quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A CONSCIÊNCIA E O VÍNCULO

Antes de discorrer essas breves linhas sobre relacionamento amoroso, seria prudente alertar para o fato de que não existe aqui, qualquer tentativa de se romantizar experiências emocionais-afetivas, já que é possível reconhecer com grande clareza, a real dificuldade do ser humano, no que se refere a renúncia, que possa levar à cooperação, assim como a capacidade de se dedicar ao outro. Inclui-se nessa reflexão o reconhecimento do caráter narcisista, inato no humano.
É bem sabido por esse que aqui escreve, sobre a terrível índole do animal humano e que essa espécie não carrega a capacidade de amar como fator congênito em sua personalidade. Também é de nosso conhecimento o fato de que, se o animal humano não for muito bem nutrido de amor, não conseguirá desenvolver a capacidade de amar a si mesmo e muito menos amará o outro. Inclui-se aqui também, o fato de que toda a dedicação que se possa ter para com o outro é, antes de tudo, um favorecimento para si próprio.
Cada atitude que se tenha de caridade, cuidado e consideração, ao outro, corresponde em essência um crescimento nas esferas mais nobres naquele que se doa. Quando o sujeito se importa com o outro, o maior beneficiado é ele mesmo. No entanto, a dimensão que se expande, quando se dedica ao outro, está muito distante daquelas que se pode compreender por meio do intelecto.
De qualquer maneira, quando tratamos aqui da dedicação ao outro, não estamos nos referindo a atitudes doutrinadas, ou ainda, de tentativas de se fazer algo para conseguir aprovação. Tratamos aqui de certa consequência do desenvolvimento da maturação emocional e afetiva.
Não estamos propondo aqui ser generoso com o outro para que assim, possamos crescer emocionalmente, afetivamente e espiritualmente, mas justamente o contrário; quando evoluímos é que passamos a sermos capazes de renunciar do “eu”, para então, nos doarmos ao outro.
Amadurecemos afetivamente, quando somos capazes de trocar o “eu” pelo “nós”. Nos tornamos pessoas melhores conforme amadurecemos emocionalmente. Entretanto, não se amadurece por se escolher amadurecer. Ninguém decide, ou escolhe se tornar alguém melhor. Essa ordem de amadurecimento ocorre conforme a configuração do ambiente emocional possa favorecê-lo e isso parece estar diretamente ligado ao nível de consciência. O termo consciência, quando submetido às experiências emocionais e afetivas, parecem se aproximar muito de conceitos como os de compaixão e de amor. No entanto, imperiosamente dentro da possibilidade de se viver um amor verdadeiro, ou seja, o amor que esteja irrigado de sinceridade. Aquele amor que possa nutrir o outro sem que empobreça o eu. Aprender a amar parece ser a única forma de se expandir a real consciência. Por mais que possamos encontrar propostas de leitura de textos, exercícios mentais, experiências espirituais e até mesmo o uso de substâncias retiradas da natureza, ou ainda que sejam fabricadas em laboratório, que prometam a ampliação da capacidade de consciência, não me parece possível qualquer outra forma dessa ordem de expansão, que não seja realizada através de um vínculo afetivo saudável.
O acordo que se possa firmar com a realidade só pode ser realizado a partir do vínculo saudável. A vida se propaga através dos vínculos. É somente pelo vínculo que passa a ser possível nutrir o processo de reconhecimento, respeito e responsabilização quanto a realidade. Esse processo do acordo com a realidade deve ocorrer a partir da capacidade de amá-la apesar do desconforto que ela possa gerar no seu reconhecimento. A maior manifestação do acordo com a realidade é a compaixão. Somente a partir de um vínculo saudável que seja estabelecido com o outro, que se aprende a amar esta realidade, que existe independente das expectativas. Ora, é justamente a partir deste envolvimento com a realidade, que ocorre independente do que se gostaria que ela fosse, é que se vai ampliando a consciência. Não tratamos aqui simplesmente de se ter ciência dos fatos, naquilo que se pode saber, mas da consciência, naquilo que é possível compartilhar com o outro: a com – ciência. 



segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

IDENTIFICAÇÃO OU AFINIDADE

Dentre os fatores que propiciam a ligação e também são responsáveis por manter vínculos afetivos, dois deles carecem de atenção cuidadosa, já que correm o risco de serem confundidos e até mesmo tratados como unívocos. Popularmente, o termo identificação é frequentemente usado como um sinônimo de afinidade, no entanto, quando são submetidos a experiência afetiva é então possível reconhecer grande diferença entre os dois conceitos.

Dentro das formulações psicanalíticas, a ligação por identificação é a forma mais primitiva de relação com o outro além do eu. O conceito de identificação vem do idem, que quer dizer “o mesmo” e que também é a origem da palavra “idêntico”. Sigmund Freud (1856 - 1939) nos orientou sobre isso em 1921, no seu célebre texto PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANÁLISE DO EGO. "A identificação é conhecida pela psicanálise como sendo a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa." (Freud, 1921) Parece ser a única maneira que o bebê encontra para lidar com a quebra da ilusão de onipotência, na introdução da realidade de que existe alguém além dele. 

A ligação por identificação deve ser uma forma transitória de se relacionar com o outro, durante o período do desenvolvimento psíquico denominado narcisismo primário e que sucede o autoerotismo.  No autoerotismo, o bebê não é capaz de reconhecer a existência do outro, por mais que seja justamente o outro que provê e da manutenção à sua vida. Durante o período do autoerotismo, o bebê se auto satisfaz nas demandas libidinais, mesmo que seja através da mãe, da qual não é capaz de reconhecer como sendo outra pessoa. “Mostramos em outro ponto que a identificação é uma etapa preliminar da escolha objetal, que é a primeira forma - e uma forma expressa de maneira ambivalente - pela qual o ego escolhe um objeto.” (Freud, 1917) O narcisismo primário ocorre numa etapa que antecede a capacitação para a ligação objetal, que carece de maior tolerância às frustrações. Na ligação objetal é possível reconhecer o outro, efetivamente como sendo realmente outro, independente da expectativa do bebê. 

Em SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, Freud traz a proposta de que: "As pulsões autoeróticas, contudo, estão ali desde o início, sendo, portanto, necessário que algo seja adicionado ao autoerotismo – uma nova ação psíquica – a fim de provocar o narcisismo”. (Freud, 1914) Sendo assim, ao perceber com maior acuidade a presença da mãe, o autoerotismo vai se dissolvendo e dando lugar ao narcisismo primário, contudo, ainda reconhecendo o outro sem conseguir diferenciá-lo de si mesmo com tanta clareza. Aí se dá a ligação por identificação. Uma fase caótica, onde o ‘eu’ se confunde com o outro. Em conformidade com a semântica da palavra, essa é uma etapa do desenvolvimento emocional-afetivo que predomina a confusão. O termo confusão tem origem no latim, CONFUNDERE, “misturar”, formada por COM-, “junto”, mais FUNDERE, “derramar, fazer fluir”. Sendo assim, na ligação por identificação, o sujeito se mistura com o outro, onde uma personalidade tende a anular a outra, em detrimento da noção de limite.

Quando o sujeito, por algum motivo, é forçado a se afastar e ficar privado da presença sensorial do objeto do qual mantinha uma ligação por identificação, ocorre um quadro de empobrecimento da suposta autoestima, que se mantivera até então. Ocorre assim uma fragmentação na personalidade, que sem o objeto, não consegue se sustentar em sua integração. Isso acontece, pois o sujeito ainda não teve oportunidades favoráveis para que pudesse aprender a viver sem o objeto ora perdido. Em 1917, Freud denominou esse modelo de melancolia, que ocorre na impossibilidade de se viver o processo do luto. Esse estado mental ocorre quando não houve tempo e condições que propiciassem o desenvolvimento da relação por identificação para o modelo da ligação objetal. Nesse segundo modelo, existe maior capacidade para reconhecimento do outro em suas particularidades e maior desenvolvimento na autonomia do sujeito.

A partir das propostas de Freud, quanto à ligação por identificação, associada ao mecanismo de projeção, também proposto pelo pai da psicanálise, Melanie Klein (1882 - 1960), propõe, em seu texto NOTAS SOBRE ALGUNS MECANISMOS ESQUIZÓIDES, o mecanismo de identificação por projeção. Para Freud, com o mecanismo de defesa da projeção, busca-se a origem do desprazer, no mundo exterior, já que o sujeito não suporta reconhecer como próprio. “Uma percepção interna é suprimida e, ao invés, seu conteúdo, após sofrer certo tipo de deformação, ingressa na consciência sob a forma de percepção externa.”  (Freud, 1911) Freud propõe que a projeção é uma defesa de origem primitiva, peculiar dos casos de paranoia, porém, também está presente no funcionamento saudável, assim como ocorre com a ligação por identificação. A partir daí, Klein expande a ideia para desenvolver o conceito de identificação projetiva. “Consiste na fantasia primitiva de expulsão de substâncias perigosas do self para dentro da mãe.” (Klein, 1946)  

Junto com as evacuações, partes escindidas do ego são também projetadas na mãe ou, para dentro da mãe. Isso implica num empobrecimento do eu. 

No texto SOBRE A IDENTIFICAÇÃO, Klein expande sua proposta. "Identificação por projeção implica uma combinação de excisão de partes do self e da projeção dessas em (ou melhor, para dentro de) outra pessoa.” (Klein, 1955) Com isso, o outro adquire características do sujeito, potencializando a fusão. "O objeto torna-se em alguma medida um representante do ego e esses processos são, a meu ver, a base para a identificação por projeção ou 'identificação projetiva'." (Klein, 1952).

Enquanto que para Melanie Klein, a identificação projetiva incidi num mecanismo evacuatório defensivo, para Wilfred Bion (1897 – 1979) em APRENDENDO DA EXPERIÊNCIA, identificação projetiva é a forma mais primitiva de comunicação do bebê na relação com a mãe. Bion chamou de rêverie, uma característica da função-alfa da maternágem que deve dar conta de conter e transformar os conteúdos projetados pelo bebê. 

“Rêverie, usado nessa estrita acepção, é aquele estado de mente que está aberto à recepção de quaisquer “objetos” provenientes do objeto amado e que, portanto, é capaz de receber as identificações projetivas da criança, independentemente de a criança senti-las como boas ou más.” (Bion, 1962)

A mãe, quando continente, é capaz de rêverie, convertendo elementos-beta (caóticos, desordenados, desconectados) em elementos-alfa (digeríveis, integráveis, pensáveis) pela função-alfa. “Em suma, rêverie é um fator da função-alfa da mãe.” (Bion, 1962) Para a mãe, propiciar função-alfa para o bebê, ou ainda, para um psicoterapeuta se dispor a esse modelo com seus pacientes é provavelmente possível, no entanto, nas relações corriqueiras do cotidiano, entre adultos, passa a ser inviável. 

Hanna Segal (1918 - 2011), psicanalista seguidora de Melanie Klein, chama a atenção para a tentativa de controle ocorrente na experiência da fusão com o objeto. “Na identificação projetiva, partes do eu (self) e objetos internos são expelidos (split off) e projetados no objeto externo, o qual então, se torna possuído e controlado pelas partes projetadas, identificando-se com elas.” (Segal, 1964) Portanto, metaforicamente, nesse modelo de vínculo, é como se uma só alma habitasse dois corpos. Um prolongamento da configuração da fusão umbilical, ocorrente na vida intrauterina. 

Na incapacidade de elaborar o luto, fica impossibilitado o processo de simbolização do objeto perdido. Assim, predomina o que Hanna Segal chama de equação simbólica, onde o símbolo se iguala ao objeto original, que despertou a carga afetiva. O símbolo (interno) se confunde, equalizando-se com o objeto no nível sensorial (externo) e são percebidos idênticos a ele. A distinção entre o eu e o outro, fica obscurecida. “Então, já que uma parte do ego é confundida com o objeto, o símbolo – que é uma criação e função do ego – torna-se, por sua vez, confundido com o objeto que é simbolizado.” (Segal, 1983).

Mesmo na vida adulta, cada início de relação, com algo, ou alguém novo, estará, inevitavelmente, repleta de características de identificação. Nos aproximamos das pessoas e coisas do mundo, muito mais pelo que projetamos nelas, do que por características delas próprias. No entanto, para que se configure num vínculo saudável é imperioso que as características de identificação possam ir se dissolvendo, dando lugar para formas mais nobres e amadurecidas de relação. Quando a ligação por identificação se estende para além de uma configuração transitória, se instalando como fixação, passa então a manifestar características ambivalentes, gerando confusão, fusão com o outro, logo arma-se um ambiente de inveja, rivalidade e disputa. Portanto, aquilo que até então seria fator de ligação, torna-se em elemento de conflito.

Diferente da ligação por identificação, onde ocorre a equação simbólica, num vínculo por afinidade, ocorre o que poderíamos chamar de analogia simbólica, que abrange igualdades, mas também inclui diferenciações. Contudo, para que possa haver um vínculo por afinidade é necessário que se respeite o limite das partes. Assim como na semântica, a palavra afinidade vem do latim AFFINIS, “vizinho, contíguo”, de FINIS, “fronteira, limite, fim”. Para que haja afinidade é imperioso que as partes sejam capazes de reconhecer e respeitar seus limites, já que o limite é o que permite que duas coisas existam sem que uma anule a outra, numa fusão (confusão) com ela. 

Quando a ligação por identificação não está na ordem do transitório e se instala como fixação, não há possibilidade de crescimento, pois dois iguais não acrescentam nada. O ambiente de crescimento passa a existir quando, num clima de concórdia, as diferenças se perfazem, enriquecendo cada parte. Assim como o músico, quando afina as diferentes cordas do seu instrumento, colocando-as num acordo, mesmo cada uma soando notas diferentes, juntas promovem harmonia. Quanto maior for a fidedignidade de uma corda em relação sua própria nota, mais integrada ela estará com a outra, numa harmonização do todo. A saber, a palavra acordo vem do latim accordare, “estar em harmonia”, a junção ad, que significa “a, para”, mais cor, “coração”. Sendo assim, estar de acordo é, literalmente, dar ao coração. Tratamos de amor verdadeiro, que assim como na afinidade, inclui semelhanças, mas também abrange diferenças.

A partir da analogia da afinação do instrumento, passa ser possível nos aprofundarmos e expandirmos nas formulações religiosas, onde, no evangelho segundo Mateus, Jesus propõe: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o teu entendimento. Este é maior e o primeiro mandamento. O Segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os profetas dependem destes dois mandamentos.” (Mt. 22, 37-30). Ora, as cordas do instrumento devem manter um acordo, afinadas conforme certa tonalidade em comum, que assim, passa a manter a harmonia entre elas. 

Fica enriquecido o que quer que seja a realizado na relação por afinidade, assim como o próprio vínculo que se enriquece a cada realização. Num vínculo de afinidade, se mantém a identidade das partes, que assim podem se complementar, já que uma traz aquilo que não há na outra. Isso aponta para um modelo mais amadurecido de relação. No vínculo por afinidade não existe espaço para rivalidade, já que as diferenças evidentes nas partes se complementam, num modelo de casamento, que de forma profícua, tende a gerar o novo. 

Por outro vértice, o convívio em ambientes de vínculos pobres ou ausentes de afinidade, quando se estende por longos períodos, pode se tornar nocivo ao ponto de se adoecer no âmbito emocional. Quando se é submetido a coexistência por tempo prolongado num formato de vínculo que não exista afinidade, pode haver desgaste emocional e empobrecimento afetivo. Isso ocorre, pois nessa situação, o aparelho psíquico carece de muita energia para gerar defesas. Passa a haver grande demanda para alimentar o falso eu, que se ergue, tentando proteger o eu verdadeiro. O sujeito se vê obrigado a dissimular para evitar conflitos, já que, sem afinidade o ambiente de concórdia fica sempre ameaçado. A energia psíquica que, em uma situação favorável, poderia ser investida em realizações e no cultivo de vínculos saudáveis, fica então comprometida com defesas. Isso empobrece o funcionamento psíquico, desestrutura a possibilidade de um pensar profícuo e obstrui o funcionamento emocional e afetivo saudável.

BION, W. R. O APRENDER COM A EXPERIÊNCIA. 1962 - Rio de Janeiro: Imago, 1991.

FREUD, S. (1911). O CASO SCHREBER: NOTAS PSICANALÍTICAS SOBRE UM RELATO AUTOBIOGRÁFICO DE UM CASO DE PARANÓIA (dementia paranoides). Rio de Janeiro: Imago, 1998.

______. (1914). SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO. In Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

______. (1917). LUTO E MELANCOLIA. In Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

________. (1921). PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANÁLISE DO EGO. In Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

KLEIN, M. (1946). NOTAS SOBRE ALGUNS MECANISMOS ESQUIZÓIDES. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) / Melanie Klein: tradução da 4 ed. inglesa; Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores. — Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.

_______. (1955). SOBRE A IDENTIFICAÇÃO. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) / Melanie Klein: tradução da 4 ed. inglesa; Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores. — Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.

_______. (1952). ALGUMAS CONCLUSÕES TEÓRICAS RELATIVAS À VIDA EMOCIONAL DO BEBÊ. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) / Melanie Klein: tradução da 4 ed. inglesa; Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores. — Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.

SEGAL, H. (1964) INTRODUÇÃO À OBRA DE MELANIE KLEIN, Rio de Janeiro: Imago,1975.

_________. (1982). Notas a respeito da formação de símbolos. In H. Segal. A obra de Hanna Segal: uma abordagem kleiniana à prática clínica (E. Nick, trad.). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1957).




quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

SOBRE A DEISINTEGRAÇÃO

Dentre as inúmeras características presentes, parece-me que existe uma configuração unanime nos casos que chegam com demandas para psicoterapia. Me refiro a condição da desintegração psíquica. Independentemente do tipo da queixa, parece existir grande evidência de desintegração presente em todos os casos que a clínica psicanalítica recebe. Na verdade, essa é a origem do conflito que passa a gerar turbulência emocional no paciente psicoterapêutico.
Vale lembrar que, a tendência a desintegração está presente, numa certa cota, em todos nós, até mesmo no sujeito supostamente mais saudável emocionalmente. Essa cota tem a ver com o que Sigmund Freud (1856 - 1939) denominou pulsão de morte (1920), tendência que age no funcionamento mental, lado a lado com a pulsão de vida.
A pulsão de morte é marcada pela fragmentação do eu, assim como de tudo que é percebido, com a função de desvincular as partes. A pulsão de morte age na carência da pulsão de vida, que, por sua vez, tem função de ligação. 
Melanie Klein (1882 - 1960), expandindo para além de Freud, propõe a fragmentação como característica central da maneira primitiva do bebê funcionar, descrita por ela como posição esquizoparanóide (1930).
Esquizo, que significa dividido e paranoide, que quer dizer perseguidor. Esse funcionamento mental tem a função de separar aquilo que é prazeroso do que é desconfortável, mantendo um afastado do outro. Frente a situações intoleráveis, ocorre a fragmentação para evitar o sofrimento. Os fragmentos intoleráveis são lançados no objeto através de mecanismo descrito por Klein de identificação projetiva. “O ego ainda está muito pouco integrado e, portanto, passível de cindir a si próprio, suas emoções e seus objetos internos e externos; mas a cisão também é uma das defesas fundamentais contra a ansiedade persecutória.” (Klein, 1955)
Contudo, conforme o vínculo entre mãe bebê vai se desenvolvendo, a posição esquizoparanóide evolui para a posição depressiva, onde ocorre a integração do eu e também do objeto percebido. “Eu diria que, mesmo que a cisão e a projeção operem intensamente, a desintegração do ego nunca é completa, enquanto a vida existir.” (Klein, 1955) Em suas NOTAS SOBRE ALGUNS MECANISMOS ESQUIZÓIDES, Klein descreve a capacidade do bebê de suplantar a desintegração temporária devido a grande resiliência e capacidade de recuperação da mente da criança.
No fluxo do desenvolvimento saudável, a desintegração, experimentada pelo bebê é transitória. “A gratificação por parte do objeto bom externo, entre outros fatores, ajuda reiteradamente a transpor esses estados esquizoides.” (Klein, 1946) Nisso o amor da mãe é o maior recurso integrador para o bebê e acolhedor de ansiedades psicóticas. “Através dos processos alternantes de desintegração e integração, desenvolve-se gradualmente um ego mais integrado, com maior capacidade de lidar com a ansiedade persecutória.” (Klein, 1952)
Num sujeito em que a parte neurótica da mente esteja predominante, temos a desintegração ocorrendo através do mecanismo de repressão. A partir de partes reprimidas, por conta do impulso que foi rejeitado no mundo externo, ocorre uma divisão do eu. Nessa configuração, uma parte pressiona na direção do impulso e outra parte reprime essa tendência, criando assim, uma tensão conflituosa. “O desenvolvimento de conceitos fundamentais para a psicanálise, como é o caso da ideia de repressão, tem seu embasamento nessa ordem de incapacidades, geradoras de divisão do eu, que assim dividido passa a desenvolver sintomas para manter-se funcionando.” (Martino. 2018)
Já no sujeito que tenha a predominância do desligamento com a realidade, ocorre certa desintegração psicótica. Essa forma de fragmentação acontece por conta da cisão de partes da personalidade que são negadas no eu e então projetadas no outro. Por conta de o ego não poder contar com uma formação bem estruturada, o sujeito não consegue se utilizar do mecanismo de defesa da repressão. Isso ocorre por não ser capaz de tolerar a tensão gerada. Então, ele cinde, nega de si mesmo o que não tolerou e projeta num objeto do mundo externo que seja um possível continente de projeção. 
Seja ela no âmbito neurótico, em forma de repressão, ou no modelo psicótico, como cisão, a desintegração é sintoma de situações nocivas a vida.  Uma forma de defesa frente a um possível colapso no funcionamento emocional. Uma maneira de defender-se por conta de alguma configuração que não esteja funcionando de forma saudável. Além disso, toda forma de desintegração implica num empobrecimento no todo da personalidade, pois além de não poder contar com a energia da personalidade total, ainda ocorre uma inversão de energia, onde uma parte se volta contra a outra.
Provavelmente todo ser vivo reage a incitações nocivas com desintegração. A desintegração que ocorre no funcionamento mental do sujeito, também acontece no âmbito da sociedade, já que o grupo funciona analogamente ao funcionamento do indivíduo. Da mesma maneira, a fragmentação na configuração da sociedade também é um sinal de adoecimento. Jiddu Krishnamurti (1895 — 1986), nos alertou quanto a isso. "Isto é, a sociedade se está tornando sempre cristalizada, estática, e, por isso, desintegrando-se, constantemente.” (Krishnamurti. A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE, 1976). A sociedade está doente quando se divide por tom de pele, nacionalidade, gênero, orientação sexual... Ora, aquilo que ocorre no âmbito social, antes ocorreu na esfera emocional e afetivo. Aquele que desrespeita um negro, também desrespeita um branco, um pardo, um verde, ou qualquer que seja a cor. Isso ocorre, pois antes de tudo, não aprendeu a respeitar a si mesmo. Não pode haver mudança social sem transformação no ‘eu’.
“Por mais leis que se promulguem, e por mais sábias que elas sejam, a sociedade continua sempre no processo de decomposição, porque a revolução deve operar-se interiormente, e não, apenas, no exterior." (Krishnamurti, 1976).
Bem, quando tratamos de um sujeito que apresente desintegração psíquica, meios como o processo da psicoterapia são recursos por excelência para propiciar experiencias emocionais e afetivas que possam trazer grande chance de integração. No entanto, quando tratamos das massas, parece que não podemos contar com tanta esperança assim. A sociedade por si só, não é uma formação natural, já que o ser humano não tem um instinto agregador, logo já nasce conflituosa. Freud nos orientou de forma muito clara, em seu texto PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANÁLISE DO EGO, de 1921, quanto a ausência de um instinto gregário no ser humano. Freud exemplifica esse fato lembrando que, “O medo da criança, quando está sozinha, tampouco é apaziguado pela visão de qualquer fortuito ‘membro da grei’; pelo contrário, é criado pela aproximação de um ‘estranho’ desse tipo.” (Freud, 1921) Sendo assim, exceto e tão-somente com a chegada da vida adulta, não se vê tendências gregárias ou convergência aos grupos nas crianças.
O ser humano tem sua natureza narcisista, aprendendo arduamente a conviver em sociedade e o faz por conta de conveniências, em grande parte, a partir das falhas na estrutura da família.
Buscamos inutilmente na sociedade, aquilo que nos faltou no seio do lar.



BION, W. R. SOBRE ALUCINAÇÃO, in ESTUDOS PSICANALÍTICOS REVISADOS - SECOND THOUGHTS, tradução de Wellington M. de Melo Dantas. 3ª ed. revisada - Rio de Janeiro: Imago, Ed., 1994, originalmente publicado no International Journal of Psycho-Analysis, vai. 39, parte 5, 1958.
_________. (1961). EXPERIÊNCIAS COM GRUPOS. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
FREUD, S. (1996). ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER. In J. Strachey, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 18). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1920)
_______. PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANÁLISE DO EGO. In J. Strachey, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 18). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1921).
_______. O EGO E O ID. In J. Strachey, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 18). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1923)
MARTINO, Renato Dias. ACOLHIDA EM PSICOTERAPIA - 1. ed. - São José do Rio Preto: Vitrine Literária Editora, 2018.
KLEIN, M, (1930) A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO DE SÍMBOLOS NO DESENVOLVIMENTO DO EGO. In: ______ AMOR, CULPA E REPARAÇÃO. Rio de Janeiro: Imago, 1996. 
______. (1935/1996). UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGÊNESE DOS ESTADOS MANÍACO-DEPRESSIVOS. AMOR, CULPA E REPARAÇÃO e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago.
_______. (1946). A CISÃO EM CONEXÃO COM A PROJEÇÃO E A INTROJEÇÃO, em NOTAS SOBRE ALGUNS MECANISMOS ESQUIZÓIDES. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) / Melanie
Klein: tradução da 4 ed. inglesa; Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores. — Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991. 
_______. (1952). ALGUMAS CONCLUSÕES TEÓRICAS RELATIVAS À VIDA EMOCIONAL DO BEBÊ. In Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) / Melanie
Klein: tradução da 4 ed. inglesa; Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores. — Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991. 
_______. (1955/1991). SOBRE A IDENTIFICAÇÃO. Em Inveja e Gratidão e outros
trabalhos (pp.169-205). Rio de Janeiro: Imago.
KRISHNAMURTI. J. A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE, EDITORA CULTRIX, São Paulo.1976.




terça-feira, 8 de novembro de 2022

CONHECIMENTO, INTELIGÊNCIA E MATURIDADE

Conhecer algo é saber informações sobre isso que se acredita conhecer. Sendo assim, o conhecimento parece ser uma capacidade diretamente subordinada a memória. É um processo que reúne a captação sensorial do que se esteja conhecendo, o armazenamento dos dados reunidos sobre isso na memória e o posterior resgate dos dados armazenados, o que permite a repetição dessas informações. Ou seja, a captação do que está no passado, acreditando que servirá para algo que está no futuro. Sendo assim, tratamos de uma experiência acumulativa, logo, que está sujeita à saturação. O conhecimento não depende da inteligência, que, por sua vez, está dentro de outra esfera de capacidades. Além disso, aquele que consegue não atribuir emoções ou afetos a esses dados, tem maior capacidade de armazenamento e resgate do conhecimento. Esta capacidade está muito próxima do funcionamento do corpo físico. Parece que, naquele que tem maior capacidade de conhecimento, existe uma predisposição cerebral mais favorecida.

Já a inteligência diz respeito a saber relacionar entre si, as informações que se tem sobre algo. Parece estar ligada a capacidade de articular esses dados do conhecimento, estabelecendo conexões, coesões, assim como, atribuir alegorias e ilustrações, que irão formar um sistema dedutivo. No entanto, isso deve ocorrer restritamente dentro do nível teórico. A inteligência, que está subordinada a capacidade de conhecimento, não depende da saúde mental, nem da maturidade, ou ainda, da saúde emocional, ou afetiva. Assim como na capacidade de conhecimento, também aquele que consegue não associar emoções e afetos aos dados a serem articulados, parece ter maior êxito no que se refere a inteligência. Um sujeito inteligente é aquele que se mostra esperto, astuto, que age de maneira premeditada, tentando se antecipar as possibilidades e consequências das situações. 

O funcionamento emocional, parece estar ligado a capacidade de administrar o fluxo dos sentimentos e com isso, a possibilidade de contenção das emoções. “A palavra emoção aqui é entendida como indicando um movimento de dentro para fora, assim como indica a semântica. Do latim ex-, “fora”, mais movere, “mudar”.” (Martino, 2015) A saúde emocional tem como base a possibilidade de acolher-se a si próprio, respeitando seus próprios limites, propiciando o acordo de suas emoções com suas ações. Não diz respeito a reprimir aquilo que se sente, mas perceber, reconhecer, respeitar e aprender a se responsabilizar por isso. O desenvolvimento da maturidade, da mesma forma, a manutenção da saúde, na esfera emocional, depende diretamente da capacidade de tolerar frustrações. É possível, até mesmo, afirmar que a maturidade emocional é aprender a perder. O nível de maturidade emocional está ligado a capacidade de pensar. A saúde no nível emocional permite pesar, ponderar, ou ainda refletir sobre sentimentos e emoções, que brotam do mundo interno, assim como, sobre as informações obtidas do mundo externo. 

O funcionamento no âmbito afetivo, assim como sugere o conceito, tem a ver com aquilo que afeta o sujeito. Portanto, para que possa se desenvolver a maturação do mesmo modo que a saúde afetiva é imperiosa a participação do outro. Se refere a capacidade de ligar-se e dar manutenção aos vínculos afetivos. Essa capacidade depende do desenvolvimento e saúde da maturidade emocional, onde, quanto maior o desenvolvimento da capacidade emocional, maior será o da capacidade afetiva e assim mutuamente. “O conceito de afeto que nos auxilia aqui se inicia pela sílaba a, na pre¬posição latina ad que quer dizer deslocamento para uma direção, seguida do verbo facere, ou ficere, que significa fazer.” (Martino, 2015) Alguém que possa se dispor a acolher o conteúdo caótico que brota do sujeito e devolver algo que possa dar um sentido a isso. No início da vida, esse trabalho é o exercício da maternagem, que por sua vez depende da função paterna para resguardar seu cumprimento bem sucedido. Quando alguém tem conhecimento sobre algo, diz-se que ele tem ciência do que conheceu, no entanto, quando ele é capaz de compartilhar esse conhecimento com o outro, passa a ter, então, consciência. Emoções, assim como os afetos são ligados, simbolicamente ao coração, já o conhecimento e a inteligência ao cérebro. Sendo assim, quanto menor for o envolvimento emocional e afetivo, maior será a autonomia da inteligência.

Depois dessas reflexões, se torna importante lembrar que toda articulação da inteligência é sempre limitada, já que só pode ser possível ter um conhecimento parcial daquilo que se imagina saber. Além disso, esse conhecimento parcial só pode abranger a realidade no âmbito material, onde se pode ter acesso pelo aparato sensorial. 


MARTINO, Renato Dias. O LIVRO DO DESAPEGO – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.








Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Escritor







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