido pelo paciente, sem submeter aos julgamentos, às críticas, ou por outro lado, bajulações, elogios, ou qualquer coisa nesse sentido. Não só o processo psicoterapêutico pode trazer a possibilidade de experiências emocionais-afetivas reparadoras. Isso é muito importante. Eu sendo psicanalista vou dizer para você que o processo psicoterapêutico é por excelência um recurso para reestruturação do ego, para a estruturação do ego, no entanto, qualquer que seja o vínculo saudável, pode trazer essa possibilidade. Não só o processo psicoterapêutico, mas qualquer que seja o vínculo que possa incluir um sujeito que acolhe o outro. O sujeito que está pronto, capaz de acolher e um sujeito que está disposto a ser acolhido. Esta experiência é emocional e afetivamente reparadora. É porque, senão, a gente começa a falar que é só psicanálise que pode fazer isso e é uma mentira isso. Não é! Eu estou dizendo isso, porque eu sou psicanalista, trabalho como psicanalista há mais de vinte anos e tenho histórias belíssimas para te contar de processos psicoterapêuticos que forneceram essa experiência reparadora, agora, não é só o processo psicoterapêutico que traz isso.







Prof. Renato Dias Martino

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domingo, 4 de junho de 2023

SOBRE PERCEBER, RECONHECER, RESPEITAR, RESPONSABILIZAR-SE PARA TRANSFORMAR

Cinco conceitos presentes no desenvolvimento emocional afetivo. Desenvolvimento, maturação, ou ainda a possibilidade de reparação do funcionamento emocional-afetivo. Lembrar que eu falo funcionamento emocional-afetivo? Porque, quando a gente fala emocional a gente está falando daquela experiência de algo que está dentro e vai para fora. “Moção” quer dizer movimento e “E” quer dizer para fora. E afetivo é aquilo que implica a relação com o outro. AFACERE. “A” em direção a e “FACERE” é fazer. Fazer alguma coisa em direção a. Então, temos aí, uma emoção que encontra um afeto. Quando a gente está falando de desenvolvimento, maturação emocional-afetiva, ou ainda, reparação emocional-afetiva quando a gente está falando desse tipo de experiência, nessa ordem de experiência, eu preciso impreterivelmente do outro. Não existe a possibilidade de desenvolvimento, de maturação, ou de reparação no funcionamento emocional-afetivo, que não tenha a implicação do outro. Ou seja, o estabelecimento do vínculo. Então, todas as vezes que a gente estiver falando de formulações psicanalíticas, nós temos implicado aquilo que lá em 1963, Bion sugeriu como primeiro elemento de psicanálise. Lá em ELEMENTOS DE PSICANÁLISE. Qual é o primeiro elemento de psicanálise para o Bion? É a relação entre continente e contido. É muito simples isso: algo passa a ser contido e algo que passa a conter. Então, precisa haver isso que aqui nós chamamos de acolhimento. Algo que está propício a acolher e algo que está disposto a ser acolhido. Quando a gente tem esse encontro, passa a ser possível a expansão, a maturação desenvolvimento, ou ainda, a reparação, a restauração, a entrada do outro é preponderante no funcionamento emocional-afetivo. Tanto para as experiências bem-sucedidas, quanto mal sucedidas é o outro que traz a possibilidade do desenvolvimento. É o outro que traz a possibilidade da reparação, mas também é o outro que vem para estragar tudo. Quando eu não cuido morre, quando eu cuido mal cuidado, volta-se contra mim, agora, quando eu cuido bem, cuidado com o amor, com dedicação, com sinceridade, aí vira minha esperança. Então, nós temos aqui uma analogia muito interessante, que é da semente e do solo fértil. Então, todos os elementos que nós vamos ver aqui; um por um, carecem de um olhar dentro dessa analogia da germinação. Da possibilidade de uma semente germinar. Então, nós não vamos estar falando aqui, em nenhum momento, do “deveria ser assim”, tem que ser assim, mas nós vamos olhar para isso, reconhecer isso, como se reconhece uma planta que vai germinando. Ninguém está olhando você precisa fazer isso, tem que fazer assim. Você não tem que, você olha para semente, você não fala para ela: “agora você tem que fazer isso”. Se ela encontrar um solo fértil, vai acontecer, se ela não encontrar, não vai acontecer e o desenvolvimento emocional é assim também. Não tem que ser, vai ser, se houver todo o ambiente saudável e próspero, profícuo o bastante para que isso possa acontecer. Então, alguns elementos que vão se suceder, dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, sendo que não existe a possibilidade de sobreposição de um elemento ao outro. Existe um processo que respeita um fluxo e ao mesmo tempo não existe retrocesso. Pode haver sim, uma obstrução. Eu diria até que, na maioria das vezes há uma obstrução, mas retrocesso não. Não existe retrocesso dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, por isso que eu sou categórico em dizer que a palavra “regressão”, “regredir”, é completamente inadequada dentro das formulações psicanalíticas. Não existe regressão. Existe fixação, por conta de uma obstrução, mas não regressão. “P 3R T” O primeiro é o “P” – PERCEPÇÃO. Perceber algo no funcionamento emocional afetivo. Este é o ponto de partida o sujeito percebe algo e este algo que ele percebe é impreterivelmente um desconforto. Todo o crescimento, toda experiência, todo e qualquer movimento do aparelho emocional-afetivo, parte de um desconforto. Não existe qualquer experiência emocional-afetiva que não tenha partido do meu desconforto. O Freud chamava isso de libido, pulsão. A libido, quando se movimenta, ela tem a tendência de pulsão e isso é sentido pelo corpo como um desconforto. Antes do Freud, o Schopenhauer já chamava isso aí de vontade, vontade de viver. A vontade de viver é um desconforto. Antes do Schopenhauer, Kant já chamava isso aí de “coisa em si”. A “coisa em si” é desconfortável, incognoscível, eu não posso conhecer isso, eu só sinto como um desconforto. Esse desconforto pode ser sentido como uma insegurança, como um medo, tristeza... Esses desconfortos vão se desdobrar em raiva, hostilidade, inveja e um monte de coisa que a gente vai chamar de indesejável. Por isso, a percepção tem um perigo de obstrução, porque o sujeito sente isso e ele quer acabar com isso. Você sente uma coisa ruim, você quer acabar com aquilo, ali você quer controlar aquilo, você quer cessar aquilo e este é o grande problema. Porque aí, você aborta o processo. Aí você obstruir processo. Muitas vezes, o sujeito percebe alguma coisa, percebe um desconforto no funcionamento-emocional dele e ele corre direto para o psiquiatra, para que ele possa ser medicado, para ele parar de sentir aquilo. Mas é aquilo ali que vai fazer com que ele se desenvolva emocionalmente. O sujeito perde alguma coisa e ao invés dele passar pelo processo do luto, ele sente entretecimento por conta da perda e ele já vai se medica e acabou. Agora, não é só o medicamento. O medicamento, talvez seja a mais complicada de todas, a mais difícil, porque, quem te dá esse medicamento é um doutor. E aí, não tem como discutir com o doutor, né? E obstrui esse processo, abortar o processo, logo de início de percepção. Um outro, de outras formas, você pode com uso de algo drogas, abusos de compras, compulsão de compras, compulsão alimentar, tem um monte de jeitos do sujeito desviar obstruir o processo de desenvolvimento emocional dele no comecinho que é a percepção da dor. Principalmente se ele estiver sozinho, principalmente se ele não puder contar com o primeiro elemento de psicanálise, que é continente<>contido. Principalmente se ele não puder ser acolhido pelo outro, principalmente se essa sementinha não encontrar um solo fértil para germinar. Aí vai abortar... Mas não abortando e conseguindo tolerar o desconforto da percepção, ele passa para a próxima fase do processo, que é o RECONHECIMENTO, que é o primeiro “R” dos 3 erres. “P 3R T” Quando o sujeito admite realmente que ele sente aquilo e que aquilo ali está nele. Eu reconheço isso, eu não só sinto isso, eu não só percebo isso, mas eu reconheço que isso está ali, eu reconheço isso e reconheço que isso está em mim. Porque eu posso pensar que está no outro, eu posso projetar isso no outro. Não, mas eu admito a existência disso e admito que isso está em mim. Aí, também pode ser obstruir, se ele estiver no reconhecimento, ele não pode retroceder. Mas reconheceu não tem como voltar, não tem como deixar de perceber, porque ele já reconheceu. Agora, ele pode obstruir aí, ao invés de reconhecer ele passa a tentar saber sobre isso. Não reconhecer, mas conhecer isso, entender o que é isso, compreender o que é isso, que não está na ordem do cognoscível. Não, você não pode saber o que é isso, se você der um nome para isso, ali naquele momento você aborta o processo. Você precisa tolerar a dúvida, reconhecer isso tolerando a dúvida. Reconhecer não é conhecer, é admitir a existência. Procura o diagnóstico por exemplo, E aí, ele vai no psiquiatra, o psiquiatra vai dar um nome para aquilo. Porque ele tentou cessar aquilo, ele tentou parar aquilo, ele tentou controlar aquilo, que na realidade é o fluxo do desenvolvimento emocional dele. Dolorido, desconfortável. Muitas vezes, é nesse momento que o paciente interrompe a psicoterapia, porque ele reconhece que aquele desconforto está nele, não está no outro e que é da competência dele tratar aquilo. Reconhecendo isso e essa palavra “reconhecer”, ela é sugestiva, né? É polissêmica, né? Ela tem vários sentidos, um deles é “conhecer novamente”. Cada encontro que eu tenho com isso é como se eu não conhecesse. Então. eu conheço novamente cada vez que eu sinto isso. Eu sinto de uma forma diferente e é por isso que o Bion nos orienta: sem memória. O analista precisa não estar se baseando, se apoiando nos conteúdos armazenados na memória sobre o paciente, sobre qualquer coisa, porque cada vez que o paciente chega, é uma pessoa nova que tá ali. Ele tem a chance de ser uma pessoa nova e isso passa a ser um modelo para o sujeito tratar a si mesmo, cada vez que ele entra em contato consigo mesmo ele precisa entrar em contato com alguém novo. O vínculo é um vínculo novo. Então, reconhecer. Mas essa palavra ela é muito mais do que conhecer novamente, ela também é ser grato. Ser grato por ter percebido um desconforto. Consegue? Porque, muitas vezes a gente sente um desconforto a gente quer evitar. Aquilo é ruim. Mas como é que eu posso ser grato por algo que é confortável. Pois é! Porque isso daí é a chave da minha libertação, que se eu for capaz de tolerar isso, isso daí vai crescer, vai me tornar uma pessoa melhor. Reconhecer também é ser grato. Bom, se foi possível reconhecimento e não fiquei obstruído no meio do caminho, passamos para a próxima etapa: aprender a RESPEITAR. Eu PERCEBI, admitia a existência, RECONHECI e agora, eu passo a RESPEITAR isso que eu reconheci. Agora, eu posso ficar na etapa anterior, não posso? Reconhecer alguma coisa não garante que eu seja capaz de respeitar isso que eu reconheci. Foi o que a gente falou: o paciente pode obstruir o processo aí. Ele reconheceu, mas não deu conta de respeitar aquilo. Se ele conseguir encontrar a possibilidade de estabelecer a relação continente<>contido, como nos orientou o Bion, passa a ser possível expandir para aprender a respeitar isto que foi reconhecido. Vamos usar o exemplo do medo. Percebi um medo, reconheci esse medo e agora eu passo a respeitar este medo. Ao reconhecer este elemento, ele já não é mais um intruso na minha mente, ele foi reconhecido, ele já não é mais um elemento estranho. Eu já percebo aquilo ali como um integrante do meu processo psíquico, meu processo emocional-afetivo. Não é estranho, mas é meu e se é meu eu preciso aprender a respeitar esta limitação. Se foi possível chegar até aí, é porque a gente teve ali um vínculo bem sucedido. Tivemos aí, uma experiência de acolhimento. Porque, só a experiência de acolhimento pode levar o sujeito a chegar a respeitar isso que ele admitiu a existência e que ele percebeu. Um medo, vamos voltar no medo. Quando ele percebe o medo, reconhece esse medo e passa a respeitar este medo, este medo que um dia foi uma obstrução das experiências dele, das atitudes dele, que estavam sempre povoadas de medo, sempre inundadas de medo, se chegar até o respeito, este medo passa a ser um integrante da prudência. Já não é o medo paralisador, é um medo que traz para ele prudência, autopreservação. Mas ele precisa ter aprendido a tolerar a ponto de respeitar. Aí, já não é obstrutor, protege e faz com que ele consiga viver as experiências dele de uma maneira muito mais saudável. Nem paralisado e nem é inconsequente. Se eu conseguir aprender a respeitar, eu passo para a próxima fase, que é aprender a me RESPONSABILIZAR por isso. Responder por isso. Isso é meu, faz parte de mim e eu me responsabilizo por isso. E não só me responsabilizo por isso, mas eu me responsabilizo por todas as consequências disso na minha vida. Todo esse processo é impossível, é inaplicável sem o vínculo afetivo com o outro, sem que outro possa me ajudar a fazer isso não dá para fazer isso sozinho. Não se faz isso sozinho, é impossível. Por mais que você tenha comprado vinte, trinta livros de autoajuda, que dizem para você que dá para fazer sozinho, não, dá! Quando eu passo a me responsabilizar, abre-se a possibilidade de TRANSFORMAÇÃO. Agora, todo esse processo é vivido com uma incerteza enorme. Cada etapa não tem certeza nenhuma. Não existe certeza nesse processo e a transformação é uma grande insegurança. Porque quando a gente fala que de transformação, essa palavra parece ser muito bonita, mas a transformação quer dizer que você está saindo de uma forma e transformando para outra e você não sabe qual é esta outra. Quando você vê ali a lagarta virando borboleta é muito lindo, né? Você já sabe que a lagarta vai virar borboleta. Mas quando é você que é a lagarta, você não tem qualquer noção de que borboleta que você vai virar. Você pode ser uma lagarta da beronha, né? Sei lá! Ué! Do Besouro Rola Bosta, né? Desculpa brincadeira, mas não é isso? Você não sabe o que que você vai se tornar. E se você vai ser capaz de ser responsabilizar por isso você vai se tornar.


Prof. Renato Dias Martino



sábado, 6 de maio de 2023

O OUTRO NÃO EXISTE

A psicanálise nos ensinou sobre o fato de que no início da vida o sujeito não admite a presença do outro naquilo que Sigmund Freud (1856 - 1939), chamou de princípio do prazer.  A satisfação imediata, assim como a evitação de desconfortos é o que rege essa ordem do funcionamento mental. “Nesta época o mundo externo não é investido com interesse e é indiferente à satisfação. Portanto, durante este período o eu coincide com o que é prazeroso, e o mundo externo com o que é indiferente.” (Freud, 1915). Por mais que possamos evoluir na maturação emocional e também no âmbito afetivo, grande parte do nosso funcionamento ainda segue trabalhando assim, mesmo na vida adulta. A forma como nos vinculamos com o outro é uma extensão da maneira como nos relacionamos com nós mesmos.

Portanto, quando tratamos do vértice emocional, não seria absurdo levantar a hipótese de que o outro não existe.  A questão essencial é a relação do sujeito com ele mesmo. Tudo aquilo que possa acontecer na relação com o outro, passa sempre por uma modulação a partir do que acontece em relação a si mesmo. O outro parece representar uma extensão da relação que se possa ter consigo mesmo. Não há como estar bem com o outro, estando mal consigo mesmo. Na realidade, ninguém se importa realmente com o que os outros dizem, a não ser que aquilo que seja dito coincida com o que predomine no seu diálogo interno. Ou seja, que os outros confirmem o que o sujeito já dizia para si mesmo.

Quando alguém, por acaso esteja requisitando a aprovação de qualquer outra pessoa, na realidade isso parece ser uma falha na capacidade do sujeito em confiar em si próprio. Quando o sujeito não está confiando em si mesmo, ele tende a requisitar a aprovação alheia. Aquele que se importa em demasia com certa crítica do outro, na realidade já vinha se criticando anteriormente. Quando a atitude de autocritica se estende num modelo constante o sujeito tende a reunir em seu entorno, pessoas que o criticam constantemente.
Além disso, pode até ficar obstruído de conseguir se interessar por alguém que, por ventura venha reconhecer qualquer característica virtuosa nele. Por outro lado, quando ele desenvolve o autorrespeito e passa a tratar a si mesmo com consideração e carinho, tende então a reunir em seu convívio, pessoas que também o fazem. Na verdade, não permitirá que o tratem de outra maneira que não seja com respeito.

Freud, S. (1996m). OS INSTINTOS E SUAS VICISSITUDES (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 14). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1915).






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sábado, 8 de abril de 2023

O CAMINHO PARA SE TORNAR UM PSICANALISTA - Prof. Renato Dias Martino


Uma pergunta frequente que eu recebo: Qual é o caminho que o sujeito precisa percorrer para se tornar um psicanalista? O caminho é um só. Ele precisa ser percorrido a partir da sua análise pessoal. O sujeito mais propenso a ser um psicanalista bem sucedido é justamente aquele que partiu daí. Aquele sujeito que percebeu uma dor interna, uma dor psíquica, no âmbito emocional e a partir daí procurou uma psicoterapia. Este sujeito é um sujeito propenso a se tornar um bom psicanalista. Aquele que percebeu uma dor psíquica e procurou a psicanálise. Viu na psicanálise um sentido para isso. Dificilmente o sujeito vai conseguir oferecer alguma coisa da qual não se sentiu beneficiado por ela. Então, se o sujeito conseguiu encontrar na psicanálise um sentido para sua dor, muito provavelmente ele conseguirá oferecer isso para o outro, assim que se qualificar para tal. Um psicanalista bem sucedido é aquele que fundamentou a sua formação na sua análise pessoal. Impossível um psicanalista aplicar a psicanálise em qualquer outra pessoa, sem antes ter sido analisado. O que faz o sujeito se tornar um bom psicanalista é ter sido bem psicanalizado. Antes de procurar um instituto, antes de procurar um curso de formação, antes de procurar qualquer tipo de formação no nível intelectual, ou no nível do saber é importante que ele possa se qualificar emocional e afetivamente e isso só poderá acontecer através da sua análise pessoal. A partir daí ele começa a se preparar para receber o conhecimento teórico sobre a psicanálise. O grupo de estudo constante e não simplesmente um curso de formação será necessário para que ele possa se informar dentro dos conceitos, dentro das formulações, dentro dos elementos de psicanálise. Para que ele possa ir nomeando as experiências que ele viveu na sua análise pessoal e a partir daí, ir criando uma relação experiência conceito. Nomeação e experiência vivida. Concomitante com isso, a partir dos casos que ele foi recebendo, dos pacientes que ele foi atendendo, ele carece de um colega, psicanalista mais experiente, para que possa orientá-lo dentro das questões operacionais do processo psicoterapêutico. Questões de honorários de horários e outras questões operacionais é a experiência de supervisão passa a ser necessária. Só a partir deste tripé, do qual o Freud nos orienta lá em 1919, em SOBRE O ESTUDO DA PSICANALISE NAS UNIVERSIDADES, ele nos orienta sobre esse tripé da análise pessoal, da supervisão e do estudo teórico. Este estudo teórico, a saber, seria importante que fosse feito um grupo, porque a partir desse pensamento em grupo esse pensamento é além desta leitura individual, vai trazer para ele enriquecimento de outros olhares sobre aquilo que ele esteja estudando.





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domingo, 26 de março de 2023

PERCEBER, RECONHECER, RESPEITAR, RESPONSABILIZAR-SE, TRANSFORMAR

A maturação emocional-afetiva parece seguir certo encadeamento, dentro de um processo de desenvolvimento que merece um olhar cuidadoso. Essa atenção cuidadosa passa a ser necessária na medida em que a dinâmica nesse processo garante a saúde na ordem desse funcionamento, já que a obstrução do fluxo nesse processo leva ao adoecimento.  Esse processo inclui etapas que não podem ser sobrepostas, obedecendo uma ordem numa certa sequência de evolução. No entanto, pode ser obstruído, através de experiências malsucedidas, nocivas, ou ainda, que tenham sido traumáticas.

Parece que esse processo inicia com a sensação de desconforto, onde o sujeito passa a perceber algo que o incomoda, em seu funcionamento emocional. Isso ocorre através de sentimentos como insegurança, tristeza, medo, que devem se desdobrar em raiva, hostilidade, inveja, assim como outras manifestações da influência de elementos desconfortáveis que possam ser perceptíveis no funcionamento mental. 

A partir da percepção do elemento desconfortante, abre-se a possibilidade de reconhecimento disso que ora o desconforta e tenha sido percebido. Quando se percebe algo, passa a ser possível considerá-lo, através do reconhecimento. A experiência de perceber é sutil, é algo que não requer empenho, muitas vezes, acontece concomitante com o próprio desconforto. Já o reconhecimento é uma atitude, sendo assim, demanda de capacidade em tolerar desconfortos. Só reconhece algo aquele que é capaz de tolerar as características disso que esteja sendo reconhecido. 

Reconhecer não tem a ver com saber sobre, mas se refere a admitir que realmente existe. Isso se dá através da possibilidade de se viver recorrentes experiências de reencontro com esse elemento, na possibilidade de conhecer novamente a cada novo contato com isso que se percebe. A origem da palavra nos orienta nesse sentido, quando o vocábulo reconhecer, vem do latim, RECOGNOSCERE, RE-, que significa “outra vez”, mais COGNOSCERE, que diz respeito a “saber juntos”, formado, por sua vez, por COM, “junto”, mais GNOSCERE, “saber”.

Sendo realizável a firmação do vínculo do reconhecimento, passa então, a ser possível aprender a respeitar isso que se admitiu a existência. No entanto, além de se aprender a respeitar isso que se reconheceu, abre-se a possibilidade de se aprender a respeitar a si mesmo em relação ao que foi reconhecido. A experiência do respeito aqui conceitualizada é aquela que leva o sujeito a dirigir nova atenção a aquilo que se respeita, a cada vez que se depara com isso. Assim como nos norteia a semântica. A palavra respeito tem origem no latim RESPECTUS, que é particípio passado de RESPICERE, “olhar outra vez”. RE-, “de novo”, mais SPECERE, “olhar”. Quando respeitamos alguma coisa é porque estamos sendo capazes de prestar atenção novamente a isso. Sendo assim, reconhecer e respeitar estão intimamente ligados, já que a origem da palavra reconhecer é conhecer novamente e a palavra respeito, por sua vez, significa prestar atenção mais uma vez. 

Bem, quando foi possível conseguir chegar nesse nível do processo, inicia-se uma experiência de expansão. Nesse ponto do processo, o elemento que tenha sido percebido, reconhecido e então respeitado, já não é mais sentido como um intruso, ou um estranho no funcionamento mental. Esse elemento passa a ser um integrante da personalidade. Esse processo aqui descrito, deve adequadamente, levar o nome de acolhimento. Quando passa a ser possível acolher esse elemento alcançado no funcionamento emocional, abre-se a possibilidade de transformação, numa crescente de amadurecimento da consciência sobre isso e em consequência, da consciência de tudo mais em relação a isso. 

Um bom exemplo do que tento propor é o medo, que de início pode ser um fator de potencial obstrução às possibilidades, impedidor das experiências e que dificulta a expansão, quando acolhido nesse processo descrito aqui, pode vir a se transformar num importante integrante da prudência. Aquilo que até então, obstruía, agora orienta com a cautela, para que se tome maior cuidado, trazendo assim, maior chance de uma experiência bem sucedida. Abre-se a possibilidade de transformação de elementos que até então mantiveram-se num modelo enrijecido, cristalizado numa forma obstrutora.

Por outro lado, quanto mais se resiste, quanto maior for a rejeição a integração deste elemento, mais ele irá se potencializar em sua forma enrijecida, mais irá ganhar força obstrutora e por conta disso, dificultará a possibilidade de se fluir a vida naturalmente, de maneira saudável. 

Tratamos aqui do processo fundamental na maturação emocional e afetiva, sendo que o desenvolvimento desse processo carece essencialmente do outro para que seja realizado. Não há como aprender a reconhecer, respeitar e se responsabilizar por si mesmo sem que se possa contar com um vínculo afetivo saudável, que é constituído justamente por reconhecimento, respeito e responsabilização. Estes elementos só podem ser desenvolvidos a partir de um modelo externo, ou seja, somente tendo o outro como referência. Quando se está sendo acolhido pelo outro, não se trata de simplesmente receber passivamente um benefício, mas se tem a oportunidade de se aprender a acolher a si mesmo e posteriormente acolher o próximo.







Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Escritor




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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A CONSCIÊNCIA E O VÍNCULO

Antes de discorrer essas breves linhas sobre relacionamento amoroso, seria prudente alertar para o fato de que não existe aqui, qualquer tentativa de se romantizar experiências emocionais-afetivas, já que é possível reconhecer com grande clareza, a real dificuldade do ser humano, no que se refere a renúncia, que possa levar à cooperação, assim como a capacidade de se dedicar ao outro. Inclui-se nessa reflexão o reconhecimento do caráter narcisista, inato no humano.
É bem sabido por esse que aqui escreve, sobre a terrível índole do animal humano e que essa espécie não carrega a capacidade de amar como fator congênito em sua personalidade. Também é de nosso conhecimento o fato de que, se o animal humano não for muito bem nutrido de amor, não conseguirá desenvolver a capacidade de amar a si mesmo e muito menos amará o outro. Inclui-se aqui também, o fato de que toda a dedicação que se possa ter para com o outro é, antes de tudo, um favorecimento para si próprio.
Cada atitude que se tenha de caridade, cuidado e consideração, ao outro, corresponde em essência um crescimento nas esferas mais nobres naquele que se doa. Quando o sujeito se importa com o outro, o maior beneficiado é ele mesmo. No entanto, a dimensão que se expande, quando se dedica ao outro, está muito distante daquelas que se pode compreender por meio do intelecto.
De qualquer maneira, quando tratamos aqui da dedicação ao outro, não estamos nos referindo a atitudes doutrinadas, ou ainda, de tentativas de se fazer algo para conseguir aprovação. Tratamos aqui de certa consequência do desenvolvimento da maturação emocional e afetiva.
Não estamos propondo aqui ser generoso com o outro para que assim, possamos crescer emocionalmente, afetivamente e espiritualmente, mas justamente o contrário; quando evoluímos é que passamos a sermos capazes de renunciar do “eu”, para então, nos doarmos ao outro.
Amadurecemos afetivamente, quando somos capazes de trocar o “eu” pelo “nós”. Nos tornamos pessoas melhores conforme amadurecemos emocionalmente. Entretanto, não se amadurece por se escolher amadurecer. Ninguém decide, ou escolhe se tornar alguém melhor. Essa ordem de amadurecimento ocorre conforme a configuração do ambiente emocional possa favorecê-lo e isso parece estar diretamente ligado ao nível de consciência. O termo consciência, quando submetido às experiências emocionais e afetivas, parecem se aproximar muito de conceitos como os de compaixão e de amor. No entanto, imperiosamente dentro da possibilidade de se viver um amor verdadeiro, ou seja, o amor que esteja irrigado de sinceridade. Aquele amor que possa nutrir o outro sem que empobreça o eu. Aprender a amar parece ser a única forma de se expandir a real consciência. Por mais que possamos encontrar propostas de leitura de textos, exercícios mentais, experiências espirituais e até mesmo o uso de substâncias retiradas da natureza, ou ainda que sejam fabricadas em laboratório, que prometam a ampliação da capacidade de consciência, não me parece possível qualquer outra forma dessa ordem de expansão, que não seja realizada através de um vínculo afetivo saudável.
O acordo que se possa firmar com a realidade só pode ser realizado a partir do vínculo saudável. A vida se propaga através dos vínculos. É somente pelo vínculo que passa a ser possível nutrir o processo de reconhecimento, respeito e responsabilização quanto a realidade. Esse processo do acordo com a realidade deve ocorrer a partir da capacidade de amá-la apesar do desconforto que ela possa gerar no seu reconhecimento. A maior manifestação do acordo com a realidade é a compaixão. Somente a partir de um vínculo saudável que seja estabelecido com o outro, que se aprende a amar esta realidade, que existe independente das expectativas. Ora, é justamente a partir deste envolvimento com a realidade, que ocorre independente do que se gostaria que ela fosse, é que se vai ampliando a consciência. Não tratamos aqui simplesmente de se ter ciência dos fatos, naquilo que se pode saber, mas da consciência, naquilo que é possível compartilhar com o outro: a com – ciência.