sexta-feira, 28 de julho de 2023
SOBRE A DEISINTEGRAÇÃO – Prof. Renato Dias Martino
sexta-feira, 21 de julho de 2023
SOBRE O CUIDADO COM QUEM NÃO PRODUZ – Prof. Renato Dias Martino
domingo, 2 de julho de 2023
REFLEXÕES SOBRE O EGO - Prof. Renato Dias Martino
É a ideia de ego segundo a
psicanálise e perpassando por aquilo que eu consegui absorver da psicanálise.
Dois pensadores me orientam enquanto ideia de ego. Primeiro é o Freud que é
aquele que iniciou essa formulação chamada psicanálise, o segundo nome é Melanie
Klein que trouxe uma possibilidade de expansão no entendimento do que a gente
chama de ego. Vou tentar sintetizar, vou tentar ser sucinto, apesar de ser um
tema extremamente expansivo. Cada coisa que você fala sobre o ego vai te
suscitar mais algumas outras. Freud trouxe a ideia de ego como sendo o centro
do aparelho psíquico estrutural. Ele tem uma visão estrutural do aparelho
psíquico e o ego seria o centro disso, seria o núcleo disso e vai trazer duas
outras instâncias estruturais para a gente pensar ele vai trazer o “id” que é
fonte das necessidades, a fonte da libido, a fonte daquilo que é mais
primitivo. E o superego, que seria um “ideal de eu”, ou seria alguma coisa que
o sujeito deveria ser. No meio dessas duas coisas, estaria o ego. Para o Freud,
o ego seria uma transformação do id. Cada experiência do id que pudesse ser
passada pelo processo secundário, que ele vai chamar de “princípio da
realidade”, ou seja, da possibilidade de filtrar esta necessidade, essa vontade
do id, pela realidade, passaria ser ego, dentro da possibilidade do
desenvolvimento da tolerância às frustrações, aquilo que um dia foi id, passou
a ser ego. Para Freud, não existe ego no início da vida, já para Melanie Klein,
existe um ego, por mais que seja um ego ínfimo, mais já existe ali um protótipo
do que a gente vai chamar de ego. Para Melanie Klein, o ego seria alimentado
por experiências do id que puderam ser passadas pelo teste da realidade. Então,
existe essa diferença numa precocidade no que é ego. Para Melanie Klein, pelo
fato da Melanie Klein ter sido mãe, ela teve experiências com o bebê de uma
maneira que o Freud não teve. Então, talvez ela tenha maior propriedade para
dizer sobre isso do que o Freud. Segundo um ponto de vista simplificado, ou do
senso comum, do que é falado aí, de maneira coloquial, ego seria alguma coisa
da qual nós precisaríamos evitar, para psicanálise não, para psicanálise ego é
a parte organizada da mente e a parte organizadora da mente. Não se cria
vínculos que não seja via ego. Ego é quase um sinônimo de autoestima, claro que
salvo algumas características aí, que vão destoar de uma coisa para outra. No
entanto, a base é assim, o quanto eu sou capaz de me amar a mim mesmo,
reconhecer a mim mesmo, confiar em mim mesmo, acreditarem em mim mesmo. Se a
gente pudesse acessar aí, as formulações religiosas, por exemplo, dentro do
cristianismo, Cristo coloca dois grandes mandamentos, não é? “Amar a Deus sobre
todas as coisas e ao outro como a ti mesmo.” Se isso é verdade, eu preciso amar
a mim mesmo, para que eu possa amar o outro, logo, eu preciso que meu ego
esteja muito bem estruturado, para que eu possa estender esse amor ao outro. O
sujeito que não tem um ego bem estruturado, não é capaz de amar o outro. E aí,
o primeiro mandamento, segundo o grande filósofo Jesus Cristo, “Amar a Deus
sobre todas as coisas”, a gente pode substituir a palavra Deus por realidade,
realidade última, o todo, o todo poderoso, que é justamente a realidade da qual
o ego terá que se submeter para que possa ser estruturado. quando ego está bem
estruturado, é porque ele conseguiu passar de uma forma de ligação por
identificação, onde o eu e o outro não se diferenciam, para uma outra forma de
relacionamento que o Freud vai chamar de ligação objetal, onde o outro é
reconhecido como outro, efetivamente e não como parte do meu desejo, ou parte
de mim mesmo. Entender o ego, e isso sobretudo dentro da contribuição da
Melanie Klein 1935, e ela traz um texto muito importante, que ela vai ela vai
falar sobre a importância dos símbolos na estruturação do ego, o ego segundo a
psicanálise é a parte do aparelho psíquico que é construído e se nutre a partir
da possibilidade de simbolização. O que é simbolização? São experiências das
quais você consegue internalizar a imagem do outro e a partir daí, tolerar a
ausência física do outro. Então, o ego é constituído por experiências de
desapego, por experiências de luto, por experiências bem sucedidas de perdas.
Quanto maior for a capacidade do sujeito de se desapegar, maior será a
estruturação do seu ego e vice-versa. O ego se nutre disso. Quanto mais bem
estruturado ego for, mais o sujeito vai tolerar frustrações, vai ser capaz de
viver lutos e vai ser capaz de se desapegar. Diferente do senso comum, que traz
a ideia de que o ego é a central de alguma coisa extremamente possessiva e não
é isso. O ego é uma parte constituinte da personalidade do sujeito. O ego passa
a ser um problema quando ele está desintegrado, quando ele está desestruturado,
ou quando ele é imaturo. Quando o ego está dentro dessas situações de
desintegração, de desestruturação, ou de imaturidade, ele não consegue te
responsabilizar por si mesmo e ele acaba sendo refém, tanto das vontades do id,
quanto das ordens ou superego, do “ideal de eu”. Eu costumo chamar o ego de
“estar sendo”. O teu ego é aquilo que você está sendo e quando você não confia
naquilo que você está sendo, o que vai guiar a sua vida é o “deveria ser” que é
justamente o “ideal de eu”, ou superego. O ego bem estruturado e nutrido é a
base de um bom funcionamento. Eu só posso amar o outro se eu tiver amando a mim
mesmo. Agora, é diferente de um ego inflado. O ego inflado, a gente já vai
entrar numa outra perspectiva. Um outro pensador muito importante dentro da
psicanálise que é o Winnicott, traz a ideia do falso-eu. Então, o ego inflado
tem a predominância, preponderância de um falso-eu. Ele existe para
impressionar o outro, para satisfazer o outro, para satisfazer o desejo do
outro, para que eu possa ser desejado pelo outro. O sujeito que tem um ego
muito bem estruturado é um sujeito que é capaz de amar, que é capaz de se doar,
que é capaz de compaixão. O que é diferente de um ego inflado, onde o sujeito
não tem essas capacidades desenvolvida. Sujeito por exemplo, que tem
características egoístas, na realidade, quem comanda ele não é o ego é o super
ego, é o “ideal de eu”, que exige que ele tenha isso, tenha aquilo, faça isso,
faça aquilo, para que ele possa provar para ele e para os outros que ele é
superior e isso não é ego isso é super ego, isso é “ideal de eu”. O egoísta não
é regido pelo seu ego, o egoísta não é capaz de se responsabilizar pelo seu
ego, mas um egoísta é guiado pelo seu “ideal de eu”. A questão não é se o ego é
bom ou ruim, é ou não é isso ou aquilo, o ego é a cabeça, o ego é a cabeça do
corpo. É a mesma coisa que você dizer assim: olha a cabeça é ruim? Não, a
cabeça não é ruim. Se a cabeça estiver, por exemplo mal cuidada, ela vai
apresentar características ruins, agora, o ego é uma parte da estrutura
emocional-afetiva, é uma parte da personalidade. Ela não é ruim, nem boa, ela é
uma parte daquilo. O problema é qual é qualidade desta parte. Se ela estiver
sendo desestruturada o sujeito vai ter características egoístas, agora, se ela
tiver bem estruturada esta parte vai ser muito boa. É importante a gente pensar
na ordem natural das coisas. A cultura é criada por pessoas egoístas, que por
sua vez, foram criadas dentro de lares desestruturados. A ordem natural da
coisa é a seguinte: o sujeito não teve o amor necessário dos pais, não teve
atenção necessária dos pais, não teve a função materna e a função paterna
cumpridas suficientemente bem, ele se torna um sujeito egoísta e este sujeito
egoísta vai criar uma cultura egoísta. Não é cultura que transforma o sujeito
em um egoísta é o sujeito egoísta que cria uma cultura egoísta. A questão
central é quando o sujeito tem uma estruturação desse ego deficitária. Quando
essa estruturação foi comprometida muito precocemente, então ele passa a
desenvolver uma personalidade egoísta. Passa a desenvolver uma personalidade
onde o outro não importa para ele, o que importa é o eu, porque na realidade,
na primeira infância era só o outro que importava e não ele. Então, se ele não
teve na primeira infância, nos primeiros anos de vida, um olhar que pudesse
nutrir o narcisismo primário. Um outro conceito freudiano. Que ele pudesse ser
reconhecido nesse mundo como uma coisa mais importante para os pais. Se ele não
pode ter isso, a estrutura do ego dele passa a ser comprometida e ele vai
desenvolver uma característica egoísta e que dificilmente... Só dentro de uma
possibilidade de experiências muito bem sucedidas, ele vai conseguir reparar
isso daí. Ele vai conseguir trazer uma possibilidade de restauração no
funcionamento saudável da mente. A estruturação do ego independe da capacidade
cognitiva. Nós não estamos falando de intelectualidade, nós não estamos falando
do nível do saber, nós não estamos falando do conhecimento, nós estamos falando
aqui de ser capaz de lidar com as suas emoções e ser capaz de se ligar
afetivamente ao outro. Isso não tem a ver com intelectualidade, não tem a ver
com conhecimento, não tem a ver com saber, tem a ver com estar sendo. Esta
sociedade contemporânea, de pessoas com egos desnutridos desestruturados,
empobrecidos, tem o prejuízo de gerar exemplares da espécie humana, que vão
estar esparramados, desde o sujeito que rouba o seu celular na rua, até o
sujeito que ocupa um cargo muito alto, como por exemplo a presidência da
república. Sujeito completamente desestruturado emocionalmente, afetivamente, mas
que conseguiu um poder por conta de conhecimentos. Galgar uma posição, às vezes
de doutor, ou qualquer outra coisa, mas que tem um ego extremamente
desestruturado e não tem a menor capacidade de se doar ao outro, ou de
compaixão. Uma sociedade formada por sujeitos que tem seus egos extremamente
fragilizados, extremamente mal estruturados, desestruturado, torna uma
sociedade de pessoas intolerantes a frustração e ele acaba se tornando um
sujeito melindroso, o sujeito que qualquer coisa ofende. E hoje, nós vivemos
numa sociedade onde o sujeito que manifesta estar sendo ofendido, ele ganha
poder e ele se agrupa com pessoas que também se sentem ofendidas. E aí, o
sujeito que supostamente possa ter ofendido vai ser cancelado socialmente,
judicialmente prejudicado, ou o punido e por aí afora... O egoísta é um sujeito
que tem o ego fragilizado. O egoísta é um sujeito que tem o ego ferido. Quando
você tem uma parte do corpo físico ferido, machucado, esta parte passa a ser a
parte mais importante na sua atenção. Então, se você tem a mão machucada,
ninguém pode tocar nessa tua mão que você faz: Aí! Não mexe na minha mão!
Então, o egoísta é da mesma forma. Ele tem o ego machucado, ele tem o ego
fragilizado, ele tem o ego desestruturado e a partir daí, o ego para ele á a
coisa mais importante e ninguém pode tocar nesse ego, porque ele vai ficar
bravo. O ser humano funciona de maneira narcisista. O narcisismo é necessário.
O sujeito precisa ter perpassado todas as experiências por si mesmo. Um sujeito
precisa ser capaz de amar a si mesmo e respeitar a si mesmo, de confiar em si
mesmo, para que ele possa estender isso ao outro. O narcisismo é a base do
funcionamento do ser humano e não tem como fugir disso. Um sujeito que não está
de bem consigo mesmo, ele não está de bem com ninguém mais. Estamos
configurados numa sociedade de egos desestruturados. Porque a contemporaneidade
tem a marca de egos empobrecidos, desestruturados, desnutridos? Qual é a causa
disso? A causa disso é a incapacidade dos pais de se doarem aos filhos. A
incapacidade dos pais de participarem da estruturação do ego desses filhos. A
incapacidade desses pais de cuidarem dos seus filhos e por conta disso,
terceirizarem o cuidado desse filho a desconhecidos. O ego não se estrutura e
vai crescer um sujeito egoísta, um sujeito narcisista, um sujeito que não é
capaz de se doar ao outro, porque nunca se doaram a ele. Esta sociedade
contemporânea é marcada com pessoas que não tiveram os cuidados necessários na
sua primeira infância e cresceram adultos extremamente incapazes de amar, de
compaixão de doação. A partir do processo psicoterapêutico, a partir do
processo psicanalítico, o sujeito vai viver experiências. E aí, a gente vai
chamar isso de experiências emocionais-afetivas que possam promover, ou
propiciar reparações no ego que esteja fragmentado, ou esteja desestruturado.
Experiências emocionais-afetivas reparadoras vão trazer para o sujeito a
possibilidade de restauração do ego, de nutrição do ego, para que ele possa
restituir, ou muitas vezes até iniciar um processo de autoestima, de autoamor,
de amor próprio, de autoconfiança, de possibilidade de acreditar em si mesmo. O
processo psicoterapêutico é, por excelência, uma possibilidade de estruturação
do ego, de reestruturação do ego. Quando a gente fala de uma psicanálise
contemporânea, a gente está falando, muito mais de uma psicanálise dos
vínculos, do que do sujeito. Não praticamos hoje a análise do sujeito, mas nós
praticamos hoje a análise do vínculo estabelecido entre analista e paciente. A
partir deste vínculo, vai ser criado um novo modelo de relacionamento, que o
sujeito, primeiro estabelece com um analista, depois ele projeta isso como um
vínculo dele para ele mesmo e a partir daí, ele vai poder estender este vínculo
às outras pessoas do seu convívio. O modelo de vínculo que é pautado agora,
pelo amor, pelo carinho, pelo acolhimento, pela compaixão, pelo que muitas
vezes o paciente não conseguiu desenvolver. Não acredito em possibilidades de
reparação, de experiências emocionais e afetivas reparadoras que não tenha o
outro, que não incluam vínculo com o outro. A experiência emocional-afetiva
reparadora é essencialmente feita através do acolhimento do outro. Eu só
aprendo a me auto acolher, a partir da experiência de ter sido acolhido pelo
outro e aí, entra uma necessidade enorme de humildade do sujeito de solicitar
ajuda e se colocar à disposição de ser acolhido pelo outro. A psicanálise da
qual estou dizendo aqui, o processo psicoterapêutico do qual estou tratando
aqui, tem a base no acolhimento. Acolher o material trazido pelo paciente, sem
submeter aos julgamentos, às críticas, ou por outro lado, bajulações, elogios,
ou qualquer coisa nesse sentido. Não só o processo psicoterapêutico pode trazer
a possibilidade de experiências emocionais-afetivas reparadoras. Isso é muito
importante. Eu sendo psicanalista vou dizer para você que o processo
psicoterapêutico é por excelência um recurso para reestruturação do ego, para a
estruturação do ego, no entanto, qualquer que seja o vínculo saudável, pode
trazer essa possibilidade. Não só o processo psicoterapêutico, mas qualquer que
seja o vínculo que possa incluir um sujeito que acolhe o outro. O sujeito que
está pronto, capaz de acolher e um sujeito que está disposto a ser acolhido.
Esta experiência é emocional e afetivamente reparadora. É porque, senão, a
gente começa a falar que é só psicanálise que pode fazer isso e é uma mentira
isso. Não é! Eu estou dizendo isso, porque eu sou psicanalista, trabalho como
psicanalista há mais de vinte anos e tenho histórias belíssimas para te contar
de processos psicoterapêuticos que forneceram essa experiência reparadora,
agora, não é só o processo psicoterapêutico que traz isso.
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domingo, 4 de junho de 2023
SOBRE PERCEBER, RECONHECER, RESPEITAR, RESPONSABILIZAR-SE PARA TRANSFORMAR
Cinco conceitos presentes no desenvolvimento emocional afetivo. Desenvolvimento, maturação, ou ainda a possibilidade de reparação do funcionamento emocional-afetivo. Lembrar que eu falo funcionamento emocional-afetivo? Porque, quando a gente fala emocional a gente está falando daquela experiência de algo que está dentro e vai para fora. “Moção” quer dizer movimento e “E” quer dizer para fora. E afetivo é aquilo que implica a relação com o outro. AFACERE. “A” em direção a e “FACERE” é fazer. Fazer alguma coisa em direção a. Então, temos aí, uma emoção que encontra um afeto. Quando a gente está falando de desenvolvimento, maturação emocional-afetiva, ou ainda, reparação emocional-afetiva quando a gente está falando desse tipo de experiência, nessa ordem de experiência, eu preciso impreterivelmente do outro. Não existe a possibilidade de desenvolvimento, de maturação, ou de reparação no funcionamento emocional-afetivo, que não tenha a implicação do outro. Ou seja, o estabelecimento do vínculo. Então, todas as vezes que a gente estiver falando de formulações psicanalíticas, nós temos implicado aquilo que lá em 1963, Bion sugeriu como primeiro elemento de psicanálise. Lá em ELEMENTOS DE PSICANÁLISE. Qual é o primeiro elemento de psicanálise para o Bion? É a relação entre continente e contido. É muito simples isso: algo passa a ser contido e algo que passa a conter. Então, precisa haver isso que aqui nós chamamos de acolhimento. Algo que está propício a acolher e algo que está disposto a ser acolhido. Quando a gente tem esse encontro, passa a ser possível a expansão, a maturação desenvolvimento, ou ainda, a reparação, a restauração, a entrada do outro é preponderante no funcionamento emocional-afetivo. Tanto para as experiências bem-sucedidas, quanto mal sucedidas é o outro que traz a possibilidade do desenvolvimento. É o outro que traz a possibilidade da reparação, mas também é o outro que vem para estragar tudo. Quando eu não cuido morre, quando eu cuido mal cuidado, volta-se contra mim, agora, quando eu cuido bem, cuidado com o amor, com dedicação, com sinceridade, aí vira minha esperança. Então, nós temos aqui uma analogia muito interessante, que é da semente e do solo fértil. Então, todos os elementos que nós vamos ver aqui; um por um, carecem de um olhar dentro dessa analogia da germinação. Da possibilidade de uma semente germinar. Então, nós não vamos estar falando aqui, em nenhum momento, do “deveria ser assim”, tem que ser assim, mas nós vamos olhar para isso, reconhecer isso, como se reconhece uma planta que vai germinando. Ninguém está olhando você precisa fazer isso, tem que fazer assim. Você não tem que, você olha para semente, você não fala para ela: “agora você tem que fazer isso”. Se ela encontrar um solo fértil, vai acontecer, se ela não encontrar, não vai acontecer e o desenvolvimento emocional é assim também. Não tem que ser, vai ser, se houver todo o ambiente saudável e próspero, profícuo o bastante para que isso possa acontecer. Então, alguns elementos que vão se suceder, dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, sendo que não existe a possibilidade de sobreposição de um elemento ao outro. Existe um processo que respeita um fluxo e ao mesmo tempo não existe retrocesso. Pode haver sim, uma obstrução. Eu diria até que, na maioria das vezes há uma obstrução, mas retrocesso não. Não existe retrocesso dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, por isso que eu sou categórico em dizer que a palavra “regressão”, “regredir”, é completamente inadequada dentro das formulações psicanalíticas. Não existe regressão. Existe fixação, por conta de uma obstrução, mas não regressão. “P 3R T” O primeiro é o “P” – PERCEPÇÃO. Perceber algo no funcionamento emocional afetivo. Este é o ponto de partida o sujeito percebe algo e este algo que ele percebe é impreterivelmente um desconforto. Todo o crescimento, toda experiência, todo e qualquer movimento do aparelho emocional-afetivo, parte de um desconforto. Não existe qualquer experiência emocional-afetiva que não tenha partido do meu desconforto. O Freud chamava isso de libido, pulsão. A libido, quando se movimenta, ela tem a tendência de pulsão e isso é sentido pelo corpo como um desconforto. Antes do Freud, o Schopenhauer já chamava isso aí de vontade, vontade de viver. A vontade de viver é um desconforto. Antes do Schopenhauer, Kant já chamava isso aí de “coisa em si”. A “coisa em si” é desconfortável, incognoscível, eu não posso conhecer isso, eu só sinto como um desconforto. Esse desconforto pode ser sentido como uma insegurança, como um medo, tristeza... Esses desconfortos vão se desdobrar em raiva, hostilidade, inveja e um monte de coisa que a gente vai chamar de indesejável. Por isso, a percepção tem um perigo de obstrução, porque o sujeito sente isso e ele quer acabar com isso. Você sente uma coisa ruim, você quer acabar com aquilo, ali você quer controlar aquilo, você quer cessar aquilo e este é o grande problema. Porque aí, você aborta o processo. Aí você obstruir processo. Muitas vezes, o sujeito percebe alguma coisa, percebe um desconforto no funcionamento-emocional dele e ele corre direto para o psiquiatra, para que ele possa ser medicado, para ele parar de sentir aquilo. Mas é aquilo ali que vai fazer com que ele se desenvolva emocionalmente. O sujeito perde alguma coisa e ao invés dele passar pelo processo do luto, ele sente entretecimento por conta da perda e ele já vai se medica e acabou. Agora, não é só o medicamento. O medicamento, talvez seja a mais complicada de todas, a mais difícil, porque, quem te dá esse medicamento é um doutor. E aí, não tem como discutir com o doutor, né? E obstrui esse processo, abortar o processo, logo de início de percepção. Um outro, de outras formas, você pode com uso de algo drogas, abusos de compras, compulsão de compras, compulsão alimentar, tem um monte de jeitos do sujeito desviar obstruir o processo de desenvolvimento emocional dele no comecinho que é a percepção da dor. Principalmente se ele estiver sozinho, principalmente se ele não puder contar com o primeiro elemento de psicanálise, que é continente<>contido. Principalmente se ele não puder ser acolhido pelo outro, principalmente se essa sementinha não encontrar um solo fértil para germinar. Aí vai abortar... Mas não abortando e conseguindo tolerar o desconforto da percepção, ele passa para a próxima fase do processo, que é o RECONHECIMENTO, que é o primeiro “R” dos 3 erres. “P 3R T” Quando o sujeito admite realmente que ele sente aquilo e que aquilo ali está nele. Eu reconheço isso, eu não só sinto isso, eu não só percebo isso, mas eu reconheço que isso está ali, eu reconheço isso e reconheço que isso está em mim. Porque eu posso pensar que está no outro, eu posso projetar isso no outro. Não, mas eu admito a existência disso e admito que isso está em mim. Aí, também pode ser obstruir, se ele estiver no reconhecimento, ele não pode retroceder. Mas reconheceu não tem como voltar, não tem como deixar de perceber, porque ele já reconheceu. Agora, ele pode obstruir aí, ao invés de reconhecer ele passa a tentar saber sobre isso. Não reconhecer, mas conhecer isso, entender o que é isso, compreender o que é isso, que não está na ordem do cognoscível. Não, você não pode saber o que é isso, se você der um nome para isso, ali naquele momento você aborta o processo. Você precisa tolerar a dúvida, reconhecer isso tolerando a dúvida. Reconhecer não é conhecer, é admitir a existência. Procura o diagnóstico por exemplo, E aí, ele vai no psiquiatra, o psiquiatra vai dar um nome para aquilo. Porque ele tentou cessar aquilo, ele tentou parar aquilo, ele tentou controlar aquilo, que na realidade é o fluxo do desenvolvimento emocional dele. Dolorido, desconfortável. Muitas vezes, é nesse momento que o paciente interrompe a psicoterapia, porque ele reconhece que aquele desconforto está nele, não está no outro e que é da competência dele tratar aquilo. Reconhecendo isso e essa palavra “reconhecer”, ela é sugestiva, né? É polissêmica, né? Ela tem vários sentidos, um deles é “conhecer novamente”. Cada encontro que eu tenho com isso é como se eu não conhecesse. Então. eu conheço novamente cada vez que eu sinto isso. Eu sinto de uma forma diferente e é por isso que o Bion nos orienta: sem memória. O analista precisa não estar se baseando, se apoiando nos conteúdos armazenados na memória sobre o paciente, sobre qualquer coisa, porque cada vez que o paciente chega, é uma pessoa nova que tá ali. Ele tem a chance de ser uma pessoa nova e isso passa a ser um modelo para o sujeito tratar a si mesmo, cada vez que ele entra em contato consigo mesmo ele precisa entrar em contato com alguém novo. O vínculo é um vínculo novo. Então, reconhecer. Mas essa palavra ela é muito mais do que conhecer novamente, ela também é ser grato. Ser grato por ter percebido um desconforto. Consegue? Porque, muitas vezes a gente sente um desconforto a gente quer evitar. Aquilo é ruim. Mas como é que eu posso ser grato por algo que é confortável. Pois é! Porque isso daí é a chave da minha libertação, que se eu for capaz de tolerar isso, isso daí vai crescer, vai me tornar uma pessoa melhor. Reconhecer também é ser grato. Bom, se foi possível reconhecimento e não fiquei obstruído no meio do caminho, passamos para a próxima etapa: aprender a RESPEITAR. Eu PERCEBI, admitia a existência, RECONHECI e agora, eu passo a RESPEITAR isso que eu reconheci. Agora, eu posso ficar na etapa anterior, não posso? Reconhecer alguma coisa não garante que eu seja capaz de respeitar isso que eu reconheci. Foi o que a gente falou: o paciente pode obstruir o processo aí. Ele reconheceu, mas não deu conta de respeitar aquilo. Se ele conseguir encontrar a possibilidade de estabelecer a relação continente<>contido, como nos orientou o Bion, passa a ser possível expandir para aprender a respeitar isto que foi reconhecido. Vamos usar o exemplo do medo. Percebi um medo, reconheci esse medo e agora eu passo a respeitar este medo. Ao reconhecer este elemento, ele já não é mais um intruso na minha mente, ele foi reconhecido, ele já não é mais um elemento estranho. Eu já percebo aquilo ali como um integrante do meu processo psíquico, meu processo emocional-afetivo. Não é estranho, mas é meu e se é meu eu preciso aprender a respeitar esta limitação. Se foi possível chegar até aí, é porque a gente teve ali um vínculo bem sucedido. Tivemos aí, uma experiência de acolhimento. Porque, só a experiência de acolhimento pode levar o sujeito a chegar a respeitar isso que ele admitiu a existência e que ele percebeu. Um medo, vamos voltar no medo. Quando ele percebe o medo, reconhece esse medo e passa a respeitar este medo, este medo que um dia foi uma obstrução das experiências dele, das atitudes dele, que estavam sempre povoadas de medo, sempre inundadas de medo, se chegar até o respeito, este medo passa a ser um integrante da prudência. Já não é o medo paralisador, é um medo que traz para ele prudência, autopreservação. Mas ele precisa ter aprendido a tolerar a ponto de respeitar. Aí, já não é obstrutor, protege e faz com que ele consiga viver as experiências dele de uma maneira muito mais saudável. Nem paralisado e nem é inconsequente. Se eu conseguir aprender a respeitar, eu passo para a próxima fase, que é aprender a me RESPONSABILIZAR por isso. Responder por isso. Isso é meu, faz parte de mim e eu me responsabilizo por isso. E não só me responsabilizo por isso, mas eu me responsabilizo por todas as consequências disso na minha vida. Todo esse processo é impossível, é inaplicável sem o vínculo afetivo com o outro, sem que outro possa me ajudar a fazer isso não dá para fazer isso sozinho. Não se faz isso sozinho, é impossível. Por mais que você tenha comprado vinte, trinta livros de autoajuda, que dizem para você que dá para fazer sozinho, não, dá! Quando eu passo a me responsabilizar, abre-se a possibilidade de TRANSFORMAÇÃO. Agora, todo esse processo é vivido com uma incerteza enorme. Cada etapa não tem certeza nenhuma. Não existe certeza nesse processo e a transformação é uma grande insegurança. Porque quando a gente fala que de transformação, essa palavra parece ser muito bonita, mas a transformação quer dizer que você está saindo de uma forma e transformando para outra e você não sabe qual é esta outra. Quando você vê ali a lagarta virando borboleta é muito lindo, né? Você já sabe que a lagarta vai virar borboleta. Mas quando é você que é a lagarta, você não tem qualquer noção de que borboleta que você vai virar. Você pode ser uma lagarta da beronha, né? Sei lá! Ué! Do Besouro Rola Bosta, né? Desculpa brincadeira, mas não é isso? Você não sabe o que que você vai se tornar. E se você vai ser capaz de ser responsabilizar por isso você vai se tornar.
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sábado, 6 de maio de 2023
O OUTRO NÃO EXISTE
Freud, S. (1996m). OS INSTINTOS E SUAS VICISSITUDES (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 14). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1915).
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sábado, 8 de abril de 2023
O CAMINHO PARA SE TORNAR UM PSICANALISTA - Prof. Renato Dias Martino
Uma pergunta frequente que eu recebo: Qual é o caminho que o sujeito precisa percorrer para se tornar um psicanalista? O caminho é um só. Ele precisa ser percorrido a partir da sua análise pessoal. O sujeito mais propenso a ser um psicanalista bem sucedido é justamente aquele que partiu daí. Aquele sujeito que percebeu uma dor interna, uma dor psíquica, no âmbito emocional e a partir daí procurou uma psicoterapia. Este sujeito é um sujeito propenso a se tornar um bom psicanalista. Aquele que percebeu uma dor psíquica e procurou a psicanálise. Viu na psicanálise um sentido para isso. Dificilmente o sujeito vai conseguir oferecer alguma coisa da qual não se sentiu beneficiado por ela. Então, se o sujeito conseguiu encontrar na psicanálise um sentido para sua dor, muito provavelmente ele conseguirá oferecer isso para o outro, assim que se qualificar para tal. Um psicanalista bem sucedido é aquele que fundamentou a sua formação na sua análise pessoal. Impossível um psicanalista aplicar a psicanálise em qualquer outra pessoa, sem antes ter sido analisado. O que faz o sujeito se tornar um bom psicanalista é ter sido bem psicanalizado. Antes de procurar um instituto, antes de procurar um curso de formação, antes de procurar qualquer tipo de formação no nível intelectual, ou no nível do saber é importante que ele possa se qualificar emocional e afetivamente e isso só poderá acontecer através da sua análise pessoal. A partir daí ele começa a se preparar para receber o conhecimento teórico sobre a psicanálise. O grupo de estudo constante e não simplesmente um curso de formação será necessário para que ele possa se informar dentro dos conceitos, dentro das formulações, dentro dos elementos de psicanálise. Para que ele possa ir nomeando as experiências que ele viveu na sua análise pessoal e a partir daí, ir criando uma relação experiência conceito. Nomeação e experiência vivida. Concomitante com isso, a partir dos casos que ele foi recebendo, dos pacientes que ele foi atendendo, ele carece de um colega, psicanalista mais experiente, para que possa orientá-lo dentro das questões operacionais do processo psicoterapêutico. Questões de honorários de horários e outras questões operacionais é a experiência de supervisão passa a ser necessária. Só a partir deste tripé, do qual o Freud nos orienta lá em 1919, em SOBRE O ESTUDO DA PSICANALISE NAS UNIVERSIDADES, ele nos orienta sobre esse tripé da análise pessoal, da supervisão e do estudo teórico. Este estudo teórico, a saber, seria importante que fosse feito um grupo, porque a partir desse pensamento em grupo esse pensamento é além desta leitura individual, vai trazer para ele enriquecimento de outros olhares sobre aquilo que ele esteja estudando.
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